domingo, 28 de dezembro de 2008

Um Santo Natal!


Um Santo Natal para todos, com as bençãos do Deus Menino!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Nuno Álvares Pereira

Celebramos hoje a Memória Litúrgica de Beato Nuno de Santa Maria. Este nome deriva da sua opção pela vida religiosa, no Convento do Carmo, em Lisboa, que ele manda fundar e onde professa a 15 de Agosto de 1423. Ali permaneceria até às sua morte, que ocorre a 1 de Novembro de 1431. Mas este insigne Beato Português foi o insigne Condestável Nuno Álvares Pereira. Condestável (Conde do Estábulo), assim nomeado por D. João I, em 1385, titulo que lhe é atribuido indicando o mais alto cargo militar da sua época. Este título advém-lhe da sua missão militar, que ele afirmou exemplarmente em vários momentos da sua vida, sobressaindo nas batalhas de Aljubarrota e de Valverde - que lhe mereceram a referida distinção.
Admira-me, contudo, é como este homem que sobe ao mais alto posto militar; que é detentor de grande riqueza, proveniente da sua condição; íntimo da Corte Real, que serviu com lealdade e dedicação; vem depois a adandonar tudo para se fazer um simples irmão leigo carmelita, numa total doação da sua vida a Deus, recolhido em oração. Como hoje referia, na Eucaristia, é um dos modelos de homem que sabe descobrir o bem maior e a ele entregar toda a sua vida. Lá longe, na história, a sua vida continua a ser o espelho que brilha e nos indica a verdadeira Luz, que é Cristo, o único Senhor.
Tenho ainda um afecto especial por este Santo da Igreja (a sua visão beatífica é já sinal de santidade) pois nasceu em Cernache do Bonjardim, a 24 de Julho de 1360, num concelho que pega com o meu. Além disso, a sua família, particularmente o seu irmão Rodrigo Álvares Pereira, detinha propriedade própria na minha freguesia. Por isso a memória deste santo, enquadrado no seu contexto familiar, me faz senti-lo mais próximo de mim.
Que ele, bem aventurado, interceda por nós e nos permita descobrir o bem maior - Cristo a quem descobriu como sua maior riqueza!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Barack Obama!

Os Estados Unidos da América fizeram história, neste final de 2008. Ao eleger Barack Obama como seu Presidente, demonstram-nos a maturidade de uma democracia, que sabe «mudar» quando é necessário. Barack Obama sempre me entusiasmou neste percurso a caminho da Casa Branca - a sua credibilidade, a sua verticalidade, o seu rigor ético, uma imagem clara de um homem atento aos desfavorecidos, alia-se à sua afabilidade, à sua presença, aos seus dotes de bom comunicador. Acredito que esta «mudança» nos Estados Unidos será uma hora de esperança para todos. Além disto, os Estados Unidos mostraram-nos que já é hora de ultrapassar definitivamente qualquer divisão de raça, de credo, ou de qualquer outra realidade que separe os homens entre si. Barack Obama, que vale por si, pela sua credibilidade, pelo seu rigor, não deixa, no entanto, de introduzir este elemento novo: por ser afro-americano torna-se um símbolo de uma fraternidade nova. Ainda que eu não desejasse ter de considerar este elemento, a verdade é que é hora de reconhecer que cada homem é irmão e não há lugar para divisões que assentem em preconceitos. Barack Obama será um símbolo de um tempo novo! Que agora, a partir de Janeiro próximo, este homem possa contribuir para uma sociedade mais justa, mais equitativa, mais humana, mais fraterna. Essa é a nossa esperança! «Yes, we need!»

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Sondagem do Blogue: «Qual a maior necessidade da Igreja, hoje?»


Desde há algum tempo que tinha no meu blogue uma sondagem sobre «Qual a maior necessidade da Igreja, hoje?»
O resultado final, após algumas pequenas variações, confirma a tendência inicial. Aqui fica o resultado:

1º - Desenvolver uma espiritualidade mais profunda - 18 votos (30%);

2º - Adequar a linguagem aos novos tempos - 17 votos (28%);

3º - Promover a formação cristã - 16 votos (27%);

4º - Rever conceitos morais - 6 votos (10%);

5º - Reunir um novo Concílio - 2 votos (3%).

Sem pretender fazer qualquer leitura exaustiva, devo considerar que os três primeiros aspectos se aproximam muito, uma vez que a variação entre eles é miníma. Em segundo lugar, confirmando a mesma tendência expressa noutros âmbitos, o elemento que maior relevo assume é precisamente a necessidade de uma espiritualidade mais profunda. Torna-se este um desafio interessante ao nosso modo de assumir a missão da Igreja e sua fundamentação. Ao mesmo tempo, poderá ser um sinal maior a exigir uma outra profundidade na vida da Igreja. Curioso, também, é o facto de muito poucos expressarem a necessidade de se reverem conceitos morais. E menos ainda a considerar a necessidade de reunir um novo Concílio. Óbviamente que este é um espaço aberto a todos e é sempre impossível definir o perfil de quem consulta o blogue. Numa perspectiva pessoal, foi de grande utilidade esta sondagem. Ainda que não muito expressiva, em termos de número de participantes, uma vez que expressaram a sua opinião apenas 59 pessoas, fica como uma amostragem muito curiosa.
Neste sentido, agradeço, portanto, a todos os que se dignaram participar.

Pe. Carlos Godinho

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A Esperança que não engana!...

Iniciamos o mês de Novembro celebrando duas realidades litúrgicas: a Solenidade de Todos os Santos e a comemoração dos Fiéis Defuntos. Duas celebrações que nos permitem reflectir sobre o sentido da vida e o «destino» do nosso existir. Se a primeira nos faz contemplar o dom a que somos chamados, como expressão máxima do nosso ser, a segunda abre-nos ao sentido da comunhão de irmãos, com aqueles que possam carecer da nossa comunhão espiritual, numa oração que se torna súplica de purificação, em ordem à mesma santidade.
Estas celebrações têm, por outro lado, a particularidade de nos colocar frente a frente com o mistério da vida humana. Efectivamente, a nossa vida como «homens» define-se por uma dimensão do conhecido e por outra, do desconhecido. Existe essa analogia com o mistério da própria Igreja: visível e invisível! E é aqui que se inscreve a particular inquietação humana – que destino para o futuro do homem?
Numa reacção pragmática, inscrita numa certa visão hedonista da vida, tende-se a relegar para o silêncio e o esquecimento esta marca do nosso existir. E, por vezes, lida-se mal com esta marca da vida humana. Todavia esta fuga de nós mesmos não apaga a inquietação que «incendeia» o nosso interior – para onde caminho eu, afinal?
A problemática da morte, e da vida para além desta, sempre foi uma inquietação íntima de todo o ser humano. De resto, as primeiras expressões religiosas do homem, que a arqueologia hoje regista, colocam-nos perante esta mesma inquietação: a morte foi a primeira expressão religiosa que conhecemos dos nossos antepassados. Curiosamente, aí o modo como se inumava o corpo permitia-nos a concepção de outro nascimento, quer pela colocação em posição fetal, quer pelos símbolos que acompanhavam aquele que partia. Depois deste período inicial, encontramos as grandes civilizações e as eloquentes expressões em torno da morte, de que as pirâmides do Egipto são hoje ainda um dos exemplos maiores.
Enfim, a história permite-nos uma percepção profunda da esperança de um futuro para o homem enquanto ser destinado a uma outra vida. Aqui se podiam inscrever, igualmente, muitas das expressões filosóficas e místicas da própria demanda humana pelo se sentido da vida e sua continuidade.
E a revelação cristã? O que nos afirma? Desde logo, partimos desse movimento inverso: já não é apenas o homem à procura de Deus, como fonte de vida; mas é Deus quem procura o homem e se lhe revela. A encarnação de Cristo – Deus feito Homem – abre-nos a uma realidade completamente nova, perante o mistério do nosso existir. Particularmente pela Sua morte e ressurreição, Deus rasga o véu do nosso desconhecimento e abre-nos a uma certeza de fé, que se torna para nós verdadeira fonte de esperança – seremos semelhantes a Deus; partilharemos a condição de Cristo Ressuscitado. Neste sentido, Ele torna-se a nossa única e verdadeira fonte de vida e, consequentemente, de esperança.
Apesar desta certeza, a inquietação marcou ainda a vivência de algumas comunidades cristãs. Lembro particularmente a de Tessalónica. Por isso Paulo, na Carta que escreve aos Tessalonicenses, aborda profundamente este mistério. Neste mês, seria interessante se pudéssemos reflectir estas duas cartas Paulinas, no sentido de aprofundarmos esta esperança que não engana. A sua leitura e meditação poderão ser um óptimo itinerário para a construção de uma vida orientada, ou o mesmo é dizer, para uma vida com sentido.
À inquietação humana responde Deus e diz-nos que só Cristo, Deus feito Homem, é o verdadeiro sentido da vida para toda a humanidade.

Pe. Carlos Alberto G. Godinho

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Desafio Oportuno!

«D. José Policarpo reconheceu que a Igreja pode estar a perder a “sintonia com as pessoas que procuram verdadeiramente Deus”. Durante a conferência sobre « As Linhas Emergentes para a Evangelização da Europa Globalizada e Laicizada», que decorreu em Lisboa e contou com a presença do arcebispo de Viena, D. Christoph Schönborn, o Cardeal Patriarca de Lisboa afirmou que a “estrutura canónica com que é enquadrada a nossa direcção pastoral é demasiadamente rígida para deixar a liberdade de resposta à própria procura de Deus”.
“A Igreja com respostas demasiadamente rígidas e canónicas às inquietações dos fiéis", perde a sensibilidade de chegar a essas pessoas”.»

