sábado, 14 de janeiro de 2017

Homilia - Celebração das Bodas de Prata de Missa Nova


CELEBRAÇÃO DAS BODAS DE PRATA PRESBITERAIS

Águas Belas – 29.12.2016
 

   Caros Padres, irmãos no sacerdócio ministerial
   Caros Irmãos e Irmãs

   Há vinte e cinco anos atrás, neste mesmo dia do ano, após ter recebido a graça da ordenação presbiteral, na Catedral de Coimbra, pelas mãos do Senhor D. João Alves, de feliz memória, regressava a esta paróquia natal para celebrar a minha Missa Nova. Era, então, Festa da Sagrada Família, o domingo da oitava de Natal.

   Vinte e cinco anos depois regresso, para convosco e aos pés de Maria, a Senhora da Graça, que tantas vezes aqui invoquei, dar graças a Deus pelo dom do presbiterado; dom que o Senhor me concedeu a favor da Sua Igreja.

   O ministério do presbítero, a quem comummente denominamos simplesmente como padre, radica numa especial configuração com Cristo, pois, mediante o Sacramento da Ordem, aquele que o recebe, «por meio da unção do Espírito Santo», fica marcado com um caráter especial que o configura com Cristo-Sacerdote, a fim de poder «agir em nome de Cristo-Cabeça», participando daquela autoridade com que «o próprio Cristo edifica, santifica e governa o Seu Corpo» (PO. 2).

   Ora, celebrar vinte e cinco anos de ministério sacerdotal, motivo de alegria e de comunhão convosco, há-de ser, prioritariamente, um grande momento de louvor ao Senhor pelo dom da Sua graça! Sim; pois sem mérito algum da minha parte, foi o Senhor quem, nestas paragens, me olhou, me chamou, para depois me consagrar e enviar às comunidades cristãs que servi e atualmente sirvo, fortalecendo-me sempre com os dons da sua graça. Mistério de amor que suplanta as minhas capacidades humanas, dom absoluto de Deus, que suprindo todos os meus limites, continua a realizar, através dos meus gestos e das minhas palavras, a missão que, sendo sua, continua a confiar-me. Missão esta que acolho na simplicidade e na humildade e para a qual invoco permanentemente a força do Seu Espírito, para que também eu, como o apóstolo, no meio das dificuldades e limites, possa ouvir da boca do Senhor: «Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a minha força se revela totalmente» (2Cor. 12, 9).

   O espírito desta celebração, em que agradecemos o ministério e, nela, o mistério do amor de Deus a favor da Sua Igreja, necessita de ser permanentemente aprofundado: por mim, para que possa renovar permanentemente a minha configuração com Cristo, Bom Pastor; e por cada um de nós, para que nesta comunidade cristã surjam novas vocações sacerdotais para o serviço da Igreja, em total disponibilidade, de modo a que, com o seu contributo indispensável, em comunhão com o bispo diocesano e seu presbitério, contribuam para a «edificação do corpo de Cristo» em cada comunidade paroquial, onde tornem visível a Igreja Universal (cf. LG. 28), congregando-as em família de Deus, na fraternidade que tende para a unidade, conduzindo-as por Cristo e no Espirito até Deus Pai (cf. LG. 28).

   Ao celebrar vinte e cinco anos de ministério sacerdotal, brotam do meu coração duas atitudes fundamentais, que partilho agora convosco: gratidão e compromisso.

1. Gratidão

   No mistério da Sua encarnação, Jesus Cristo quis assumir toda a nossa humanidade e historicidade. O Deus Menino, apresentado no templo e proclamado, pelo velho Simeão, como «salvador», «luz das nações» e «glória de Israel» (Lc. 2, 30 – 32), como ouvimos no Evangelho, numa referência já à sua identidade como o «Messias do Senhor», assume também, com Maria e José, a nossa realidade familiar. Levando-O ao templo, a família de Nazaré cumpre as prescrições rituais, próprias da lei de Moisés e o Menino é reconhecido como o Salvador. À imagem de Maria e José, cada família é chamada a realizar a sua missão singular, de cumprir quanto lhe é pedido, para que os seus filhos, como Aquele Menino, possam crescer em «sabedoria», em «estatura» e em «graça» (cf. Lc. 2, 52).

   Neste sentido, ao dar graças a Deus pelos vinte e cinco anos da minha ordenação presbiteral, agradeço-Lhe o dom da minha família e, particularmente, o dom de meus pais. Foram eles quem, à imagem de Maria e José, me apresentaram à Igreja e aqui me trouxeram para receber a graça do batismo. Foram eles, ainda, quem, na simplicidade e na dedicação, me testemunharam a fé, a mim e a meus irmãos, para que descobríssemos o rosto próximo do Deus feito Carne; preparando assim o caminho para a minha total consagração.

