sábado, 11 de fevereiro de 2017

Sofrimento!


SOFRIMENTO

   Próximos da celebração do Dia Mundial do Doente, que, em cada ano, desde 1992, se celebra a 11 de fevereiro, por instituição do Papa João Paulo II; e no momento em que a sociedade portuguesa debate afincadamente, com argumentação oposta, a problemática da eutanásia; trazemos aqui algumas considerações sobre o sofrimento. Porque sofremos? Esta é, desde logo, a primeira e a grande questão que se nos coloca existencialmente! Responder-lhe não é, certamente, fácil; pois o sofrimento é um mistério da condição humana. Definir o sofrimento será relativamente mais simples, pois sabemos que ele «é uma vivência de ordem física, psíquica ou moral, que sobrevém ao sujeito dotado de conhecimento, pelo que constitui uma experiência profunda da sua finitude e dependência»[1]. Na verdade, a questão do sofrimento entende-se a partir da conceção mais vasta do problema do mal![2] Assim o percebemos no pensamento clássico ou na teologia bíblica. Pese embora, para os cristãos, o essencial seja a intervenção salvífica de Cristo, que, sem anular a nossa condição humana na história, marcada pelo sofrimento, nos resgata dele no mistério da Sua glorificação, que é também a nossa glorificação. Não obstante, numa perspetiva meramente racional, podemos dizer que «o sofrimento permanece uma ferida em aberto», tanto mais que os homens têm progredido mais na luta contra a dor, do que «na inteligibilidade do grande mistério do sofrimento e do mal»[3].

   Neste mistério amplo do sofrimento, podemos individualizar a dor, mediante a qual o homem experimenta a «sua incapacidade, os seus limites, a sua finitude» (CIC. 1500). Não raro, motivo de angústia, ou até de desespero, ou mesmo de revolta contra Deus (cf. CIC. 1501). Mas, noutros casos, ocasião de amadurecimento, de discernimento do que é mais importante na vida, ou mesmo ocasião de regresso à fé (cf. CIC. 1501). A dor, que é sempre um limite humano, nunca é algo que Deus queira; e jamais pode ser entendida como um castigo. A dor, como todo o sofrimento, é parte do mistério da nossa humanidade, que havemos de saber assumir e enfrentar. Sim, ainda que nenhum de nós a deseje, ela é algo de profundamente humano. Sabendo que a única forma de a enfrentar é exatamente com atitudes verdadeiramente humanas e humanizadoras. Desde logo, diante do sofrimento alheio, impõe-se-nos a proximidade – uma proximidade respeitosa, que atenda à pessoa e às suas condições; mas uma autêntica proximidade fraterna, de cura, de apoio, de ajuda e de estímulo, precisamente para que o doente não caia no desânimo.

   Para enfrentar a dor, temos hoje de continuar a investir no desenvolvimento científico, procurando novos fármacos, numa área que tem dado passos de gigante, nas últimas décadas, procurando responder às múltiplas enfermidades. Mas provendo a uma justa distribuição, que permita fazer chegar a todos os homens e povos os novos resultados dessa investigação, a preços justos e razoáveis. Depois, a proximidade médica e dos técnicos de saúde, na sua relação humana com o doente, sabendo que a dor afeta a pessoa no seu todo, e essa proximidade será certamente uma possibilidade singular de conforto. De igual modo, o círculo familiar, de amigos e de vizinhos, desempenha uma função insubstituível, não apenas minimizando as eventuais dificuldades que advêm da enfermidade, mas acompanhando com compreensão e carinho a pessoa que sofre. Sem atitudes de compaixão doentia, mas estimulando a coragem, a esperança e a vivência positiva da vida, mesmo no sofrimento.

   Num tempo em que se sobrevaloriza o prazer e a dor procura ser escondida do quadro da existência humana, havemos de humanizar a dor – lutando contra ela, minimizando-a, até ao limite do possível; mas nunca esquecendo que ela é constitutiva da nossa humanidade. Assim, lutando contra a dor, havemos de renovar sempre a humanização das nossas relações com quem se encontra em sofrimento.

  
Pampilhosa, 09 de Fevereiro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(34ª Reflexão)



[1] M. Conceição Barreira de Sousa – voc. Sofrimento. In Logos: Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. Tomo IV. Lisboa: Editorial Verbo, 1992, p. 1254.
[2] Cf. Ibidem, p. 1254.
[3] Ibidem, p. 1258.

Partilha!


PARTILHA

   A palavra partilha que provém, na sua etimologia, do diminutivo de «pars» - «partícula», significa «dividir», «repartir» ou «distribuir». Ora, a partilha faz parte da nossa condição humana, desde logo porque somos seres em comunhão, vivendo em sociedade. Uma das características da nossa humanidade é exatamente essa: a de sermos homo socialis (homem social), partilhando, portanto, os nossos destinos comuns, não obstante a singularidade de cada um no seio da sociedade.

