quarta-feira, 21 de junho de 2017

Mendigos (I)


MENDIGOS (I)

   A palavra mendigo, fruto de novas conceções da pessoa e da sua respetiva integração social, parece ter caído em desuso, dando lugar, atualmente a novas terminologias para definir aqueles que vivem da mendicidade. Com efeito, a palavra mendigo, que significa pedir esmola, comporta na sua raiz o étimo mendum que, no contexto das sociedades pretéritas, se associava à deficiência física, já que o termo latino mendum significa precisamente ter um defeito físico.

  Ora, atualmente convivemos com a mesma prática da mendicidade, mas já sem essa carga estigmatizante. As pessoas que vivem da esmola enquadram-se em categorias diferenciadas, consoante as suas necessidades e o objetivo da recolha das dádivas que pedem. Nalguns casos tais categorias coincidem na mesma pessoa; mas nem sempre. Temos os sem-abrigo, privados das condições mais básicas de vida, a habitar as nossas ruas, devido a fatalidades da sua história pessoal; temos os pedintes, que vivem de uma prática enraizada de mendicidade; alguns toxicodependentes que, não tendo recursos próprios, recorrem à mendicidade para prover às suas necessidades imediatas de estupefacientes que lhes permitam o equilíbrio físico, psíquico e emocional, quantas vezes já completamente comprometido pela presença desses mesmos produtos. Em suma, pessoas que vivem uma extrema carência material, que as incapacita de sobreviver com meios próprios.

   Em termos de respostas sociais, são hoje várias as instituições públicas e privadas, que intentam suprir algumas destas necessidades. Mas a maioria dos problemas de incapacidade de sobrevivência digna persiste em boa parte dos casos. Neste sentido, é com agrado que vejo a iniciativa do Senhor Presidente da República, insistindo com o governo e a sociedade, no sentido de nos mobilizarmos para erradicarmos, desde logo, os sem-abrigo, respondendo às suas necessidades mais básicas de uma casa e de alimentação. Sabendo que, em muitos destes casos, tal processo tem de passar pela reeducação e pela capacidade de oferta de trabalho às pessoas que se encontram nestas circunstâncias.

   Mas esta é uma causa que nos deve mobilizar a todos, mais próximos ou mais distantes deste espetáculo degradante que envergonha a sociedade. Sim, porque aquele princípio afirmado pela Gaudium et Spes do Vaticano II não vale apenas para os católicos, mas é uma interpelação a todos os homens de boa vontade, quando afirma: «Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para o uso de todos os homens e povos, de modo que os bens criados devem chegar equitativamente a todos, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade» (GS. 69).

   Mesmo das situações sociais mais problemáticas, de que é exemplo a toxicodependência, nenhum de nós se pode alhear. Numa sociedade que tende para o individualismo, o mais fácil é ignorarmos estas situações, ou então apaziguarmos as nossas consciências com um pequeno gesto de partilha – uma moeda, por exemplo – pensando que já fizemos a nossa parte. Num tempo em que recrudesce a intervenção cívica, sobretudo na política, com novos movimentos desalinhados das propostas políticas tradicionais, porque não constituirmos movimentos cívicos que pugnem pela resolução destas situações humanas e sociais, no sentido de termos uma comunidade mais justa?

   Todos podemos olhar com distanciamento para as situações de carência alheia; todavia, só seremos autenticamente humanos quando reconhecermos no rosto do outro, em situação de privação, um rosto irmão, a amar e a auxiliar.

   De resto, todos nós somos, em certo sentido, verdadeiros mendigos, como havemos ainda de refletir – de gestos de atenção, de amor, de presença, de reconhecimento, de vida em plenitude!...

   Atendendo a que tudo nesta vida é transitório, ainda que nos prendamos excessivamente ao que possuímos, também nós somos mendigos: essencialmente dessa vida plena, da vida que apenas Outro nos pode dar! É da Sua dádiva de amor e de vida que recolhemos o dom e a obrigação de cuidarmos uns dos outros, como verdadeiros irmãos!


Pampilhosa, 08 de Junho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(49ª Reflexão)