quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Ambiente


AMBIENTE

   Uma das questões mais candentes da atualidade, não obstante haver ainda quem a relativize, é a questão ambiental. De uma forma muito sucinta, esta pode definir-se como uma preocupação social (há quem refira mesmo um movimento social!) em torno dos problemas que a falta de um desenvolvimento sustentável adequado pode trazer para a qualidade de vida do ser humano, na atualidade, e para o futuro das próximas gerações.[1] Realidade que ultrapassou, há muito, os meandros de algumas ideologias, para assumir lugar importante na agenda política internacional. Pese embora, apesar de algumas decisões assertivas, permaneça enfraquecida face à supremacia de alguns interesses económicos, que relegam para segundo plano a sustentabilidade ambiental. Todavia, estamos num ponto sem retorno. E quem no-lo diz são, uma vez mais, os cientistas. Depois de um primeiro grande aviso sobre as consequências de uma destruição ambiental, de há vinte cinco anos atrás, da Union of Concerned Scientists, acompanhada da assinatura de mais mil e setecentos cientistas independentes, alguns deles prémio nobel da ciência, com o documento «Advertência dos Cientistas do Mundo à Humanidade», de 1992, em que referiam perentoriamente que «é necessária uma grande mudança na nossa gestão da Terra e da vida para se evitar uma vasta miséria humana»[2]; eis que surge agora uma segunda advertência, que nos chama a atenção para o fracasso das medidas tomadas desde então, com exceção da diminuição da camada de ozono, e a advertência de que estamos à beira de uma catástrofe ambiental, sobretudo devido à trajetória das mudanças climáticas, como consequência do aumento dos gases de efeito estufa (GEE), particularmente provocados pela queima de combustíveis fósseis, desmatamento e aumento significativo de produção agropecuária, entre outras causas. Nesta segunda advertência, em que se propõem diversas medidas concretas em ordem a uma nova sustentabilidade ambiental, reafirma-se que «para evitar miséria generalizada e perda catastrófica de biodiversidade, a humanidade deve adotar práticas ambientalmente mais sustentáveis e alternativas em relação às práticas atuais»[3].

   Ora, sem uma visão demasiado pessimista, podemos afirmar que começamos já a sentir os efeitos das alterações climáticas enunciados. Particularmente os países do sul da Europa, como Portugal e Espanha, são dos mais vulneráveis, onde o aumento das temperaturas e a diminuição da pluviosidade mais se fazem sentir, com todas as consequências que daí advêm para a resposta às nossas necessidades humanas mais básicas e às necessidades da produção agrícola. Este ano, em que tivemos menos chuva e temperaturas mais elevadas, ainda que podendo ser um ano de exceção, insere-se, todavia, num ciclo de continuidade temporal que não é muito animador. Assim, necessitamos de nos consciencializar que urge tomarmos medidas eficazes que envolvam a sociedade no seu todo – decisores políticos, empresários, instituições formativas e cada cidadão, em particular. A defesa do ambiente deve ser transversal a todas as nossas atividades – públicas e privadas.

   Mas sintomas deste efeito da crise ambiental registam-se ainda a outros níveis, de que é exemplo a degradação do património histórico construído. Como se pode constatar na Catedral de Notre Dame, em Paris, cujas pedras multiseculares estão a desfazer-se com a poluição, ameaçando ruir. Realidade que afeta outros monumentos, um pouco por toda a parte.

   A preservação do ambiente e, consequentemente, da nossa casa comum, exige-nos uma nova atitude. O Papa Francisco, na sua encíclica Laudato Si (Louvado Sejas – Sobre o cuidado da casa comum), dirigida a todos os cristãos e a todos os homens de boa vontade, faz um apelo veemente neste sentido, interpelando-nos a viver uma autêntica «conversão ecológica» (LS. 217); que compreenda uma nova mentalidade e uma nova atitude na relação com a criação. É que a questão ambiental não é já uma questão ideológica, como alguns ainda querem fazer crer, mas sim uma questão da nossa sobrevivência!

 
Pampilhosa, 30 de Novembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(65ª Reflexão)



[1] Cf. GRUPO ESCOLAR – A questão ambiental. Disponível em www.grupoescolar.com (consultado a 28.11.2017).
[2] Cf. Advertência dos Cientistas do Mundo à Humanidade: um segundo aviso. In Sustentabilidade é ação. Disponível em: http://sustentabilidadenaoepalavraeaccao.blogspot.com (Consultado a 28.11.2017).
[3] Cf. Ibidem.

