MENDIGOS (I)
A
palavra mendigo, fruto de novas
conceções da pessoa e da sua respetiva integração social, parece ter caído em
desuso, dando lugar, atualmente a novas terminologias para definir aqueles que
vivem da mendicidade. Com efeito, a palavra mendigo, que significa pedir esmola, comporta na sua raiz o
étimo mendum que, no contexto das
sociedades pretéritas, se associava à deficiência física, já que o termo latino
mendum significa precisamente ter um
defeito físico.
Ora,
atualmente convivemos com a mesma prática da mendicidade, mas já sem essa carga
estigmatizante. As pessoas que vivem da esmola enquadram-se em categorias
diferenciadas, consoante as suas necessidades e o objetivo da recolha das
dádivas que pedem. Nalguns casos tais categorias coincidem na mesma pessoa; mas
nem sempre. Temos os sem-abrigo, privados das condições mais básicas de vida, a
habitar as nossas ruas, devido a fatalidades da sua história pessoal; temos os
pedintes, que vivem de uma prática enraizada de mendicidade; alguns toxicodependentes
que, não tendo recursos próprios, recorrem à mendicidade para prover às suas
necessidades imediatas de estupefacientes que lhes permitam o equilíbrio
físico, psíquico e emocional, quantas vezes já completamente comprometido pela
presença desses mesmos produtos. Em suma, pessoas que vivem uma extrema
carência material, que as incapacita de sobreviver com meios próprios.
Em
termos de respostas sociais, são hoje várias as instituições públicas e
privadas, que intentam suprir algumas destas necessidades. Mas a maioria dos
problemas de incapacidade de sobrevivência digna persiste em boa parte dos
casos. Neste sentido, é com agrado que vejo a iniciativa do Senhor Presidente
da República, insistindo com o governo e a sociedade, no sentido de nos
mobilizarmos para erradicarmos, desde logo, os sem-abrigo, respondendo às suas
necessidades mais básicas de uma casa e de alimentação. Sabendo que, em muitos
destes casos, tal processo tem de passar pela reeducação e pela capacidade de
oferta de trabalho às pessoas que se encontram nestas circunstâncias.
Mas
esta é uma causa que nos deve mobilizar a todos, mais próximos ou mais
distantes deste espetáculo degradante que envergonha a sociedade. Sim, porque
aquele princípio afirmado pela Gaudium et
Spes do Vaticano II não vale apenas para os católicos, mas é uma
interpelação a todos os homens de boa vontade, quando afirma: «Deus destinou a
terra e tudo o que ela contém para o uso de todos os homens e povos, de modo
que os bens criados devem chegar equitativamente a todos, segundo a regra da
justiça, inseparável da caridade» (GS. 69).
Mesmo das situações sociais mais problemáticas, de que é exemplo a
toxicodependência, nenhum de nós se pode alhear. Numa sociedade que tende para
o individualismo, o mais fácil é ignorarmos estas situações, ou então
apaziguarmos as nossas consciências com um pequeno gesto de partilha – uma
moeda, por exemplo – pensando que já fizemos a nossa parte. Num tempo em que
recrudesce a intervenção cívica, sobretudo na política, com novos movimentos
desalinhados das propostas políticas tradicionais, porque não constituirmos movimentos
cívicos que pugnem pela resolução destas situações humanas e sociais, no
sentido de termos uma comunidade mais justa?
Todos podemos olhar com distanciamento para as situações de carência
alheia; todavia, só seremos autenticamente humanos quando reconhecermos no
rosto do outro, em situação de privação, um rosto irmão, a amar e a auxiliar.
De
resto, todos nós somos, em certo sentido, verdadeiros mendigos, como havemos
ainda de refletir – de gestos de atenção, de amor, de presença, de reconhecimento,
de vida em plenitude!...
Atendendo a que tudo nesta vida é transitório, ainda que nos prendamos
excessivamente ao que possuímos, também nós somos mendigos: essencialmente
dessa vida plena, da vida que apenas Outro nos pode dar! É da Sua dádiva de
amor e de vida que recolhemos o dom e a obrigação de cuidarmos uns dos outros,
como verdadeiros irmãos!
Pampilhosa, 08 de Junho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(49ª Reflexão)