   De igual modo, dou graças a Deus por esta Comunidade Paroquial de Águas Belas. À imagem de Simeão, foi ela quem me ensinou a reconhecer naquele Menino, apresentado no templo, o «Messias» Salvador, a ponto de formar em mim o desejo de lhe consagrar a minha vida e de a dedicar ao anúncio desta Boa Nova, tornando-a alcançável a todos os povos (cf. LC. 2, 31). Foi na catequese, mediante o testemunho vivo das minhas catequistas; na liturgia, onde exerci, com alegria, o ministério de acólito; no grupo coral, onde cantei os louvores do Senhor; ou naquele grupo de jovens, de existência efémera, mas que me permitiu, em comunhão com a ação sócio-caritativa, viver a proximidade com os mais idosos e doentes; que se foi aprofundando a minha fé e o meu compromisso cristão. Enfim, foi na vida desta comunidade e no vosso testemunho que me preparei para responder ao Senhor que, então, me chamava. Tal como no testemunho sacerdotal dos meus párocos, distintos entre si, mas complementares, encontrei o primeiro modelo de vida sacerdotal. Percurso de fé que se havia de aprofundar e orientar em ordem ao ministério, nos Seminários que frequentei, dando hoje graças a Deus pelos meus formadores e diretores espirituais, com quem discerni, aprofundei e formei a minha vocação sacerdotal; pelos meus colegas, que comigo, de modo fraterno, trilharam caminho semelhante; pelas paróquias de estágio pastoral, onde vivi, na prática, o sentido do serviço; bem como pelos grupos que integrei e que me prepararam para a diversidade da vida eclesial.

   Volvidos vinte e cinco anos sobre a minha ordenação presbiteral, dou graças a Deus, muito particularmente, pelas paróquias que servi e sirvo, pois foram elas que me acolheram e acolhem, para aí realizar o presbiterado que o Senhor me confiou a seu favor. Na amplitude cronológica de vinte e cinco anos, recordo o Seminário Menor da Figueira da Foz, onde iniciei o ministério, ainda diácono; a Paróquia de Paião, onde primeiramente paroquiei, como vigário paroquial; para recordar, depois, as Paróquias de Mira, Praia de Mira, Vilamar e São Caetano; Alhadas, onde colaborei na ausência do pároco; Covões e Bolho, onde permaneci ao longo de cinco anos; para nestes últimos dezassete anos servir as Paróquias de Luso, Trezói, Casal Comba, Mealhada, de que fui pároco interino; e, desde há quase dez anos, a Paróquia de Pampilhosa, cuja paroquialidade me está confiada atualmente conjuntamente com a de Luso. Assumindo ainda, no presente, os novos desafios pastorais com a constituição da Unidade Pastoral da Mealhada. Recordo ainda os serviços diocesanos, com um especial olhar para a Escola de Leigos, atualmente Escola de Teologia e Ministérios; bem como para a Igreja em Portugal, que entendeu confiar-me a direção da Obra Nacional da Pastoral do Turismo. Dou graças a Deus, pois em cada uma destas comunidades e serviços se realizou e realiza o desígnio do Senhor a meu respeito. Agradeço-Lhe, ainda, a diversidade de leigos e presbíteros que comigo trilharam e trilham o serviço pastoral, na necessária complementaridade a bem das comunidades cristãs; bem como agradeço aqueles que, ao longo destes anos, me apoiaram e apoiam espiritual e humanamente.

   Enfim, um olhar grato sobre o passado, que me permitiu ser o que fui, ao longo destes vinte e cinco anos, e sou no presente, recordando especialmente cada uma das pessoas com quem, nas suas alegrias e esperanças, angústias e dores, inquietações e certezas, partilhei e partilho a minha vida. Por tudo isto, faço hoje minhas as palavras do salmista: «Cantai ao Senhor um cântico novo; cantai ao Senhor, bendizei o Seu nome» (Sl. 95).

2. Compromisso

   Celebrar vinte e cinco anos de ministério ordenado é, ainda, momento de balanço – tempo para aferir da minha identificação com Cristo Bom Pastor e de renovar o meu empenho no serviço à Igreja. O percurso, pesem embora as incertezas da história, para cada um de nós, estará eventualmente a meio. Assim, este é um tempo de novo compromisso; tempo de reafirmar os propósitos da primeira hora - da ordenação -, confirmados pelo Bispo, quando este concluía, diante dos propósitos daquele que ia ser ordenado: «Queira Deus consumar o bem que em ti começou». Uma nova hora para assumir que «chamado por um ato de amor sobrenatural, absolutamente gratuito» (DMVP. 13), o Senhor me pede que ame a Igreja como Ele a amou, consagrando-lhe todas as minhas energias e dando-me com caridade pastoral, na entrega quotidiana da minha própria vida (cf. DMVP. 13).

   Mas esta é igualmente uma hora de estímulo para as comunidades cristãs: no sentido de redescobrirem a natureza e missão do ministério do presbítero; e de assumirem o seu compromisso de despertar vocações sacerdotais no seu seio, para que não lhes faltem os dons da graça e da santidade com que Deus permanentemente as adorna, desde logo mediante o sacramento da Eucaristia.

   Necessitamos, hoje, de outras famílias, nas comunidades cristãs, que ofereçam e preparem novos sacerdotes para o seu povo, para que nunca lhe falte o anúncio da Palavra, a celebração dos sacramentos e a edificação, na caridade, da autêntica família de Deus, tendo como modelo a família de Nazaré.

Conclusão

   As comunidades cristãs, que me estão confiadas, quiseram assumir como lema destas celebrações, das minhas bodas de prata presbiterais, a expressão inscrita no memorando da minha ordenação: «Sei em Quem acreditei!» Retirada da 2ª Carta a Timóteo, esta expressão insere-se na profissão de fé de Paulo, quando este exorta Timóteo – seu «filho muito amado» (2Tm. 1, 2) – a reanimar o dom que Deus lhe concedeu pela imposição das suas mãos (cf. 2Tm. 1, 6); convidando-o a nunca se envergonhar «do testemunho de Nosso Senhor», participando, com ele, «nos trabalhos do Evangelho, fortificado pelo poder de Deus» e centrado no mistério pascal do Senhor Jesus Cristo, mediante o qual Deus nos salvou e chama à santidade (cf. 2Tm. 1, 9). Paulo diz sofrer por causa deste testemunho, mas sem nada lamentar, porque sabe em quem acreditou (cf. 2Tm. 1, 12).