   Acontece que a nossa humanidade – na sua expressão pessoal e coletiva – se debate frequentemente entre a luta egocêntrica e a alteridade, significando esta última precisamente a relação de interação e de dependência com o outro. A alteridade pressupõe que eu tenha esse sentido do próximo, assuma para com ele um compromisso e me sinta dependente dele. Ora, um dos elementos da nossa vivência humana onde mais se expressa o egocentrismo (essa centralidade do eu e dos meus interesses, sem contar com os demais) é precisamente na relação com os bens materiais. Se, nos inícios da humanidade, o homem só possuía aquilo que todos recolhiam em conjunto, como fonte de subsistência comum; com o seu desenvolvimento e particularmente com a sua sedentarização, o homem tendeu sempre, cada vez mais, a tornar-se possuidor de uma parte dos bens; ao ponto de, no decurso da história, alguns serem privados de bens em favor de outros. Ou, mais grave ainda: alguns tornaram-se bens materiais para outros. Ultrapassadas essas vicissitudes da história, continuamos na demanda da justiça, que significa dar a cada um o que lhe é devido. Mas estamos longe deste desígnio humano e da finalidade dos bens criados. Na sua doutrina, a Igreja sublinha a universalidade dos bens, ao afirmar: «Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos, segundo a justiça, secundada pela caridade. Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre atender a este destino universal de bens» (GS. 69).

   Acontece que, hodiernamente, a posse dos bens não se esgota no que se acumula, mas fundamentalmente, no respeito pelos direitos mais básicos de toda a pessoa – o direito à alimentação, ao alojamento, à saúde, à educação, à comunicação, à justiça, entre outros.

   Contudo, como se não bastasse a epidemia da fome em vários países africanos e orientais, a falta de acesso a quase todos os bens básicos para a subsistência e vida digna de cada ser humano, que, nessas paragens, se prolonga na história, como sinal evidente do desequilíbrio e egoísmo humanos; confrontamo-nos hoje com novos pobres: as vítimas da guerra, que perdem tudo e procuram refúgio em países onde possam viver com um mínimo de dignidade.

   Todavia, na hora presente da história, o mundo mais rico parece reagir ao contrário: negar, a quem tem necessidade, o básico para que possa viver. Tendência que se iniciou a leste da Europa e parece acentuar-se agora, na extensão a outros países e continentes. A impressão é a de que hoje muitos países tendem a fechar-se, deixando entregues à sua sorte os mais desprotegidos e vulneráveis.

   Este egocentrismo tende ainda a estender-se também às nossas cidades, vilas e aldeias, onde cada um parece entregar-se apenas aos seus interesses pessoais, despreocupando-se com a sorte dos que vivem junto de si e com o serviço do bem comum.

   Ora, necessitamos de redescobrir o sentido da partilha. Não numa atitude assente meramente num certo voluntarismo pessoal; mas sim na perspetiva de uma renovada humanização e de uma autêntica justiça.

   A partilha une-nos, torna-nos próximos, corresponsáveis pelos destinos uns dos outros. Mas, sobretudo, a partilha humaniza-nos, pois como seres sociais que somos, ela traduz um dos traços fundamentais da nossa identidade humana.

  

Pampilhosa, 02 de Fevereiro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(33ª Reflexão)

 

Laicidade inclusiva!


LAICIDADE INCLUSIVA

   Um dia depois de termos terminado, como em cada ano, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos – semana que decorreu de 18 a 25 de Janeiro -, e que levou várias Igrejas Cristãs a reunirem-se para pedirem, em conjunto, esta unidade, fortalecendo entre si os laços de maior comunhão, em autêntico espírito ecuménico; e ainda a poucos dias da entrevista, dada ao Jornal Público (18.01.2017), por José Vera Jardim, Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, em Portugal, entrevista concedida precisamente no início desta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos; retenho aqui duas notas relativas à liberdade religiosa em Portugal. A primeira é do próprio Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa que, aquando da sua tomada de posse, afirmou, com clareza, que nunca teve, nem tem, uma «agenda laicista», pretendendo mover-se essencialmente por um princípio fundamental, na relação com as diversas Igrejas: «a não-discriminação». Princípio claramente ressalvado, a quatro meses de distância do início das suas funções, com bastante moderação, na entrevista concedida, mesmo nos questionamentos e possibilidades que ali deixa em aberto. Por seu turno, a Ministra da Justiça, aquando da tomada de posse deste novo responsável da Comissão da Liberdade Religiosa, em 05 Setembro de 2016, afirmava que reconhecia a importância deste organismo para a manutenção da «paz social», num momento de «renascimento religioso», considerando que, em Portugal, se vive uma «laicidade inclusiva».

   Ora a laicidade define-se como um princípio institucional dos Estados democráticos, separando as funções do Estado das funções das Religiões. Isto é, assume-se uma separação de competências, não exercendo o Estado qualquer poder religioso, nem as Igrejas qualquer poder político. Ao contrário do que alguns possam pensar, esta posição institucional beneficia o Estado e as Igrejas, mantendo-se uma relação de cooperação, mas não de interferência nas competências de cada um.

   Portugal tem sido, neste sentido, bastante moderado – não obstante alguns laivos de laicismo puro, de alguns quadrantes políticos e sociais – se comparado com a maioria dos países europeus. Na verdade, um pouco por toda a Europa, com o seu epicentro em França, grassa um laicismo radical, que, enquanto prática da laicidade, assume uma forte hostilidade ao fenómeno religioso, bem como às práticas desta natureza, pretendendo encerrá-las na esfera do privado. Ora, isto atenta contra os direitos humanos que, na sua Carta Internacional, salvaguarda que «toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião» (art. 18º), bem como contra uma boa parte das Constituições Republicanas que, como a Portuguesa, sublinham que o direito à «liberdade de consciência, de religião e de culto é inviolável» (Constituição da República Portuguesa, Art. 41º, nº 1).

   Entre nós persiste esta «laicidade inclusiva», que respeitando as competências do Estado e das Igrejas, ressalva o direito das pessoas, bem como o reconhecimento humano, social e cultural das diversas Igrejas e a sua possibilidade de expressão. Aqui se insere também a Igreja Católica, não obstante a consideração da representatividade social de cada uma das Igrejas. Esta «laicidade inclusiva» é uma exigência própria dos direitos da pessoa e da sociedade, pois a religião e a vivência da fé são também elementos estruturantes das sociedades e da sua cultura.

