sábado, 4 de agosto de 2018


PATRIMÓNIO

   Estamos a celebrar, neste ano de 2018, o Ano Europeu do Património. Uma oportunidade de revalorizarmos, seja na conservação, seja na disponibilização, o nosso património material e imaterial.

   Importa, contudo, percecionar primeiramente o sentido profundo de património, para depois fazermos outras considerações. Com origem na palavra latina patrimonium (derivada de pater, pai), o património entende-se como herança. O patrimonium era aquilo que se herdava, «carregando os nexos de continuidade», «de entrega e recebimento», de «tradição»[1] na sua aceção mais profunda, enquanto traditio – entrega de alguma coisa a alguém. No que se refere ao património cultural, podemos tomar a expressão inglesa cultural heritage, que expressa precisamente a noção de herança, pois a sua tradução é exatamente herança cultural. Ora, esta noção de herança remete-nos para o material, mas a ideia de cultura remete-nos para o que é específico da nossa natureza humana – um ser capaz de cultura. Assim, património cultural expressa a nossa capacidade de herdar bens culturais, de os valorizar e de os transmitir às gerações futuras, numa atitude de desenvolvimento humano, que compreende a nossa cultura.

   Podemos ainda distinguir no património aquele que é material – que é tangível, que sendo construído ou natural, pode ser tocado; e o imaterial – que não é tangível, compreendendo um outro grau de abstração, mas que é expresso por vivências e manifestações culturais, de que são exemplo algumas crenças, danças, músicas, ditos, festas religiosas ou profanas, muitas vezes expressas na etnografia e no folclore.

   Em ambos os casos, o património material e imaterial expressa sempre a nossa identidade mais profunda; o nosso modo de ser e de nos expressarmos ao longo dos tempos. Daí o património cultural se cruzar tão intimamente com a história, porquanto traduz a forma de ser e de estar de uma pessoa ou comunidade na longa duração da sua existência. Ora, esta é uma herança preciosa que somos chamados a preservar. Precisamente porque traduz a nossa identidade, mas se constitui também como um enorme ativo comunitário, seja pela identidade conhecida, seja pelos valores artísticos identitários que se preservam, seja ainda pela mais-valia material, que se pode potenciar na musealização ou na visita turística. E num tempo em que o turismo cresce entre nós, a oferta da nossa identidade, expressa na herança cultural, material ou imaterial, é um dos maiores ativos para esta área da ação humana.

  Assim, por todas estas razões, temos hoje uma responsabilidade acrescida na preservação da nossa herança cultural, isto é, do nosso património.

   Neste sentido, diria ainda que este dever de preservação do património deve ser transversal a todas as comunidades locais, pois a nossa identidade comum, enquanto nação, expressa-se na diversidade das suas partes. E esta é uma enorme riqueza para nós. Sendo Portugal um país tão pequeno compreende um património tão vasto e tão rico, precisamente nessa diversidade regional e local.

  Neste sentido, é um dever apoiar todas as associações locais que trabalham em prol da preservação e valorização do património local. Prestam, inequivocamente, um serviço público de enorme importância.

   Num contexto local, quero evidenciar o trabalho desenvolvido pelo GEDEPA – Grupo Etnográfico de Defesa do Património e Ambiente da Pampilhosa. Num espaço já de si de enorme valor patrimonial e histórico, como é a Casa Quinhentista, podemos apreciar uma coleção imensa de artefactos que nos fazem recuar aos tempos pretéritos, mas numa diversidade que tanto nos permite situarmo-nos na longa duração da história e na exploração agrícola das freiras de Lorvão, como podemos particularmente conhecer o comércio de azeite ao tempo dos inícios do caminho-de-ferro, ou ainda o modus vivendi das nossas gerações passadas, dos sécs. XIX e XX, hoje desconhecidas de tantos, particularmente dos mais jovens. O trabalho de recolha e de exposição, que assenta no voluntariado e gosto de alguns, é um autêntico serviço público, que muito nos enriquece culturalmente.

   Necessitamos hoje de instituições semelhantes, noutros ambientes, para que o património seja preservado e exposto.

   Conservar e fruir o património cultural é um dever nosso. Para que sejamos dignos da herança cultural que nos foi legada.