«Sobre os sinais positivos verificados na acção evangelizadora em Lisboa, o Cardeal Patriarca destaca que “no conjunto de cristãos da cidade de Lisboa, há mais gente que reza e que frequenta a eucaristia durante a semana”.
“Começaram a chegar pedidos e dinamismos na linha da adoração contínua do Santíssimo sacramento. Nós temos de responder a isto", disse. O cardeal patriarca de Lisboa também ainda referiu que "já foi feito um levantamento sobre quais as experiências de adoração do Santíssimo Sacramento".
D. José Policarpo destacou também a participação e adesão dos jovens. “Normalmente somos pessimistas em relação aos jovens. Estamos influenciados pelos critérios da quantidade porque entre os nossos jovens de hoje há casos lindíssimos”, acrescentando que este é “um sinal de esperança”.»

In Agência Ecclesia

Sintomas de Mutação Cultural!

A Nota Pastoral dos nossos Bispos Crise de Sociedade, Crise de Civilização, que aqui tive presente há algum tempo atrás, volta a ser citada por mim. Julgo que esta Nota Pastoral, que desde a primeira hora me agradou profundamente, deve ser retomada na nossa hora presente. É que, na verdade, ela encerra desafios profundos para nós. Além disso, foi escrita com um verdadeiro sentido profético. Vale a pena continuar a reflecti-la. Assim, aqui fica o nº 2 desta Nota:

«Na nossa sociedade sente-se cada vez mais que as regras inspiradoras dos comportamentos, as próprias leis e o sentido global da vida individual e comunitária, deixaram de se inspirar em padrões éticos de valores, num quadro cultural que defina um projecto e um ideal, na linha da nossa tradição cultural, e decorrem ao sabor de critérios imediatistas e pragmáticos, onde não se escondem intenções de alguns grupos de provocar rupturas fracturantes, em relação à tradicional cultura portuguesa, ou mesmo em relação à influência da doutrina da Igreja na sociedade.
Inculca-se um exercício da liberdade sem limites, não percebendo que a dignidade desta reside na responsabilidade; o fenómeno da corrupção tolda o valor da liberdade económica; a crescente marginalização social, agravada com o eclodir de manifestações de violência, gera insegurança e prejudica a harmonia de uma sociedade que se quereria cada vez mais justa; surgem sintomas de falta de confiança no sistema judicial, base indispensável de um Estado de direito, onde cada pessoa sinta garantida a defesa dos seus direitos e da sua dignidade; a toxicodependência e a delinquência juvenil alertam para uma crise da juventude, cuja solução é dificultada pela falta de apoio e protecção à família e pela ausência de uma ousada e inovadora concepção da política de educação; a globalização, acentuada com a mediatização da vida, fez surgir novos poderes, fragilizando aqueles em que, tradicionalmente, assenta a harmonia da sociedade; o poder político está fragmentado e enfraquecido, há sintomas preocupantes de perda de confiança nas instituições, há cada vez mais margem para a ilegalidade e para a anomia.
Nós os Bispos, e toda a Igreja, assumimos as nossas responsabilidades neste processo, desejando contribuir para a sua equação, no quadro da nossa missão específica e na esfera que nos é própria. A Igreja faz parte da sociedade civil, como comunidade organizada. Com a doutrina que propõe e que recebeu do Evangelho e da tradição, com a sua experiência de serviço, quer colaborar com o Estado, com as outras organizações da sociedade civil, em ordem à construção de um Portugal digno da sua tradição e da sua história e à altura das suas responsabilidades, presentes e futuras, na Europa e no mundo. É urgente repensar Portugal, aprofundando a convivência democrática, acentuando, sem hesitações, aquelas linhas de força culturais que garantam a unidade progressiva da nossa civilização, marcada pela abertura à universalidade, pela convivência na diversidade, pela afirmação, sem receios, da tradição humanista de inspiração cristã.» (nº 2)

sábado, 25 de outubro de 2008

«Desalento» Pastoral!

Hoje sinto um forte «desalento» pastoral. Perante desentendimentos no interior de uma Comunidade, vejo como existe uma enorme imaturidade por parte dos cristãos no sentido de assumirem responsávelmente a missão que lhes cabe. A missão advém do Baptismo e não apenas do ministério da Ordem. Este último está ao serviço da vitalidade de todos os baptizados, na linha da assunção desse mesmo baptismo - fora e no interior da Comunidade Cristã! A configuração com Cristo, no Sacramento da Ordem, surge numa linha eminentemente sacramental, enquanto dispensadora da graça de Deus, e não apenas numa linha de governo. Além disto, o que mais me «desalenta» é a incapacidade de alguns cristãos viverem na caridade, como é próprio de irmãos. Jesus não cessa de nos dizer: «o que vos mando é que vos ameis!» (Cf. Jo. 15, 17) E Paulo reforça esta mesma realidade central da vida cristã, ao afirmar: «Não devais a ninguém coisa alguma a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo cumpre a lei» (Rom. 13, 8). É ainda Paulo que nos convida a viver uma verdadeira liberdade que resulta da caridade: «Vós irmãos, fostes chamados à liberdade. Não tomeis, porém, a liberdade como pretexto para servir a carne. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade, pois toda a Lei se encerra num só preceito: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo". Mas, se mutuamente vos mordeis e devorais, vede que não acabeis por vos destruirdes uns aos outros. (...) Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também segundo o Espírito. Não nos enchamos de vanglória, provocando-nos mútuamente, tendo inveja uns dos outros». (Gál. 5, 13 - 15. 25) E é ainda o mesmo Apóstolo que, numa espécie de resumo de toda a vida cristã, nos afirma: «Acima de tudo, revesti-vos da caridade que é o vínvulo da perfeição!» (Col. 3, 14), para logo rematar: «Resida nos vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados, a fim de formar um só corpo». (Col. 3, 15)
No Ano Paulino, estas palavras hão-de cair fundo nos nossos corações, de modo a que construamos verdadeiras Comunidades Cristãs. Que ele, o «apóstolo de todas as gentes», interceda por nós para que sejamos fiéis aos desígnios de Cristo, o Único Senhor!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Uma Cultura da Solidariedade!

Recupero aqui um excerto da Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, Crise de Sociedade, Crise de Civilização, datada de 26 /04 /2001. Julgo que todo o documento mantém uma excepcional actualidade. Este número 8 vem na linha do que escrevi anteriormente.

«Livre e responsável, a pessoa humana é chamada a ser solidária. A solidariedade é a expressão da dimensão comunitária da sociedade, em que o bem comum prevalece sobre o interesse particular, de indivíduos, grupos ou minorias, em que a partilha sublinha a fraternidade e o sentido de serviço inspira a convivência colectiva.
Uma das consequências do pragmatismo imediatista na busca das soluções é o acentuar de atitudes de individualismo, por vezes egoísta, de pessoas e de grupos, toldando a perspectiva do bem comum da sociedade e dando, por vezes, dimensão nacional a interesses de grupos, que pouco ou nada dizem ao conjunto do Povo português.
Precisamos de acentuar uma cultura da solidariedade, em que os direitos dos indivíduos cedam perante as exigências do bem comunitário, e a Nação apareça como comunidade de ideal, na análise dos problemas e na busca das soluções. Para os cristãos, o dever do amor fraterno é a base da solidariedade.» (nº 8)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Pobreza!

Neste tempo que é o nosso, em que seria legítimo esperar um maior bem estar para todos, a realidade é completamente inversa. A cada passo ouvimos falar de crise financeira, de recessão económica, de menor riqueza disponível... Mas, na verdade, são prioritáriamente os mais pobres, ou os que estão em vias de empobrecimento, quem mais sofre. Hoje, as notícias davam-nos conta do aumento do desemprego, de piores condições de vida, de menor capacidade de dar resposta às necessidades mais elementares que se colocam a cada pessoa e a cada família. Numa escala global, é neste quadro que aumenta o número de pessoas que viverão com menos de dois euros por dia. Encontramos aqui, pois, um desafio acrescido à luta pela justiça; a uma nova ordem económica e social; a uma maior justiça na distribuição dos bens. É aqui, também, que surgem apelos profundos ao nosso sentido de solidariedade, de partilha e de sentido do outro. Para os cristãos, aumenta o desafio à vivência da verdadeira caridade. Este tempo traz-nos novos desafios: num mundo globalizado, temos de globalizar a justiça e a partilha.
É neste quadro que cito, a título de desafio, o belo poema de José Régio, intitulado Pobres. Não é expressão apenas de ontem. Antes fora! Mas, infelizmente, é expressão que ganha sentido nos dias de hoje.
Talvez nos mova a ser mais gratos pelo «pão de cada dia», ao mesmo tempo que nos desafia a lutarmos pelo «pão nosso» - um pão que não falte, como devido, a qualquer um dos nossos irmãos.



Pobres

O Sol fundira em oiro a névoa fria;
Num banho de oiro, a Terra jaz, prostrada;
Um velho lamuria ao rés da estrada,
E eu louvo o dom da luz de cada dia.

Já, no céu roxo, o Sol, que ardeu, se esfria;
Cai, no silêncio, a tarde repousada;
Sinistro, um velho estende a mão gelada,
E eu louvo o dom do pão de cada dia.

No ar molhado e absorto, ascende a Lua;
Roçam-me alguns que dormirão na rua...
E eu louvo o dom dum tecto e uma candeia.

... Até que fala Alguém a quem não minto:
E o meu louvor de tais meus dons, - o sinto
Mais miserável que a miséria alheia!

(José Régio, Pobres in Poesia I, INCM, p. 136)








sábado, 18 de outubro de 2008

Amizade!

Achei muito belo este pensamento, que deixo aqui, em jeito de partilha! Assim é....

