sexta-feira, 26 de setembro de 2014


  DIA MUNDIAL DO TURISMO – 2013

ÁGUA: DOM E VALOR!
 

«Visitastes a terra e a resgastes, enchendo-a de fertilidade. As fontes do céu transbordam em água e fazeis brotar o trigo. Assim preparais a terra» (Sl. 65, 10).

 

   Ao celebrarmos o Dia Mundial do Turismo, neste ano de 2013, olhamos para a água, elemento fundamental da criação, como um dom e um valor. Dom que brota do ato criador, como princípio vital (cf. Gn. 1, 9. 20; cf. Sl. 65, 10); e que é oferecido ao homem para seu usufruto, como um valor que cuidadosamente deve administrar (cf. Gn. 1, 26; Sl. 8, 7. 9).

   Consciente da importância da água para a vida humana e toda a sua atividade, o Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes quis tomar, para esta celebração, o tema proposto pela Organização Mundial do Turismo: Turismo e água: proteger o nosso futuro comum, em conformidade, ainda, com a resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas que, no contexto da «Década Internacional para a Ação (2005 – 2015) – A água fonte de vida», defende que «a água é fundamental para o desenvolvimento sustentável, em particular para a integridade ambiental e a erradicação da pobreza e da fome, é indispensável para a saúde e o bem-estar do homem, e é fundamental para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio»[1].

   No intuito de compreendermos a importância deste elemento da natureza, sua simbologia e necessidade de, entre nós, o preservarmos, detenhamo-nos nas seguintes notas:

   1. As águas, nas chamadas cosmogonias aquáticas, particularmente orientais, simbolizam a «totalidade das virtualidades»; elas são «fons et origo» - fonte e origem; «a matriz de todas as possibilidades de existência»[2]. Precisamente porque simbolizam «a substância primordial de que nascem todas as formas»[3], estando presentes no princípio e no fim de todos os ciclos cósmicos, enquanto realidade germinativa e fonte de vida, em todos os planos da existência.[4]

   A água, um dos «mais importantes pressupostos da vida»[5], assume igualmente na simbologia bíblica o sentido de «felicidade», de «segurança» e de «vida», ainda que simultaneamente, pelas características de elemento que facilmente se esvai, a perceção da «transitoriedade» da própria existência humana.[6] Nesta simbólica bíblica, a água manifesta essencialmente a própria vida divina, que sobre nós se derrama, particularmente quando Deus é apresentado como «fonte de água viva» (Jer. 17, 13); imagem que ganha sentido pleno em Jesus Cristo, que Se afirma a si próprio como fonte dessa água (cf. Jo. 4, 10), capaz de se tornar, para os que n’Ele creem, uma fonte que jorra para a vida eterna (cf. Jo. 4, 14).[7] O texto do Antigo Testamento simbolizava já na água a plenitude do próprio reino de Deus, pois que assim como aquela, por onde passa, renova todas as coisas, também este Reino será definitivo, plenificando toda a criação (cf. Ez. 47, 1. 12). E, para o cristão, de modo particular, a água remete ainda para o dom do batismo, pois por ela fomos purificados, tornando-nos - unida ao dom do Espírito Santo - participantes da condição singular de filhos de Deus (cf. Rm. 6, 4 – 11).[8]

   Ora, quer nas cosmogonias referidas, quer na simbólica bíblica, a água é apresentada numa das suas características fundamentais – fonte de vida. Sem ela não há existência. Na verdade, ela é «fons et origo»[9], o que a torna tão preciosa, quanto essencial. Assim sendo, absolutamente necessária à vida de toda criação e, consequentemente, de todo o género humano. Sabemos, todavia, que a água é um recurso limitado e que, à escala global, nem todos têm igual acesso a este dom fundamental, particularmente quando as transformações climatéricas tendem a estender sobre boa parte do orbe terrestre um manto crescente de desertificação. Daí que se imponha, no que se refere ao acesso à água, o mesmo princípio fundamental, definido pelo Concílio Vaticano II, a propósito do destino universal dos bens: devem servir a todos os homens e povos, de modo que a todos cheguem equitativamente, segundo os princípios da justiça, que não podem separar-se da autêntica caridade (GS. 69). O que pressupõe, à medida que se consciencializa o limite dos recursos disponíveis, «a necessidade de interpretar os ritmos da natureza e de tê-los em conta na programação do desenvolvimento» (SRS. 26), como referia o Papa João Paulo II. Tanto mais que, no que se refere à água, este recurso incide diretamente sobre as condições de vida de cada pessoa e sobre as suas mais elementares capacidades económicas.