   Pampilhosa, 08 de Março de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(78ª Reflexão)



[1] MENDES, António Rosa – O que é o património cultural. Olhão: Gente Singular Editora, 2012, p. 13.

VISITA PASTORAL
 
   Tem estado a decorrer, nas paróquias de Luso e Pampilhosa, a Visita Pastoral do Bispo Diocesano a estas comunidades paroquiais. Visita que, nos próximos meses, se estenderá também às demais paróquias da Unidade Pastoral da Mealhada.

   É específico da Visita Pastoral o acolhimento do Bispo que vem ao nosso encontro, enquanto sucessor dos Apóstolos e continuador da missão de Cristo Mestre, Sacerdote e Pontífice, missão que o próprio Cristo confiou aos Seus discípulos, e que agora se realiza numa Igreja Local, como a de Coimbra, a que pertencemos, em atitude de fé, pois só nela compreendemos o significado humano e espiritual de tal Visita. Contudo, esta atitude mais profunda vive-se no encontro fraterno, próximo e amigo, que o Bispo estabelece com cada um dos seus diocesanos. Sem descurar, depois, o encontro sacramental, que se expressa fundamentalmente nas celebrações litúrgicas a que o Bispo Diocesano preside a favor das comunidades que visita.

   Ora, esta Visita Pastoral, na sua primeira fase, foi marcada exatamente por isso mesmo: reconhecendo a identidade e a missão do Bispo Diocesano, este foi acolhido com imenso carinho e reconhecimento por parte das comunidades paroquiais. Mas, de igual modo, o Bispo Diocesano apresentou-se entre nós numa atitude muito próxima, de grande simplicidade e afabilidade no trato, numa atitude – permanentemente reafirmada – de quem vem para estar com os seus diocesanos. Os dois dias de visita, já vividos, foram intensos, não apenas pelo programa, mas pela densidade humana e de fé que as comunidades puderam experimentar.

   Mas, para além da comunidade crente – as comunidades paroquias, suas capelanias, seus serviços e ministérios –, também a comunidade civil quis acolher com enorme afabilidade o Bispo Diocesano. Registe-se a extraordinária receção e empenhamento das entidades civis, das empresas e das associações sociais, culturais, recreativas e desportivas, no acolhimento ao Bispo Diocesano. Se, por um lado, há o reconhecimento da missão do Bispo e da sua representação institucional; há, por outro, um acolhimento vivido na partilha da identidade e da vivência das comunidades, que nestas instituições, serviços e associações, tem a sua expressão mais profunda. Releve-se, todavia, como essencial a capacidade de alargamento de horizontes, com a perspetiva de que todos servimos as mesmas pessoas, na complementaridade, procurando a sua formação integral e o seu desenvolvimento harmónico, seja pessoal ou comunitariamente. Quando hoje se recoloca a questão da secularização e da separação de algumas entidades públicas face à Igreja, reconhecemos que, sem molestar essa separação positiva e a legítima autonomia de cada um, a nossa cooperação é sempre um bem mais precioso. Foi isso também que esta Visita revelou já, incentivando-nos a todos a construirmos comunidades mais coesas, que vivem em cooperação, no respeito pela legitimidade e pelo serviço específico de cada instituição.

   Neste sentido, é hora de assumirmos esta legítima autonomia das entidades locais, mas reforçando sempre os laços de comunhão que nos permitem sermos mais fortes – no serviço às pessoas e às comunidades.

   A Visita Pastoral torna-se, assim, um momento singular de reforço da vivência da fé cristã, para as comunidades crentes, mas também um momento de encontro entre todos e de estímulo a cada um no seu contributo para o bem comum.

   Estando ainda a decorrer, esperamos que esta Visita Pastoral seja um dom para todos, irmanando-nos nos ideais humanos mais profundos e numa comunhão autenticamente fraterna que nos faça sentir corresponsáveis pelo bem uns dos outros.

Pampilhosa, 01 de Março de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(77ª Reflexão)

 

 

CUIDAR OS PENSAMENTOS

   Os cristãos estão a viver um tempo litúrgico de preparação para a maior festa cristã: a Páscoa! É um tempo de renovação pessoal, de renovação das relações interpessoais e do acolhimento do infinito amor de Deus.