«A viagem mais importante que podemos fazer na vida é encontrar pessoas pelo caminho.»


(Autor desconhecido)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O Dom da Família!

Hoje, ao passar pela experiência dolorosa de ver partir para a eternidade um familiar próximo - uma tia, irmã de meu pai - e de partilhar a dor de meus primos e tio, senti como é tão importante aproveitar cada dia para cultivar o dom da família que nos foi dada; família que - sabemo-lo - é sempre «limitada» no tempo da nossa existência. É certo que acreditamos numa comunhão e presença que nos projecta para além desta vida. Todavia, o dom da família é uma graça que nos é dada aqui, nos limites da nossa existência histórica.
Enquanto conduzia, de regresso às paróquias, detinha-me nos meus pensamentos e na consciência da «voracidade» do tempo - os pais e tios em idade provecta; os pequenos sobrinhos e primos que deixam de ser crianças para se tornarem adolescentes e jovens; e nós próprios, eu e meus irmãos, confrontados com uma maturidade que pareceu surgir depressa demais... É verdade: o tempo não cessa de passar!...
De modo a que não nos deixe a sensação de vazio, há que viver cada momento na comunhão com aqueles que nos são queridos. Se adiamos para amanhã, esse amanhã pode ser tardio. Senti, como poucas vezes, o receio da perda! Mas senti, essencialmente, o quanto amo aqueles que Deus me deu, ou a quem Deus me deu, numa «urgência» interior de expressar hoje o amor que não posso adiar para o indicifrável amanhã! Tanto mais, que esta é uma das nossas maiores riquezas - a Família!
No meio da dor partilhada, foi bom experimentar como o reencontro com tantos que fazem parte de nós nos enriquece tão profundamente! É que na verdade a vida desencontra-nos! E o reencontro refaz-nos nessa comunhão tão bela que nos faz sentir pertença de alguém!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Programa Pastoral 2008 / 2009

Está já disponível no blog da Unidade Interparoquial de Luso e Pampilhosa, em http://luso-pampilhosa.blogspot.com o Programa Pastoral para este ano de 2008 / 2009. Apresenta-se uma primeira versão descritiva e uma segunda de operacionalização do programa. Fica, assim, disponivel para consulta e aberto a outros contributos e sugestões. Este é, efectivamente, o meio mais fácil de o divulgar.
Abraço a todos.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Novo Blog!

A partir de agora modero um novo blog: «Unidade Interparoquial de Luso e Pampilhosa». É um espaço aberto à participação de todos os que o desejarem. De um modo particular, é um espaço aberto a todos os membros das duas Comunidades Paroquiais.
O endereço é: http//luso-pampilhosa.blogspot.com

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Matrimónio e Família!

Há dias referia aqui Lipovetsky, na sua concepção de pós-modernidade, autor que nos diz que a sociedade hodierna - pós-moderna - exacerbou princípios como são o individualismo, o consumismo e a ética hedonista. Cito-o, também, no Plano Pastoral que elaborei para as Comunidades Paroquiais que me estão confiadas. Duas realidades actuais que manifestam este individualismo e esta ética hedonista são o matrimónio e as «novas» concepções de família, em que a sociedade se baseia. Na verdade, tudo assenta no sentimento ténue, numa desresponsabilização face a um projecto, que comporta um compromisso face ao outro e face à sociedade. Não pretendo aqui, todavia, analisar detalhadamente o assunto. Sinto - e por isso o assumi no contexto de planificação pastoral! - que o matrimónio e a família necessitam de uma atenção especial por parte dos cristãos. De umo modo claro, hoje, mais que nunca, os casais cristãos são chamados a testemunhar uma outra conjugalidade e um outro sentido de família. Há pouco, visualizando o video-reportagem que abriu o «Prós e Contras» sobre a problemática da lei do divórcio, reparava no dado seguinte: em cada 100 matrimónios, 48 desfazem-se. Isto é, quase 50% dos casamentos são desfeitos. Pergunto-me (e deixo a questão em aberto, para quem quiser responder!): que futuro para o matrimónio? Que futuro para a família? Que futuro para uma sociedade estável? Que futuro para testemunho das famílias cristãs?

OBS. Não pretendo aqui fazer valer, a todo o custo, uma estrutura que muitos dizem ter sofrido uma «evolução». Tão pouco defendo a «estrutura familar» na sua aparência. Acredito que ela é basilar para o equilíbrio pessoal dos cônjuges; para o equilíbrio afectivo, psicológico e social dos filhos; e para o equilíbrio das sociedades. Não é uma vontade de permanência que me move, mas sim uma verdadeira convicção. Já agora, fica, como imagem a ilustrar esta postagem, a capa de um livro que procura salvar a união comjugal. Não conheço o livro; achei curioso o título! Talvez um desafio para os casais cristãos!

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A Nova Lei do Divórcio!

Acabo de ver o debate sobre a nova lei do Divórcio, no programa «Prós e Contras». Entre argumentos e contra argumentos (nem sempre tão serenos quanto se deveria esperar, como sinal de realidade amadurecida!), acabo por concluir que a nossa vida em sociedade tem cada vez menos consistência. Isto é: cada vez mais o nosso viver conjunto assenta num mero sentimento pessoal, relegando para segundo plano a dimensão do compromissos assumido; a noção do dever para com o outro. Não me manifesto quanto às virtualidades e defeitos da nova lei. De resto, nem sou jurista, nem tive oportunidade de ler a nova proposta. Parece-me é que o conceito de base, que suporta uma relação, assenta cada vez mais num sentimento e menos num compromisso das partes. Com esta nova concepção, vem ao de cima o conceito de amor assumido pelo comum da sociedade. Será o amor um simples sentimento? Não será também uma exigência de doação e de construção da relação com o outro? Em que valores se fundamenta a união matrimonial?
Bem... a discussão será vasta... Mas parece-me que a nossa vivência social assenta cada vez mais numa visão hedonista da vida, em que o sentido de compromisso, de dever, a noção de exigência como forma de constutir uma vida verdadeiramente humana, são postergados para uma concepção passadista que nada tem a ver com a modernidade. Não sei se a breve trecho não viremos a ser as vítimas desta fragilidade em que fazemos assentar as nossas vidas em comum...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Pós-Modernidade!

Quando falamos tanto em pós-modernidade, achei interessante colocar aqui um breve resumo do que se entende por este nosso período da História:
«Pós-modernidade é a condição sócio-cultural e estética do capitalismo contemporâneo, também denominado pós-industrial ou financeiro. O uso do termo se tornou corrente, embora haja controvérsias quanto ao seu significado e pertinência. Tais controvérsias possivelmente resultem da dificuldade de se examinarem processos em curso com suficiente distanciamento e, principalmente, de se perceber com clareza os limites ou os sinais de ruptura nesses processos.
Segundo um dos pioneiros no emprego do termo, o francês
François Lyotard, a "condição pós-moderna" caracteriza-se pelo fim das metanarrativas. Os grandes esquemas explicativos teriam caído em descrédito e não haveria mais "garantias", posto que mesmo a "ciência" já não poderia ser considerada como a fonte da verdade.
Para o crítico
marxista norte-americano Fredric Jameson, a Pós-Modernidade é a "lógica cultural do capitalismo tardio", correspondente à terceira fase do capitalismo, conforme o esquema proposto por Ernest Mandel.
Outros autores preferem evitar o termo. O sociólogo polonês
Zygmunt Bauman, um dos principais popularizadores do termo Pós-Modernidade no sentido de forma póstuma da modernidade, atualmente prefere usar a expressão "modernidade líquida" - uma realidade ambígua, multiforme, na qual, como na clássica expressão marxiana, tudo o que é sólido se desmancha no ar.
O filósofo francês
Gilles Lipovetsky prefere o termo "hipermodernidade", por considerar não ter havido de fato uma ruptura com os tempos modernos - como o prefixo "pós" dá a entender. Segundo Lipovetsky, os tempos atuais são "modernos", com uma exarcebação de certas características das sociedades modernas, tais como o individualismo, o consumismo, a ética hedonista, a fragmentação do tempo e do espaço.
Já o filósofo alemão
Jürgen Habermas relaciona o conceito de Pós-Modernidade a tendências políticas e culturais neoconservadoras, determinadas a combater os ideais iluministas

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Crise de Vocações!

Dizemos, frequentemente, que estamos a passar por uma crise de vocações. E é verdade: à semelhança de outros momentos da História da Igreja, atravessamos uma crise de vocações!
Mas eu pergunto-me: que crise de vocações? Serão apenas as vocações de consagração - sacerdotais, religiosas, de leigos consagrados - que estão em crise? Parece-me bem que não. Sem ser pessimista, julgo que a crise é muito mais generalizada: temos uma crise de vocações baptismais, que é tranversal a toda a comunidade cristã. Por isso me «irrita» quando leio alguns comentários que persistem em culpar os padres da falta de leigos empenhados. Na verdade, assumo que existiu (talvez ainda exista em determinados sectores) uma prática excessivamente clericalizada, que ainda hoje enforma as nossas vivências e limita a participação de todos. Mas, a mais de quarenta anos do Concilio Vaticano II, com tantas acções de consciencialização, de «promoção» e de formação dos leigos, será que também estes estão disponíveis para assumir, de pleno direito, a missão que lhes pertence? Sem querer entrar nesta «questão» de padres versus leigos, não deixo de considerar a dificuldade que hoje continuamos a encontrar para empenhar um maior número de baptizados na missão da Igreja. Quantas vezes nos é dificil contar com uma participação disponível e empenhada de alguns leigos nas nossas comunidades, no sentido de estas realizarem integralmente a sua missão!... É verdade que temos leigos muito generosos! Aliás, homens e mulheres que são enexcedíveis no seu compromisso, sobre quem - quantas vezes! - recaem depois um excesso de exigências e de tarefas. Tanto mais que a sua missão laical não se esgota, nem é prioritáriamente um serviço interno às estruturas da comunidade. Este é um assunto a que espero voltar. Mas fica aqui o meu registo: estou convencido que a «crise» não é só de vocações consagradas; é muito mais - é de vocações baptismais! E este é o maior desafio que se nos coloca: despertar cada um para a missão que lhe pertence; que não é apenas um direito, mas igualmente um dever, no seio da comunidade Cristã.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Filme "A Missão"!