   Neste sentido, com razão afirma a Lei da Liberdade Religiosa, decretada pelo Parlamento Português, com data de 22 de Junho de 2001: «O Estado cooperará com as Igrejas e as comunidades religiosas radicadas em Portugal, tendo em consideração a sua representatividade, com vista designadamente à promoção dos direitos humanos, do desenvolvimento integral de cada pessoa e dos valores da paz, da liberdade, da solidariedade e da tolerância» (Art. 5º).
 

Pampilhosa, 26 de Janeiro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(32ª Reflexão)

 

 

 

 

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Turismo Sustentável!


TURISMO SUSTENTÁVEL

   Por determinação da Organização das Nações Unidas (ONU), o ano de 2017 foi declarado o «Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento». Pretendendo esta Organização Mundial que a sustentabilidade do turismo assente em três pilares fundamentais: económico, social e ambiental.[1]E contribuindo, ainda, para um desenvolvimento harmónico, através da promoção de uma melhor compreensão entre os povos de todo o mundo; bem como conduzindo à consciencialização sobre a diversidade e riqueza patrimonial das diversas civilizações.[2]

   Assim, este ano constituirá uma singular oportunidade para uma larga reflexão sobre o turismo e a definição de princípios orientadores que o promovam nas suas diversas componentes, que não apenas a económica, área de atividade humana onde habitualmente se insere.

   Como tantas vezes temos afirmado, no âmbito da Pastoral do Turismo – serviço da Igreja para a área da atividade turística -, fundamentados em vários autores, o turismo tem de entender-se como uma realidade «multidimensional»[3] - económica, geográfica, legal, sociológica, ecológica, antropológica e espiritual.  Só assim, nesta visão global, ele pode compreender efetivamente tais pilares para a sustentabilidade e para o desenvolvimento humano.

   De entre os múltiplos aspetos que poderíamos considerar, partindo dos princípios enunciados, sublinhamos quatro aspetos que nos parecem cruciais para a conceção de um turismo sustentável e que favorecem, igualmente, um autêntico desenvolvimento: uma nova conceção económica, mais solidária; a valorização e promoção social e cultural de cada comunidade de acolhimento; um autêntico diálogo humano, mais fraterno; e o respeito pelo meio ambiente e incremento de um turismo ecológico.

   O turismo, enquanto atividade económica, beneficiando as empresas que lhe estão diretamente ligadas, deve beneficiar igualmente as demais atividades económicas das comunidades de acolhimento, nos seus serviços diretos e indiretos – comércio, artesanato, agricultura, pecuária, entre muitos outros. Por outro lado, os agentes de turismo devem sentir-se corresponsáveis pelo reinvestimento local de alguns dos proveitos económicos, nomeadamente no que respeita a infraestruturas que possam servir a todos, beneficiando as suas atividades próprias e as comunidades locais em que se inserem, numa autêntica corresponsabilidade social.

   Elemento determinante para um turismo sustentável é igualmente o respeito, valorização e promoção de cada cultura local. Num tempo marcado pela globalização e consequente tendência de homogeneização cultural, cada comunidade deve preservar a sua identidade própria, propondo-a a todos os visitantes, que a hão-de acolher, valorizar e promover. Aliás, este é um dos aspetos mais sensíveis para o turismo: ele será tanto mais rico, quanto mais oferecer essa diversidade cultural, acolhida em autêntico respeito e diálogo na diversidade de modos de ser e de se expressar, na inter-relação de povos e comunidades.

   Intimamente ligado a este diálogo cultural, que pressupõe o conhecimento e aceitação incondicional dos outros, nessa sua identidade e expressão, urge revalorizar continuamente o diálogo fraterno entre pessoas e povos. O turismo, neste sentido, pode ser uma autêntica indústria de paz; pois, colocando povos e culturas em relação dialógica, contribui para um acolhimento e respeito mútuo, capaz de conduzir a uma nova vivência de harmonia e paz entre todos.

   Por fim, mas de igual importância, o turismo tem de ser, atualmente, uma atividade promotora de sustentabilidade ecológica, promovendo o respeito pelo meio ambiente e sendo ele mesmo promotor de atividades ecológicas. Tanto mais que a preservação do meio ambiente é essencial para o desenvolvimento da atividade turística. Isto é, a ecologia não é apenas um dever para o turismo, mas é igualmente uma condição necessária para a sua realização.

   Se todos estes princípios se aplicam à generalidade dos espaços turísticos, devemos assumi-los, desde já, localmente, nestas terras bairradinas, onde o turismo cresce – a par do todo nacional e regional – dando rosto a muitas das nossas atividades económicas, sociais e culturais. Que também aqui o turismo seja sustentável e promotor de um autêntico desenvolvimento humano.