   O turismo, neste contexto alargado, deve favorecer o respeito pelo ambiente – a autêntica «preocupação ecológica» (SRS. 26) - no uso mais moderado dos recursos naturais e numa perspetiva de solidariedade com todas as culturas locais.[10]
 

2. A água é um valor singular para toda a atividade turística, direta e indiretamente. O recurso a este elemento natural está presente nas atividades de lazer: na procura das estâncias balneares ou de recreio aquático; no turismo de natureza; e no turismo de saúde, concretamente com as clássicas ou novas modalidades de termalismo e SPA. O consumo dos recursos hídricos aumenta ainda com o número de turistas, seja na restauração ou nos espaços de alojamento. Acrescendo, igualmente, a sua utilização como meio de embelezamento e de arranjo urbanístico, em espaços públicos. Não deixando, ainda, de se considerar a indispensabilidade da água na manutenção e gestão de espaços de recreio e desporto, entre os quais sobressai a prática do golfe. Estas e outras necessidades configuram uma forte utilização dos recursos existentes, nem sempre consciente das suas implicações face aos recursos realmente disponíveis.

   Portugal, felizmente, é um país dotado de uma grande diversidade de recursos hídricos: seja na costa atlântica que o percorre a ocidente e a sul; seja na multiplicidade de rios, ribeiros e riachos que serpenteiam a nossa paisagem natural; nas múltiplas fontes que jorram em espaços naturais; ou nas diversas unidades aquíferas, que permitem a utilização das suas águas em atividades correntes ou em contexto de termalismo e saúde. Portugal dispõe ainda de uma boa quantidade de aquíferos que permitem a captação e comercialização da água, em larga escala, enquanto recurso económico.

   Não obstante, algumas zonas do país, particularmente nos períodos de menor precipitação, sofrem já a carestia deste bem essencial, quer para o consumo doméstico, quer para as atividades económicas do setor primário, com destaque para a agricultura e a pecuária. Isto verifica-se, particularmente, em zonas tendencialmente mais secas, como o Alentejo ou algumas zonas do Nordeste Transmontano. Sabendo-se ainda que, com as alterações climáticas, Portugal sofre, e virá a sofrer no futuro, um processo de diminuição de recursos hídricos, por via do aquecimento global, a que se somam igualmente os dramáticos incêndios, em cada verão, aliados à tendência para a monocultura do pinheiro bravo e do eucalipto - cujo efeito de retirada de água dos solos é bem conhecido - em detrimento de uma reflorestação assente na diversificação das espécies florestais, com recurso especial às espécies endógenas de cada região. Por tudo isto, necessitamos de uma especial atenção à gestão dos recursos hídricos verdadeiramente disponíveis e a uma gestão sustentável que assegure a sua viabilidade futura.


3. Neste Dia Mundial do Turismo, com o enfoque na atenção à água, como meio de proteger o nosso futuro comum[11], algumas atitudes nos são exigidas, seja no uso racional imediato deste bem indispensável, seja numa perspetiva de gestão dos recursos existentes, a fim de se assegurar a sua sustentabilidade futura. Assim, devemos, desde logo e em primeiro lugar, formar as novas gerações para o uso correto da água, consciencializando-as para a sua importância, numa séria e autêntica formação ambiental. Depois, cabe-nos valorizar todos os recursos hídricos existentes, usando-os com moderação e cuidando deles, da sua qualidade e salubridade. Neste sentido, impõe-se-nos um particular cuidado com todas as formas de poluição; com o uso indevido dos cursos de água e seu esbanjamento desnecessário; com o derrame de efluentes de origem industrial, ou mesmo de pequenas explorações agrícolas ou pecuárias, e respetiva contaminação de cursos de água que servem as populações; ou ainda um particular cuidado na conservação de aquíferos que possam servir de autênticos reservatórios para as necessidades futuras.