Acabo de rever o Filme "A Missão", de Roland Joffé, com Robert de Niro e Jeremy Irons. Se é certo que hoje releio com maior clarividência a história que sujzaz a esta ficção - a relidade da Missão dos Jesuítas na América -, não deixa de ser verdade (sem anacronismos!) que em nome da vontade de Deus muitas vezes se procurou a vontade humana. Na verdade, subjaz a este filme uma questão inquietante: a luta entre duas concepções ideológicas, políticas e socais da época em que decorre toda a acção, o século XVIII. Apesar de tudo, o drama humano está bem patente. E, de algum modo, hoje, como ontem, corremos o mesmo risco - impôr uma vontade unilateral (de quem tem força!), nem que seja usando o nome de Deus! A história é um dasafio contínuo à nossa consciência. Num contexto mental, cultural, político e ideológico diferente, continuamos a usar o «mesmo nome de Deus» para impôr «uma» vontade unilateral, nem que para isso se oponham religiões, culturas, ou simplesmente expresões como «eixo do mal».... E em «nome de Deus» continuamos a buscar interesses humanos... Com o mesmo drama maior: os mais pobres são sempre os que sofrem, porque esses não têm poder e dependem de quem os governa! O drama não é do passado.... Infelizmente, continua no presente! Neste (e único presente!) em que acalentamos um desejo de um futuro bem mais justo e humano!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Missão da Igreja!

Na minha acção de formação em Eclesiologia, na Escola de Leigos, confronto com frequência os formandos com a principal missão da Igreja. A pergunta é mesmo: «Qual a principal missão da Igreja?» Sem dificuldade chegamos à conclusão que recolhemos do Novo Testamento: «Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda a criatura!» (Mc. 16, 15); «Como o Pai me enviou também eu vos envio!» (Jo. 20, 21). Todavia, reconhecemos que este desafio, sendo o maior, gera particulares dificuldades! Dificuldades no íntimo da Igreja e no contexto do mundo de hoje!
No interior da Igreja, reconhecemos a excessiva predominância do ritualismo, da burocracia, do peso de tantas e tantas experiências que nos retiram a frescura e a desenvoltura necessárias para assumir a missão como desafio cimeiro. No contexto do mundo de hoje, as mudanças, os interesses, as linguagens, as ideologias (mais económicas e consumistas do que políticas ou de pensamento!) estabelecem limites a uma certa permeabilidade à Palavra de Deus. Pesem embora as novas aberturas que caracterizam esta fase, denominada de pós-moderna.
Fica-nos sempre a sensação de que nos reencontrámos com o programa essencial que nos é proposto, mas que temos dificuldades em encontrar as estratégias necessárias para o implementar! E efectivamente assim é: a questão que me sobrevém, e que confesso ainda não ter solucionado, é mesmo essa: como evangelizar hoje?
É aqui que a Igreja tem de se centrar: na capacidade de se “reinventar” no seu dinamismo missionário, na sua frescura evangelizadora!
A Igreja não pode persistir em manter-se numa atitude de espectadora de um mundo ao qual é enviada; não pode alcantilar-se nas torres das suas igrejas – imagem de uma comunidade distante do mundo dos homens; não pode satisfazer-se com a gestão das solicitações imediatas, numa administração apurada dos desafios que ainda lhe são feitos!... Tem de ser ousada, tem de se refrescar a partir de dentro, tem – se necessário! – de se renovar para readquirir a capacidade mobilizadora para o encontro com o Ressuscitado, centro de todo o seu ser e seu agir! Tem de se redescobrir nessa sua missão prioritária e para aí canalizar todas as suas energias!
Nesta linha, somos convocados pela palavra do saudoso Papa João Paulo II, quando afirma: “Duc in altum. (Lc. 5, 4) Estas palavras ressoam hoje aos nossos ouvidos, convidando-nos a lembrar com gratidão o passado, a viver com paixão o presente, abrir-se com confiança ao futuro: «Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre» (Hb. 13, 8)” (NMI, 1), para logo depois acrescentar: “a Igreja seria convidada a interrogar-se sobre a sua renovação para assumir com novo impulso a sua missão evangelizadora.” (NMI, 2).
Agora que nos aproximamos do início de um novo ano pastoral, estas palavras hão-de ganhar novo impulso no nosso íntimo, catapultando-nos para a centralidade da missão – numa profunda fidelidade ao Espírito e à Palavra do Ressuscitado e atentos aos homens a quem somos enviados. A Igreja necessita de se rever no seu centro de acção, mas também no conhecimento do mundo, dos homens e da cultura a que é enviada. Ao mesmo tempo – talvez o maior desafio – definindo verdadeiras estratégias de acção que possam ser eficazes na vivência dessa sua missão.
Ao longo deste ano temos um belo exemplo, na síntese doutrinal e no agir: São Paulo! Que ele nos ajude, na sua intercessão e na sua doutrina, a encontrar o caminho para a vivência da Igreja do século XXI, como ele o soube encontrar - e de que modo!... - nos inícios deste único e grande envio!

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho

quinta-feira, 17 de julho de 2008

O valor das pessoas!...

O valor de alguém não depende das suas perfeições ou imperfeições. O valor de alguém descobre-se no tempo que lhe dedicamos. Isto é, no amor com que amamos!... Julgo que faz cada vez mais sentido aquela expressão do Principezinho, de Saint Exupéry: «Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.» E depois o Principezinho ainda diz, «para não se esquecer»: «Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa...» Quando tanta gente se fixa no aspecto exterior desta ou daquela pessoa; quando tanta gente procura a «perfeição» do outro nos quadros de uma concepção materialista e de sucessos humanos, esta é uma lição que ainda nos faz pensar. Hoje reflectia sobre as lágrimas de tantas mães que perdem um filho ou uma filha deficiente. Hoje pensei na densidade do amor que se vive para com alguém que está dependente. Sem que se afirme o limite humano como algo de desejável, a capacidade de o acolher e de a ele se dedicar é, quantas vezes, fonte de uma maior intensidade humana do que quando tal não é necessário!... O que é mais humano: desfazer-se de uma vida porque ela tem limites, ou dedicar-se a ela com os limites que comporta? Reflectia, então: o amor depende da intensidade, do tempo e dos gestos que somos capazes de votar aos outros! Nesta sociedade, hedonista, que busca todos os sucessos, não afirmamos tantas vezes que o melhor para alguém com limites humanos é ver esses limites terminados? Que a morte, por exemplo, aparece como um bem? Então porque chora tanta gente, com uma dor compungida, a perda daquele que amava? É que, na verdade, não dependemos dos nossos sucessos ou insucessos, das nossas perfeições ou imperfeições, mas sim do amor com que amámos ou fomos amados! O outro será tanto mais para nós quanto mais a ele nos dedicamos! E quanto maior é a exigência - creio! - maior é o amor! Este será sempre o segredo profundo que explica o significado do amor humano!
NOTA: O valor da pessoa é uma realidade intrínseca ao seu próprio ser! A pessoa vale por aquilo que é - o seu ser humano!... Aqui afirmo que o reconhecimento deste valor se vive na capacidade de doação. Não quero, de modo algum, ser relativista na afirmação do dom que é sempre a pesssoa humana, em qualquer circunstância. A pessoa é sempre um valor acima do qual não existe outro maior - aí se compreende a sua dignidade!

domingo, 13 de julho de 2008

O Papa e a Pedofilia!...