 
Pampilhosa, 19 de Janeiro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(31ª Reflexão)



[1] Cf. www.nacoesunidas.org
[2] Cf. Ibidem
[3] PEREIRO PÉREZ, Xerardo – Turismo Cultural. Uma visão antropológica. Tenerife: PASOS – Revista de Turismo e Patrymonio Cultural. Colección PASOS Edita, nº 2, p. 5. Cf. CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A PASTORAL DOS MIGRANTES E ITINERANTES – Prezentationi. In People on the Move, nº 96 (Dezembro de 2004). Disponível em: www.vatican.va

sábado, 14 de janeiro de 2017

Homilia - Celebração das Bodas de Prata de Missa Nova


CELEBRAÇÃO DAS BODAS DE PRATA PRESBITERAIS

Águas Belas – 29.12.2016
 

   Caros Padres, irmãos no sacerdócio ministerial
   Caros Irmãos e Irmãs

   Há vinte e cinco anos atrás, neste mesmo dia do ano, após ter recebido a graça da ordenação presbiteral, na Catedral de Coimbra, pelas mãos do Senhor D. João Alves, de feliz memória, regressava a esta paróquia natal para celebrar a minha Missa Nova. Era, então, Festa da Sagrada Família, o domingo da oitava de Natal.

   Vinte e cinco anos depois regresso, para convosco e aos pés de Maria, a Senhora da Graça, que tantas vezes aqui invoquei, dar graças a Deus pelo dom do presbiterado; dom que o Senhor me concedeu a favor da Sua Igreja.

   O ministério do presbítero, a quem comummente denominamos simplesmente como padre, radica numa especial configuração com Cristo, pois, mediante o Sacramento da Ordem, aquele que o recebe, «por meio da unção do Espírito Santo», fica marcado com um caráter especial que o configura com Cristo-Sacerdote, a fim de poder «agir em nome de Cristo-Cabeça», participando daquela autoridade com que «o próprio Cristo edifica, santifica e governa o Seu Corpo» (PO. 2).

   Ora, celebrar vinte e cinco anos de ministério sacerdotal, motivo de alegria e de comunhão convosco, há-de ser, prioritariamente, um grande momento de louvor ao Senhor pelo dom da Sua graça! Sim; pois sem mérito algum da minha parte, foi o Senhor quem, nestas paragens, me olhou, me chamou, para depois me consagrar e enviar às comunidades cristãs que servi e atualmente sirvo, fortalecendo-me sempre com os dons da sua graça. Mistério de amor que suplanta as minhas capacidades humanas, dom absoluto de Deus, que suprindo todos os meus limites, continua a realizar, através dos meus gestos e das minhas palavras, a missão que, sendo sua, continua a confiar-me. Missão esta que acolho na simplicidade e na humildade e para a qual invoco permanentemente a força do Seu Espírito, para que também eu, como o apóstolo, no meio das dificuldades e limites, possa ouvir da boca do Senhor: «Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a minha força se revela totalmente» (2Cor. 12, 9).

   O espírito desta celebração, em que agradecemos o ministério e, nela, o mistério do amor de Deus a favor da Sua Igreja, necessita de ser permanentemente aprofundado: por mim, para que possa renovar permanentemente a minha configuração com Cristo, Bom Pastor; e por cada um de nós, para que nesta comunidade cristã surjam novas vocações sacerdotais para o serviço da Igreja, em total disponibilidade, de modo a que, com o seu contributo indispensável, em comunhão com o bispo diocesano e seu presbitério, contribuam para a «edificação do corpo de Cristo» em cada comunidade paroquial, onde tornem visível a Igreja Universal (cf. LG. 28), congregando-as em família de Deus, na fraternidade que tende para a unidade, conduzindo-as por Cristo e no Espirito até Deus Pai (cf. LG. 28).

   Ao celebrar vinte e cinco anos de ministério sacerdotal, brotam do meu coração duas atitudes fundamentais, que partilho agora convosco: gratidão e compromisso.

1. Gratidão

   No mistério da Sua encarnação, Jesus Cristo quis assumir toda a nossa humanidade e historicidade. O Deus Menino, apresentado no templo e proclamado, pelo velho Simeão, como «salvador», «luz das nações» e «glória de Israel» (Lc. 2, 30 – 32), como ouvimos no Evangelho, numa referência já à sua identidade como o «Messias do Senhor», assume também, com Maria e José, a nossa realidade familiar. Levando-O ao templo, a família de Nazaré cumpre as prescrições rituais, próprias da lei de Moisés e o Menino é reconhecido como o Salvador. À imagem de Maria e José, cada família é chamada a realizar a sua missão singular, de cumprir quanto lhe é pedido, para que os seus filhos, como Aquele Menino, possam crescer em «sabedoria», em «estatura» e em «graça» (cf. Lc. 2, 52).

   Neste sentido, ao dar graças a Deus pelos vinte e cinco anos da minha ordenação presbiteral, agradeço-Lhe o dom da minha família e, particularmente, o dom de meus pais. Foram eles quem, à imagem de Maria e José, me apresentaram à Igreja e aqui me trouxeram para receber a graça do batismo. Foram eles, ainda, quem, na simplicidade e na dedicação, me testemunharam a fé, a mim e a meus irmãos, para que descobríssemos o rosto próximo do Deus feito Carne; preparando assim o caminho para a minha total consagração.