Dia Mundial dos Pobres


DIA MUNDIAL DOS POBRES

   No passado domingo, a Igreja Católica celebrou, universalmente, o Iº Dia Mundial dos Pobres. Uma celebração instituída pelo Papa Francisco, na sequência do recente Jubileu da Misericórdia. Ainda que sendo um convite dirigido aos cristãos, este dia alarga-se a todos, como refere o Papa Francisco: «Este dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro» (DMP. 6). Para logo acrescentar, numa perspetiva universal: «Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade» (DMP. 6).

   O fenómeno da pobreza tem causas muito profundas e diversificadas, que não podemos analisar aqui, senão enunciá-las: políticas erradas, nacionais e internacionais, incapazes de integrar socialmente todos os cidadãos; interesses económicos desmedidos, por parte de pessoas e empresas; assimetrias geográficas, em termos de capacidade de produção; falta de solidariedade efetiva entre as nações; cultura do bem-estar e do desperdício de alguns, face à necessidade de bens essenciais para outros… Enfim, uma multiplicidade de razões que nos colocam num mundo profundamente desequilibrado, onde uma minoria detém bens de forma excedentária e uma grande maioria não possui os bens essenciais para a sua subsistência e desenvolvimento, como sejam os bens alimentares, o acesso à saúde, à educação, ao desenvolvimento tecnológico, etc. Mas tudo isto resulta essencialmente de uma atitude de egoísmo que marca a nossa humanidade. O Papa Francisco, na sua mensagem para este dia, afirma claramente: «Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão» (DMP. 6). Em conformidade, de resto, com a afirmação da Gaudium et Spes do Vaticano II, que diz: «Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para uso de todo o género humano e de todos os povos, de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade» (GS. 69).

   Ora, se este é o panorama internacional, também a nível nacional vivemos desequilíbrios muito profundos. Bastaria, para o evidenciar, enunciar dois aspetos: num país com cerca de dez milhões de habitantes, mais de dois milhões de portugueses vivem na pobreza; e, no contexto da crise que atravessámos, nos últimos anos, as diferenças acentuaram-se, tendo Portugal registado um número impar de milionários.

   Se é certo que não se pretende nivelar, sem mais, o nível de vida de todos os cidadãos, num igualitarismo ideológico; a verdade é que cabe à Igreja, associada a todos os homens de boa vontade, trabalhar no sentido da implementação da justiça, que mais não é senão o dar a cada um o que lhe é devido! Precisamente o que lhe é devido pela criação, naquela conceção do destino universal dos bens, que está sempre acima de qualquer apropriação pessoal ou de apenas algumas comunidades.

   É certo também que muitos dos nossos concidadãos têm uma incapacidade quase permanente de orientação pessoal e de gestão básica dos seus bens, o que os remete para situações de fragilidade social: por via do álcool, da toxicodependência, da falta de capacidade mental, ou de outras condicionantes pessoais, de caráter familiar ou até mesmo de inadaptação laboral.

   Tendo em consideração todas estas situações, cabe-nos a nós, em espírito de autêntica fraternidade, cuidarmos uns dos outros, não nos alheando dos seus problemas. Ora, é precisamente isto que o Papa Francisco nos pede, com a instituição deste dia. Afirma ele, apontando-nos o grande objetivo do Dia Mundial dos Pobres: «Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste» (DMP. 6).

   Um desafio que se tem de estender para além de um dia; mas cuja recordação, no domingo que lhe é dedicado, tem este desiderato: fazer-nos lembrar que somos todos irmãos e que devemos cuidar uns dos outros, promovendo sempre a justiça e a equidade.