   Queridos irmãos e amigos, também eu agora vos peço: rezai por mim! Para que acolha esta exortação de Paulo e a viva no meu ministério: «reanimando constantemente o dom da fé»; na alegria de testemunhar continuamente o mistério do Amor de Deus; renovando a entrega da minha vida ao anúncio do Evangelho, no meio das alegrias e provações, mas sem nada lamentar; para que a graça de Deus chegue a todos os que me são confiados, por «Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus» (1Cor. 1, 24); e todos cheguemos à salvação. Que Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, a quem aqui invocamos como Senhora da Graça, e a quem entreguei o meu ministério, interceda por mim e por todos nós. Ámen!

Homilia - Celebração de Bodas de Prata Presbiterais


CELEBRAÇÃO DAS BODAS DE PRATA PRESBITERAIS

Luso / Pampilhosa – 22.12.2016


   Caros Padres, irmãos no sacerdócio ministerial
   Caros irmãos e irmãs

   Celebrar vinte e cinco anos de sacerdócio é, para mim, fonte de imensa alegria, de graça e de louvor a Deus, sendo igualmente uma ocasião de renovada responsabilidade na minha configuração com Cristo, Bom Pastor. Certo, ainda, de que esta alegria e gratidão se estendem às comunidades cristãs, para quem o Senhor olha com misericórdia e, pelos seus ministros - participantes da «função de Cristo, pastor e cabeça» (LG. 28) - as congrega como família de Deus, em fraternidade que tende para a unidade, conduzindo-as por Cristo e no Espírito até Deus Pai (cf. LG. 28).

   Celebrar vinte e cinco anos de sacerdócio é realmente uma ocasião de graça, precisamente porque, sem mérito algum da minha parte, foi o Senhor quem me olhou, me chamou, me consagrou e me enviou, para que, ao longo de todos estes anos, fortalecendo-me com os seus dons, eu servisse os meus irmãos. Mistério de amor que suplanta as minhas capacidades humanas, dom absoluto de Deus, que suprindo todos os meus limites, continua a realizar, através dos meus gestos e das minhas palavras, a missão que, sendo sua, continua a confiar-me. Missão esta que acolho na simplicidade e na humildade e para a qual invoco permanentemente a força do Seu Espírito, para que também eu, como o apóstolo, no meio das dificuldades e limites, possa ouvir da boca do Senhor: «Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a minha força se revela totalmente» (2Cor. 12, 9).

   O ministério do presbítero, a quem comummente denominamos como padre, radica na configuração com Cristo Pastor, porquanto, mediante o sacramento da ordem, aquele que o recebe, «por meio da unção do Espírito Santo», fica marcado com um caráter especial que o configura com Cristo – Sacerdote, a fim de poder «agir em nome de Cristo – Cabeça», participando «da autoridade com que o próprio Cristo edifica, santifica e governa o seu Corpo» (PO. 2). Ministério e mistério que necessita de ser permanentemente aprofundado na vida de cada presbítero; e que carece da oração e do empenhamento de cada comunidade cristã, para que, a cada uma, nunca falte este dom hierárquico que o Senhor oferece a toda a Sua Igreja.

   Ao celebrar estes vinte e cinco anos de presbiterado, brotam do meu coração duas atitudes, que agora partilho convosco: gratidão e compromisso. Para as explicitar, tomo a Palavra de Deus deste dia, particularmente da primeira leitura e do Evangelho que, por feliz coincidência, nos oferece o Magnificat de Maria.

 
1. Gratidão

   Escutámos na primeira leitura, do livro de Samuel, o cumprimento da promessa de Ana, que havia recebido o seu filho na velhice, depois de uma súplica ardente ao Senhor. Dirigindo-se ao sacerdote Eli, e depois das ofertas rituais, ela exclama: «Eis o menino por quem orei: o Senhor ouviu a minha súplica. Por isso também eu o ofereço para que seja consagrado ao Senhor todos os dias da sua vida» (1Sam. 1, 27 – 28).

   Ana, uma das mulheres piedosas do Antigo Testamento, que recebe uma especial graça de Deus e que, em tempo de Advento, nos aponta para Maria, bem pode ser tomada como símbolo da família, na sua capacidade de oferecer ao Senhor aquele que gerou no seu seio.

   Partindo deste exemplo de Ana, dou graças a Deus pela minha família, onde nasci e cresci, não apenas fisicamente e nas demais qualidades humanas, mas também no dom da fé. Se hoje sou padre, não poderei jamais esquecer o testemunho simples e empenhado de meus pais, que, talvez sem o saberem, me ofereciam ao Senhor como Ana, mãe de Samuel. A mim e a meus irmãos, na vivência de um mesmo batismo, embora na diversidade da vivência cristã.

   De igual modo, dou graças a Deus pela minha comunidade de origem que, à imagem do sacerdote Eli, me acolheu e me orientou na escuta da voz do Senhor – na catequese; na liturgia, onde exerci, com alegria, o ministério de acólito, onde tão apaixonadamente participei no grupo coral, que mais tarde orientaria, em especiais ocasiões festivas; na participação de um efémero, mas vivo grupo de jovens, que me permitiu a vivência da proximidade com os mais idosos e doentes, particularmente em tempos litúrgicos fortes, em relação estreita com o grupo de ação sócio-caritativa de então. Dou graças a Deus, pois esta comunidade de origem foi, também ela, o berço da minha vocação. Se Deus chama através de pequenos sinais, a sua escuta é habitualmente preparada pela vivência global da vida cristã, proporcionada pelas comunidades paroquiais. Neste contexto, ainda, dou graças a Deus pelos padres que colocou no meu caminho, tão diversos, entre si, mas completando-se no seu acompanhamento discreto.