   De igual modo, o tratamento de esgotos e efluentes - felizmente uma prática mais comum nos vários municípios - permite a reutilização da água, particularmente para irrigação de jardins e espaços de cultivo, ou mesmo para descargas sanitárias. O mesmo se podendo aplicar à utilização das águas pluviais. Na verdade, o princípio tão difundido da reutilização bem se pode aplicar à água, recurso natural de primeira necessidade que devemos cuidar. Nesta perspetiva, ainda, a reutilização é possível, em sistemas de circularidade, quando a água é utilizada em contexto de arranjos urbanístico e de embelezamento de alguns espaços públicos.

   Cada vez mais, hoje, se utilizam dispositivos de controlo do consumo de água, passiveis de serem aplicados em contextos tão diversos como a hotelaria, a restauração e outros espaços de particular serviço à prática do turismo. Estes sistemas têm a vantagem de racionar o consumo de água, sem deixar de servir convenientemente os turistas ou visitantes.

   Especial atenção nos merece o mar, fonte de tantas possibilidades, na diversidade de recursos que coloca ao nosso alcance. Desde logo, a preservação das suas águas e dos seus ecossistemas marinhos deve ser preocupação cimeira, de autoridades e de turistas. Depois, o mar permite-nos o aproveitamento das suas águas, seja nos diversos contextos de recreio e balneares, seja em atividades de saúde, como os centros de talassoterapia, hoje cada vez mais divulgados.

   Particular cuidado nos deve merecer a floresta e as modalidades de reflorestação. A utilização de diversidade de espécies - com especial utilização das endógenas de cada região – é um bem que teremos de salvaguardar: para evitar fenómenos de desertificação e incrementar uma maior diversidade florestal, de que o turismo tanto pode beneficiar. É evidente que na atual gestão da floresta se sobrepõe um interesse económico imediato, com o recurso a manchas contínuas de espécies únicas e de crescimento mais rápido, a uma diversidade que enriqueça os solos, a paisagem, a própria preservação da floresta e, por consequência, o turismo. Portugal é um país verde; e muito terá a beneficiar desta diversidade.

   Sem pretender esgotar princípios e orientações de caracter técnico, que outros conhecerão em maior profundidade, cabe-nos aqui consciencializar para as múltiplas possibilidades ao nosso alcance na gestão dos recursos naturais e, em particular, dos recursos hídricos. O turismo será sempre responsável e beneficiário das medidas que possam ser tomadas no sentido de salvaguardar tais recursos. Da sua boa gestão e sustentabilidade dependerá, igualmente, a sustentabilidade da oferta turística.

   O turismo depende dos recursos hídricos e da sua qualidade. Valorizá-los é um ato de inteligência e de viabilidade futura. Por outro lado, o turismo faculta-nos a oportunidade de cuidar da nossa casa comum, de que depende, e de louvar, como o profeta, ao Deus Criador, que permanentemente nos oferece os Seus múltiplos dons, deixando brotar do íntimo do coração o louvor incessante: «todas as águas…bendizei o Senhor: louvai-O e exaltai-O para sempre» (Dn. 3, 60).

     
Luso, 25 de Setembro de 2013

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho

Diretor da Obra Nacional da Pastoral do Turismo (ONPT)

 



