sexta-feira, 14 de julho de 2017

Gestão Turística e Identidade


GESTÃO TURÍSTICA E IDENTIDADE!

   Estamos no verão! Período do ano em que a maioria das pessoas aproveita para viver alguns dias de férias, retemperando as forças após um ano de trabalho. Mas o verão, para nós, portugueses, tem significado também um maior afluxo de turistas estrangeiros, que nos visitam, aproveitando as qualidades naturais e culturais do nosso país, para usufruírem do mesmo descanso e de algumas atividades lúdicas que Portugal lhes possa proporcionar.

   Certo é que, apesar de o verão ser o período de turismo por excelência, o fenómeno turístico, particularmente de incoming (entrada de turistas estrangeiros em Portugal), já não se resume apenas a esta estação. Com fluxos diferentes, a entrada de turistas regista-se ao longo de todo o ano. O que é uma enorme vantagem económica, pois Portugal tem beneficiado profundamente desta atividade, fazendo com que o país se afirme cada vez mais como destino turístico.

   Todavia, há que salvaguardar alguns princípios fundamentais na gestão turística, para que esta atividade não se sobreponha a outras, conduzindo a situações de instabilidade e insustentabilidade. Como o boom turístico tem sido muito grande, nos últimos anos, há cada vez mais particulares, a par das grandes empresas do setor, a procurar beneficiar das vantagens económicas desta atividade. O que, em parte é legitimo, mas acarretando vários perigos.

   Todos sabemos que os fluxos do mercado – e o turismo, em boa parte, insere-se também aí – se definem por oscilações, variando entre movimentos em alta e em baixa, e não na permanência de uma linha contínua ou sempre em crescendo. Essa é a opinião unânime dos especialistas em economia e comprovável pela história. Portugal beneficia, de momento, ao nível do turismo, de vários fatores: das suas qualidades internas, que é fundamental promover; mas também de múltiplos condicionantes externos, que conduzem à opção por este destino turístico. Daí a necessidade de pensarmos o presente, mas também com o olhar no futuro. Ora, o preocupante é vermos muita gente a querer esgotar o presente sem essa perspetiva de futuro, na gestão da atividade turística, com prejuízo para a identidade das comunidades e com a possibilidade de comprometer o futuro próximo. Há dias ouvia a notícia de que vários proprietários de imóveis nos bairros típicos de Lisboa estão a notificar os seus inquilinos para que abandonem estes espaços, sob pretexto de quererem efetuar obras de fundo nestes imóveis. Sabendo que a lei permite ações de despejo com base neste pressuposto, a verdade é que muitos destes proprietários estão a reconverter os seus imóveis para alojamento familiar, destinando-os precisamente à atividade turística. E aqui está a perversão de um sistema, gerando instabilidade – particularmente para quem é morador – e futura insustentabilidade – pois é possível que não tenhamos, no futuro, mais longínquo, tantos turistas na cidade como presentemente. Conclusão: retiramos dos bairros os habitantes que lhes dão o seu verdadeiro rosto, com uma cultura típica, que tende a apagar-se, perdendo-se o que é genuíno e atrativo nestes bairros; indiferenciamos os espaços, o que lhes rouba o seu interesse; e futuramente podemos não ter turistas a ocupar estes imóveis; o que conduzirá, inevitavelmente, à perda de identidade e à desertificação destes espaços históricos. Ainda que sabendo que a venda de imóveis a estrangeiros, em Lisboa, seja atrativa, mas conscientes de que estes são, para eles, apenas uma segunda residência. O que, na prática, não inverte a tendência de desertificação, já tão acentuada pela falta de condições de habitabilidade nos centros históricos; essa, sim, uma situação a reverter.

   O que acontece em Lisboa, acontece igualmente no Porto, nalguns espaços típicos da cidade, a serem igualmente reconvertidos quase exclusivamente para a atividade turística. Mas, fundamentalmente devemos atender a perigos semelhantes que possam alargar-se a outros âmbitos de ação comunitária, seja ela económica, social ou cultural, sempre que depreciamos ou abdicamos dos nossos valores e da nossa cultura, para dar lugar ao que nos é estranho! Quando assim é, perdemos a nossa identidade e nosso interesse! É que muitos dos estrangeiros procuram-nos devido ao sol, à beleza das nossas paisagens, à nossa gastronomia… mas também devido à nossa alma, presente nos nossos elementos identitários! Se os perdermos, estaremos a comprometer-nos na nossa identidade, mas também na oferta turística que fazemos a quem nos visita.                                  
 
Pampilhosa, 13 de Julho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(53ª Reflexão)

Partilha


PARTILHA!

   Neste último domingo, as comunidades cristãs foram chamadas a partilhar, no ofertório das celebrações eucarísticas, alguns dos seus bens monetários com os irmãos que foram vítimas dos recentes incêndios. Segundo me foi dado observar, não apenas nas comunidades que me estão confiadas, mas também noutras, de que tive conhecimento, as pessoas tomaram como sua esta causa, partilhando generosamente com quem, neste momento, carece de um pouco de tudo. Mas esta vivência da partilha, um sinal muito rico de comunhão, é apenas uma, entre tantas outras – de pessoas, de instituições, de empresas… Na verdade, foi tão grande a generosidade no imediato, após o inclemente flagelo do fogo, que as autoridades locais, dos concelhos afetados, tiveram mesmo de pedir que se abrandasse a entrega de mais bens, sobretudo perecíveis, sob pena de se estragarem; bem como de outros bens materiais, pois já não havia capacidade de armazenamento. Gestos, estes, que definem muito da nossa alma – autenticamente solidária, próxima e fraterna.

   Todavia, como escrevia o Carlos Neves, numa crónica do Correio de Coimbra (nº 4651, de 29 de Junho de 2017), fundamentado nos estudos de Susana Sacavino, a solidariedade humana compreende-se segundo quatro modelos distintos, que ele apresentava de forma gradual: a solidariedade estética, a solidariedade como campanha, como cooperação e a solidariedade como encontro. Convidando-nos a passar dos primeiros modelos, ao modelo da solidariedade como encontro, em que se relativiza “o eu que penso” e o “que me parece”, para dar lugar ao outro, num «encontro efetivo e afetivo com ele, lá no lugar onde ele está, seja o outro uma pessoa ou uma comunidade». Se é certo que, como sublinhava ainda o cronista, todos os modelos têm um contributo a dar e são importantes em contextos como aquele que vivemos, há que privilegiar o encontro, pois só este corresponde à logica mais profunda da solidariedade, em todas as suas dimensões, centrando-nos autenticamente na pessoa daqueles a quem pretendemos apoiar, acolhendo as suas verdadeiras necessidades e ajudando-os a restabelecer a sua vida numa recuperação autêntica das suas condições materiais e afetivas, num respeito singular pela sua dignidade. Sempre num apoio em que o protagonista é aquele que se encontra em necessidade.