   De igual modo, dou graças a Deus por esta Comunidade Paroquial de Águas Belas. À imagem de Simeão, foi ela quem me ensinou a reconhecer naquele Menino, apresentado no templo, o «Messias» Salvador, a ponto de formar em mim o desejo de lhe consagrar a minha vida e de a dedicar ao anúncio desta Boa Nova, tornando-a alcançável a todos os povos (cf. LC. 2, 31). Foi na catequese, mediante o testemunho vivo das minhas catequistas; na liturgia, onde exerci, com alegria, o ministério de acólito; no grupo coral, onde cantei os louvores do Senhor; ou naquele grupo de jovens, de existência efémera, mas que me permitiu, em comunhão com a ação sócio-caritativa, viver a proximidade com os mais idosos e doentes; que se foi aprofundando a minha fé e o meu compromisso cristão. Enfim, foi na vida desta comunidade e no vosso testemunho que me preparei para responder ao Senhor que, então, me chamava. Tal como no testemunho sacerdotal dos meus párocos, distintos entre si, mas complementares, encontrei o primeiro modelo de vida sacerdotal. Percurso de fé que se havia de aprofundar e orientar em ordem ao ministério, nos Seminários que frequentei, dando hoje graças a Deus pelos meus formadores e diretores espirituais, com quem discerni, aprofundei e formei a minha vocação sacerdotal; pelos meus colegas, que comigo, de modo fraterno, trilharam caminho semelhante; pelas paróquias de estágio pastoral, onde vivi, na prática, o sentido do serviço; bem como pelos grupos que integrei e que me prepararam para a diversidade da vida eclesial.

   Volvidos vinte e cinco anos sobre a minha ordenação presbiteral, dou graças a Deus, muito particularmente, pelas paróquias que servi e sirvo, pois foram elas que me acolheram e acolhem, para aí realizar o presbiterado que o Senhor me confiou a seu favor. Na amplitude cronológica de vinte e cinco anos, recordo o Seminário Menor da Figueira da Foz, onde iniciei o ministério, ainda diácono; a Paróquia de Paião, onde primeiramente paroquiei, como vigário paroquial; para recordar, depois, as Paróquias de Mira, Praia de Mira, Vilamar e São Caetano; Alhadas, onde colaborei na ausência do pároco; Covões e Bolho, onde permaneci ao longo de cinco anos; para nestes últimos dezassete anos servir as Paróquias de Luso, Trezói, Casal Comba, Mealhada, de que fui pároco interino; e, desde há quase dez anos, a Paróquia de Pampilhosa, cuja paroquialidade me está confiada atualmente conjuntamente com a de Luso. Assumindo ainda, no presente, os novos desafios pastorais com a constituição da Unidade Pastoral da Mealhada. Recordo ainda os serviços diocesanos, com um especial olhar para a Escola de Leigos, atualmente Escola de Teologia e Ministérios; bem como para a Igreja em Portugal, que entendeu confiar-me a direção da Obra Nacional da Pastoral do Turismo. Dou graças a Deus, pois em cada uma destas comunidades e serviços se realizou e realiza o desígnio do Senhor a meu respeito. Agradeço-Lhe, ainda, a diversidade de leigos e presbíteros que comigo trilharam e trilham o serviço pastoral, na necessária complementaridade a bem das comunidades cristãs; bem como agradeço aqueles que, ao longo destes anos, me apoiaram e apoiam espiritual e humanamente.

   Enfim, um olhar grato sobre o passado, que me permitiu ser o que fui, ao longo destes vinte e cinco anos, e sou no presente, recordando especialmente cada uma das pessoas com quem, nas suas alegrias e esperanças, angústias e dores, inquietações e certezas, partilhei e partilho a minha vida. Por tudo isto, faço hoje minhas as palavras do salmista: «Cantai ao Senhor um cântico novo; cantai ao Senhor, bendizei o Seu nome» (Sl. 95).

2. Compromisso

   Celebrar vinte e cinco anos de ministério ordenado é, ainda, momento de balanço – tempo para aferir da minha identificação com Cristo Bom Pastor e de renovar o meu empenho no serviço à Igreja. O percurso, pesem embora as incertezas da história, para cada um de nós, estará eventualmente a meio. Assim, este é um tempo de novo compromisso; tempo de reafirmar os propósitos da primeira hora - da ordenação -, confirmados pelo Bispo, quando este concluía, diante dos propósitos daquele que ia ser ordenado: «Queira Deus consumar o bem que em ti começou». Uma nova hora para assumir que «chamado por um ato de amor sobrenatural, absolutamente gratuito» (DMVP. 13), o Senhor me pede que ame a Igreja como Ele a amou, consagrando-lhe todas as minhas energias e dando-me com caridade pastoral, na entrega quotidiana da minha própria vida (cf. DMVP. 13).

   Mas esta é igualmente uma hora de estímulo para as comunidades cristãs: no sentido de redescobrirem a natureza e missão do ministério do presbítero; e de assumirem o seu compromisso de despertar vocações sacerdotais no seu seio, para que não lhes faltem os dons da graça e da santidade com que Deus permanentemente as adorna, desde logo mediante o sacramento da Eucaristia.

   Necessitamos, hoje, de outras famílias, nas comunidades cristãs, que ofereçam e preparem novos sacerdotes para o seu povo, para que nunca lhe falte o anúncio da Palavra, a celebração dos sacramentos e a edificação, na caridade, da autêntica família de Deus, tendo como modelo a família de Nazaré.

Conclusão

   As comunidades cristãs, que me estão confiadas, quiseram assumir como lema destas celebrações, das minhas bodas de prata presbiterais, a expressão inscrita no memorando da minha ordenação: «Sei em Quem acreditei!» Retirada da 2ª Carta a Timóteo, esta expressão insere-se na profissão de fé de Paulo, quando este exorta Timóteo – seu «filho muito amado» (2Tm. 1, 2) – a reanimar o dom que Deus lhe concedeu pela imposição das suas mãos (cf. 2Tm. 1, 6); convidando-o a nunca se envergonhar «do testemunho de Nosso Senhor», participando, com ele, «nos trabalhos do Evangelho, fortificado pelo poder de Deus» e centrado no mistério pascal do Senhor Jesus Cristo, mediante o qual Deus nos salvou e chama à santidade (cf. 2Tm. 1, 9). Paulo diz sofrer por causa deste testemunho, mas sem nada lamentar, porque sabe em quem acreditou (cf. 2Tm. 1, 12).