   Dou graças a Deus, nesta hora, por todo o percurso que pude fazer até à ordenação presbiteral – os Seminários que frequentei e seus formadores, onde discerni, aprofundei e formei a minha vocação sacerdotal; pelas paróquias de estágio pastoral, aquando da frequência do Seminário Maior; pelos serviços e grupos que pude integrar e que me prepararam para a diversidade da vida eclesial. A seu modo foram um novo Eli, preparando-me para a missão pastoral.

   Mas, dou graças a Deus, de um modo especial, pelas comunidades paroquiais que servi e que sirvo: foram elas que me acolheram e acolhem, para nelas realizar o presbiterado que o Senhor me confiou a seu favor. Na amplitude cronológica de vinte e cinco anos, recordo o Seminário Menor da Figueira da Foz, onde iniciei o meu ministério; a Paróquia de Paião, onde primeiramente paroquiei, ainda como vigário paroquial; para logo depois recordar as paróquias de Mira, Praia de Mira, Vilamar, São Caetano, Alhadas, onde colaborei na ausência do pároco, e as paróquias de Covões e Bolho. E, vindo da beira-mar para o interior da Bairrada, tomei como casa o Luso, onde, desde há dezassete anos, sirvo a comunidade e, a partir de onde, servi Trezói, Casal Comba e a Mealhada, para, desde há quase dez anos, servir igualmente a Paróquia de Pampilhosa. Nelas, devo dizer, se realizou e realiza o desígnio do Senhor a meu respeito. Num tempo, ainda, de abertura constante a novos desafios pastorais, mesmo territoriais, com a necessidade de novas estruturas intermédias de ação pastoral, como são as Unidades Pastorais. Dou graças a Deus, também, pelos serviços eclesiais de maior amplitude, a nível diocesano e nacional, que fui e sou chamado a exercer. Mais que uma honra, estes serviços permitem-me compreender a missão da Igreja na sua universalidade e a servi-la humildemente nas funções que me são confiadas. Ainda no seio das comunidades cristãs, dou graças a Deus por todos aqueles que me apoiaram e apoiam pastoral, espiritual e humanamente, na vivência do meu ministério presbiteral. A sua ação e empenho, no dinamismo pastoral, contribuíram e contribuem para o aprofundamento do ministério que me está confiado, na necessária complementaridade, em ordem ao serviço das comunidades cristãs. E, se dou graças a Deus pelo compromisso pastoral, agradeço-Lhe igualmente o apoio humano, que me permitiu e permite, ao longo destes anos, a necessária estabilidade pessoal para o exercício da missão. De entre as várias pessoas, que nestes vinte e cinco anos me acompanharam e acompanham, e que hoje recordo com carinho, agradeço a família Mira que, nestes dezassete anos de presença no Luso, tem sido, para mim, como que uma outra família, servindo a comunidade também na ajuda à estabilidade pessoal do pároco.

   Enfim, um olhar grato sobre o passado que me permitiu ser o que fui, ao longo destes vinte e cinco anos, e sou no presente, recordando as comunidades, mas especialmente cada uma das pessoas com quem, nas suas alegrias e esperanças, angústias e dores, inquietações e certezas, partilhei e partilho a minha vida. Bem posso dizer como Maria, no Evangelho: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador» (Lc. 1, 46 - 47). É que, na verdade, à imagem de Maria, também em nós o Senhor faz maravilhas (cf. Lc. 1, 49) e pelo ministério presbiteral que nos confia, «a sua misericórdia se estende de geração em geração» (Lc. 1, 50).

 
2. Compromisso

   Celebrar vinte e cinco anos de ministério ordenado é, ainda, momento de balanço – tempo para aferir da minha identificação com Cristo Bom Pastor e de renovar o meu empenho no serviço à Igreja. O percurso, pesem embora as incertezas da história, para cada um de nós, estará eventualmente a meio. Assim, este é um tempo de novo compromisso; tempo de reafirmar os propósitos da primeira hora, da ordenação, confirmados pelo Bispo, quando este concluía, diante dos propósitos daquele que ia ser ordenado: «Queira Deus consumar o bem que em ti começou». Uma nova hora para assumir que «chamado por um ato de amor sobrenatural, absolutamente gratuito» (DMVP. 13), o Senhor me pede que ame a Igreja como Ele a amou, consagrando-lhe todas as minhas energias e dando-me com caridade pastoral, na entrega quotidiana da minha própria vida (cf. DMVP. 13).

   Mas esta é igualmente uma hora de estímulo para as comunidades cristãs: no sentido de redescobrirem a natureza e missão do ministério do presbítero; e de assumirem o seu compromisso de despertar vocações sacerdotais no seu seio, para que não lhes faltem os dons da graça e da santidade com que Deus permanentemente as adorna, desde logo mediante o sacramento da Eucaristia.

   Necessitamos, hoje, de outras famílias e comunidades que, à imagem de Ana e do sacerdote Eli, ofereçam e preparem novos sacerdotes para o seu povo, para que não lhe falte o anúncio da Palavra, a celebração dos sacramentos e a edificação, na caridade, da autêntica família de Deus.

   Que Maria, na sua inteira consagração ao projeto divino a seu respeito, seja modelo da nossa disponibilidade para continuarmos o anúncio e a vivência do Reino de Deus, na diversidade de ministérios e carismas, para que, também hoje, se perpetue essa outra afirmação do seu Magnificat: «A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem» (Lc. 1, 50).