É inequívoco que a Pedofilia é um crime! É inequívoco que a Pedofilia deve ser condenada por todos. É inequívoco que devemos procurar todos os meios para proteger as crianças em risco de cair nas mãos de adultos doentes, com uma atracção «mórbida» por essas mesmas crianças. É inequívoco tudo isto. E o esforço conjugado no sentido de prevenir um mal terrível é um dever, igualmente inequívoco, de todos nós! É um dever da sociedade: em cada um dos seus elementos e de toda ela, nas suas instâncias jurídicas!
Todavia, parece-me que a pedofilia, na abordagem da Igreja, tem sido usada como arma de arremesso: o Papa foi aos Estados Unidos e, entre tantos discursos, acções, gestos, os noticiários encheram-nos as casas com notícias do pedido de perdão pela pedofilia dos padres naquele país; o Papa vai agora à Austrália, numa Jornada Mundial de Juventude, e os meios de comunicação já ser perfilaram para manter o mesmo discurso! E eu pergunto: será que os meios de comunicação estão assim tão interessados nas vítimas dos pedófilos que – infelizmente – no seio da Igreja se aproveitaram da sua situação para agir de forma doentia e criminosa? Será que os meios de comunicação querem fazer a justiça que cabe aos tribunais realizar? Será que o intuito não é mesmo descredibilizar a Igreja na sua acção e nas suas propostas? Mais ainda: será que os meios de comunicação são sempre tão atentos e denunciadores relativamente a outras instituições? Ás vezes sim (felizmente!), mas nem sempre!
Não podemos deixar-nos cair no engodo das notícias! Pedófilos na Igreja? Sim, de facto existem! Para mal de todos – das crianças vitimadas, dos próprios pedófilos, da sociedade e da comunidade cristã. Mas existe muito mais vida para além da pedofilia. Certamente muitos sacerdotes nesse outro continente vivem a sua vida num esforço contínuo de servir os irmãos e de construir o Reino de Deus! Certamente que a esse esforço têm votado toda a sua vida! Porquê omitir esse esforço? Porquê omitir tanto gesto de dedicação, de entrega, de luta pelo respeito da vida humana em todas as circunstâncias e em todos os momentos do seu desenvolvimento? Certamente – diremos nós! – isso não «vende» a notícia! Pois eu digo: certamente isso não contribui para uma certa estratégia de desacreditação e de tentativa de afronta à Igreja, que persiste nalguns meios de comunicação!
E o Papa, como se tem comportado? Num afã de atrair uma certa «respeitabilidade» não deixa de, a cada passo, falar do assunto! Veja-se a entrevista em pleno voo a caminho da Austrália!... Não seria mais prudente falar deste assunto de uma vez, quando ele devesse – em sede própria – ser tratado? Enfim… Julgo que o drama tem sido explorado; e que o Papa, infelizmente, com tomadas de posição repetidas, não tem deixado de contribuir para esta procissão de acusações. Mesmo que, pela sua sobrevalorização, se tornem injustas e indignas do esforço de tantos consagrados.
Restaria ainda perguntar: como tem a Igreja lidado com a afectividade e com a sexualidade?... Como tem lidado com a formação dos seus sacerdotes, na proximidade, no diálogo, no acompanhamento, prevenindo estas terríveis desorientações de personalidade? É que muito do esforço se faz a montante e não apenas a jusante! Tão pouco – parece-me! – se trata de uma selecção criteriosa! Nesta perspectiva estaríamos a pôr em causa todo o trabalho dos nossos seminários. Trata-se, sim, de perceber que as desorientações de personalidade podem advir, se não houver cuidado! Não sei se a pedofilia é algo de inato, ou porventura se o seu aparecimento pode surgir com o decorrer do tempo! Também isso agora não é determinante! Determinante é a atitude de proximidade, de acompanhamento, de diálogo, de sinceridade (quantas situações podiam ter sido evitadas se a acção fosse imediata, sem hipocrisia?) … Determinante é um discurso de unidade, de exigência e de caridade para o seio da Igreja. Sem complacências, mas de acolhimento.
Enfim… sobretudo, parece-me, existe muito mais vida para além da pedofilia! A Igreja – grande comunidade dos crentes – é essa multidão imensa de homens e mulheres (entre os quais muitos padres!) que vão semeando muito bem na vida de muita gente. Não nos deixemos confundir por quem, deliberada e sistematicamente, a pretende afrontar! Afirmemos cada vez mais a caridade como o grande valor que nos une; sejamos o seu rosto e, então sim, o mundo de hoje poderá falar de nós com outras referências!

terça-feira, 8 de julho de 2008

Ano Paulino - Reflexão Pessoal!

Para assinalar os dois mil anos do nascimento do Apóstolo Paulo, o Papa Bento XVI convocou a Igreja a viver um Ano Paulino, iniciado no passado dia 29 de Junho – Solenidade de São Pedro e São Paulo –, prolongando-se até á mesma Solenidade do próximo ano de 2009. O objectivo é o de nos pôr em contacto com o modelo de Apóstolo que foi São Paulo e com os seus escritos. Neste sentido, o Ano Paulino é um forte convite a uma conversão pessoal, pela adesão à pessoa de Jesus Cristo; à compreensão da doutrina cristã, de que Paulo foi o primeiro sistematizador nas suas Cartas; e à vivência da Evangelização de todos os povos, de que o Apóstolo é exemplo ímpar, na sua acção missionária.
Ao iniciar nas Comunidades Paroquiais, em comunhão com toda a Igreja, este Ano Jubilar, defini três propostas, recolhidas da vivência do Apóstolo Paulo: a total adesão a Jesus Cristo; o testemunho da fé; a urgência da evangelização.
Necessitamos de redescobrir o centro e fundamento da nossa vivência cristã: a pessoa de Jesus Cristo. Paulo, fazendo a experiência íntima de comunhão com o Senhor, sintetiza toda a sua vida pessoal e de evangelizador, na expressão dirigida à comunidade de Filipos: «Para mim, viver é Cristo e morrer, um lucro!» (Fl. 1, 21). De modo algum podemos entender de outro modo esta expressão de Paulo senão no seu verdadeiro sentido – Jesus, o Cristo, é o centro de gravidade de toda a vida do Apóstolo, no presente e no futuro. Com ele havemos, portanto, de fazer esta aprendizagem da vida cristã: centrados em Cristo, «Pedra Angular», construir toda a nossa existência a partir deste mesmo centro de gravidade.
Mas, contrariando uma certa vivência do presente, tendente a reservar as convicções cristãs para o foro íntimo, havemos de nos deixar desafiar pelo Apóstolo a testemunhar Cristo com a própria vida. A deixar que, a partir de nós, irradie para o mundo a Esperança que não passa. É nesta lógica que Paulo nos adverte, em tom de celebração, como fazia aos Tessalonicenses: «Vós fizestes-vos imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra em plena tribulação, com a alegria do Espírito Santo, de tal modo que vos tornastes um modelo para todos os crentes na Macedónia e na Acaia» (1Ts. 1, 6 – 7). Esta palavra torna-se para nós desafio a sermos testemunhas de Cristo no tempo presente e no espaço a que somos enviados.
Centrado no essencial da vida da Igreja, Paulo convida-nos a rejuvenescer em nós – pessoal e comunitariamente – a missão que cabe precisamente a toda a Igreja: a Evangelização! Por isso exclama: «Ai de mim se não evangelizar!» (1 Cor. 9, 16). Mas não o faz como título de glória pessoal, antes consciente do seu dever apostólico. Por isso antecede esta expressão uma outra clarificadora: «Se eu anuncio o Evangelho, não é para mim um título de glória. É antes uma obrigação que me está imposta!» (1 Cor. 9, 16).
Paulo, na sua riqueza de pessoa e de Apóstolo, é um convite exemplar a assumirmos a nossa identidade e missão de cristãos! Que o Espírito Santo de Deus, força sem a qual nada é possível, como o próprio Apóstolo afirma - «Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a acção do Espírito Santo» (1 Cor. 12, 3) – nos dê a graça de vivermos este «Santo Ano» como dom e como oferta. Dom de Deus, a cada um de nós; oferta nossa de uns para com os outros!

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho

sábado, 5 de julho de 2008

Sacerdócio e Palavra!...

Aqui está um magnífico texto, de São João Crisóstomo, sobre o sacerdócio e a palavra! No fio do tempo... há que recolher o que o tempo nos legou, para dar novo alento ao que o futuro nos exige!
Além das obras, que são um bom exemplo, o ministério sacerdotal não conhece outro método para curar que não seja o ensino da palavra. Só a palavra lhe serve de instrumento, de alimento, de ar sadio. A palavra é o remédio que ele administra, o fogo de que ele se serve para queimar, a espada com que ele corta, e não dispõe de mais nenhuma... Se este meio não surtir efeito, tudo o mais será vão... Por isso é tão importante prestar atenção a que a palavra de Cristo habite em nós com abundância...

S. João Crisóstomo, Diálogo sobre o sacerdócio, Livro IV.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Oração em silêncio!

Achei curioso este texto de Santo Ambrósio de Milão, sobre a oração em silêncio, que partilho convosco:

Procuremos saber as vantagens, os motivos, porque se reza melhor em segredo do que em altos brados... Se pedes a alguém que te presta logo atenção, percebes que não é preciso gritar. Pedes brandamente e em tom moderado. Se, porém, te diriges a alguém que é surdo, então começas a gritar... Quem grita, imagina que Deus não ouve bem... Quem, ao contrário, reza em silêncio, dá provas e reconhece de que Deus perscruta o coração e os rins e de que escuta a tua oração antes mesmo de ela sair da tua boca...

Ambrósio de Milão, Os Sacramentos, Livro VI.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Ordenação Episcopal! - Fotos II


Esta é uma foto de particular sensibilidade humana - um dos Padres que partilhou o ministério com o seu Bispo, assumindo o desígnio de desenvolver em Coimbra a missão da Igreja, é abraçado como irmão no Episcopado pelo, até ali, seu Bispo Diocesano; e, na sua ordenação Episcopal, seu consagrante. Se é grande o mistério sacramental da transmissão do poder da ordem, há nesta foto, também, uma dimensão humana que nos enriquece e nos faz perceber a comunhão íntima que estamos chamados a construir! É, tão só, mais um registo! E belo, por sinal!

Procura da Sabedoria!...




"Dominar a força é vencer; dominar a sabedoria é governar!"


"A Dança", Ramalho Ortigão, Histórias Cor-de-Rosa.

terça-feira, 1 de julho de 2008

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Ordenação Episcopal!

Após a Ordenação Espiscopal de D. João Lavrador, retenho aqui três impressões pessoais: 1. A beleza da celebração; 2. A acção do novel Bispo, a nível diocesano; 3. Ao lado do ganho para a Igreja em Portugal, o sentimento de perda para a Diocese de Coimbra.