   Queridos irmãos e amigos, também eu agora vos peço: rezai por mim! Para que acolha esta exortação de Paulo e a viva no meu ministério: «reanimando constantemente o dom da fé»; na alegria de testemunhar continuamente o mistério do Amor de Deus; renovando a entrega da minha vida ao anúncio do Evangelho, no meio das alegrias e provações, mas sem nada lamentar; para que a graça de Deus chegue a todos os que me são confiados, por «Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus» (1Cor. 1, 24); e todos cheguemos à salvação. Que Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, a quem aqui invocamos como Senhora da Graça, e a quem entreguei o meu ministério, interceda por mim e por todos nós. Ámen!

Homilia - Celebração de Bodas de Prata Presbiterais


CELEBRAÇÃO DAS BODAS DE PRATA PRESBITERAIS

Luso / Pampilhosa – 22.12.2016


   Caros Padres, irmãos no sacerdócio ministerial
   Caros irmãos e irmãs

   Celebrar vinte e cinco anos de sacerdócio é, para mim, fonte de imensa alegria, de graça e de louvor a Deus, sendo igualmente uma ocasião de renovada responsabilidade na minha configuração com Cristo, Bom Pastor. Certo, ainda, de que esta alegria e gratidão se estendem às comunidades cristãs, para quem o Senhor olha com misericórdia e, pelos seus ministros - participantes da «função de Cristo, pastor e cabeça» (LG. 28) - as congrega como família de Deus, em fraternidade que tende para a unidade, conduzindo-as por Cristo e no Espírito até Deus Pai (cf. LG. 28).

   Celebrar vinte e cinco anos de sacerdócio é realmente uma ocasião de graça, precisamente porque, sem mérito algum da minha parte, foi o Senhor quem me olhou, me chamou, me consagrou e me enviou, para que, ao longo de todos estes anos, fortalecendo-me com os seus dons, eu servisse os meus irmãos. Mistério de amor que suplanta as minhas capacidades humanas, dom absoluto de Deus, que suprindo todos os meus limites, continua a realizar, através dos meus gestos e das minhas palavras, a missão que, sendo sua, continua a confiar-me. Missão esta que acolho na simplicidade e na humildade e para a qual invoco permanentemente a força do Seu Espírito, para que também eu, como o apóstolo, no meio das dificuldades e limites, possa ouvir da boca do Senhor: «Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a minha força se revela totalmente» (2Cor. 12, 9).

   O ministério do presbítero, a quem comummente denominamos como padre, radica na configuração com Cristo Pastor, porquanto, mediante o sacramento da ordem, aquele que o recebe, «por meio da unção do Espírito Santo», fica marcado com um caráter especial que o configura com Cristo – Sacerdote, a fim de poder «agir em nome de Cristo – Cabeça», participando «da autoridade com que o próprio Cristo edifica, santifica e governa o seu Corpo» (PO. 2). Ministério e mistério que necessita de ser permanentemente aprofundado na vida de cada presbítero; e que carece da oração e do empenhamento de cada comunidade cristã, para que, a cada uma, nunca falte este dom hierárquico que o Senhor oferece a toda a Sua Igreja.

   Ao celebrar estes vinte e cinco anos de presbiterado, brotam do meu coração duas atitudes, que agora partilho convosco: gratidão e compromisso. Para as explicitar, tomo a Palavra de Deus deste dia, particularmente da primeira leitura e do Evangelho que, por feliz coincidência, nos oferece o Magnificat de Maria.

 
1. Gratidão

   Escutámos na primeira leitura, do livro de Samuel, o cumprimento da promessa de Ana, que havia recebido o seu filho na velhice, depois de uma súplica ardente ao Senhor. Dirigindo-se ao sacerdote Eli, e depois das ofertas rituais, ela exclama: «Eis o menino por quem orei: o Senhor ouviu a minha súplica. Por isso também eu o ofereço para que seja consagrado ao Senhor todos os dias da sua vida» (1Sam. 1, 27 – 28).

   Ana, uma das mulheres piedosas do Antigo Testamento, que recebe uma especial graça de Deus e que, em tempo de Advento, nos aponta para Maria, bem pode ser tomada como símbolo da família, na sua capacidade de oferecer ao Senhor aquele que gerou no seu seio.

   Partindo deste exemplo de Ana, dou graças a Deus pela minha família, onde nasci e cresci, não apenas fisicamente e nas demais qualidades humanas, mas também no dom da fé. Se hoje sou padre, não poderei jamais esquecer o testemunho simples e empenhado de meus pais, que, talvez sem o saberem, me ofereciam ao Senhor como Ana, mãe de Samuel. A mim e a meus irmãos, na vivência de um mesmo batismo, embora na diversidade da vivência cristã.

   De igual modo, dou graças a Deus pela minha comunidade de origem que, à imagem do sacerdote Eli, me acolheu e me orientou na escuta da voz do Senhor – na catequese; na liturgia, onde exerci, com alegria, o ministério de acólito, onde tão apaixonadamente participei no grupo coral, que mais tarde orientaria, em especiais ocasiões festivas; na participação de um efémero, mas vivo grupo de jovens, que me permitiu a vivência da proximidade com os mais idosos e doentes, particularmente em tempos litúrgicos fortes, em relação estreita com o grupo de ação sócio-caritativa de então. Dou graças a Deus, pois esta comunidade de origem foi, também ela, o berço da minha vocação. Se Deus chama através de pequenos sinais, a sua escuta é habitualmente preparada pela vivência global da vida cristã, proporcionada pelas comunidades paroquiais. Neste contexto, ainda, dou graças a Deus pelos padres que colocou no meu caminho, tão diversos, entre si, mas completando-se no seu acompanhamento discreto.