[1] Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes – Mensagem por ocasião do Dia Mundial do Turismo 2013: Turismo e água: proteger o nosso futuro comum. Cidade do Vaticano, 24 de Junho de 2013.
[2] Mircea Eliade – Tratado de História das Religiões. 1ª Ed. Porto: Edições Asa, 1992, p. 243.
[3] Ibidem, p. 243.
[4] Cf. Ibidem, p. 246.
[5] Voc. Água in AA.VV. – Dicionário Bíblico. Porto: Editorial Perpétuo Socorro, 1983, p. 16.
[6] Ibidem, p. 16. Cf. Carlos Alberto da Graça Godinho – Perspetivas para uma Pastoral das Termas. Ferragudo, 2010, p. 2.
[7] Cf. Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes – Mensagem por ocasião do Dia Mundial do Turismo 2013. Op. cit.
[8] Cf. Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes – Turismo e água: proteger o nosso futuro comum, op. cit.
[9] Vide nota nº 2.
[10] Cf. PAPA JOÃO PAULO II – Mensagem do Santo Padre para o Dia Mundial do Turismo 2002: Ecoturismo, chave do desenvolvimento sustentável. Vaticano, 24 de Junho de 2002, nº 3. Cf. Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes – Turismo e água: proteger o nosso futuro comum, op. cit.
[11] Cf. Organização Mundial do Turismo – Turismo e água: proteger o nosso futuro. In Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes – Mensagem por ocasião do Dia Mundial do Turismo 2013, op. cit.

sábado, 3 de novembro de 2012

Mensagem - Dia Mundial do Turismo 2012


TURISMO E SUSTENTABILIDADE ENERGÉTICA

“Deus viu o que tinha feito: e era tudo muito bom” (Gn. 1, 31)


   O Conselho Pontifício para Pastoral dos Migrantes e Itinerantes propôs, para o Dia Mundial do Turismo, que se celebra no próximo dia 27, do corrente mês, a mensagem Turismo e sustentabilidade energética: propulsores do desenvolvimento sustentável. Fê-lo em sintonia com a Organização Mundial do Turismo, que definiu este ano como o Ano Internacional da Energia Sustentável para todos, devidamente promulgado pelas Nações Unidas. É muito oportuna esta reflexão, com os objectivos que se visam alcançar. E se é uma proposta de âmbito global, não deixará de ser muito válida para o contexto português. Detenhamo-nos, pois, sobre esta temática, para partilharmos algumas reflexões que entendemos dever considerar.


1. Numa perspectiva pastoral, mas que ilumina toda a responsabilidade social, política e económica, havemos de partir da consciência de que a criação é um dom – uma dádiva de Deus ao homem, «como seu ambiente de vida» (CV. 48), que este tem de cuidar, como seu administrador, não podendo usá-la segundo os seus interesses mais imediatos, pondo em causa o equilíbrio e sustentabilidade dos bens que lhe são confiados. De resto, o domínio da criação, que Deus confia ao homem, para a dominar (cf. Gn. 1, 28), pressupõe um acto de verdadeira responsabilidade, no respeito pela própria natureza, por si mesmo – corolário da própria criação, a quem ela se destina -, e por todos os seus semelhantes. O respeito pela criação tem de pressupor a compreensão do justo uso dos recursos naturais, da salvaguarda do serviço à pessoa e de uma verdadeira prossecução do bem comum.[1]

   Ora, um dos graves flagelos com que hoje nos confrontamos – talvez o maior e menos consciente – é precisamente o desrespeito pela natureza, pelas suas possibilidades e limites, pondo em causa o equilíbrio da nossa casa comum, com os seus consequentes resultados para a justa satisfação das necessidades de cada pessoa e para a prossecução da justa distribuição dos próprios recursos a favor de todos (cf. GS. 69). Que dizer das alterações climáticas que se agudizam, ou das persistentes secas que, tão profundamente, vão afectando diversos povos, já de si provados com a falta dos meios necessários à sua subsistência básica? E que dizer da injusta distribuição de bens, com a exploração de recursos usufruídos por alguns, em detrimento da grande maioria dos nossos irmãos?

   Se estas questões se colocam ao nível do usufruto dos bens, na sua globalidade, colocam-se igualmente ao nível dos recursos energéticos, propulsores incontornáveis do desenvolvimento económico e social de cada região e de cada país. Mas estes recursos são igualmente limitados, exigindo uma séria responsabilidade no seu uso e preservação, necessitando, igualmente, do fomento de novas formas de produção energética, garantindo a viabilidade económica de todos, com a consequente equidade na sua justa distribuição e no respeito pelo equilíbrio natural.


2. O turismo, pela sua própria natureza, beneficia dos recursos ambientais e energéticos e é responsável pela sua preservação.

