sexta-feira, 8 de julho de 2016

Simpatia

SIMPATIA

   Há dias, numa deslocação à beira mar, parei num café – geladaria, recentemente aberto numa das nossas praias, da costa de Aveiro, para tomar um café e comprar uma água. Nada de especial, pois é o que todos fazemos em cada dia, à beira mar, ou noutro espaço qualquer.

   Surpreendeu-me, isso sim, o sorriso e a amabilidade com que fui acolhido. Senti-me como se fora um cliente de todos os tempos! O cuidado posto no acolhimento, na pergunta de como desejava o café, mas particularmente no olhar sorridente, expressando amabilidade e simpatia, é que me fez sentir tocado por dentro. Naturalmente que aquela atitude me encheu a alma e foi um apontamento de particular riqueza humana naquele dia. Já no caminho pensava em como estes pequenos gestos fazem a grande diferença nas nossas vidas. Por vezes procuramos grandes acontecimentos ou atitudes para neles encontrarmos a felicidade, quando esta se pode esconder em pequenos gestos, como este, no nosso quotidiano. E, inevitavelmente, ocorreu-me refletir sobre  a importância da simpatia, nas nossas relações humanas.

   A palavra simpatia, do grego sympátheia (syn – junto e pathos – sentimento), expressa a capacidade de sentir os mesmos sentimentos que outra pessoa, ou seja, uma comunhão de sentimentos entre pessoas. Por via latina, cujo significado é o mesmo que o grego, chega ao português, com o sentido de «sentimento de identificação entre pessoas», uma espécie de «afinidade moral»[1].

   Ora, a simpatia expressa a minha capacidade de comunhão com o outro, colocando-me numa atitude de sintonia com ele e de acolhimento profundo da sua própria pessoa – essa afinidade moral. Daí que a simpatia seja tão importante para todos nós, pois nos faz sentir profundamente acolhidos.

    É certo que a simpatia pode ser uma questão temperamental e a sua ausência fruto de múltiplas frustrações e problemas que se acumulam nas nossas vidas, limitando essa capacidade de comunhão com o outro, já que muitas vezes estamos excessivamente absorvidos pelo nosso ego e pelas suas condicionantes. A simpatia requer, sem dúvida, a disponibilidade do ego para o alter, isto é do eu para o tu, para aquele que é outro. Esta disponibilidade pode treinar-se, no exercício continuado de me descentrar de mim, para me centrar naquele com quem me encontro. Tal exercício constitui, ainda, um esforço de aperfeiçoamento humano que nos enriquece, já que somos permanentemente seres em construção. Na verdade, a simpatia também se cultiva.

   Por oposição, a antipatia resulta de uma certa descarga emocional, sobre os outros, do nosso mal-estar ou das nossas frustrações. O que resulta no agudizar da tensão interior, pois a descarga emocional negativa sobre os demais não resolve os nossos problemas, antes os adensa, quanto mais não seja pela consciência de sermos injustos.

   Pessoalmente, não deixei de pensar nesta experiência e rever-me nela, já que eu também presto serviço público, por vezes privilegiado, porque, no ministério, toco aspetos íntimos da vida das pessoas. Mas pensava igualmente nos múltiplos serviços públicos e privados, das repartições de serviços do estado, aos serviços e escritórios particulares, até ao mais simples espaço de comércio, intuindo que se procedêssemos todos assim – com verdadeira simpatia – seriamos imensamente mais felizes.

   Na verdade, a simpatia é um valor a cultivar, pois por ela nos acolhemos mutuamente e somos efetivamente mais felizes!

 

 
Pampilhosa, 07 de Julho de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(8ª Reflexão)

 




[1] Cf. http://www.significadosbr.com.br