1. A celebração da Ordenação Episcopal recolhe o seu sentido profundo do significado do múns pastoral dos Bispos, da sua especificidade teológica e do mistério que se realiza mediante os sinais sacramentais. Todavia, sem querer hipervalorizar a dimensão exterior da celebração, havemos de reconhecer que ela se revestiu de sinais humanamente, ritualmente e simbólicamente belos. Partilhei-os com alguma emoção, particularmente quando o novo Bispo (emocionado!) tomou lugar entre os Bispos; quando, no abraço da paz, cumprimentou a sua família; e quando, pela primeira vez, como pastor, dispensou a benção de Deus à vasta assembleia que enchia a Sé Catedral. Mas, para quem, como eu, estuda o Cabido da Sé de Coimbra (neste caso no século XVIII), ver o candidado ao Episcopado a entrar na Sé, paramentado de batinha arroxeada, de roquete branco e de romeira da cor da batina, ladeado dos Cónegos da Sé, fez-me recuar no tempo e imaginar a expressão da mesma Corporação quando um dos seus era elevado ao Episcopado - realidade pela qual muito se lutava entre Cabidos, como forma de engrandecimento de toda a Corporação. Uniram-se, na minha consciência, o presente e o passado. E achei interessante como os sinais são importantes na dignificação de um acto. Além deste - de longe o menos importante -, assumiram grande expressividade a entrega do Evangeliário, do anel, da mitra e do báculo. Momentos altos foram, naturalmente, a oração de consagração, com o Evangeliário aberto sobre a cabeça do Ordinando e a unção na testa, com o óleo do Santo Crisma. Sinais expressivos, pelos quais chegamos à beleza do Mistério. E sinais dignificados, como esteve patente nesta Ordenação.

2. Destes últimos anos de exercício do ministério Presbiteral, ressalvo da acção do Sr. D. João Lavrador, duas realidades: o incremento da Pastoral Universitária e a a coordenação da acção pastoral, como Pró-Vigário Geral. Da primeira, retenho a sua capacidade de trabalho em equipa e a promoção dos diversos sectores de acção pastoral para o Ensino Superior. Com ele renasceu o antigo CADC; com ele se iniciou o SPES; com ele o Justiça e Paz tornou-se espaço de encontro mais alargado. Mas na verdade, tudo se deveu à sua capacidade de coordenar, de incentivar, de responsabilizar; mais do que fazer. Realizava as tarefas da sua competência, mas soube atrair para o âmbito da actividade da Pastoral do Ensino Superior um bom grupo de Professores Universitários; de alunos das diversas Faculdades; bem como responsabilizar algumas pessoas em sectores específicos. Foi um verdadeiro trabalho de comunhão. Testemunhei-o na minha frequente passagem pelo Instituto, no contacto com ele e com alguns membros dos vários serviços. Tanto mais que, alguns deles, membros fundadores do SPES, por exemplo, foram meus colegas de curso. Além deste trabalho de comunhão, a delicadeza no trato, o acolhimento e a palavra amiga para com quem ia ao Instituto, particularmente à hora de almoço, foram um contributo quotidiano para a dinamização daquele espaço. Também aqui experimentei a riqueza das conversas com alguns professores, naquelas que - como referia, em tom afável, o Sr. Professor Barbosa de Melo - eram classificadas como «tertúlias eclesiásticas»; isto porque reuniam dois ou três sacerdotes, mas que nunca foram espaços fechados. Foi, para mim, uma outra experiência de relação humana que complementou a riqueza do espaço universitário.
Na sua actividade como Pró-Vigário Geral, destaco a competência e empenho do Sr. D. João Lavrador na coordenação das diversas actividades diocesanas. Fica-nos a memória última das assembleias de avaliação pastoral; mas também a formação do clero; ou ainda o Conselho Presbiteral, entre tantas outras acções. Não duvido em dizer que, a nível pastoral, foi o braço direito do Pastor da Diocese.

3. Agora que parte, fica-nos - o que é natural! - uma sensação de algum «vazio». Experimentava-o hoje, ao reflectir sobre o dia de ontem e sobre a minha despedida final. Fica, por outro lado, a «inquietação» perante um presbitério em que não abunda este traquejo de acção dinamizadora da vida pastoral. Digo-o, certamente, porque nos habituámos a uma figura; porque faltando este há agora um espaço ainda vazio. É necessário que o Pastor Diocesano, na realização da sua missão, saiba escolher quem possa retomar este serviço de coordenação e dinamização pastoral. Certamente que alguns valores existem ao nível do presbitério - com a formação necessária; com a lucidez requerida; e com competências a desenvolver. Também hoje (e faço-o livremente como membro do presbitério!) me passavam pela cabeça alguns nomes. Na verdade, a Diocese tem de investir na formação dos seus padres. E quando investe deverá contar com eles para o serviço de que carece! Também aí é necessária lucidez: para formar e pedir que se ponha a render a formação feita!
Como a vida se faz de realidades sempre novas, uma outra página, em linha de continuidade, se abre diante de nós na história desta «mais que secular» Diocese de Coimbra; sempre capaz de responder (com maiores ou menores dinamismos!) às exigências da sua missão e de cada tempo! E esta é a beleza de cada Igreja Particular no dinamismo deste mesmo tempo: ver como ela, com maiores ou menores rasgos, é chamada a instaurar o Reino de Deus já presente e a encaminhar-nos, como Igreja peregrina, para a sua consumação final!

sábado, 28 de junho de 2008

Ano Paulino - Propostas Pastorais!

Propostas de meios pastorais para a vivência do Ano Paulino:
8. (...) O Ano Paulino oferece uma ocasião riquíssima para o nosso serviço às Igrejas. Cada uma encontrará os meios que considere os mais adaptados para o viver e celebrar. No entanto a Conferência Episcopal, órgão ao serviço da unidade de todas as Igrejas de Portugal, propõe a todas os seguintes instrumentos pastorais:
8.1. “Um ano a caminhar com São Paulo”. Trata-se de um itinerário catequético, tendo Paulo como guia, que além do conhecimento mais profundo do Apóstolo, nos fará percorrer, durante 52 semanas, as principais etapas do caminho cristão. Apresenta um tema para cada semana do ano e destina-se, além das pessoas individualmente, às famílias, aos grupos paroquiais, à pastoral juvenil, aos Movimentos.
8.2. A vivência da Liturgia. Os textos de São Paulo são dos que mais continuamente são lidos na Liturgia. Propomos, durante este ano, uma valorização destes textos, sobretudo nas homilias, não esquecendo que a Liturgia é a grande catequese da Igreja. A Comissão Nacional de Liturgia preparará elementos que ajudem os pastores das comunidades a realizar este objectivo.
8.3. Estudos sobre São Paulo. A Faculdade de Teologia, nos seus diversos Centros e Escolas filiadas, oferecerá ao Povo de Deus, sessões de estudos paulinos.
8.4. Valorização de outras ofertas, particularmente a apresentada pela família Paulista (Padres, Irmãs paulistas e Pias discípulas).
8.5. A festa da conversão de São Paulo, no próximo ano, será celebrada ao Domingo. Será organizada uma grande celebração nacional nesse dia, na Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, centrada num aspecto englobante da doutrina de Paulo.
9. Ao celebrar o Ano Paulino, queremos ter o Apóstolo Paulo como guia inspirador da nossa missão de pastores, de todos os evangelizadores, de quantos, neste mundo secularizado, querem viver connosco a aventura da Igreja.
Fátima, 6 de Maio de 2008

OBS. Esta é a proposta da Conferência Episcopal Portuguesa. O texto é retirado da Nota Pastoral que os Bispos escreveram a propósito deste Ano Paulino.

terça-feira, 24 de junho de 2008

O que é o Amanhã?...

O que é o amanhã? O amanhã é nada! O que existe é o presente, o aqui e agora. Amanhã partiremos e tudo permanecerá. Mas desta vez sem nós. E então deixa de ser, porque só nós damos alma, sentido, profundidade a todas as coisas. As coisas existem porque eu as reconheço, porque as consciencializo, lhes dou existência!
Carlos Alberto G. Godinho

domingo, 22 de junho de 2008

Nostalgia de um Padre...

Hoje pensei duas vezes antes de escrever esta «postagem»! Questionei-me: devo ou não escrever? Devo ou não expôr-me? Mas, por vezes, é bom expôrmo-nos e deixar a clara certeza de que um padre, como os demais, se alegra, se entristece, vive momentos de nostalgia, de dor, de solidão, de esperança, de confiança... Hoje senti-me particularmente só na vivência do meu Ministério! Sem dúvida que este sentimento acusa o desgaste próprio de um fim de ano tão intenso (talvez demasiado intenso, numa pluralidade de acções!). Mas a verdade é objectiva e não apenas subjectiva. Nunca me senti tão só na vivência do Ministério! E olho para os últimos dois anos, comparando-os com os anteriores que pude viver. Quando experimentei a fatalidade de ficar só neste arciprestado, após a partida dos dois colegas com quem trabalhei ao longo de sete anos, aguentei-me de «pedra e cal», procurando dar resposta às solicitações que, então, passaram a multiplicar-se. Esperei que tudo fosse passageiro, com a eminência de uma nova resposta para este espaço. Todavia, não o foi! Estamos dois padres numa mesma unidade territorial, mas cada um fazendo a sua vida. Não culpo quem chegou - também ele apanhado, quem sabe? - na encruzilhada do caminho! Posso até culpar-me a mim, já que, diante de uma postura muito diferente, não fui capaz - também eu! - de criar uma outra relação de proximidade! Mas fi-lo consciente de que não queria ser a sobrecarga para quem chegava numa tarefa exigente! E passado um ano vejo-me muito mais só, muito mais absorvido - sem tempo para mim, para as minhas questões pessoais, para a minha família... Ter um dia livre, como acontecia habitualmente, passou a depender do ritmo do próprio trabalho, da «sorte» de não surgir o inesperado.... E psicológicamente acuso este cansaço! Falta-me, como ao comum dos mortais, um tempo para o devido descanso, para sair, para me encontrar com os colegas, para fazer uma experiência mais profunda de comunhão familiar. E olhando para trás, no emaranhado de tarefas em que me envolvi - bem sucedidas, é certo! - contemplo-me mais isolado, mais só, mais nostálgico! E, inevitávelmente, sobrevém a recordação (recordare -trazer de novo ao coração!) de quem partiu e deixou espaço vazio. Falta a presença, o diálogo, o sorriso, a amizade, a partilha, a entreajuda... Falta-me, quiçá, neste novo quadro também a humildade, o esforço de aproximação... Mas também é certo: tudo foi pensado em dinâmicas diferentes! Por muito que afirmemos a necessidade de partilha entre nós, a verdade é que essa proposta de entreajuda, de comunhão, devia partir de cima, de quem propõe, de quem nomeia, de quem tudo faz para criar espaços de empenhamento solidário e fraterno. E, infelizmente, não foi isso que aconteceu! Isto não é queixa, não é acusação... é desabafo! Necessitamos de criar uma mentalidade diferente! Por ora, sinto que para o Bispo Diocesano o seu problema está resolvido; para as comunidades, melhor ou pior, têm quem as sirva e, portanto, não sentem necessidade de se preocupar; para nós, padres, cada um permanece na sua «quinta», qual propriedade privada, de responsabilidade inteiramente pessoal. E a sensação acaba por ser esta: de isolamento, de responsabilidade unilateral no espaço de intervenção pastoral, de aguentar enquanto se pode... mesmo que o cansaço, o ânimo, a alegria da presença, se esbatam!
Nostalgias de um padre! Tão legítimas como outras! Inevitáveis? Não! Tudo podia ser tão diferente! E há muito! Todavia, só quando a «tempestade» fustigar entenderemos que devíamos ter dado as mãos muito mais cedo! Nesta minha nostalgia, antes de me retirar, recoloco tudo nas mãos do Pai e, pese embora a minha fragilidade, sei que Ele renova a sua Aliança de Amor e amanhã um novo dia poderá brilhar com Esperança renovada. Assim Ele nos guarde!