   Estas considerações, que li com especial atenção, mais do que me terem deixado a pensar na diversidade de modelos de solidariedade e na sua eficácia, fizeram-me tomar consciência de duas coisas: a necessidade do autêntico encontro e a permanência de um apoio verdadeiramente humano.

   O encontro, em situação de carência, para além do material – absolutamente necessário! – pressupõe o afetivo, a escuta e o amparo emocional. Daí revalorizar agora, ainda mais, as palavras do pároco de Pedrogão Grande, Pe Júlio Santos, logo após aquele infortúnio: «o que mais preocupa é o estado de espírito das pessoas, a parte psicológica»; para logo acrescentar que o mais necessário na primeira hora é mesmo mostrar a proximidade com quem sofre.[1] Na verdade, é necessário reconstruir as condições materiais, para que as pessoas retomem as suas vidas e as retomem com dignidade; mas há vidas que necessitam de se reconstruir interiormente, seja pela dor da perda dos seus familiares, seja pela dor de uma vida transformada num momento. Estar com o outro e atender às suas múltiplas necessidades será, por certo, a melhor forma de viver a solidariedade. E esta faz-se sempre na proximidade.

   Por outro lado, é necessária a permanência. É que nem as condições materiais se recuperam num ápice, sendo, por vezes, longas no tempo; nem as feridas se curam no imediato. Bem sabemos que só o tempo sarará o que um momento feriu. Daí que esta proximidade afetiva também deva permanecer.

   Se nos cabe a todos tomar consciência destes factos, passíveis de serem vividos especialmente pelas pessoas e comunidades de vizinhança, importa que os meios ao nosso dispor (nomeadamente de comunicação, a que havemos de voltar) não nos permitam esquecer! Não para nos dar uma notícia fácil ou de exploração sentimental; mas para nos recordar que a solidariedade é a vivência de um encontro que não se resume apenas a algumas semanas!


Pampilhosa, 06 de Julho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(52ª Reflexão)



[1] Pedrogão Grande. Pároco, filho da terra, preocupado com «estado de espírito» das populações. In Agência Ecclesia, 19 de Junho de 2017.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Mendigos II


MENDIGOS (II) 

   Em reflexão anterior, de há algumas semanas atrás, abordámos a questão da mendicidade, sublinhando o significado deste termo e a sua fundamentação etimológica. Afirmámos, então, que de alguma forma todos nós somos mendigos – de gestos de atenção, de amor, de presença, de reconhecimento, de vida em plenitude!...

    Se é certo que o termo mendum – como referíamos – nos reporta um limite físico, julgo que podemos alargar este âmbito para compreender que todos nós, em virtude da nossa humanidade, estamos marcados por múltiplos limites. A vida humana é um dom incomensurável; todavia, é um dom frágil! Por entre múltiplas possibilidades e sonhos, a vida humana é efetivamente frágil. Mas nós não desanimamos! Para quem tem fé, todo o limite é transitório diante da vida em plenitude: vida que contemplamos e que já recebemos, ainda que na esperança da sua plena realização futura.

   Mas, se a vida humana é marcada por estes limites - e alguns irmãos nossos experimentam-nos de sobremaneira! –, que fazer? Num mundo que tende a valorizar positivamente o indivíduo, mas depois nos projeta no individualismo, enquanto centralidade do eu, sem atenção a quem está ao nosso redor, eis que a resposta é a proximidade, a solidariedade, a comunhão, o amor.

   São tantos hoje os que vivem sós entre multidões, gente que arrasta os seus dramas e fantasmas pessoais sem terem quem os escute! Ora, em autêntica fraternidade, urge saber estar atento a quem nos rodeia, sabendo acolher e ouvir! Num tempo em que as exigências laborais retiram aos pais o tempo e a disponibilidade necessária para escutar e viver o afeto na relação com os seus filhos, urge reequacionar as prioridades, articular as várias dimensões da vida, para que não tenhamos crianças e jovens cada vez mais entregues a si mesmos e às novas tecnologias, mas a crescer sem amor! Esse amor que é essencial para o seu equilíbrio humano! Num tempo em os encargos pessoais, laborais e familiares retiram a necessária disponibilidade para os mais idosos, quantas vezes pais ou familiares diretos, tantas vezes fragilizados pela idade e pela falta de saúde, não basta que procuremos soluções estáveis de resposta às suas necessidades básicas, com o recurso – cada vez mais difícil! – às instituições de solidariedade social. Mas quando tal se manifesta necessário, não os abandonemos, pois o amor de funcionários (e há daqueles que se desdobram em afeto para com todos!) nada há como a ternura  e o amor de um filho, de uma filha, ou de um sobrinho. Mesmo quando ainda bastando-se a si próprios, não podemos descuidar os mais idosos, visitando-os, apoiando-os ou simplesmente tendo algum tempo para estar com eles, para que se quebrem tantos laços de solidão e de sensação de injustiça, pois que muitos vivem o drama de tudo ter feito para bem dos filhos, vendo-se depois esquecidos ou abandonados por estes.

   Quando, em sociedade, nos sentimos tentados a condenar alguns comportamentos, ou porque saem da norma legal, ou porque nos aparecem como estranhos e esotéricos, talvez devêssemos primeiro tornar-nos próximos e compreender o porquê desse modo de ser e de agir. Certamente no respeito pela individualidade de cada um, mas igualmente com a consciência de que há muita gente que não foi verdadeiramente amada! Há gente que, em sociedade, reclama pela negativa o que lhe foi negado – o direito básico ao amor! Há gente mal-amada, com uma baixa autoestima, que necessita mais do nosso abraço do que do nosso juízo! Enfim… são tantas as fragilidades humanas a merecerem a nossa atenção e a fazer-nos perceber que todos somos mendigos! Já nem me refiro às fatalidades, a que todos nós estamos igualmente sujeitos. Em todas as situações cabe-nos viver o cuidado de uns para com os outros. No respeito pela individualidade de cada um, mas em autêntica proximidade.

   Por fim, todos nós temos desejo de vida plena, confrontando-nos, todavia, com a morte! Consciente de que todos, no mais profundo de si, se questionam sobre o sentido da vida e a sua realização, somos mendigos do além; dessa outra realidade, que não vemos, mas que já nos está dada em esperança!

   Vivendo em cada dia o valor singular da vida, prosseguindo o ideal da felicidade, que nos é comum; todos, mais ou menos, somos mendigos! E mendigos porque frágeis! Deixemos, então, que o amor, que é efetivamente o centro construtivo de autêntica humanidade, dê rosto às nossas vidas, em verdadeira comunhão! E da eternidade tenhamos uma sede infinda que nos abra ao dom da própria fonte!


Pampilhosa, 29 de Junho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(51ª Reflexão)

 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Em hora de dor!...


EM HORA DE DOR!...