  Se, por um lado, o turismo só é viável, a médio e a longo prazo, com recurso a soluções ambientais e energéticas sustentáveis, beneficiando delas; por outro, pode ser também responsável pela deterioração das condições de habitabilidade do nosso planeta e da própria viabilidade da acção turística, concretamente «com o consumo desmesurado dos recursos energéticos, o aumento de agentes poluentes e a produção de resíduos»[2]. E estes factores agudizam-se tanto mais quanto o fenómeno turístico é uma realidade em profunda expansão, em todo o mundo.

   Assim sendo, e atendendo à expressão do Pontifício Conselho referido, também neste âmbito «é necessária a ética da responsabilidade e da prudência»[3], para que o turismo seja uma actividade viável, no mais estrito respeito pela natureza, contribuindo para soluções ambientais e energéticas sustentáveis, «favorecendo comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias necessidades de energia e melhorando as suas condições de utilização»[4]. Mais ainda: o turismo pode, e deve, estar ao serviço de iniciativas energeticamente sustentáveis e de menor impacto ambiental. Também delas depende o seu próprio desenvolvimento sustentado.


3. Em Portugal, destino turístico por excelência, estes cuidados devem ser redobrados, preservando o ambiente natural e tirando partido das imensas possibilidades das nossas condições naturais para a implementação de fontes energéticas renováveis.

   Apraz-nos registar, como francamente positivo, o cuidado na implementação de medidas que promovem o aproveitamento energético dessas mesmas condições naturais – o investimento na energia eólica, na energia solar e mesmo – apesar de mais modesta – a nossa consciência das possibilidades naturais oferecidas pelo mar, na imensa costa atlântica, que banha o país.

  Este investimento em energias renováveis, que urge continuar a desenvolver, deverão colocar-se também ao serviço do fenómeno turístico em Portugal, incentivando os agentes turísticos a usá-las numa maior escala, promovendo-se um turismo equilibrado, em que se fundem desenvolvimento económico e sustentabilidade energética.

   Um esforço redobrado é ainda exigido a todos no sentido de se evitar o excesso de poluição e de produção de resíduos. Neste âmbito, é ainda urgente, entre nós, a formação de todos, com destaque para as várias instâncias de formação cívica, no sentido de se fazer o necessário tratamento de resíduos, seja pelo recurso à reciclagem, seja no respeito pelos espaços públicos. O correcto uso das estâncias turísticas – que deverão estar dotadas dos meios necessários a esta acção – poderá contribuir para a economia de recursos materiais e, consequentemente, de recursos energéticos.

   Num país verde, como Portugal, infelizmente tão flagelado pelos incêndios florestais, é urgente uma nova política para a floresta e para a reflorestação. Não temos dúvida de que, a par da nossa costa atlântica, a floresta é um dos elementos mais atractivos para o desenvolvimento do turismo em Portugal. Um redobrado cuidado na reflorestação e na preservação das nossas florestas contribui para um desenvolvimento da nossa economia global, mas igualmente para o seu desenvolvimento por via do turismo. Com a possibilidade, inclusive, de se aproveitarem recursos energéticos facultados por estas condições naturais.

   Indicados três aspectos a cuidar, estamos conscientes de que muitos outros poderão e deverão ser colocados ao serviço da sustentabilidade turística em Portugal, aliada a uma sustentabilidade ambiental e energética, nesta aliança preciosa entre desenvolvimento económico, cultural e social e promoção das condições de viabilidade da sua realização, de que a sustentabilidade energética é um factor imprescindível.


   A concluir, diríamos que necessitamos de aprofundar urgentemente a nossa responsabilidade pessoal e social, no respeito pela natureza e no incremento de novas possibilidades de convívio do homem com a criação. A sustentabilidade energética é apenas uma dimensão deste equilíbrio. Mas fundamental, pois as fontes energéticas a que recorremos mais frequentemente não são inesgotáveis, bem como amiúde em conflito com o equilíbrio ambiental. No momento presente, urge aliar as possibilidades de que dispomos a uma contínua criatividade neste diálogo entre o homem e a criação. Conscientes de que o aprofundamento de tal diálogo beneficia o próprio homem – pessoal e colectivamente –, permitindo-lhe legar às gerações vindouras um património singular, que lhe foi confiado para que dele cuidasse. De resto, como afirma o Papa Bento XVI, «a natureza é expressão de um desígnio de amor e verdade», que o homem está chamado a «guardar e a cultivar» (CV. 48). Sendo um dom, a criação é, para nós, uma tarefa. Em cujo esplendor podemos reconhecer o rosto do Criador.