domingo, 15 de junho de 2008

Direito ao Trabalho!

Hoje dava comigo a pensar como se desrespeitam tantos direitos fundamentais. E um deles, é o direito ao trabalho! Afirma-o A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, quando refere: «Todas as pessoas têm direito de trabalhar e de exercer uma profissão livremente escolhida ou aceite» (Art. 15). Na verdade, como tantos outros, este é um bem essencial - indispensável para a salvaguarda da dignidade humana! - que continua a ser desrespeitado! Quanto vezes me interrogo: como poderá uma família ter paz, ter o mínimo de qualidade de vida, ter alegria, quando não se lhe respeita este direito elementar? Que dramas escondem as privações do trabalho? Que futuro se reserva aos jovens a quem se nega este direito fundamental? Existe uma lógica que é necessário inverter! O capitalismo desenfreado não pode abafar o mínimo de equilibrio social em que uma sociedade tem de se basear! Criar riqueza? Sim! Mas uma riqueza que sirva a todos, sobretudo salvaguardando os seus direitos mais elementares - o direito ao pão de cada dia; o direito a uma casa; o direito à educação; o direito à estabilidade... Poderá o trabalho continuar a ser um bem escasso, elemento de estatística, perante a necessidade de alguém? Não! Não pode! Em nome dos direitos mais fundamentais que a todos devem ser assegurados, enquanto condição essencial da dignidade da pessoa humana!

quinta-feira, 12 de junho de 2008

As volatilidades de Portugal!

Temos um país a dois ritmos: com uma crise económica e social poucas vezes vista; e um Europeu de Futebol que parece querer animar as «hostes». Este último factor até poderia servir de calmante ao primeiro. Na verdade, socialmente os portugueses vivem uma situação de aperto como poucas vezes experimentaram. Até porque as despesas do Estado não parecem baixar considerávelmente e o investimento não resulta, como esperado - a cada dia são mais as empresas a fechar portas ou a deslocalizar-se, deixando tanta gente no desemprego. Sem produção, e consequente aumento de exportações, não é possível avançar para lá deste limiar confrangedor. Mas a questão que mais me indigna é que alguns - poucos! - aproveitem «tão bem» do mal de muitos. Os combustiveis são disso um bom exemplo. Não bastam discursos justificativos, na tentativa de atirar poeira para os olhos dos consumidores. A Galp, por exemplo, neste tempo de crise, que se tem agravado desde o início do ano, aumentou, no mesmo período, em 175 milhões de euros os seus lucros (um acréscimo de 22,9%). Alguma coisa não está bem! Se as dificuldades existem deviam ser palpáveis para todos. Mas a verdade é que não são! E nem o Futebol - que tantos ânimos tem levantado - se inscreve neste quadro como certeza! Depois de todas as movimentação, quase idolatria de algumas pessoas, eis que elas dizem estar de passagem, mesmo antes de acabar os seus compromissos. É o caso do seleccionador nacional: pediu apoio, catapultou entusiasmos, e mesmo antes de acabar um campeonato deixa a certeza de que afinal se vai embora! Enfim... o que hoje é certeza, entusiasmo e alegria, amanhã será mera ilusão, sentimento vago de algo que animou, mas não respondeu às ânsias. É esta a volatilidade da vida! E é esta, também, a volatilidade deste Velho Portugal! Se não se enraizar sólidamente naquilo que pode ser uma esperança segura de futuro - de crescimento, de justiça social, de investimento, de seriedade política, económia, social e cultural, não almejará grande fututro. Vivamos o efémero (eu também o vivo!), mas conscientes que é efémero! Fortaleçamos o que é seguro, para dar futuro a Portugal.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

«Paladino» da Liberdade!

Independentemente das opções políticas, das sensibilidades ideológicas e sociais, mesmo gostando, ou não, da personagem, é indiscutível que Manuel Alegre é um «paladino« da Liberdade. Diz o que pensa, o que sente, o que entende - em consciência! - deverem ser as grandes opções políticas para o Portugal de hoje. Por isso, uma vez mais, gostei de o ouvir na Grande Entrevista da RTP1. É que, acima de tudo, apela-nos a não nos deixarmos vencer pelos interesses instalados, por um certo «corporativismo», por uma obediência cega... Apela-nos a sermos livres face às forças de pressão, aos grupos de interesses, ao «ditado» comum... Isto é: não abdica da sua consciência, das suas opções, da sua sensibilidade, mesmo sabendo que pode errar e que estas opções serão naturalmente discutíveis. É essa liberdade que me impressiona, num mundo vendido às opções alheias, em que muitas vezes cada um tem tendência a fazer «coro» com aqueles que, dominando, subjugam a consciência, a livre opção e a capacidade de outros se autodeterminarem perante o «simples» interesse da conveniência, ou do resultado imediato. Necessitamos, cada vez mais, de gente «crítica», capaz de reflectir, de rasgar horizontes, de ajudar a ultrapassar interesses instalados. Este é, para mim, o maior desafio da personalidade de Manuel Alegre.
Já depois da entrevista, dava comigo a pensar como isto é necessário não só ao nível político, mas também social, cultural e até eclesial. Bem sei que a «factura» a pagar pela diferença é, quantas vezes, uma forte solidão. Mas este é um dever para connosco e para com outros - deixar o limiar do conveniente para assumir a afirmação do dever. E foi nesta linha de pensamentos que peguei na Gaudium et Spes, nº 16, para reler: No fundo da consciência, o homem descobre uma lei, que ele não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer, e cuja voz ressoa oportunamente aos ouvidos do seu coração, convidando-o a amar e a fazer o bem e evitar o mal. (...) A consciência é o núcleo mais secreto do homem, e o santuário onde ele está a sós com Deus, cuja voz ressoa no seu íntimo. (...) Pela fidelidade à consciência, os cristãos unem-se aos outros homens, para procurar a verdade e resolver com acerto os numerosos problemas morais, que surgem tanto na vida individual, como na comunidade social. Se mais não ficasse - pois ficou muito mais: o primado da pessoa sobre o valor do material! - teria ficado este convite a retomar esta linha de orientação, que a Igreja magnificamente nos desafia a viver. Se todos fôssemos fiéis à consciência pessoal, distanciando-nos, quantas vezes, de interesses meramente egoístas, imediatos, ou mesmo mesquinhos, como este mundo (o nosso, que nos rodeia e que construímos!) podia ser diferente!... Mais humano e mais fraterno!

Em Cristo! (II)


"Muitos seres humanos não sabem que Cristo está unido a eles e não reconhecem o seu olhar de amor, dirigido a cada um deles. Ignoram tudo acerca de Deus, até o seu nome. Contudo, Deus permanece em comunhão com cada um".

Irmão Roger, Deus só pode Amar, p. 23

terça-feira, 3 de junho de 2008

Em Cristo!


"Se fosse possível sondar o coração, o que descobríamos? Surpreendentemente, iríamos aperceber-nos de que, no mais profundo da condição humana, se encontra a espera de uma presença, o silencioso desejo de uma comunhão.
Eis que descobrimos no Evangelho uma resposta a esta espera. São João expressa-a com estas palavras: «A luz que ilumina todo o ser humano veio ao mundo.»
Esta luz é a luz de Cristo ressuscitado. Talvez o conheçamos pouco, mas ele permanece próximo de cada um de nós."

Irmão Roger, Deus Só Pode Amar, p. 21

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Festa das Famílias e dos Jovens!