   O momento presente, em Portugal, é uma hora de dor para todos nós. Pouco valem as palavras, nesta ocasião, quando urge minimizar o que, entretanto, os incêndios já destruíram. Perguntamo-nos, com estupefação: como foi possível este drama? Certamente que o futuro trará – obrigatoriamente – algumas respostas. Sim, porque estes trágicos acontecimentos não podem ficar sem uma necessária e profunda análise, no sentido de se compreenderem profundamente as suas causas, se prevenirem possíveis realidades futuras, bem como para se repensar o território agora devastado!

   Contudo, na hora atual, algumas atitudes se nos impõem: em primeiro, o silêncio e a oração; depois, o apoio à reconstrução material e às vítimas deste enorme flagelo; por fim, implementar as medidas administrativas já definidas para reorganizar a floresta nacional.

      1. Face aos dramas pessoais e familiares que, na sequência do terrível incêndio de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, vêm ao nosso conhecimento, particularmente na atenção aos que morreram, com famílias inteiras dizimadas, ou parte substancial delas desfeitas, resta-nos o silêncio respeitoso de uma comunhão sincera. E, para quem é crente, a oração sincera, que gera comunhão e conforto, pela paz dos que partiram e pelo consolo dos que ficaram. Há momentos na vida humana em que pouco mais podemos fazer, senão o silêncio e a oração. Ainda que sempre numa proximidade afetiva e autenticamente fraterna com quem sofre. As histórias são múltiplas e angustiantes! Unamo-nos nesta comunhão fraterna e na oração.

       2. Paralelamente a esta atitude de memória e oração, impõe-se-nos a ação, na mobilização de todos, no sentido de ajudarmos a prover às necessidades mais básicas de quem perdeu tudo – de quem perdeu “o trabalho de uma vida”, como referia uma vítima deste incidente inclemente. Neste sentido, são múltiplas as campanhas de angariação de bens de primeira necessidade, de contas abertas para apoio monetário, entre outras iniciativas de apoio, que visam mobilizar toda a sociedade portuguesa. Mas há que atender que o processo de reconstrução será longo e exigente. Algumas aldeias ficaram praticamente destruídas e muitos dos seus habitantes perderam todos os seus haveres. Ajudá-los a reconstruir a sua vida, com casa e condições dignas, não se opera apenas no primeiro momento; exige uma partilha mais alargada no tempo. Daí que a Cáritas Diocesana de Coimbra esteja já no terreno a fazer levantamento de necessidades para orientar um programa de apoio às pessoas e às populações. As comunidades paroquiais têm aqui um dever cimeiro, como testemunho de fraternidade e caridade, correspondendo aos pedidos do Bispo Diocesano e do serviço referido. Conscientes, ainda, de que não se trata simplesmente de um apoio técnico, mas de um auxílio que traduza a nossa proximidade e afeto. Como referia o pároco de Pedrógão Grande, Pe. Júlio Santos, numa entrevista à Agência Ecclesia e com palavras que eu próprio lhe ouvi, em conversa pessoal, este momento exige muita proximidade afetiva, para minorar uma dor imensa, de gente que perdeu tudo, quer familiares, quer bens essenciais. O que fizermos que o façamos sempre com este amor e a proximidade possível.

       3. Em terceiro lugar, urge implementar as medidas administrativas já definidas para a gestão da nossa floresta. Já em 2012, a propósito de um artigo no âmbito da Pastoral do Turismo, cuja direção me está confiada, pude escrever «num país verde, como Portugal, infelizmente tão flagelado pelos incêndios florestais, é urgente uma nova política para a floresta e para a reflorestação». Nessa ocasião li mesmo a documentação legal existente sobre a gestão da floresta em Portugal. E pude concluir, então, como várias personagens, de quadrantes sociais e políticos distintos, o têm referido agora, que os estudos estão feitos, as necessidades estão identificadas; as metodologias estão definidas. Basta apenas vencer o que se tem tornado mais difícil: a inércia na aplicação de tais normas.

   Este não é um tempo de balanços e de grandes análises, como muitos têm afirmado. Sem dúvida! Contudo, fica-nos a certeza de que se não tivéssemos abandonado as nossas florestas não seriamos agora vítima delas, como temos sido. Se não cuidarmos da natureza, será ela que se voltará contra nós. E nós?!… Nós não queremos chorar mais mortos de tão inglórios infortúnios!


Pampilhosa, 22 de Junho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(50ª Reflexão)

Mendigos (I)


MENDIGOS (I)

   A palavra mendigo, fruto de novas conceções da pessoa e da sua respetiva integração social, parece ter caído em desuso, dando lugar, atualmente a novas terminologias para definir aqueles que vivem da mendicidade. Com efeito, a palavra mendigo, que significa pedir esmola, comporta na sua raiz o étimo mendum que, no contexto das sociedades pretéritas, se associava à deficiência física, já que o termo latino mendum significa precisamente ter um defeito físico.

  Ora, atualmente convivemos com a mesma prática da mendicidade, mas já sem essa carga estigmatizante. As pessoas que vivem da esmola enquadram-se em categorias diferenciadas, consoante as suas necessidades e o objetivo da recolha das dádivas que pedem. Nalguns casos tais categorias coincidem na mesma pessoa; mas nem sempre. Temos os sem-abrigo, privados das condições mais básicas de vida, a habitar as nossas ruas, devido a fatalidades da sua história pessoal; temos os pedintes, que vivem de uma prática enraizada de mendicidade; alguns toxicodependentes que, não tendo recursos próprios, recorrem à mendicidade para prover às suas necessidades imediatas de estupefacientes que lhes permitam o equilíbrio físico, psíquico e emocional, quantas vezes já completamente comprometido pela presença desses mesmos produtos. Em suma, pessoas que vivem uma extrema carência material, que as incapacita de sobreviver com meios próprios.

   Em termos de respostas sociais, são hoje várias as instituições públicas e privadas, que intentam suprir algumas destas necessidades. Mas a maioria dos problemas de incapacidade de sobrevivência digna persiste em boa parte dos casos. Neste sentido, é com agrado que vejo a iniciativa do Senhor Presidente da República, insistindo com o governo e a sociedade, no sentido de nos mobilizarmos para erradicarmos, desde logo, os sem-abrigo, respondendo às suas necessidades mais básicas de uma casa e de alimentação. Sabendo que, em muitos destes casos, tal processo tem de passar pela reeducação e pela capacidade de oferta de trabalho às pessoas que se encontram nestas circunstâncias.

   Mas esta é uma causa que nos deve mobilizar a todos, mais próximos ou mais distantes deste espetáculo degradante que envergonha a sociedade. Sim, porque aquele princípio afirmado pela Gaudium et Spes do Vaticano II não vale apenas para os católicos, mas é uma interpelação a todos os homens de boa vontade, quando afirma: «Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para o uso de todos os homens e povos, de modo que os bens criados devem chegar equitativamente a todos, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade» (GS. 69).