   Um dos aspetos que sempre esteve presente no aprofundamento da vida espiritual foi o cuidado com os pensamentos. Tanto mais que no rito da confissão, que recitamos sempre em cada Eucaristia, referimos isso mesmo: «pequei muitas vezes por pensamentos, palavras, atos e omissões». Ora, referir que pecamos por pensamentos pode significar, para alguns, meramente um ato ritual; para outros, uma conceção tradicional; para alguns, ainda, uma espécie de ato autopunitivo ou limitativo da liberdade; e para outros, por fim, deixou de ter qualquer significado.

   Todavia, cuidar dos pensamentos é uma necessidade premente – não para nos punirmos ou flagelarmos, mas sim para cultivarmos uma vivência feliz! Aliás, por mais paradoxal que possa parecer, é isso que todos nós hoje afirmamos: a necessidade de cultivar pensamentos positivos. Exatamente pela consciência de que os nossos pensamentos trazem à tona da vida as nossas emoções e projetam as nossas ações. Assim, se algum de nós, por razões de natureza pessoal, de vivência familiar, de deficiências nas relações interpessoais, por razões afetivas ou sociais, ou até mesmo por temperamento, com dificuldade de inter-relação, cultiva pensamentos negativos em relação aos outros, não raro vive num permanente inferno interior, de desolação, de sofrimento, de angústia, de tristeza e, não raro, de sofrimento, por vezes, mesmo, de consequências físicas. Quando alguém alimenta sentimentos de raiva, de ódio, de má querença para com os demais, vive essencialmente uma vida infernizada, sem aquele sabor da alegria e da paz, que a vida deve compreender.

   De igual modo, quando, por razões semelhantes, sobretudo de formação pessoal ou de vivência afetiva, alguém cultiva sentimentos negativos em relação a si mesmo, encontra como consequência a falta de autoestima, o abatimento, a tristeza, ou uma certa sensação de infelicidade.

   Urge cuidarmos dos nossos pensamentos! Não para nos punirmos, qual silício que nos leve à moderação de desejos, mas sim para vivermos a vida feliz para que todos nós fomos criados. Não se trata de nos alhearmos do que somos no mais profundo de nós, das nossas emoções e mesmo das nossas relações interpessoais. Tão pouco se trata de pactuarmos com vivências humanamente indignas ou injustas. Trata-se, isso sim, de saber aceitar o que somos, sem nos escondermos de nós mesmos, de trabalharmos pela dignificação das várias vivências humanas, de nos empenharmos em ser justos para connosco e para com os outros, mas sem cultivarmos sentimentos de rancor, de ódio, de perda de estima pessoal, de conflito ou de rutura com os demais. Por vezes, estes sentimentos negativos habitam apenas o nosso interior e são fonte de um enorme peso, porque retiram à vida a beleza e a serenidade de que esta se deve revestir.

   Independentemente das circunstâncias externas, mais favoráveis ou menos favoráveis, com que todos temos de lidar, a orientação dos nossos pensamentos depende de nós mesmos. E da sua orientação depende o nosso bem-estar ou a nossa infelicidade.

   Afinal, afastar alguns pensamentos menos bons, como propõe a espiritualidade cristã, não é algo de ultrapassado. Nós é que tornámos redutora essa proposta, porquanto a orientámos essencialmente para as questões da afetividade e da sexualidade. Afastar os maus pensamentos leva-nos a uma revisão de nós mesmos, pois os pensamentos são determinantes na orientação das nossas vidas: são eles que nos permitem assumir positivamente as nossas emoções e nos ajudam a definir ações mais assertivas em ordem à tranquilidade e ao bem-estar pessoal e inter-relacional.

   Cuidar dos pensamentos é um convite para todos. No seu cuidado seremos certamente mais felizes, pessoal e comunitariamente.