Foi uma bela experiência de comunhão diocesana, aquela que vivemos no Luso, neste passado fim-de-semana de 17 e 18 de Maio. Para além da multiplicidade de actividades, de propostas de reflexão, de partilhas diversas de vivências e experiências, o facto de nos congregarmos como uma realidade só, em experiência de comunhão e de unidade, é, por si, uma riqueza inesgotável. Necessitamos, cada vez mais, de nos abrir à partilha e à capacidade de construir projectos comuns. Bem o disse o nosso bispo, na homilia da celebração. Mas agora, como semente, o encontro - como tantos outros! - tem de dar fruto! E julgo que o modo de o fazer frutificar é, precisamente, agregando em comunhão quem está mais próximo. A definição de trabalho em Arciprestado não pode continuar a ser simples afirmação teórica; tem de ser uma realidade a implementar. Esta festa das famílias e dos jovens, pese embora não tenha envolvido todo o arciprestado, como eu pessoalmente gostaria, foi, também, uma vez mais uma experiência rica de trabalho comum. Aqui estiveram a maior parte das paróquias do arciprestado, preparando e realizando este trabalho em conjunto.
Mas esta grande festa ultrapassou os limites do arciprestado e foi, inequivocamente, uma grande festa da diocese. A multiplicidade de voluntários, provenientes das mais diversas comunidades, são disso um belo exemplo. Foi com muita alegria que vi aqui, nesta paróquia que me está confiada, a diocese reunida, assumindo em comum o desafio que lhe fora lançado. Para tal é necessário encontrarmos gente com visão e com perspectivas alargadas. Saúdo, por isso, o Pe. João Paulo Vaz que nos deu um bom exemplo de coordenação, congregando muita gente no mesmo esforço. Pude acompanhar o seu trabalho ao longo destes últimos meses, e apreciei muito a sua capacidade mobilizadora e de reponsabilização. Também este é o futuro a viver a outros níveis.
Foi mais uma bela página de vivência diocesana, que espero dê fruto abundante no fututo que se aproxima.
De todas as actividades, e pese embora não ser a mais imponente na sua grandiosidade, como o foi a celebração da Eucaristia, com o Pavilhão Gimnodesportivo completamente cheio, a experiência de subir a Serra do Buçaco, em vigília nocturna, com cerca de quinhentos jovens, e a oração, com o Grupo de Taizé, na Cruz Alta, foi uma experiência cheio de uma imensa mística. Muitas vezes subi já àquela cruz - sózinho, com jovens, com adultos, em convívio, em solidão, em reflexão... Mas subi-la para me deixar iluminar pela cruz que brilhava no meio do nevoeiro, à luz das velas e tochas, cantando os louvores de Deus, foi uma experiência espiritual profunda, que me permitiu vivenciar o mais importante - tema agregador para todos os momentos - o Amor do Pai. Sim, o Amor do Pai, que «naquela» cruz nos amou tanto, ao ponto de, no Filho, se entregar por nós. Que este Pai permita que o seu amor lançado nos nossos corações possa agora futificar - no amor para com Ele e no amor de irmãos, construindo, aqui e agora, a Igreja que Ele deseja.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Escutismo e desenvolvimento integral!


Num tempo em que falamos tanto do desenvolvimento integral das nossas crianças e jovens, a Flor de Lis - Orgão Oficial do Corpo Nacional de Escutas -, em artigo de Pedro Duarte Silva, apresenta-nos uma belíssima estruturação desta formação integral:

Um ser humano é feito de:

Corpo - Desenvolvimento físico;
Inteligência - Desenvolvimento intelectual;
Emoções - Desenvolvimento emocional;
Natureza Social - Desenvolvimento social;
Alma - Desenvolvimento espiritual.

Faltando algum destes elementos constitutivos, o homem está, necessáriamente, incompleto. Mas, o mais interessante, é que o escutismo, quando bem vivido, permite o desenvolvimento de todas estas componentes. A actividade física, própria da dinâmica escutista, contrabalança com uma tendente sedentarização dos nossos jovens, fruto do uso por vezes abusivo das novas tecnologias. A inteligência cultiva-se, igualmente, na mesma dinâmica, quando as actividades propostas são bem organizadas, pedagógicamente correctas e facilitadoras de uma capacidade reflexiva e de síntese. Vejam-se alguns jogos de pista, fogos de concelho, actividades lúdicas e formativas...; quanto manancial disponível para aprender de forma atraente e agradável... Mas as dimensões emocional e relacional são aquelas que mais atraem na vivência do escutismo. Se dizemos que os jovens se sentem atraídos pelas actividades próprias do escutismo, não podemos esquecer que tal se deve ao facto de serem vividas em grupo e de potenciarem a amizade. O facto de desempenhar uma tarefa que implica o grupo cria condições de sociabilização e de afecto que dão profundidade a toda a vivência comum. E também hoje, numa realidade tendencialmente individualista, o escutismo vem ao encontro dos desejos mais profundos das nossas crianças e jovens. A dimensão espiritual marca o desafio do mais profundo; do mais além, onde tudo ganha um sentido radicalmente novo. Onde o presente não se esgota, mas nos abre a um futuro. Por isso, construir o próprio ser na relação com os demais não nos deixa fechados no imediato do aqui e agora; abre-nos a uma dimensão bem mais profunda, onde todo o agir ganha um sentido radicalmente novo. Digamos que a experiência da felicidade experimentada na relação com os outros, nos projecta para uma certeza que de longe nos chama a ir mais além, a buscar o sentido pleno do qua ainda está marcado pela contingência. Quantas vezes um momento de contemplação, uma experiência de amizade, uma actividade... nos enche a alma e nos faz como que perder a noção do tempo. E perder-se nessa imensidão é o desejo mais profundo de cada um. Para o escutismo Católico, esse desejo de profundidade tem rosto - chama-se Jesus Cristo. E é curioso que não só nos apela para esse eterno em nós, mas nos ensina que todas as outras dimensões do nosso ser, devidamente cultivadas, são abertura a essa plenitude. É o viver o já na esperança do que há-de vir. Portanto, felizes já, na esperança de uma felicidade que será plena.
É por isso que importa investir no Escutismo. Poucas serão as «escolas» tão ricas no seu programa, ao serviço do crescimento das nossas crianças e jovens.
Pe. Carlos Alberto Godinho

terça-feira, 13 de maio de 2008

D. João Lavrador

Expressava aqui, no ano passado, a minha alegria por ver elevados ao Episcopado os Srs. D. António Couto e D. Anacleto Oliveira. Hoje, cabe-me expressar a minha alegria pela nomeação Episcopal de D. João Lavrador. Se os primeiros me marcaram enquanto professores de Teologia, D. João Lavrador foi mais um colega com quem pude partilhar alguns momentos da minha vida, particularmente durante a minha presença habitual em Coimbra, enquanto frequentava a Faculdade de Letras da Universidade. Foram sempre momentos muito proveitosas e, sobretudo, afáveis as conversas à hora de almoço. É curioso que descobri no agora D. João Lavrador o colega amigo que noutros contextos não pude conhecer. O seu trabalho pastoral não me permitiu conhecê-lo. Nem mesmo a sua passagem pelo Seminário, pois entrou como perfeito e, logo, como Reitor, quando eu saía, terminando o meu curso de Teologia.
Estes anos de Coimbra permitiram-me outra proximidade, outra amizade e outro carinho pelo Pe. João Lavrador.
Além disso, apreciei sempre o seu esforço empenhado na coordenação do trabalho pastoral a nível diocesano e a nível da pastoral universitária. Indiscutível é que foi abnegado na sua doação, assumindo todos os trabalhos necessários, numa grande disponibilidade.
Rendo-lhe, por isso, a minha homenagem e congratulo-me com ele nesta nova estapa da sua vida. Mais: peço a Deus que o cumule com as suas bençãos, nesta hora em que é chamado a servir com mais profunda responsabilidade a Igreja de Cristo e a servir os irmãos numa total doação. Ser Bispo é ser servo à imagem de Cristo. Se todos olhamos e nos congratulamos com a sua escolha para este ministério, não podemos deixar de o lembrar nesta hora de novo desafio, em que é chamado a servir no total desprendimento de si. "Fiz-me tudo para todos" - dizia São Paulo. Ser Bispo é isto: ser tudo para todos! A tarefa reveste-se, por isso, de maiores exigências. Caro D. João Lavrador, fica aqui o meu testemunho de amizade, a certeza da minha oração, e a manifestação da minha alegria. Ainda que lho tenha manifestado pessoalmente, este pode ser um espaço de reconhecimento e de partilha, com tantos irmãos, e de testemunho público, da comunhão que sempre nos há-de unir enquanto servidores de uma mesma Igreja. Que o serviço que agora assume possa ser particular fonte de profunda alegria. E que as provas nada sejam diante da certeza de servir a causa do Evangelho, comungando «as alegrias, as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo», como refere a Gaudium et Spes, nº 1.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

A denúncia de Pe. António Vieira!

Caíu-me de novo nas mãos, um pouco por acaso, o célebre Sermão de Santo António aos Peixes, do Pe. António Vieira, aquele de quem Fernando Pessoa disse que é o «Imperador da Língua Portuguesa»! Mas não é pelo estilo de escrita que escrevo agora, mas sim pelo seu conteúdo. Numa denúncia sempre actual, o Pe. António Vieira, após o elogio dos peixes e da sua virtude, denuncia as suas fraquezas, os defeitos que pode registar entre estes seres maritimos. Numa linguagem metafórica excelente, o Pe. António Vieira deixa-nos aqui um confronto imenso com a nossa humanidade distorcida! Mas fiquemos com um excerto do seu sermão:

A primeira coisa que me desidifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt veluti pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros». Tão alheia coisa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens. (...)
Já que assim o experimentais com tanto dano vosso, importa que de aqui por diante sejais mais repúblicos e zelosos do bem comum, e que este prevaleça contra o apetite particular de cada um, para que não suceda que, assim como hoje vemos a muitos de vós tão diminuídos, vos venhais a consumir de todo."
Pe. António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes


Este sermão, pregado na cidade de São Luís de Maranhão, no Brasil, em 1654, três dias antes de o Pe. António Vieira embarcar ocultamente para o Reino, não vale apenas pelo seu estilo. A ele se une a força do seu conteúdo, tornando-o imorredoiro na actualidade das suas afirmações.