   Mesmo das situações sociais mais problemáticas, de que é exemplo a toxicodependência, nenhum de nós se pode alhear. Numa sociedade que tende para o individualismo, o mais fácil é ignorarmos estas situações, ou então apaziguarmos as nossas consciências com um pequeno gesto de partilha – uma moeda, por exemplo – pensando que já fizemos a nossa parte. Num tempo em que recrudesce a intervenção cívica, sobretudo na política, com novos movimentos desalinhados das propostas políticas tradicionais, porque não constituirmos movimentos cívicos que pugnem pela resolução destas situações humanas e sociais, no sentido de termos uma comunidade mais justa?

   Todos podemos olhar com distanciamento para as situações de carência alheia; todavia, só seremos autenticamente humanos quando reconhecermos no rosto do outro, em situação de privação, um rosto irmão, a amar e a auxiliar.

   De resto, todos nós somos, em certo sentido, verdadeiros mendigos, como havemos ainda de refletir – de gestos de atenção, de amor, de presença, de reconhecimento, de vida em plenitude!...

   Atendendo a que tudo nesta vida é transitório, ainda que nos prendamos excessivamente ao que possuímos, também nós somos mendigos: essencialmente dessa vida plena, da vida que apenas Outro nos pode dar! É da Sua dádiva de amor e de vida que recolhemos o dom e a obrigação de cuidarmos uns dos outros, como verdadeiros irmãos!


Pampilhosa, 08 de Junho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(49ª Reflexão)

Ternura


TERNURA

   O final do mês de Maio, nas comunidades cristãs de Luso e Pampilhosa, como em boa parte das demais comunidades cristãs da Bairrada, a que pertencemos, foi marcado por duas celebrações, no âmbito da catequese, profundamente marcantes para as crianças e jovens que as celebraram – a primeira Comunhão e a Profissão de Fé (com a nova designação de Festa da Eucaristia e Festa da Fé). Se a primeira consistiu na receção do segundo sacramento da Iniciação Cristã – a Eucaristia -, sempre tão desejada pelas crianças; a segunda acompanhou um momento especial da vida dos adolescentes que a celebraram: o fim do primeiro ciclo da catequese – a denominada catequese de infância – e a sua passagem para a pré-adolescência, com tudo o que esta comporta de transformação física, psíquica, afetiva e até social.

   Mas, destas celebrações, assinalo sobretudo o imenso afeto que as envolveu, vivido pelos pais, familiares, catequistas, pelo pároco e demais membros das comunidades. Contudo, a maior ternura foi aquela que expressa pelas crianças e adolescentes, em sinais simples, sinceros, despretensiosos, genuínos, sem quaisquer outros filtros senão a transparência dos seus sentimentos mais puros e verdadeiros, deu o tom a estas celebrações. Particularmente evidentes, é certo, nas crianças mais pequenas, pois os adolescentes sentem já a necessidade de autocontrolarem estes seus sentimentos. Mas, de igual forma, com a mesma ternura, mesmo que expressa de forma mais contida.

   Refletindo sobre estas celebrações, sentia como aquelas crianças, vivendo tão espontaneamente e em gestos tão simples e sinceros estes sentimentos, nos tocam profundamente, a nós adultos, levando-nos a redescobrirmos o que há de melhor em nós e que por vezes esquecemos – a ternura, o verdadeiro carinho ou o afeto. E sentia como elas nos interpelam a manter permanentemente um coração de criança: igualmente generoso, simples, sincero, terno, capaz de gestos simples e tão significativos. Tocando o que há de mais belo e feliz em nós! Vivendo o que nos faz verdadeiramente felizes. Não que permaneçamos infantis, mas não perdendo – como tantas vezes se afirma – esse coração de criança, no que ele tem de melhor.

   Nem a propósito, quase a findar o mês, acompanhava também o Centro de Assistência Paroquial de Pampilhosa (CAPP) e seus convidados na celebração festiva dos 107 anos de vida da Dona Cacilda Martins; um exemplo precisamente de quem chega a uma provecta idade com um coração de criança. Se tivesse de definir numa palavra a maneira de ser desta senhora, a palavra não poderia ser outra senão essa: ternura! Certamente com as suas dificuldades e limitações, como todos nós, esta senhora, não obstante, é o exemplo evidente de quem viveu e vive uma vida marcada pela ternura. Assim o tenho experimentado eu, ao longo destes dez anos que conto com responsabilidades paroquiais na Pampilhosa; e assim o experimentam tantos outos, creio, a começar pelos utentes e auxiliares do Centro, que partilham o seu dia-a-dia com a Dona Cacilda. Um exemplo de quem sabe cultivar e colher o mais belo fruto da vida, ainda que tal faça parte da sua natureza, mesmo passando por algumas exigências pessoais, como o dever de criar os seus filhos, ficando viúva demasiado cedo. A sua ternura expressa-se na palavra bondosa, na serenidade, no seu ligeiro olhar sorridente, no beijo sincero, enfim: num querer bem que transparece no seu olhar! Nesse olhar físico que agora não pode ter, pois a falta de visão tem sido a sua grande perturbação; mas no olhar interior, o mais importante, em que continua a envolver-nos com doçura.

  Em dia da criança, que hoje celebramos, e tendo como exemplo esta venerável anciã, recolhamos o que a vida nos oferece de melhor: a ternura de uns para com os outros. Num afeto sincero, generoso, sem duplicidades nem interesses, capaz de preencher os nossos corações, nessa sensação de felicidade que todos nós almejamos; bem como a base de uma comunhão sincera que transforma as nossas relações interpessoais em autêntica vivência de fraternidade!  O dia da criança interpela-nos a garantir a cada uma delas as condições necessárias ao seu justo e equilibrado desenvolvimento. Mas ensina-nos também que a ternura é um valor que nunca devemos deixar esmorecer nos nossos corações. Sim, porque as crianças continuam sempre a ensinar-nos!

Pampilhosa, 01 de Junho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(48ª Reflexão)

 

Simplicidade


SIMPLICIDADE

   O fim-de-semana anterior foi marcado por uma diversidade imensa de emoções que encheram as nossas almas, de cidadãos portugueses. Cada uma distinta da outra, segundo a sua própria natureza, teve como traço comum aquilo que posso denominar como simplicidade. Esta palavra, que significa a qualidade do que é simples, que não carece de ostentação, aplicando-se às pessoas ou aos objetos, aponta-nos ainda para outro conceito: o da beleza! Na verdade, o mais belo é aquilo que toca pela simplicidade e pelo que é genuíno, sem grandes construções.