Pampilhosa, 23 de Novembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(64ª Reflexão)

 

Descentralização



DESCENTRALIZAÇÃO

   O drama dos incêndios, deste verão e outono, colocou-nos, uma vez mais, face à questão da administração do território português. Já vai longe, cronologicamente, a pretensão, referendada, de pretender constituir regiões administrativas em Portugal. Todavia, esta questão nunca deixou de ser um dos assuntos em debate nas diversas instâncias de governo e de administração do país. Portugal, apesar de ser territorialmente pequeno, comparado com outros países, necessita absolutamente de um novo modelo administrativo, facilitador de decisões mais céleres, ajustadas e de proximidade em relação às comunidades. Seja por via de entidades regionais, seja pela dos municípios, Portugal tem de se repensar no seu modelo administrativo para ser eficaz e promover um desenvolvimento integrado e coeso de todo o território nacional. Um dos exemplos evidentes desta ação de descentralização e seus benefícios, são as Entidades Regionais de Turismo. Todas elas subordinadas ao Turismo de Portugal, desenvolvem projetos de proximidade e de resposta à diversidade de projetos turísticos próprios de cada região. E, no cômputo geral, têm sido um sucesso. Ora, este exemplo vale para outras áreas e ações de governo e de administração. Caso contrário, uma boa parte do território nacional continua dependente de decisões centralizadas que desconhecem a realidade objetiva e a especificidade de cada região, quer ao nível das suas potencialidades, quer das suas carências. Com a agravante de uma política que tende a privilegiar as zonas mais habitadas, por uma questão de sobrevivência político-partidária. Neste sentido, como ainda há dias alguém referia, no contexto das últimas Jornadas de Pastoral do Turismo, se Portugal fosse como um barco, estaríamos já todos afogados no oceano. Isto para evidenciar o desenvolvimento e investimento no litoral, em desfavor das regiões do interior. Questão semelhante se colocava, há dias, no “Prós e Contras”, da RTP 1, ao olhar para a realidade do Alentejo, particularmente mais interior.

   O fenómeno da centralização, em Portugal, conta já com séculos de história. Se remontarmos ao séc. XVII e, concretamente, à corte de D. João IV, no contexto da afirmação da soberania de Portugal relativamente a Espanha, após o domínio Filipino, reparamos como, ao invés dos tempos anteriores, se intensificou a centralização do poder, com recurso aos Conselhos, que apoiavam o rei na sua governação.[1] Ora, todas as casas senhoriais, para garantirem o seu poder de influência, passam a aproximar-se da corte, passando mesmo a residir na capital, sem abandonar as suas propriedades locais. Neste contexto, ainda que o poder local seja reforçado, nomeadamente no que toca à justiça, com os denominados «juízes de fora»[2], a administração ficou cada vez mais dependente da coroa e dos seus conselheiros.

   Esta modalidade de governo permaneceu, mesmo com regimes distintos, após a passagem do regime senhorial para a monarquia constitucional e, posteriormente, para a república, bem como, ainda, para o Estado Novo, que apesar de ter criado as diversas corporações, por setores de atividade económica, se fundou na Constituição de 1933, que centralizava, uma vez mais, o governo da nação.[3]

   Ora, nos tempos que correm, e após uma nova mentalidade administrativa, Portugal carece de novos meios de administração e de governo: seja por via das regiões; das comunidades intermunicipais, com poderes mais efetivos; ou pelo reforço do poder dos municípios. Só assim o país se desenvolverá globalmente, corrigindo as assimetrias político-económicas e sociais que provêm do passado.

   Um bom exemplo desta necessidade de descentralização é a urgência de uma nova gestão local das florestas: com a prevenção de incêndios; o seu combate; e, atualmente, a necessidade da reflorestação da imensa mancha verde que foi dizimada com os últimos incêndios. Tenho constatado em várias pessoas, entendidas nestas matérias, alguma desconfiança face à capacidade de realizar o trabalho que urge fazer. Isto porque o estado central não consegue, de per si, mobilizar instituições e pessoas neste autentico desígnio nacional. Será na proximidade, com as comunidades intermunicipais e muito particularmente com os municípios que este desígnio se poderá operar. Para tanto, carecemos, nesta matéria, da descentralização de meios – legislativos e económicos, que obriguem e viabilizem os projetos a executar. Tal tarefa só se realizará na proximidade! Tanto mais que o envolvimento, absolutamente necessário, dos cidadãos, só acontecerá através de instâncias de poder locais. A reflorestação do país bem poderia servir de teste a uma certa forma de descentralização, não obstante outras que, com sucesso, já operam neste sentido.



Pampilhosa, 16 de Novembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(63ª Reflexão)



[1] Cf. PROENÇA, Maria Cândida – Uma História Concisa de Portugal. Lisboa: Temas e Debates – Círculo de Leitores, 2015, p. 386.
[2] Cf. Ibidem, p. 390.
[3] Cf. Ibidem, pp. 671 – 672.