Conclusão

   Quisestes que estas celebrações, dos meus vinte e cinco anos de presbiterado, se vivessem em torno da expressão inscrita no recordatório da minha ordenação sacerdotal - «Sei em Quem acreditei!». Esta expressão, retirada da 2ª Carta a Timóteo, insere-se na profissão de fé de Paulo, quando este exorta Timóteo - seu «filho muito amado» (2Tm. 1, 2) - a reanimar o dom que Deus lhe concedeu pela imposição das suas mãos (cf. 2Tm. 1, 6); convidando-o a nunca se envergonhar «do testemunho de nosso Senhor», participando, com ele, «nos trabalhos do Evangelho, fortificado pelo poder de Deus» e centrado no mistério pascal do senhor Jesus Cristo, mediante o qual Deus nos salvou e chama à santidade (cf. 2Tm. 1, 9). Paulo diz sofrer por causa deste testemunho, mas sem nada lamentar, porque sabe em quem acreditou (cf. 2Tm. 1, 12).

   Queridos irmãos, rezai agora também por mim, para que acolha esta exortação de Paulo e a viva no meu ministério: «reanimando constantemente o dom da fé»; na alegria de testemunhar continuamente o mistério do Amor de Deus; renovando a entrega da minha vida ao anúncio do Evangelho, no meio das alegrias e das provações, mas sem nada lamentar; para que a graça de Deus chegue a todos os que me são confiados, por «Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus» (1Cor. 1, 24); e todos cheguemos à salvação.

   Que Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, a quem consagrei o meu ministério, interceda por mim e por todos nós!

Paz!


PAZ 

   Desde há cinquenta anos que se celebra, no primeiro dia de Janeiro, o Dia Mundial da Paz. Iniciativa do Papa Paulo VI, que o instituiu em 1967, com os votos de que este dia fosse celebrado não apenas pelos católicos, mas igualmente por todos os homens, independentemente da sua religião. Assim, a cada ano, o Papa publica uma Mensagem alusiva a este dia, com temáticas muito diversas, que se complementam entre si, no convite a cultivarmos a paz!

   Neste ano de 2017, o Papa Francisco propôs-nos como tema da sua Mensagem: A não-violência estilo de uma política para a Paz.

   Atendendo aos diversos dramas e guerras a que o mundo assiste no presente, o Papa propõe particularmente uma atitude de «não-violência», a viver no âmbito das relações «interpessoais, sociais e internacionais». Registo mesmo, da sua mensagem, esta expressão tão significativa para todo o tipo de relações humanas: «Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais» (nº 1). E fundamenta esta não-violência no ensinamento do próprio Jesus Cristo, que a viveu no drama da Sua morte, quando refere: «Jesus traçou o caminho da não-violência, que Ele percorreu até ao fim, até à cruz, tendo assim estabelecido a paz e destruído a hostilidade» (nº3).

   Na sequência destas duas afirmações, e sem descurar a globalidade da mensagem, com os apelos à paz, em contextos distintos, quis assumir com as comunidades cristãs este desafio, que agora alargo a um público mais vasto, com aquele mesmo convite que, então, formulei: «Vivamos a Paz!».

   Ainda que ansiemos sinceramente pela paz internacional e nos angustiemos com a proliferação da violência, vivida em cenários de guerra, não nos podemos deter meramente aqui; mas sim iniciar o culto da paz no âmbito das nossas relações interpessoais e comunitárias. Correspondendo precisamente ao apelo do Papa Francisco, vivendo a caridade e a não-violência nas nossas relações interpessoais e nas nossas comunidades. Ou seja, nas nossas relações de proximidade. Pois é exatamente aqui que a paz começa – no coração e na decisão de cada um de nós, determinados a viver a paz e não-violência com quem partilhamos habitualmente as nossas vidas.

   Cultivemos, então, a paz e a «não-violência»! Começando logo pela renovação dos nossos corações e atitudes, na atenção aos sentimentos que nutrimos uns pelos outros; pelo modo como nos relacionamos, por palavras e gestos; e pela forma como interagimos, particularmente em contextos de discordância de princípios, ideais e atitudes; formando corações pacíficos e dialogantes. Cultivemos a paz, promovendo a educação para a paz em contexto familiar. As nossas famílias, segundo o exemplo e a palavra dos mais velhos, hão-de ser escolas de paz e de crescimento de homens e mulheres pacíficos, fomentando mais a partilha, o diálogo e a aceitação, do que a concorrência, a disputa ou a agressividade. Construamos a paz e a «não-violência» comunitariamente, promovendo o diálogo social, a aceitação das diferenças, a integração de todos, o serviço de uns aos outros, promovendo salutares confrontos de ideias e de perspetivas de vivência comunitária, mas assentes nessa integração da diversidade e na busca do bem de todos.

   Comecemos a vivência da paz a partir de nós mesmos, segundo aquele princípio afirmado por Mahatma Gandhi, uma das referências incontornáveis da vivência da não-violência: «sê a mudança que desejas ver no mundo»! Ainda que parecendo pouco ou mesmo insignificante, só esta decisão pessoal, a partir da transformação de nós mesmos, poderá ser um verdadeiro caminho para a paz e para a vivência autêntica da «não-violência»!

 
Pampilhosa, 12 de Janeiro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(30ª Reflexão)

 

 

 

 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Ano Novo!