   As novas formas de sustentabilidade energética inscrevem-se exactamente aqui: ao cuidarmos deste imperativo económico e social podemos aliar-nos à criação que nos foi dada amorosamente e repetirmos com o próprio Criador - «Deus viu o que tinha feito: e era tudo muito bom» (Gn. 1, 31).

 

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho
Director da ONPT


 

 

 



[1] Cf. PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PASTORAL DOS MIGRANTES E ITINERANTES – Mensagem por ocasião da Jornada Mundial do Turismo 2012: Turismo e sustentabilidade energética: propulsores do desenvolvimento sustentável. Cidade do Vaticano, 16 de Julho de 2012.
[2] CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A PASTORAL DOS MIGRANTES E ITINERANTES – Mensagem por ocasião da Jornada Mundial da do Turismo 2012 - Turismo e sustentabilidade energética.
[3] Ibidem.
[4] Ibidem.

Turismo e Acção Pastoral


TURISMO:
UM DESAFIO À AÇÃO PASTORAL!


O Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. (Lc. 10, 1)

 

Rev.mo Senhor
Irmãos e Amigos

 

   Por ocasião da constituição da Obra Nacional da Pastoral do Turismo (ONPT), iniciativa da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana (CEPSMH), sinto ser importante refletir, com todos vós, a urgência do serviço pastoral no turismo, bem como propor algumas indicações práticas em ordem a essa mesma ação pastoral. Ela é tanto mais urgente quanto mais reconhecermos a importância do turismo para as sociedades hodiernas, em que Portugal não é exceção.

1. A realidade do Turismo

   O turismo é uma das atividades humanas em maior expansão em todo o mundo, com um crescente número de pessoas em mobilidade e com resultados económicos cada vez mais significativos para cada país visitado. Se é certo que este fenómeno – que tem a sua fase embrionária nos sécs. XVIII e XIX[1] – se afirma essencialmente no pós Primeira Guerra Mundial[2], assume a partir da segunda metade do séc. XX, particularmente depois da década de sessenta, uma expressão inaudita, cuja tendência o séc. XXI vem acentuar. Se atendermos à linha evolutiva do número de turistas em todo o mundo, no período que se situa entre os anos de 1995 e 2011, veremos que este, numa contínua evolução, passou dos 528 milhões para os 980 milhões[3], numa cifra que nos coloca tangencialmente no limite dos mil milhões de pessoas em movimento devido a esta atividade humana.

   Portugal, um destino turístico por excelência, regista uma trajetória semelhante. Se no ano de 1995 o nosso país registou um número global de turistas que se cifrava em aproximadamente dez milhões[4], no ano de 2011 esse número cresceu para os catorze milhões, sendo que mais de metade (53%) eram estrangeiros, registando estes um número de quase sete milhões e meio.[5] Aliás, num estudo comparativo, o número de turistas, em Portugal, passou, em 1984, dos cerca de quatro milhões, para aproximadamente doze milhões em 1999[6], cifrando-se agora, como indicado, nos catorze milhões.

   Esta realidade não pode, de modo algum, ser estranha à Igreja, chamada a iluminar toda a ação dos homens com a Palavra do Evangelho. Aliás, o turismo constitui-se, hoje, como um verdadeiro sinal dos tempos, que urge interpretar à luz da Palavra de Deus, para responder às inquietações de cada homem, no sentido de os ajudar a discernir o sentido da vida presente e da vida futura (cf. GS. 4), promovendo, de igual sorte, o bem comum de toda a família humana (cf. GS. 26,) cuja finalidade o turismo deve alcançar.