   Dou graças a Deus, nesta hora, por todo o percurso que pude fazer até à ordenação presbiteral – os Seminários que frequentei e seus formadores, onde discerni, aprofundei e formei a minha vocação sacerdotal; pelas paróquias de estágio pastoral, aquando da frequência do Seminário Maior; pelos serviços e grupos que pude integrar e que me prepararam para a diversidade da vida eclesial. A seu modo foram um novo Eli, preparando-me para a missão pastoral.

   Mas, dou graças a Deus, de um modo especial, pelas comunidades paroquiais que servi e que sirvo: foram elas que me acolheram e acolhem, para nelas realizar o presbiterado que o Senhor me confiou a seu favor. Na amplitude cronológica de vinte e cinco anos, recordo o Seminário Menor da Figueira da Foz, onde iniciei o meu ministério; a Paróquia de Paião, onde primeiramente paroquiei, ainda como vigário paroquial; para logo depois recordar as paróquias de Mira, Praia de Mira, Vilamar, São Caetano, Alhadas, onde colaborei na ausência do pároco, e as paróquias de Covões e Bolho. E, vindo da beira-mar para o interior da Bairrada, tomei como casa o Luso, onde, desde há dezassete anos, sirvo a comunidade e, a partir de onde, servi Trezói, Casal Comba e a Mealhada, para, desde há quase dez anos, servir igualmente a Paróquia de Pampilhosa. Nelas, devo dizer, se realizou e realiza o desígnio do Senhor a meu respeito. Num tempo, ainda, de abertura constante a novos desafios pastorais, mesmo territoriais, com a necessidade de novas estruturas intermédias de ação pastoral, como são as Unidades Pastorais. Dou graças a Deus, também, pelos serviços eclesiais de maior amplitude, a nível diocesano e nacional, que fui e sou chamado a exercer. Mais que uma honra, estes serviços permitem-me compreender a missão da Igreja na sua universalidade e a servi-la humildemente nas funções que me são confiadas. Ainda no seio das comunidades cristãs, dou graças a Deus por todos aqueles que me apoiaram e apoiam pastoral, espiritual e humanamente, na vivência do meu ministério presbiteral. A sua ação e empenho, no dinamismo pastoral, contribuíram e contribuem para o aprofundamento do ministério que me está confiado, na necessária complementaridade, em ordem ao serviço das comunidades cristãs. E, se dou graças a Deus pelo compromisso pastoral, agradeço-Lhe igualmente o apoio humano, que me permitiu e permite, ao longo destes anos, a necessária estabilidade pessoal para o exercício da missão. De entre as várias pessoas, que nestes vinte e cinco anos me acompanharam e acompanham, e que hoje recordo com carinho, agradeço a família Mira que, nestes dezassete anos de presença no Luso, tem sido, para mim, como que uma outra família, servindo a comunidade também na ajuda à estabilidade pessoal do pároco.

   Enfim, um olhar grato sobre o passado que me permitiu ser o que fui, ao longo destes vinte e cinco anos, e sou no presente, recordando as comunidades, mas especialmente cada uma das pessoas com quem, nas suas alegrias e esperanças, angústias e dores, inquietações e certezas, partilhei e partilho a minha vida. Bem posso dizer como Maria, no Evangelho: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador» (Lc. 1, 46 - 47). É que, na verdade, à imagem de Maria, também em nós o Senhor faz maravilhas (cf. Lc. 1, 49) e pelo ministério presbiteral que nos confia, «a sua misericórdia se estende de geração em geração» (Lc. 1, 50).

 
2. Compromisso

   Celebrar vinte e cinco anos de ministério ordenado é, ainda, momento de balanço – tempo para aferir da minha identificação com Cristo Bom Pastor e de renovar o meu empenho no serviço à Igreja. O percurso, pesem embora as incertezas da história, para cada um de nós, estará eventualmente a meio. Assim, este é um tempo de novo compromisso; tempo de reafirmar os propósitos da primeira hora, da ordenação, confirmados pelo Bispo, quando este concluía, diante dos propósitos daquele que ia ser ordenado: «Queira Deus consumar o bem que em ti começou». Uma nova hora para assumir que «chamado por um ato de amor sobrenatural, absolutamente gratuito» (DMVP. 13), o Senhor me pede que ame a Igreja como Ele a amou, consagrando-lhe todas as minhas energias e dando-me com caridade pastoral, na entrega quotidiana da minha própria vida (cf. DMVP. 13).

   Mas esta é igualmente uma hora de estímulo para as comunidades cristãs: no sentido de redescobrirem a natureza e missão do ministério do presbítero; e de assumirem o seu compromisso de despertar vocações sacerdotais no seu seio, para que não lhes faltem os dons da graça e da santidade com que Deus permanentemente as adorna, desde logo mediante o sacramento da Eucaristia.

   Necessitamos, hoje, de outras famílias e comunidades que, à imagem de Ana e do sacerdote Eli, ofereçam e preparem novos sacerdotes para o seu povo, para que não lhe falte o anúncio da Palavra, a celebração dos sacramentos e a edificação, na caridade, da autêntica família de Deus.