ANO NOVO

   Iniciámos um novo ano! Um novo ciclo de vida, que nos fará percorrer as suas etapas próprias; desde logo pautado pelas estações climatológicas; bem como pelas nossas vivências sociais e culturais. O período cronológico de um ano é muito diverso e rico nos subperíodos em que se divide e nas práticas sociais e culturais que os enquadram.

   Mas um novo ano nunca é uma realidade mimética dos ciclos anteriores. Ainda que semelhante, cada ano é sempre novo, irrepetível, singular e com enquadramento pessoal e sociocultural diversificado. Diria que sendo mesmo aparentemente igual, repetindo, cada ano, vivências semelhantes, é sempre uma realidade em espiral; num aprofundamento contínuo. O mais evidente é o avanço no tempo – o avanço cronológico -, que sendo comum, é igualmente uma realidade vivida na experiência pessoal. Tal como no avanço histórico e respetivos progressos: cada ano é sempre um novo devir na prossecução da realização humana e da sua história. Ainda que nem sempre privilegiando o que mais nos realiza pessoal e comunitariamente.

  Ora, se cada ano é, efetivamente, um tempo novo – cronológica, social, cultural e historicamente -, não deixará de o ser igualmente na perspetiva pessoal; enquanto oportunidade única, verdadeiramente singular, e desafiante, para a vida de cada um de nós! Viver é, de per si, o grande dom; pois a vida é o valor primeiro sobre o qual assentam todos os demais valores. Mas não basta repetir ciclos de vida; é necessário dar profundidade a cada um desses ciclos, na perspetiva de alcançarmos a nossa autêntica realização. Neste sentido, cada ano é sempre uma nova oportunidade!

   Pode acontecer que, volvido o meado de Janeiro, em que se diluem os votos de um bom ano, se retomem as rotinas habituais e a vida permaneça sem aquela novidade proclamada no seu início. Ora, um novo ano é a oportunidade de nos questionarmos, de revermos as nossas vidas, de equacionar o que está, ou não, em conformidade com esse desígnio que nos habita e que todos demandamos: sermos felizes! Assim, um novo ano desafia-nos à desinstalação, à capacidade de decisão, à revisão necessária, à força de opções pessoais e comunitárias no sentido de nos aproximarmos, cada vez mais, desse desígnio que nos habita.

   O mais fácil, para todos nós, é acomodarmo-nos a estilos de vida pessoais, familiares ou comunitários, assentes em rotinas já assumidas, mesmo quando essas rotinas fazem persistir angústias, dores, desilusões, inquietudes ou mesmo agressividades. Ora, um tempo novo comporta em si, simbolicamente, essa ousadia de cortar com algumas rotinas para definir novos horizontes. Cada tempo é-nos dado para que nele construamos a nossa felicidade. Então, ousemos recomeçar de novo, deixando de parte o que pessoal, familiar e comunitariamente impede essa felicidade, para vivermos um tempo novo com existências novas. E bem sabemos que tal se aplica à vida pessoal de cada um de nós, reacertando princípios de conduta pessoal; a tantas situações familiares, onde é necessário renovar um autêntico diálogo e vivência de amor, mediante os quais cada um se sente verdadeiramente acolhido e amado na sua comunidade originária; ou ainda socialmente, num respeito e empenho na procura do bem comum, capaz de mobilizar conjuntamente o que cada um tem de melhor, ao serviço de todos.

   Efetivamente, viveremos um ano novo se cada um de nós se renovar! Partindo, necessariamente, da consciência de que nenhum de nós é já um produto acabado. Então, sim, como referia Mahatma Gandhi, tornar-nos-emos a mudança que desejamos ver no mundo. Ou, como referia Madre Teresa de Calcutá, seremos a pequena gota a transformar o oceano, que é o nosso mundo; na certeza de que se não aceitarmos ser essa pequena gota de renovação, este oceano será bem mais pobre.

   Façamos justiça ao provérbio popular que, neste período, tanto usamos: «ano novo, vida nova». Não apenas porque mudamos alguns dos grandes projetos das nossas vidas, mas porque nos dispomos a mudar os nossos corações e as nossas atitudes! E um novo ano começa exatamente por aí!

   A todos um feliz e abençoado ano de 2017!

 
Pampilhosa, 05 de Janeiro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(29ª Reflexão)

 

 

 

 

 

 

 

Família!


FAMÍLIA

   A família constituiu a estrutura de base na gestação, educação, crescimento, e acompanhamento de cada pessoa; sendo ainda o suporte fundamental da vida em sociedade. Mas, essencialmente, a família é uma comunidade de pessoas, unidas pelo vínculo singular do amor. Com razão afirma a Exortação Apostólica, do Papa João Paulo II, Familiaris Consortio: “A família, fundada e vivificada pelo amor, é uma comunidade de pessoas: os esposos, homem e mulher, os pais e os filhos e os parentes. O seu primeiro dever é viver fielmente a realidade da comunhão num constante empenho por fazer crescer a autêntica comunidade de pessoas. O princípio interior, a força permanente e a meta última de tal dever é o amor. Como, sem o amor, a família não é uma comunidade de pessoas, assim também sem o amor, a família não pode viver, crescer e aperfeiçoar-se como comunidade de pessoas” (FC. 18).