2. O Turismo no Magistério da Igreja


   O magistério da Igreja tem prestado uma particular atenção ao turismo, em sintonia com o desenvolvimento deste setor da ação humana, a nível mundial. Se o Concílio Vaticano II afirmava já a necessidade de «promover métodos pastorais convenientes, para proporcionar a assistência religiosa àqueles que se deslocam por algum tempo a outras regiões para passar férias» (CD. 18), um forte incremento tem sido dado à pastoral do turismo, no período subsequente, para que responda, de forma capaz, a esta dimensão crescente do agir humano. Podemos sintetizar em quatro vetores fundamentais os conteúdos propostos pela Igreja para este setor da ação pastoral: anúncio da Palava de Deus e celebração da fé; defesa e desenvolvimento do respeito pela dignidade da pessoa humana; promoção do bem comum; participação na tarefa da nova evangelização. Estes vetores são essencialmente enquadrados por dois princípios - anúncio da Palavra de Deus e atenção ao turismo segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja.

  Tais conteúdos têm estado presentes na multiplicidade de documentos emanados da Santa Sé, sejam eles diretórios, mensagens, ou simplesmente estudos. Destacam-se, pela sua incontornável importância para a pastoral do turismo, o Diretório Peregrinans in Terra, da Congregação para o Clero, datado de 30 de Abril de 1969, que afirmava já a necessidade de «ordenar, animar e renovar a pastoral do turismo em todas as nações» (PT. Cap. II, nº 2); logo secundado pelas Orientações para a Pastoral do Turismo, documento do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, datado de 29 de Junho de 2001. Este último documento, retomando as intuições da Igreja face ao fenómeno crescente do turismo, propõe-nos um conjunto de orientações pastorais, em vários âmbitos, que nos servem de guia para ação pastoral, nomeadamente em Portugal, com a criação da Obra Nacional da Pastoral do Turismo.

   Mas de singular importância têm sido, igualmente, as diversas mensagens e alocuções dos últimos Pontífices, especialmente a propósito do Dia Mundial do Turismo. A promoção de um turismo ético e responsável; que favoreça o encontro de pessoas e de culturas; num desenvolvimento harmonioso das sociedades, promovendo a luta contra a pobreza e o desemprego; bem como a defesa do meio ambiente e da biodiversidade; são alguns dos aspetos que podemos colher destas mensagens.

   Em Portugal, a preocupação face ao turismo esteve sempre presente no âmbito da ação da Conferência Episcopal Portuguesa, particularmente com a Comissão Episcopal da Mobilidade Humana, atualmente da Pastoral Social e Mobilidade Humana, que chegou mesmo a chamar-se, no período que medeia ente 1972 e 2005, Comissão Episcopal das Migrações e Turismo[7]. A urgência de responder a esta realidade humana e na senda da exortação do Papa Bento XVI, que nos adverte no sentido de que «a pastoral do turismo faça parte, de pleno direito, da pastoral orgânica e ordinária da Igreja»[8], levou, na hora presente, à criação da Obra Nacional da Pastoral do Turismo.

   E é assim que este novo serviço, seguindo as orientações da Igreja, define como objetivos globais da sua ação: iluminar a realidade humana do turismo com a Palavra de Deus; e promover o respeito pela dignidade da pessoa humana e a procura do bem comum, expressos pela Doutrina Social da Igreja, em toda a atividade turística. Objetivos gerais que se desdobram, depois, num conjunto mais vasto de objetivos específicos, orientadores desta ação pastoral.

   Releve-se, ainda, que neste serviço, que nos é pedido,  nos move também uma séria antropologia, que proporcione uma visão integral da pessoa humana – nas suas dimensões física, psíquica, afetiva, cognitiva, social, mas igualmente espiritual. Bem como uma visão da pessoa enquanto centro e vértice de todo o agir humano, para quem tudo se orienta (cf. GS. 12). Conscientes, ainda, de que a plenitude do homem se encontra em Cristo, em cujo mistério de «Verbo Encarnado» todo o mistério da vida humana se esclarece (cf. GS.22). Assumimos a tarefa que nos é confiada, igualmente conscientes das possibilidades da pastoral do turismo na perspetiva da nova evangelização, fazendo nossa a expressão bíblica: «enviou-os dois a dois, à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir» (Lc. 10, 1).