Mês das Almas


MÊS DAS ALMAS
 
   O mês de Novembro é conhecido, na tradição cristã, como o mês das almas. Precisamente porque se inicia este ciclo de trinta dias com a Solenidade de Todos os Santos e, muito particularmente, com a Comemoração de todos os Fiéis Defuntos. A que não é estranho, de igual modo, o final do ciclo litúrgico anual, com um particular enfoque na dimensão escatológica da vida – vida humana e de toda a criação. Assim, o convite litúrgico é o de olharmos para as realidades temporais, mas na consciência de que elas não são eternas e que a nossa meta se compreende na transcendência.

   A oração pelas almas – o mesmo é dizer, a oração pelos defuntos, na sua integridade e corporeidade, para ultrapassarmos os conceitos neoplatónicos de separação de corpo e alma – centra-nos particularmente na solicitude para com as almas do purgatório. Ora, falar precisamente de purgatório coloca-nos aparentemente numa posição de choque com a mentalidade hodierna, porquanto muitos consideram o termo purgatório ultrapassado; e poucos são os que acreditam no, então chamado, «fogo do purgatório». Entendamo-nos então: a palavra purgatório, provém do latim purgatoriu, significando purga ou purgativo, que, por sua vez, significa purificar, limpar. Ora, o purgatório não é mais do que um processo existencial de purificação para participarmos na santidade de Deus. Todos nós, homens, fruto da nossa condição frágil, cometemos pecados (as nossas múltiplas fragilidades), o que nos constitui como seres limitados. Por seu turno, só Deus é santo! A santidade é uma especificidade de Deus. Assim, o humano e o divino parecem ser realidades intocáveis, pela sua diferenciação. Que não o são, efetivamente, pois Deus, na Sua bondade, enviou o Seu Filho, que se fez homem – «em tudo igual a nós, exceto no pecado» (cf. Hb. 2, 17) - para nos elevar à condição divina. E Jesus, pela Sua morte e ressurreição – o seu Mistério Pascal -, tornou-se para nós o Cristo, elevando a nossa humanidade a esta condição divina. De tal condição participam todos os batizados, porquanto mediante este dom gratuito de Deus fomos tornados membros de Cristo, participando da Sua própria vida. Assim, o purgatório não é mais do que esta plena configuração com Cristo; dom, recebido no batismo, que nós manchámos ao longo da nossa história, necessitando agora de uma purificação plena. Por outro lado, a conceção literalista do purgatório como fogo provém das conceções teológicas tardo-medievais, que representavam deste modo o lugar de purificação, assumindo, desta forma, a simbologia bíblica. O purgatório não é um lugar, mas sim uma realidade existencial; além disso, não se trata de fogo, mas sim de um total envolvimento da graça divina que nos confronta com a nossa humanidade frágil. Daí que ao referimos a dor – sempre com as categorias humanas -, apenas podemos aludir à dor que advém da consciência da fragilidade humana diante da santidade de Deus. Assim, nós rezamos para que Deus purifique os que fazem esta experiência, numa dimensão meta-histórica, concedendo-lhes plenamente a Sua própria santidade. E se há fogo, há apenas um: o do amor de Deus pelos homens, que o levou a dar-nos o Seu próprio Filho e a conceder-nos a graça de sermos igualmente Seus filhos.

   Sabendo que nos referimos a realidades que nos transcendem, mas reveladas em Jesus Cristo, mesmo que o Evangelho nunca refira explicitamente o purgatório e Jesus, na sua pregação, nos aponte o fogo purificador apenas como imagem; a verdade é que, ainda antes da revelação cristã da vida eterna, todas as culturas referem processos de purificação, como meios de alcançar a eternidade. Apenas as culturas moderna e pós-moderna, com as suas raízes no racionalismo e empirismo racionalista e, ultimamente, fundamentada na enorme capacidade tecnológica, transferiram paulatinamente o conceito de eternidade da sua realidade transcendente para uma dimensão imanente. Isto é, rejeitando a transcendência, procura-se na realidade material e histórica a plenitude da vida – a eternidade. Não obstante este desenvolvimento tecnológico, o envelhecimento e a falência histórica da vida serão sempre uma realidade, segundo os especialistas. Pelo que este ciclo mensal e as suas características, mesmo que esbatidas pela cultura atual e até pela vida eclesial, é uma oportunidade de olharmos para o sentido da vida e para a sua meta plena. A vida não se perpetua definitivamente na história; então qual o seu sentido? Se, para alguns, ela termina com o fim da história pessoal, o que significaria sempre a máxima frustração humana; para outros ela compreende-se à luz de uma eternidade revelada. Todavia, este tempo, para todos, poderá ser uma oportunidade de questionamento interior, face às inquietações fundamentais que sempre persistiram em cada coração humano: para onde caminho eu? Afinal, qual o sentido e o fim último da minha vida?