  O Papa esteve em Fátima, como peregrino da paz e da esperança. Apresentou-se, como lhe é habitual, na simplicidade da sua pessoa e da sua ternura, próximo daquela multidão que o aclamou e saudou. Quis ser um simples peregrino entre peregrinos, não obstante a consciência do seu ministério. Convidou-nos a unirmo-nos a ele, enquanto ele se unia a cada um de nós, para, em conjunto e pela sua voz, nos entregarmos aos cuidados da Mãe. Sim, porque como afirmou na sua homilia da Missa, no dia 13, «temos Mãe»! Não me detenho nos múltiplos gestos vividos pelo Papa e que tanto nos tocaram. Recolho apenas dois: a sua simplicidade e proximidade ao sair do papamóvel, no dia 12, à noite, para caminhar pelo recinto do Santuário de Fátima, tornando-se próximo de quem o acolhia; ou ainda a sua emoção e comunhão com os peregrinos, acenando à Virgem Mãe, com o seu lenço branco, na hora do adeus à Virgem. Não obstante ter convidado os peregrinos a não permanecerem numa piedade vazia, partilhou connosco a certeza do amor da Mãe que cuida de nós como seus filhos. Mas, no mesmo contexto, tivemos a graça de ver canonizadas duas crianças – Francisco e Jacinta Marto – que, na sua humildade e simplicidade, tiveram uma graça especial de comunhão com Deus, através de Maria. Mais do que videntes de Fátima, impressiona a sua simplicidade e genuinidade na correspondência à mensagem de Nossa Senhora. Cada um, com a sua personalidade, viveu uma mesma entrega por amor da humanidade. Numa simplicidade e decisão que enternece! Duas crianças a lançarem-nos grandes desafios de vida cristã, sobretudo na contemplação de Deus e na solicitude para com todos os homens, a quem reconhecemos como irmãos. Aqui se expressando aquele princípio bíblico: «se não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus» (Mt. 18, 3).

   Numa realidade completamente distinta, vimos os benfiquistas celebrarem a vitória do seu clube em mais um campeonato – como tetra campeões. Se nem sempre podemos falar de simplicidade neste tipo de celebrações, quantas vezes dadas a alguns exageros, posso, contudo, sublinhar a personalidade de Rui Vitória, o treinador do Benfica. Sempre me cativou a sua forma decidida de trabalhar, sem se deter nas considerações alheias, sobretudo de outros treinadores. Quando pulula o confronto, consegue ser um dos treinadores mais moderados nas suas tomadas de posição, deixando-nos entrever que é na simplicidade do trabalho de cada dia e não no múltiplo palavreado que as vitórias se alcançam.

  Mas, como se não bastasse, o dia 13 iria surpreender-nos ainda com uma outra simplicidade que toca: a vitória de Salvador Sobral (e da sua irmã, Luísa, não o esqueçamos) no Festival Eurovisão da Canção; interpretando o tema português a concurso «Amar pelos Dois». Quando, como outros, pensei que não era uma canção própria para um festival, tive de me redimir e perceber que, na verdade, também aqui o que é simples e genuíno se transforma em algo de tocante. E se a melodia é belíssima, com uma letra que tem conteúdo, expressando ternura e riqueza de sentimentos, impressionou a singeleza da apresentação – com alma, sem ostentação; diria mesmo, de uma forma despojada -, valorizando a comunicação e a arte; isto é, a música e a sua interpretação. Daí que tenha cativado boa parte dos júris nacionais e a esmagadora maioria do público que, no televoto, se manifestou a favor desta simplicidade.

   Enfim, um fim-de-semana cheio e rico, como certamente não teremos muitos outros, onde a simplicidade se transformou em beleza e alegria, expressando, em domínios tão distintos, a nossa alma portuguesa! Com verdade, no meio de todas estas alegrias, bem podemos sublinhar aquele pensamento de Leonardo da Vinci, que nos diz: «A simplicidade é a maior sofisticação». Certamente um princípio a considerar em todos os domínios das nossas vidas!

Pampilhosa, 18 de Maio de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(47ª Reflexão)

Europa


EUROPA 

   Celebrámos nesta semana o dia da Europa, como sempre acontece a 09 de Maio de cada ano. Este dia definiu-se a partir da data do célebre discurso fundador da União Europeia, que teve como sua primeira concretização a CECA – Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Este discurso, proferido por Robert Schumann, Ministro dos Negócios Estrangeiros da França, a 09 de Maio de 1950, ficaria mesmo conhecido como a Declaração Schumann. Inserido no contexto do pós 2ª Grande Guerra Mundial, em que era necessário harmonizar as relações entre a França e a Alemanha, criou o sonho de uma Europa unida e solidária. Efetivamente, podemos definir como principais ideais europeus, já no discurso de Schumann, a paz, a solidariedade, a unidade entre todos os povos europeus, apontando, inclusive, para uma «federação» europeia.[1]

   Estas perspetivas delineadas por Schumann foram acolhidas com enorme entusiasmo, criando-se uma dinâmica que conduziria à atual União Europeia. Aos ideais iniciais, juntavam-se ainda outros, como o de uma europa de culturas, na valorização e respeito por cada cultura nacional, formando, no seu conjunto, um imenso património cultural europeu. Um projeto que tive oportunidade de aprofundar, nos bancos da faculdade, quando estudava História, e que sempre me apaixonou, particularmente quando, a par desta unidade, o mundo se globalizava.

   Contudo, volvidos 67 anos sobre este discurso, a União Europeia vê-se a braços com a sua sobrevivência e com a fidelidade aos ideais que presidiram à sua construção. Com efeito, a Europa deixou de ser uma união solidária, segundo aquela perspetiva de Schumann, como ele afirmava no seu discurso: «A Europa não se fará de um golpe, nem numa construção de conjunto: far-se-á por meio de realizações concretas que criem em primeiro lugar uma solidariedade de facto»[2]. Isto é, uma construção contínua com base na solidariedade entre os povos europeus.

   Ora, se assim foi, nos seus primeiros tempos, a União Europeia organiza-se hoje como uma instituição burocrática, acima dos estados europeus e seus cidadãos, cavando o seu próprio fosso. Sinal evidente disso mesmo são os múltiplos nacionalismos, que o projeto inicial procurou combater, e que pululam atualmente por todo o espaço europeu. É curioso que, na semana em que celebramos o dia da Europa, nos tenhamos sobressaltado com as eleições francesas, onde a extrema-direita, fascista e nacionalista, se afirmou como segunda força nacional para a presidência daquele país.

  Num estudo profundo – uma tese de doutoramento sobre as contradições da União Europeia – o brasileiro Luiz Felipe Osório, define um conjunto de vicissitudes que determinam a atual crise da Europa, que aqui apenas posso elencar: o seu modelo neoliberal, baseado numa moeda sem estado; uma estrutura dominada politicamente por essa economia liberal; a falta de uma fiscalidade unificada; o descolamento da política económica relativamente à política social; uma clivagem imperialista entre o centro e a periferia; e uma forte deterioração democrática.[3] Para acrescentar, a jeito de conclusão: «os tecnocratas comunitários formulam soluções mecânicas e abstratas para lidar com problemas concretos»[4].

   Aceitando tal quadro, que nos parece evidente, consciencializamo-nos que a União Europeia, assente nestes métodos e princípios ideológicos não tem possibilidade de futuro.