   Que Maria, na sua inteira consagração ao projeto divino a seu respeito, seja modelo da nossa disponibilidade para continuarmos o anúncio e a vivência do Reino de Deus, na diversidade de ministérios e carismas, para que, também hoje, se perpetue essa outra afirmação do seu Magnificat: «A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem» (Lc. 1, 50).

Conclusão

   Quisestes que estas celebrações, dos meus vinte e cinco anos de presbiterado, se vivessem em torno da expressão inscrita no recordatório da minha ordenação sacerdotal - «Sei em Quem acreditei!». Esta expressão, retirada da 2ª Carta a Timóteo, insere-se na profissão de fé de Paulo, quando este exorta Timóteo - seu «filho muito amado» (2Tm. 1, 2) - a reanimar o dom que Deus lhe concedeu pela imposição das suas mãos (cf. 2Tm. 1, 6); convidando-o a nunca se envergonhar «do testemunho de nosso Senhor», participando, com ele, «nos trabalhos do Evangelho, fortificado pelo poder de Deus» e centrado no mistério pascal do senhor Jesus Cristo, mediante o qual Deus nos salvou e chama à santidade (cf. 2Tm. 1, 9). Paulo diz sofrer por causa deste testemunho, mas sem nada lamentar, porque sabe em quem acreditou (cf. 2Tm. 1, 12).

   Queridos irmãos, rezai agora também por mim, para que acolha esta exortação de Paulo e a viva no meu ministério: «reanimando constantemente o dom da fé»; na alegria de testemunhar continuamente o mistério do Amor de Deus; renovando a entrega da minha vida ao anúncio do Evangelho, no meio das alegrias e das provações, mas sem nada lamentar; para que a graça de Deus chegue a todos os que me são confiados, por «Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus» (1Cor. 1, 24); e todos cheguemos à salvação.

   Que Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, a quem consagrei o meu ministério, interceda por mim e por todos nós!

Paz!


PAZ 

   Desde há cinquenta anos que se celebra, no primeiro dia de Janeiro, o Dia Mundial da Paz. Iniciativa do Papa Paulo VI, que o instituiu em 1967, com os votos de que este dia fosse celebrado não apenas pelos católicos, mas igualmente por todos os homens, independentemente da sua religião. Assim, a cada ano, o Papa publica uma Mensagem alusiva a este dia, com temáticas muito diversas, que se complementam entre si, no convite a cultivarmos a paz!

   Neste ano de 2017, o Papa Francisco propôs-nos como tema da sua Mensagem: A não-violência estilo de uma política para a Paz.

   Atendendo aos diversos dramas e guerras a que o mundo assiste no presente, o Papa propõe particularmente uma atitude de «não-violência», a viver no âmbito das relações «interpessoais, sociais e internacionais». Registo mesmo, da sua mensagem, esta expressão tão significativa para todo o tipo de relações humanas: «Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais» (nº 1). E fundamenta esta não-violência no ensinamento do próprio Jesus Cristo, que a viveu no drama da Sua morte, quando refere: «Jesus traçou o caminho da não-violência, que Ele percorreu até ao fim, até à cruz, tendo assim estabelecido a paz e destruído a hostilidade» (nº3).

   Na sequência destas duas afirmações, e sem descurar a globalidade da mensagem, com os apelos à paz, em contextos distintos, quis assumir com as comunidades cristãs este desafio, que agora alargo a um público mais vasto, com aquele mesmo convite que, então, formulei: «Vivamos a Paz!».

   Ainda que ansiemos sinceramente pela paz internacional e nos angustiemos com a proliferação da violência, vivida em cenários de guerra, não nos podemos deter meramente aqui; mas sim iniciar o culto da paz no âmbito das nossas relações interpessoais e comunitárias. Correspondendo precisamente ao apelo do Papa Francisco, vivendo a caridade e a não-violência nas nossas relações interpessoais e nas nossas comunidades. Ou seja, nas nossas relações de proximidade. Pois é exatamente aqui que a paz começa – no coração e na decisão de cada um de nós, determinados a viver a paz e não-violência com quem partilhamos habitualmente as nossas vidas.

   Cultivemos, então, a paz e a «não-violência»! Começando logo pela renovação dos nossos corações e atitudes, na atenção aos sentimentos que nutrimos uns pelos outros; pelo modo como nos relacionamos, por palavras e gestos; e pela forma como interagimos, particularmente em contextos de discordância de princípios, ideais e atitudes; formando corações pacíficos e dialogantes. Cultivemos a paz, promovendo a educação para a paz em contexto familiar. As nossas famílias, segundo o exemplo e a palavra dos mais velhos, hão-de ser escolas de paz e de crescimento de homens e mulheres pacíficos, fomentando mais a partilha, o diálogo e a aceitação, do que a concorrência, a disputa ou a agressividade. Construamos a paz e a «não-violência» comunitariamente, promovendo o diálogo social, a aceitação das diferenças, a integração de todos, o serviço de uns aos outros, promovendo salutares confrontos de ideias e de perspetivas de vivência comunitária, mas assentes nessa integração da diversidade e na busca do bem de todos.

   Comecemos a vivência da paz a partir de nós mesmos, segundo aquele princípio afirmado por Mahatma Gandhi, uma das referências incontornáveis da vivência da não-violência: «sê a mudança que desejas ver no mundo»! Ainda que parecendo pouco ou mesmo insignificante, só esta decisão pessoal, a partir da transformação de nós mesmos, poderá ser um verdadeiro caminho para a paz e para a vivência autêntica da «não-violência»!

 
Pampilhosa, 12 de Janeiro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(30ª Reflexão)