Pampilhosa, 09 de Novembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(62ª Reflexão)

 

 

 

 

Água


ÁGUA 

    Nestes dias tenho-me sentido particularmente interpelado pelas questões em torno da sustentabilidade e usufruto de um produto essencial à vida – a água. Foram as Jornadas de Pastoral do Turismo, com um painel sobre o ambiente; foi o programa, do canal 1 da RTP, «Prós e Contras», com a temática do desenvolvimento do Alentejo, a problemática da seca persistente, em que temos vivido, e a sustentabilidade nos reservatórios da água, nesta região do país; e é ainda a releitura da Carta Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si. Uma variedade de eventos e leituras que me fazem olhar de outra maneira para um bem essencial que, tão poucas vezes, valorizamos suficientemente.

   Não me vou deter na importância da água, sobejamente conhecida de todos nós. Aliás, basta-nos confrontarmo-nos com uma breve interrupção do fornecimento deste bem indispensável, para todos nós sentirmos quanto dependemos dela, não só como elemento essencial à vida, mas também para múltiplos usos, que vão desde a higiene às demais formas de utilização. E não me refiro já a quem necessita absolutamente da água para o seu trabalho, desde a agricultura, às demais diversas formas de laboração, de pequenas, médias ou grandes indústrias. A água está omnipresente nas nossas vidas e dependemos dela.

   Mas a água é um bem escasso. Sem alarmismos, mas conscientes, sabemos que os períodos de seca, como o que estamos a atravessar, tendem a alargar-se numa perspetiva de futuro. Este é o parecer dos estudiosos do ambiente, ao analisarem as consequências do aquecimento global. É certo que em todos os períodos da história tivemos alternância entre períodos mais húmidos e mais secos, propiciando melhores ou piores condições económicas, sobretudo quando o sustento assentava na produção da terra. Contudo, hoje a realidade é distinta: não se trata apenas de um elemento natural, nas alternâncias climáticas, mas sim de uma consequência da massiva intervenção humana, devido a uma feroz industrialização e suas consequências ambientais.

   Neste quadro, atingimos todo um patamar de bem-estar social e de condições de vida de que não queremos abdicar. Todavia, se não alterarmos os nossos hábitos de consumo, dificilmente conseguiremos manter tal qualidade.

   Muitos de nós, por certo, diremos que esta é uma realidade que não nos toca diretamente, porquanto não é ainda um problema imediatamente nosso. Para além da necessária solidariedade – e mesmo partilha deste bem essencial! – com aqueles que sofrem as consequências da falta de água, temos de nos consciencializar de podemos chegar a um tempo de racionamento deste bem fundamental, mas escasso. Ou melhor, que tende a escassear. Neste sentido, e antes que tal tenha de acontecer, urge tomarmos medidas de poupança que nos possam beneficiar a todos. Poupar água, hoje, não será apenas uma medida económica; trata-se, sim, de um dever cívico, na prossecução de assegurar a todos um verdadeiro bem comum. Com verdade, nos recorda o Papa Francisco, na sua encíclica Laudato Si: «É bem conhecida a impossibilidade de sustentar o nível atual de consumo [de água] dos países mais desenvolvidos e dos setores mais ricos da sociedade, onde o hábito de “desperdiçar e deitar fora” atinge níveis inauditos» (LS. 27), a que acrescenta: «A disponibilidade de água manteve-se relativamente constante durante muito tempo, mas agora, em muitos lugares, a procura excede a oferta sustentável, com graves consequências a curto e a longo prazo» (LS. 28).

   Ora, também neste contexto, do usufruto inteligente e sustentável deste bem essencial, temos de viver aquele princípio defendido, ainda, pelo Papa Francisco, dirigido particularmente aos cristãos, mas também aos homens de boa vontade: necessitamos, na hora presente, de viver uma autêntica «conversão ecológica» (cf. LS. 217), para que a ninguém falte o bem essencial, que é a água, sabendo, também aqui, que «a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar todos» (LS. 93).