  Mas creio – como certamente muitos creem – que a Europa poderá rever-se na sua orientação, refundando-se na sua dinâmica de construção.

   Pessoalmente, julgo ser esta a hora do regresso aos seus ideais de fundação; de regresso ao discurso de Schumann e de tudo o que ele encerra para o progresso integral da Europa; de regresso a uma autêntica solidariedade entre os povos, que mobilize cada europeu em torno de um projeto que sinta efetivamente como seu. Na hora presente, urge afirmar que é necessário determinação para renovar a Europa! A União Europeia ainda tem futuro; assim o queiram os seus principais responsáveis.


Pampilhosa, 11 de Maio de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(46ª Reflexão)


[1] Cf. SCHUMANN, Robert – A Declaração de Schumann de 9 de Maio de 1950. Disponível em https://europa.eu
[2] Ibidem
[3] Cf. Luiz Felipe Brandão Osório – Um Estudo Crítico da União Europeia: contradições do seu desenvolvimento institucional e normativo. Rio de Janeiro, UFRJ, Março de 2015, pp. 140 – 153.
[4] Ibidem, p. 150.
 

Fátima


FÁTIMA

   Estamos no mês de Maio! Um período do ano habitualmente dedicado a Nossa Senhora. Se o mês de Maio, como mês de Maria, vem já de longe na nossa história, ligado às devoções marianas; ganhou, para nós, um novo sentido com as aparições de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, na Cova da Iria, aos pequenos pastorinhos. Maio tornou-se o mês da Senhora de Fátima – nas celebrações marianas que pautam a vida de algumas das nossas comunidades paroquiais, das nossas famílias ou de algumas pessoas individualmente, com a celebração comunitária ou pessoal do terço; nas múltiplas peregrinações penitenciais ou de ação de graças, que enchem as nossas estradas e caminhos, de norte a sul do país, em direção ao santuário de Nossa Senhora; nas celebrações festivas do treze de Maio, que se renovam em cada ano, na consagração a Deus mediante a intercessão maternal de Maria.

   Este ano o mês de Maio ganha um novo colorido e uma nova alegria, na multiplicidade de acontecimentos que viveremos nas celebrações aniversárias, particularmente neste treze de Maio: o Centenário das Aparições aos pastorinhos, na Cova da Iria; a canonização de dois deles – Francisco e Jacinta Marto -; e a visita do Papa Francisco, que virá a Fátima como peregrino «na Paz e na Esperança». Certamente um momento de grande alegria para muitos de nós!

   Mas, no contexto do Centenário das Aparições, muitas vozes se têm levantado em torno da análise do que realmente se passou, há cem anos atrás, no descampado da Cova da Iria. Temos assistido a uma excessiva preocupação de clarificar conceitos como aparição ou visão. Sem me querer deter excessivamente nesta questão, direi apenas que Nossa Senhora apareceu efetivamente aos pastorinhos, porquanto aparição significa, entre outros sentidos, «visão sobrenatural». Ora, é evidente que Maria não apareceu de forma corpórea, física, àquelas crianças, mas sim numa visão espiritual – a «visão sobrenatural». Daí que Lúcia visse e ouvisse sempre Nossa Senhora, enquanto os dois irmãos, Francisco e Jacinta, tivessem experiências diferentes na visão e escuta da «Senhora mais brilhante que o sol». O mesmo acontecendo com as multidões que, entretanto, se foram deslocando para a Cova da Iria, a cada dia treze, particularmente do mês de Outubro, que não vendo Nossa Senhora, apenas testemunharam os sinais da sua presença, como aconteceu com o denominado «milagre do sol». Na verdade, como refere o Cardeal Ratzinger, perfeito da Congregação da Doutrina da Fé, atual Papa emérito Bento XVI, a visão que os pastorinhos tiveram foi uma «força de presença tal que equivale à manifestação externa sensível» (Comentário Teológico à Mensagem de Fátima). Isto é, não foi uma experiência meramente intelectual, muito menos fantasiosa, mas sim uma presença espiritual de tal ordem que bem podemos dizer que para aquelas crianças foi uma vivência real. Por outro lado, há ainda quem afirme que se tratou de uma mentira engendrada pelas crianças ou uma construção da Igreja Católica. Ora, nem aquelas simples crianças tinham capacidade de resistir às pressões a que foram sujeitas, pelas autoridades eclesiásticas e civis, inclusive com ameaças de morte, persistindo na mentira; nem a Igreja reconheceu imediatamente o fenómeno de Fátima, o que só viria a acontecer mais de uma década depois, em 1930.

   Fátima, cuja mensagem «profética» se foi desvendado ao longo destes cem anos, é hoje um singular espaço de espiritualidade. Ali vivemos facilmente a experiência do sobrenatural. E é ainda na história - de cada peregrino, de cada peregrinação, de presença de cada um dos últimos Papas, a começar logo em Paulo VI, em 1967 - que experimentamos o autêntico dom de Deus que, por Maria, Ele nos quer oferecer.

  Mas, mais do que qualquer outra consideração, em Fátima cada um de nós encontra a ternura de uma Mãe que nos acolhe – nas nossas alegrias, tristezas, esperanças e inquietações – e com a sua solicitude maternal nos encaminha para o coração amoroso de seu Filho e para a comunhão amorosa com o Deus Trindade.

   Que Ela, a Mãe que amorosamente quis habitar no meio de nós, nos acolha, nos escute e nos conduza à vida plena no seu Filho Jesus Cristo, a Quem permanentemente nos oferece!

Pampilhosa, 04 de Maio de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(45ª Reflexão)

 

 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Futebol!


FUTEBOL
    Desde sempre, na história, os diversos jogos constituíram a vivência lúdica das pessoas e das comunidades. Para tanto, na antiga Grécia e antiga Roma construíram-se espaços próprios para a prática destes desportos, que eram, simultaneamente, ponto de encontro social e de vivência comunitária. Sem dúvida que algumas práticas eram marcadas pela agressividade dos participantes, como as lutas de gladiadores na antiga Roma, que podiam terminar com a morte de um deles, sob indicação do imperador; ou como as cenas de martírio, nomeadamente de alguns cristãos que, à época, entravam na arena para serem colocados em luta contra animais ferozes, com os quais se debatiam (ou talvez não!), até à morte, para gáudio dos assistentes. A verdade, porém, é que estes jogos e vivências lúdicas serviam para congregar as comunidades, para a sua distração (mesmo que aos olhos do nosso tempo com práticas inaceitáveis!) e não para as opor ou fazer conflituar.