   Todavia, nos tempos que correm, a família, apesar dos sinais positivos da “consciência da liberdade pessoal”, da “maior qualidade das relações interpessoais no matrimónio”, da “promoção da dignidade da mulher”, da “procriação responsável” e da “educação dos filhos” (cf. FC. 6); sofre grande degradação quanto a alguns dos seus valores fundamentais: “errada concepção teórica e prática da independência dos esposos entre si”, “ambiguidades na relação de autoridade entre pais e filhos”, “dificuldade na transmissão de valores”, “número crescente de divórcios”, a realidade do “aborto”, a “esterilização” ou mesmo a instauração de uma mentalidade contraceptiva” (cf. FC. 6). A família tem sido, nas últimas décadas, uma instituição em permanente questionamento. Apesar de todas as dificuldades que enfrenta, a família é a estrutura base da sociedade, o seu autêntico «fundamento» (GS. 52), comunidade primeira de onde todos provimos, onde crescemos e onde permanentemente encontramos o nosso abrigo pessoal e afetivo; capaz de corresponder a todas as nossas necessidades humanas. Enfraquecer a família significa comprometer o desenvolvimento pessoal, o equilíbrio social e os valores que nos permitem realizarmo-nos como pessoas, bem como comprometer na nossa interação em sociedade.

   O tempo de Natal, que estamos ainda a viver, é um convite profundo ao reconhecimento e valorização da vida familiar: seja pela via litúrgica, da celebração da Sagrada Família, festa que se insere nas solenidades que celebramos; seja pela via simplesmente humana, em que cada um vive, em contexto familiar, esta quadra natalícia! Aliás, para muitos, a festa de Natal confunde-se mesmo com a festa da família. Mesmo quando, para outros, esta festa familiar é vivida na tristeza, na incerteza, no desconforto ou mesmo na dor. Realidades que merecem a nossa proximidade afetiva, acolhimento e compreensão.

  Não basta, contudo, que se afirmem os valores familiares; tão pouco é suficiente que a família tenha este lugar especial nestas celebrações natalícias;  é fundamental que nela se redescubra permanentemente o amor que a fundamenta e a une, na consciência de que é uma comunidade de pessoas, que partilham não apenas um mesmo espaço, mas as suas vidas e os seus afetos.

   Muitos entendem que a defesa da família continua a ser, nos dias que correm, uma espécie da «bandeira» da Igreja; todavia, pela sua identidade e missão, ela é insubstituível para a realização da pessoa humana. Daí que todos nos sintamos chamados a cuidar dela: seja a nível das instituições, seja nas vivências pessoais.

   «Familia, torna-te aquilo que és!» - foi o convite dirigido pelo Papa João Paulo II a todas as famílias do mundo, em 1981, na Exortação Apostólica já anteriormente referida! Julgo que o mesmo grito deve ecoar nos dias de hoje: não apenas para salvaguardar uma instituição; mas fundamentalmente para assegurar o bem da pessoa – de cada pessoa! – e o autêntico equilíbrio da vida em sociedade!

 
Pampilhosa, 29 de Dezembro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(28ª Reflexão)

 

 

 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Natal!


 NATAL  

    Estamos em tempo de Natal! Expressão, que provinda do latim natalis, significa nascimento. Ora, o Natal significa o nascimento de Jesus, o Filho de Deus que se fez homem no meio de nós! Ainda que alguns possam não se rever nos conteúdos da fé, o Natal comporta, contudo, dois elementos incontornáveis para todos nós: a realidade histórica de Jesus de Nazaré e o seu nascimento, ainda que o dia de Natal seja definido a partir da conceção do nascimento do sol invicto (natalis invicti solis), da mitologia romana e sua expressão religiosa, que os cristãos, posteriormente, converteram na data do nascimento de Jesus Salvador, como autêntico sol que ilumina toda a humanidade; e a identidade cultural do Natal, que provém precisamente da tradição cristã.

   Em abono da verdade e já longe das práticas mitológicas romanas, o Natal celebra sempre o nascimento de Jesus, Aquele que depois proclamamos o Cristo, em virtude da Sua Morte e Ressurreição.

   Todavia, desde meados do século XX, após a campanha economicamente agressiva da americana Coca-Cola, que, em 1931, transformou a lenda de São Nicolau, que se celebrava a 6 de Dezembro, com a habitual distribuição de presentes, no atual Pai Natal - essa figura de aspeto rechonchudo, simpática, de barbas brancas e vestido de vermelho, a cor da marca -, que tal figura veio a assumir protagonismo nas celebrações natalícias.

   De um modo particular, o Pai Natal é uma figura atrativa para as crianças, precisamente porque a sua principal missão, em cada ano, é distribuir presentes, o que o torna particularmente cativante.

   Ora, o Natal compreende hodiernamente duas figuras: a do Menino Jesus e a do Pai Natal. Inequivocamente, com presença e expressão bem distintas no nosso contexto social. O Pai Natal é servido por um poderoso império comercial, aliado aos ainda mais poderosos meios de comunicação social, capazes de mobilizar uma sociedade inteira em torno de uma figura comum, definindo assim o sentido desta quadra festiva.

   O Menino Jesus parece continuar a nascer escondido, na humildade da gruta de Belém. O seu lugar, hoje, continua a ser o das nossas Igrejas e o espaço íntimo de algumas famílias cristãs. Não obstante se celebre o Seu nascimento.

   Mais do que colocar em confronto duas figuras, ou, de alguma forma, pretender excluir qualquer vivência do Natal, sinto que necessitamos de repor a verdade desta quadra natalícia. Não apenas para fazer justiça ao Menino; mas para que a nossa vida humana não seja apenas condicionada – diria mesmo: subjugada – pelos interesses económicos. É que os grandes valores do Natal têm de estar para além dessa tentativa de comercialização da vida humana, radicada nas compras, nas ofertas e nos gastos. O Natal, assente na humildade do Deus feito Menino, convida-nos à solidariedade, ao amor, à ternura, ao reconhecimento da dignidade do outro, à partilha generosa, ao encontro e à fraternidade, realizando os ideais humanos mais profundos, os únicos que são capazes de nos humanizar. Sim, porque o Natal é humanização: não apenas de Deus que se faz homem, mas igualmente do homem que O reconhece no rosto humano dos outros.