 
Pampilhosa, 02 de Novembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(61ª Reflexão)

 

 

 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Questão de Género


QUESTÃO DE GÉNERO!

   Os tempos que correm são particularmente complexos, senão mesmo vertiginosos, ao nível da conceção da pessoa e das suas características essenciais. Vivemos uma pretensa liberdade que poderá ter como consequência uma desagregação psicoafectiva e sexual de muitos jovens, neste período de maturação.

   A teoria de género, que já aqui considerámos, insiste na revisão dos papéis sociais atribuídos ao masculino e ao feminino, considerando que estes foram construções sociais fixistas, que agora urge mudar, conferindo a cada um a liberdade de escolha da sua própria conduta. Todavia, esta teoria – sempre em aberto – tem conduzido a conceções inacreditáveis no que toca à definição de pessoa e à sua autodeterminação quanto ao género, ou géneros, a assumir na conduta pessoal. Ao ponto de, no Canadá, um pai ter conseguido autorização legal para registar o seu filho (e ao afirmá-lo assim, estamos já a referir o masculino!) como tendo um género neutro. Ora, na vida humana não existe o neutro, nem física, nem psíquica, nem afetivamente; nem tão pouco socialmente. O neutro existe apenas, a par do masculino e do feminino, nalguma linguística e nunca na experiência humana.

   Se é certo que a nossa construção pessoal é fruto do meio e dos valores sociais que nos são incutidos, resulta também – como substrato – da nossa identidade biológica, determinada pela natureza. Negá-lo será negarmo-nos a nós mesmos. E, neste momento, a teoria de género avançou exatamente por aí: no afã de conquistar uma pretensa liberdade social, chega a negar a própria identidade biológica. Neste sentido, já não se trata apenas do distanciamento em relação a outras conceções antropológicas, consideradas como conservadoras, como a da Igreja, entre outras, mas sim de um negacionismo daquilo que empiricamente é verificável pela biologia.

   Ora, em nome de uma liberdade absoluta nega-se a pessoa, na sua identidade. O que, em boa verdade, deixa de ser autêntica liberdade, porquanto não serve a realização humana, ao serviço da qual a liberdade se compreende.

   O mais grave destas teorias não é apenas a desestruturação da sociedade e, logo na sua base, da família; mas sim o atentado contra a pessoa humana, a quem se nega uma identidade psicoafectiva e sexual que se vai maturando na inter-relação pessoal e social, mas tendo por base as características biológicas de cada um.

   Neste contexto, em que as distinções são sempre absolutamente necessárias, para não nos confundirmos, outra coisa é a consideração de vivências homoafetivas ou bissexuais. Estas realidades marcam indiscutivelmente um bom número de pessoas e a ciência, ainda hoje, não nos consegue dizer se o seu fundamento é apenas fruto de uma não diferenciação do mesmo género, no processo de maturação, com enfoque na adolescência, ou se existem causas genéticas para tal orientação. Não obstante, não há a negação de um género – masculino ou feminino -, mas sim a tendência para a relação física e afetiva com pessoas do mesmo sexo, ou de ambos os sexos. Estas pessoas, em tais circunstâncias, devem ser acolhidas e respeitadas na sua vivência; ressalvando-se o direito social de quem vive a homoafetivade em estabelecer relações de compromisso pessoal em conformidade com a sua identidade profunda. Forçar alguém a viver o que não sente é também uma violência; e o passado está cheio de realidades penosas, destrutivas de pessoas conjugalmente desajustadas, bem como de relações tensas, onde, não raro, predominam a ansiedade e a mentira.

   Mas cada realidade necessita de um enquadramento próprio, sem confusões, para que se procure sempre o bem da pessoa.

   Ora, neste enquadramento, salvo raríssimas exceções, permitir que um jovem, em maturação física, psíquica e afetiva, tome decisões irreversíveis na sua vida, como é a da mudança de sexo, como defendem algumas forças políticas nacionais, que apresentaram já um projeto lei, determinando que aos dezasseis anos de idade um jovem se possa autodeterminar quanto ao seu género, é algo de muito perigoso. Aliás, o Conselho Nacional de Ética pronunciou-se sobre esta matéria, definindo-a como «inadequada»; e os Bispos Portugueses manifestaram preocupação em relação a tal projeto lei, sobretudo sem que haja um debate profundo sobre tal matéria. Questionar este projeto de lei e aprofundar os seus fundamentos antropológicos é um dever de todos, em sociedade. Pois o que se pretende é sempre e tão só o bem da pessoa; porquanto a pessoa é que tem de estar no centro das nossas preocupações!