   Ora, as nossas práticas lúdicas – onde se insere uma grande diversidade de vivências culturais e desportivas – evoluíram com os tempos, assumindo modos e contornos diferentes! Uma das práticas desportivas que mais se afirmou, um pouco por todo o mundo, foi precisamente o futebol – jogo que nasce, ainda que sem certeza absoluta, cerca de 3.000 a 2.500 a.c., na China, embora com a sua organização atual no séc. XIX. Esta vivência lúdica evoluiu, com as suas múltiplas equipas, colocando em confronto grupos rivais, que procuravam, no confronto de grupos, alcançar a desejada vitória. É certo que esta rivalidade se inscreve no espírito de luta e confronto que sempre marcaram os vários grupos humanos, visando a vitória. De alguma forma, mimetizando os próprios combates tribais ou comunitários que procuravam a sua subsistência no confronto com o inimigo.

   Mas o futebol tornou-se exclusivamente uma experiência lúdica, onde a oposição entre equipas e adeptos se vivia num espírito de sã convivência e confronto. Daí a afirmação, tão genuína, do denominado fair play que, significando literalmente “jogo justo”, veio a considerar-se como jogo amigável e de respeito mútuo.

   Acontece, todavia, que no presente – e de forma transversal a vários países – o futebol se tornou num combate bastante agressivo. Não tanto ao nível das equipas, onde, não raro, vemos belos sinais de amizade e de respeito entre jogadores, mas sim ao nível dos adeptos e dos dirigentes. É que o futebol tornou-se num imenso negócio, que envolve milhões de euros e a participação de milhares e milhares de pessoas, guiadas, não raro, pelos dirigentes desportivos.

   Portugal vive de forma singular este fenómeno, ou não fosse um país de futebol. Mas aquele que era um fenómeno de sã convivência e de sã rivalidade, transformou-se numa vivência de oposição e de luta, com confrontos verbais e físicos muito cruéis, onde, inclusive e com demasiada frequência, se põe em causa a integridade física de muitos dos adeptos das várias equipas. Sobretudo para muitos elementos das claques de futebol, cujo objetivo seria apoiar a sua equipa, o futebol transformou-se paulatinamente numa vivência de confronto e de agressividade. É certo que nesta vivência de grupo, unidas às convicções de clube, se unem muitas realidades sociais, culturais e até políticas, que formam um caldo propício para este tipo de fenómenos. Serão os psicólogos e sociólogos certamente os mais capazes de explicar tais manifestações. Mas é minha convicção de que as condições apontadas, manipuladas pelos dirigentes desportivos – que neste quadro têm uma responsabilidade acrescida – se constituem como a base onde assenta toda esta agressividade.

   Se é certo que temos de melhorar permanentemente as nossas condições sociais e culturais, temos igualmente de renovar o sentido de fair play, para que o futebol seja apenas e tão só aquilo que é: uma sã competição, entre rivais que se respeitam, como vivência lúdica das comunidades que tanto o apreciam. O futebol tem de ser uma experiência grata e de feliz concorrência entre equipas opostas – numa oposição saudável, na amizade e no respeito mútuo! Precisamos de reavivar o fair play!

Pampilhosa, 27 de Abril de 2017
Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho
(44ª Reflexão)

Avós!


AVÓS

    Há dias senti-me particularmente tocado pela profunda comoção com que um jovem se despedia de um dos seus avós, no contexto da sua partida do meio de nós. E compreendi profundamente tal comoção! Afinal aquele não fora apenas o seu avô, um familiar direto, por quem nutriu um natural carinho, na proximidade normal das relações familiares. Fora muito mais: fora o seu amparo, o seu herói e o seu paciente caminheiro, que tantas vezes manifestou a paciência necessária para o acompanhar, se alegrar e entusiasmar nas suas conquistas pessoais – essas conquistas que se vão alcançando com a idade, cada uma própria da respetiva etapa de crescimento. E aquele avô acompanhou cada uma, especialmente nas diversas fases da sua infância e parte da sua adolescência! Mas, acima de tudo, aquele avô foi o seu companheiro, o seu contador de histórias, o poço de afeto onde, quando criança, aquele jovem mergulhou a sua vida e bebeu da água saborosa do seu amor. Aquele avô abriu-lhe perspetivas de vida, sem o saber, precisamente com as suas histórias, o seu exemplo, e a sua suave conduta, ajudando-o a discernir o que é importante do que não é importante. Numa palavra: aquele avô ensinou-o a ser homem! Esse homem que ele agora quer ser!

   No breve cortejo fúnebre, até ao carro que o levaria à sua última morada, o jovem seguiu silencioso, mas solícito, abraçando a sua avó – essa mulher que acabava de perder o companheiro de todas as horas, mas que fora, para ele, o seu neto, igual suporte de uma infância e de uma adolescência feliz! Essa avó que o acolhia, logo de manhã, em sua casa, para que ele pudesse dormir o último sono do amanhecer, antes de ir para a creche, pois os pais saiam cedo para o emprego; essa avó que o acolhia sempre de sorriso rasgado e com um coração de imenso afeto, quando o avô chegava com ele, pela mão, para lanchar; essa avó que igualmente ouvia as suas histórias e que brincava com ele, nalguns momentos de lazer; essa avó que lhe contava outras histórias, mas do mesmo tempo das do avô, que tanto o faziam sonhar por dentro. Afinal, essa avó desmedida no seu afeto que, quantas vezes, se permitia tolerar pequenos prazeres ou pequenas travessuras, que os seus pais jamais tolerariam – são assim os avós, quase sempre mais condescendentes que os pais, sem fazer perigar um projeto de educação! Por isso aquele jovem a abraçava e sentia dever ser ele, agora, o seu amparo, numa hora de tristeza e de dor.

   Esta história, deste jovem, num contexto natural de separação, será, por certo, a história de tantos jovens e de tantos avós.

   Num tempo em que a vida, felizmente, se prolonga e ganha nova qualidade no avançar dos anos; mas num tempo, igualmente, em que os casais jovens têm tanta dificuldade em conciliar a sua vida laboral com a vida familiar, os avós surgem como uma bênção – um dom para os filhos, permitindo-lhes a organização das suas vidas; mas, sobretudo, uma enorme bênção para os netos, a quem, com uma enorme ternura e disponibilidade dedicam as suas vidas e os seus recursos íntimos, de afeto e ternura, tornando-se nos verdadeiros pilares do seu crescimento humano equilibrado e feliz.

   Certamente que aquele jovem, recordando as suas memórias de infância, de quando olhava o céu estrelado com o seu avô e contemplava as estrelas como se fossem seres pessoais, nas noites da sua vida irá olhar para uma delas e repetir, como tantas vezes terá feito: «Avô conta-me aquela história!». E vai recordar como cada história foi tão importante para si!


Pampilhosa, 20 de Abril de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(43ª Reflexão)

 

 

Páscoa!


PÁSCOA

   A palavra Páscoa, com origem no hebraico pesah e no aramaico phasha, por via do grego pascha, significa literalmente «passagem», ou «trânsito»[1].