    Além disso, só no Deus Menino ganha sentido a vida humana, na pobreza e na abundância, na saúde e na doença, na alegria e na dor!... Nessa vida tão bem retratada pelo conto de Eça de Queirós, O Suave Milagre, que nos coloca diante de uma criança pobre e doente que deseja ver Jesus. E quando a mãe tenta dissuadi-lo, por ser pobre, eis que Jesus o visita. Este suave milagre é uma interpelação e uma resposta à vida de cada um de nós, em tempo de Natal! No sentido de vivermos a mesma consolação daquela criança. Escreve Eça de Queirós: «De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou: - Mãe, eu queria ver Jesus… E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança: - Aqui estou!».

 
Pampilhosa, 22 de Dezembro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(27ª Reflexão)

 

 

Solidão!


SOLIDÃO
 
   A solidão é uma das vivências mais dolorosas da existência humana. Ver-se privado da relação com o outro, ou com os outros, e obrigado a um isolamento na própria intimidade, física ou emocional, sem interação com os demais, é sempre uma vivência perturbadora para as pessoas que o experimentam.

   Não obstante as múltiplas formas de comunicação, de que hoje dispomos, o encontro com o outro exige uma presença real; o olhar, olhos nos olhos; o abraço, em que se expressa fisicamente o afeto; uma presença pessoal, que possibilite a relação humana em verdadeira alteridade.

   É certo que existe também uma «solidão positiva» - assim denominada por vários autores -, que permite o encontro consigo mesmo, a criatividade, o aprofundamento intelectual, espiritual, ou existencial. Contudo, resultante de uma opção livre e, em regra, limitada no tempo; compensada, depois, pelo reencontro com os mais próximos, em família ou em comunidade.

   Na verdade – como refere o adágio popular - «ninguém é feliz sozinho», pois é na relação com os outros que nos descobrimos permanentemente e nos construímos como pessoas, em desenvolvimento autenticamente humano.

   Ora, a solidão toma hoje vários rostos! A solidão física, de quem vive isolado, não raro devido às limitações da mobilidade e abandono, particularmente entre os mais idosos. Depois, a solidão afetiva: de tantos que não se sentem acolhidos; aceites na sua diversidade; amados; ou encerrados em si, nos seus dramas pessoais, sem capacidade de abertura confiante a quem os rodeia, vivendo a sua identidade mais profunda num reduto interior, inexpugnável e de solidão. Por fim, a solidão social, hoje cada vez mais disseminada, seja pela fixação nas tecnologias que isolam as pessoas, em espaços públicos; seja pelo individualismo, que tende a fechar cada pessoa no seu mundo e nos seus interesses; ou ainda, pela imposição social de isolamento àqueles que não são amados comunitariamente, fruto das suas vivências humanas perturbadas por qualquer fatalidade.

   A solidão, esse limite humano, fonte de dor e de angústia, exige, de todos nós, uma nova humanidade e uma nova proximidade; que, em muitos casos, é expressão de justiça e de dever. Exige essencialmente uma nova fraternidade!

   Desde logo, necessitamos de redescobrir os valores familiares, não permitindo que os mais velhos sejam privados dos mais novos e das relações que lhe são devidas! É uma questão de justiça! Depois, a necessidade de aprofundarmos o valor do voluntariado, na ação de visitadores, ou mesmo no acompanhamento próximo de pessoas mais desprotegidas. Sinal muito positivo é o dos jovens estudantes que habitam com idosos, beneficiando, cada um, do que ou outro pode oferecer – a hospedagem e a companhia; criando-se, quantas vezes, laços profundos de familiaridade. As próprias comunidades hão-de promover e dinamizar novos centros de convívio e de encontro, onde se viva a comunhão entre as pessoas e o seu enriquecimento humano.

   Por outro lado, todos nós devemos aprender a viver permanentemente o grande dom do acolhimento, da aceitação do outro, na sua identidade e diferença, no respeito pela sua verdade mais íntima. As amizades, sinceras e fiáveis, hão-de permitir a expressão autêntica daqueles que nos são queridos, abrindo-os à sinceridade diante de nós, por que se sabem amados. Todos nós devemos cultivar gestos de ternura para com todos, quebrando tantos respeitos humanos e receios, que ainda nos habitam. Precisamos de redescobrir a relação interpessoal, marcada pelo encontro efetivo e não meramente virtual que, quantas vezes, é ilusório. Necessitamos de quebrar as regras, que se impõem tacitamente, do isolamento em público, para gerarmos novas interações entre pessoas, geradoras de uma nova e autêntica humanidade. Necessitamos de reaprender o acolhimento para com todos e, muito especialmente, para com aqueles que ninguém ama, na consciência de que o isolamento e o alheamento geram mais problemas humanos e sociais, do que o acolhimento sincero. Precisamos de quem ame famílias ou pessoas, vítimas de situações humanas difíceis ou dolorosas, ajudando-as a recuperar a alegria e a dignidade!

   Um ideal? Sim, um ideal! Mas um ideal realizável, se cada um de nós o abraçar! É que só o amor, feito gesto de ternura e de acolhimento, é capaz de nos humanizar!

Pampilhosa, 15 de Dezembro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(26ª Reflexão)