Pampilhosa, 26 de Outubro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(60ª Reflexão)

 

 

 

Da Tragédia à Oportunidade


DA TRAGÉDIA À OPORTUNIDADE!

   Este mês de Outubro revelou-se como o mais inclemente deste últimos anos, em Portugal: as elevadas temperaturas para a época, a seca extrema em muitos locais e, por fim – e o mais grave! – os horríveis incêndios que deflagraram por toda a região centro e norte do país, neste último domingo, com um número elevado de perdas de vidas humanas e de múltiplos bens de primeira necessidade para muitas famílias. Um domingo «horribilis», qual autêntico inferno, que se estendia a todo o lado!

   O momento presente é de chorar os mortos e de rezar pelas suas almas, bem como de apoiar os que viram os seus bens destruídos, para que possam, o mais breve possível, refazer as suas vidas.

   Mas esta tragédia não pode deixar-nos imóveis, sarando apenas as feridas. Tem de se constituir como a oportunidade de, efetivamente, pensarmos em novas ações de prevenção, para além da identificação séria e real das causas que estão na base de tantas ignições. Desde logo identificar essas causas e agir em conformidade, custe o que custar. E quando se tratar de crime, agir em conformidade, pois este deve ser punido e não aligeirado, como infelizmente parece acontecer, eventualmente pelo enquadramento da moldura penal, que deverá corresponder à gravidade das situações em causa.

    Posto isto, há que promover ações concretas de reorganização das florestas e da sua reflorestação. Portugal está desfigurado! É necessário, agora, refazer as suas paisagens: a sua mancha florestal e algumas das suas aldeias. As medidas legislativas que compreendem tais ações existem já; importa agora fazê-las passar à realidade. Sabendo, todavia, que temos de ir ainda muito mais longe: é urgente fazer a limpeza dos espaços que envolvem as casas, sem deixar tais tarefas para o verão do próximo ano; e é necessário utilizar novas espécies arbóreas para a reflorestação e, muito em particular, para os espaços envolventes das múltiplas aldeias, recorrendo àquelas que limitam a ação do fogo e, por isso, são denominadas árvores bombeiro ou corta-fogo, ocupando um perímetro razoável em torno destas aldeias, para que possam ser mais seguras, protegendo as suas habitações. Por outro lado, é urgente um ordenamento das florestas que seja efetivo: com exigência junto dos proprietários; com empenhamento dos municípios e das autoridades locais; mas igualmente com incentivos públicos a uma reflorestação equilibrada e inteligente. Criando-se condições para uma gestão mais alargada das florestas, que poderá compreender uma realidade semelhante ao modelo cooperativo.

   Estas ações, ou outras, que se julgarem necessárias, segundo os técnicos, é um imperativo moral para connosco, salvaguardando-se, assim, a tranquilidade futura. Mas é particularmente um dever para com quem perdeu a sua vida nestes incêndios e para com quem, neles, perdeu muito dos seus bens.

   É a segunda vez, este ano, que Portugal chora as vítimas dos incêndios. Não queremos voltar a chorar, num futuro próximo, as consequências humanas e materiais de tais ocorrências. Assim, agir, na hora presente, impõe-se-nos a todos! Autoridades e civis! Como bem afirmava o Senhor Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, «basta de discursos e boas intenções! É imperioso apurar responsabilidades e agir».

   Paralelamente a estas ações, é fundamental implementar medidas de educação ambiental, para que a agressão à floresta e, consequentemente, à vida humana, se converta em defesa de ambas. Uma punição de criminosos incendiários, alguns deles recorrentes, bem poderia passar por aí, com formação teórica e serviço prático nas florestas portuguesas. É que para evitar males futuros, temos de punir severamente quem beneficia do fogo e de reeducar quem perdeu a sensibilidade para a defesa do património natural que nos é comum! Portugal necessita de todo o nosso empenho e de cidadãos dotados de nova mentalidade!


Pampilhosa, 19 de Outubro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(59ª Reflexão)