   Para o povo hebraico, a páscoa significava a libertação do Egito, pela mão de Moisés e a condução à Terra da Promessa que o Senhor, o Deus de Israel, lhes havia prometido. Na verdade, a páscoa judaica celebra o início desse trânsito e a passagem a caminho da terra prometida. Para os cristãos, a Páscoa toca o mistério mais profundo de toda a nossa existência humana – a passagem da morte à vida! Efetivamente, celebrando o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, o Filho de Deus que desceu à nossa humanidade, e que por nós deu a Sua vida, celebramos igualmente com Ele a nossa passagem a essa mesma vida, como dom que nos vem da graça batismal. Com esta certeza, afirmava São Paulo: «Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Porque, assim como por um homem veio a morte, também a ressurreição dos mortos veio por um homem» (1Cor. 15, 20 – 21). Na verdade, Cristo foi o primeiro a ressuscitar – como primícia – para nos fazer viver uma vida semelhante à Sua. E essa graça já nos foi dada pelo dom batismal, pois, como afirma a Igreja, pelo batismo «somos regenerados como filhos de Deus» e «tornamo-nos membros de Cristo» (CIC. 1213). Ora, ser regenerado significa, etimologicamente, nascer de novo (regenerare), precisamente porque nos tornámos membros de Cristo. N’Ele, o Senhor Vivo e Ressuscitado, vivemos uma vida nova. Este é o grande dom pascal e a fonte de toda a nossa esperança. Por isso esta é a nossa maior alegria, que não nos cansamos de proclamar neste tempo.

   Mas se a Páscoa tem este sentido para quem é crente – judeu ou cristão -, que significado poderá ter para quem não tem fé? Numa perspetiva transcendente, os cristãos creem que Cristo morreu por todos e a todos concedeu já uma vida nova. Por isso se empenham no anúncio permanente desta boa notícia (evangelion) a cada um dos seus irmãos, para que todos n’Ele acolham esta boa nova. Contudo, numa perspetiva meramente imanente ou horizontal, a ressurreição é um convite à permanente renovação da vida humana. Perante as múltiplas situações de morte que a humanidade, e cada um de nós, enfrenta, em tantas circunstâncias, somos convidados, neste tempo, a passar dessas vivências de morte à renovação do dom da vida. São sinais de morte a violência, a guerra, a injustiça, a mentira, a maledicência, a desonestidade, o roubo, a deslealdade ou a infidelidade. Como são sinais de morte tantos vícios que, depauperando a dignidade da vida humana, condicionam a vida como uma existência livre. O tempo da Páscoa, enquanto «passagem» ou «trânsito» é um convite singular à renovação. Passar da morte à vida, significará então assumir a não-violência, a construção da paz, a luta pela justiça e pela verdade, o cultivo da bondade e da honestidade, a lealdade ou a verdadeira fidelidade.

   Mas, acima de tudo, a Páscoa é a grande realização do amor – da entrega da vida de Alguém que, por amor de nós, aceitou oferecer-se até ao fim. Dessa entrega em que emerge a absoluta novidade da Ressurreição. Se a consideramos em sentido pleno, tendo como consequência essa vida que jamais terá fim; não deixamos de a considerar também como um convite permanente, para todos, a fazer da nossa história pessoal e coletiva, uma contínua passagem do nosso egoísmo ao autêntico e verdadeiro amor. Realidade que não é exclusiva de alguns, mas sim património de todos! O amor, que está no centro de toda a vida humana, como seu fundamento e sentido, será por certo o grito maior a ecoar na Páscoa de cada um de nós – crentes e não crentes!

   A todos, votos de uma Páscoa Feliz!



Pampilhosa, 13 de Abril de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(42ª Reflexão)



[1] FLORISTÁN, Cassiano – Voc. Páscoa. In FLORISTÁN, Cassiano – Dicionário de Pastoral. Porto: Editorial Perpétuo Socorro, 1990, p. 402.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Humanidades!


HUMANIDADES

   No Jornal «Público», da passada segunda-feira, José Pacheco Pereira afirmava que o prémio Pessoa, atribuído a Frederico Lourenço, não nos deve «iludir», num artigo intitulado «O nó górdio». Não que o autor discorde da atribuição do prémio; bem pelo contrário: reconhece-o inteiramente merecido. Mas sublinha o cronista que «o mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico» (Público, 03.04.2017).

   Na verdade, a sociedade atual tende a organizar-se em torno das tecnologias e das ciências exatas, definindo-se estas últimas pela sua capacidade de expressar o quantificável, segundo métodos próprios de análise; compreendendo as Matemáticas, a Física, as Engenharias, a Química, as Estatísticas, ou a Computação. Isto em desprimor das ciências humanas, que tendo o próprio ser humano e as sociedades como objeto de estudo, se desenvolvem em áreas tão distintas como a Filosofia, a História, a Arqueologia, a Antropologia, as Artes ou as Letras.

   Não obstante a relativa procura de alguns cursos de ciências humanas ou Humanidades, como a História por exemplo, cujas vagas na Faculdade de Letras, na Universidade de Coimbra, quase sempre se preenchem; há hoje uma subalternização destas áreas do saber, face à procura, por parte do mercado de trabalho, de competências adquiridas no saber tecnológico e nas ciências exatas ou nas ciências naturais.

   Esta situação é sintoma de três dificuldades que advêm da nossa vivência social, no momento presente: um mercado que não se adequou e desvalorizou o potencial de conhecimento que advém das ciências humanas; uma universidade que afunilou a sua oferta, nesta área, restringindo-a a duas ou três áreas de intervenção no mundo laboral, das quais ainda não se libertou; e -o mais grave – o incremento de um enorme desconhecimento da vida humana e suas principais inquietações, da construção da história e seus dinamismos, bem como do desconhecimento dos valores culturais e patrimoniais; limitando, ainda, o sentido crítico face à vida pessoal e em sociedade. Por certo que alguns conhecimentos na área das humanidades inviabilizariam algumas práticas a que hoje já começamos a assistir: no mundo da gestão, da política, dos meios de comunicação, entre tantos outros.

   Necessitamos de redescobrir a unicidade de todo conhecimento, mesmo para quem enverede por uma prática mais tecnológica ou própria das ciências exatas, num diálogo profícuo entre todas as áreas do saber. Sob pena de nos tornarmos autómatos, sem uma autêntica consciência do eu e suas inter-relações sociais. Em última instância, poderíamos chegar ao ponto daquela sociedade concebida por Aldous Huxley, no seu livro Admirável Mundo Novo, publicado em 1932, onde cada um estaria programado para executar uma e única ação em sociedade, segundo a categoria definida nessa estruturação social, mesmo sem a sua conceção do pré-condicionamento biológico.

   É certo que o imediatismo cultural em que vivemos não facilita uma visão de um conhecimento alargado. Mas ele é absolutamente necessário. Tanto mais que todas as áreas do conhecimento, em última instância, tratam do «fenómeno humano», para utilizar uma expressão de Teilhard de Chardin, sem as quais o homem, na sua compreensão, estará sempre incompleto!

 Pampilhosa, 06 de Abril de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(41ª Reflexão)