3. Algumas sugestões de ação para as comunidades de acolhimento

 
   O Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes, no documento acima referido – Orientações para a Pastoral do Turismo – deixa algumas orientações práticas para a implementação da pastoral do turismo, nos vários âmbitos da vida da Igreja. Deixamos aqui algumas indicações concretas, especialmente para as paróquias, de modo a que a ação pastoral pretendida possa ser implementada, como verdadeiro serviço a quem nos visita. Assim, propõem-se os seguintes aspetos, lodo depois do acolhimento, que é o dever primeiro[9]:

 

1.       Desenvolver uma catequese sobre o tempo livre e o turismo, quando o aconselha a realidade do lugar, quer para os cristãos residentes, quer para os turistas.

2.       Encorajar e promover ações de apoio e prevenção a favor de grupos que possam ser vítimas de uma promoção errada do turismo ou do comportamento dos turistas.

3.       Promover, acolher e estimular a ação dos grupos de apostolado dedicados em particular às pessoas que vivem e trabalham no setor do turismo, mesmo quando estas realidades não se encontrem na própria paróquia.

4.       Constituir um grupo permanente de leigos para estudar e propor ações pastorais a promover no campo do turismo.

5.       Adequar os serviços às necessidades dos turistas, nos lugares de intensa presença turística, de modo a facilitar o contacto pessoal, a celebração da fé, a oração individual, o testemunho da caridade.

6.       Criar serviços específicos para os trabalhadores do turismo, segundo os seus horários e as condições de trabalho.

7.       Propor medidas adequadas para que os visitantes possam participar nas celebrações eucarísticas na própria língua ou com outras expressões da própria cultura, dentro do respeito das disposições litúrgicas em vigor.

8.       Manter oportunamente atualizada a informação sobre os serviços paroquiais e preocupar-se para que os turistas a possam consultar nos seus hotéis, em lugares de informação ou através de outros meios de difusão.

 
   Certo que este será um serviço que todos abraçaremos com a maior alegria e empenho, invoco de Deus, para esta ação, as Suas maiores bênçãos.
 

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho
Diretor da Obra Nacional da Pastoral do Turismo



[1] Cf. BRITO, Sérgio Palma – Turismo: os últimos 90 anos dos primeiros milénios. In AA.VVV. – Com os Olhos no Futuro. Reflexões sobre o Turismo em Portugal. Lisboa: Edição promovida pelo Conselho Sectorial do Turismo e cofinanciado pela União Europeia, 2002, p. 124.
[2] Cf. Ibidem, p. 124.
[3] Cf. Organização Mundial do Turismo. [Cons. 11 de Julho de 2012]. Disponível em: http://www2.unwto.org/en
[4] Cf. ALEXANDRE, José Alberto Afonso – O Turismo em Portugal. Evolução e distribuição. Aveiro: Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro, 2001, p. 41. Disponível em: http://pt.scribed.com/doc/6062616/O-Turismo-em-Portugal
[5] Cf. «Estatísticas» in Turismo de Portugal. [Cons. 11 de Julho de 2012]. Disponível em: http://www.turismodeportugal.pt
[6] Cf. ALEXANDRE, José Alberto Afonso – op. cit., p. 41.
[7] Cf. TRINDADE, Maria Beatriz Rocha e QUARESMA, Eugénia T. J. Costa – A Igreja face ao fenómeno Migratório. [s. l.]: Planeta da Escrita, 2012. (Edição comemorativa dos 50 anos da Obra Católica Portuguesa das Migrações).
[8] PAPA BENTO XVI - Mensagem por ocasião do VII Congresso Mundial da Pastoral do Turismo. Cancún, 23 – 27 de Abril de 2012.
[9] PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PASTORAL DOS MIGRANTES E ITINERANTES – Orientamenti per la Pastorale del Turismo. Vaticano, 20 de Junho de 2001, p. 20 (Trad. de D. Manuel Neto Quintas).