Pampilhosa, 22 de Fevereiro de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(76ª Reflexão)

 

 

REDESCOBRIR A MISERICÓRDIA

   Sempre me inquietou esta expressão de Jesus, no Evangelho: «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado» (Mc. 2, 27), que se compreende à luz destoutra: «Eu quero misericórdia e não sacrifício» (Mt.9, 13); significando que a pessoa está no centro de toda a Sua ação e não a lei. Ou, ainda, que a lei é para o homem e não o homem para a lei. Se este é o modo de agir de Jesus, amando cada pessoa, que coloca no centro da Sua atenção, apontando-lhe caminhos de autêntica felicidade e de verdadeira liberdade, certo é que não se detém apenas aí: mesmo quando fracassa, a pessoa tem sempre possibilidade de recomeçar - «eu quero misericórdia e não sacrifício» -, sabendo que o caminho pode ser sempre refeito e a compaixão do Mestre é sempre maior que a falha de quem fraquejou. Certamente que Jesus denuncia o mal – exatamente por isso: porque faz mal à pessoa -, mas ama sempre, e em qualquer circunstância, cada homem ou cada mulher, nunca confundindo o mal com a pessoa que o vive. Em qualquer circunstância, a pessoa está sempre acima do bem ou do mal praticado. Chamado a viver uma vida autêntica, certamente de bem, a pessoa vale sempre mais que os seus próprios atos.

    A Igreja, enquanto comunidade de discípulos de Jesus, e cada cristão configurado com Ele pela graça batismal, não podem ter outra forma de agir senão ao estilo do próprio Jesus – centrados na pessoa, mais do que na lei, e num permanente exercício de misericórdia.

   O Papa Francisco tem tido, ao longo destes cinco anos do seu pontificado, esta atitude permanente de misericórdia. Mais, a misericórdia é, certamente, a atitude que melhor define o seu pontificado. Não esquecemos a advertência que o Papa nos fazia, aquando do Ano Santo da Misericórdia, celebrado no ano litúrgico de 2015 – 2016. Escrevia ele, então: «A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo» (RM. 10).

   Ora, se estes princípios valem para todas as situações da vida, hão-de valer também para a realidade do matrimónio e para toda a vida familiar. Se é certo que a solicitude da Igreja nos deve levar sempre a identificar os males da sociedade de hoje, que põem em perigo a pessoa e a sua dignidade, nas suas vivências pessoais, matrimoniais e familiares, apontando caminhos de realização pessoal e da comunidade familiar, como bem fez o Papa João Paulo II, na sua Encíclica sobre a Família: Familiaris Consortio; também é verdade que os princípios propostos não se podem sobrepor à pessoa, esmagando-a, mesmo quando ela quer reerguer-se para retomar um caminho novo. E é aqui que, uma vez mais, se chocam, para mim, estes dois princípios: a primazia da pessoa ou a primazia da lei? Entendo que as leis, também as morais, têm de ser objetivas e claras! Mas como as utilizamos? Ao serviço das pessoas, ou esmagando as pessoas? Não tenhamos dúvidas, sempre que a lei se sobrepõe à pessoa caímos no legalismo do Antigo Testamento; quando nos centramos na pessoa e lhe propomos a lei como caminho, então sim, somos discípulos de Cristo.

   Nesta questão do matrimónio e da família, que tanto tem andado - com exageros de parte a parte – na comunicação social, sinto ser dever da Igreja propor caminhos claros e objetivos, mas acolhendo sempre, sempre as pessoas, permitindo que cada um viva gradualmente os ideais de vida cristã, com caminhos possíveis entre o ideal e o pessoalmente realizável, sem que ninguém, mas mesmo ninguém, fique de fora do acolhimento fraterno que a Igreja a todos deve oferecer. É para aí que o Papa Francisco nos aponta, com o seu magistério. E, infelizmente, é isso que alguns, presos à letra da lei, se recusam a querer assumir. Se não for por fidelidade ao magistério pontifício, que ao menos o seja por fidelidade a Cristo, conscientes das expressões com que iniciámos esta reflexão. Se também a Ele recusam obediência, então certamente deixarão de poder falar em Seu nome! Necessitamos, claramente, de redescobrir a misericórdia!  

Pampilhosa, 15 de Fevereiro de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(75ª Reflexão)

 

CORRUPÇÃO 

   A corrupção define-se, no direito, como «aliciamento de uma ou mais pessoas, geralmente através da oferta de bens ou de dinheiro, para a prática de atos ilegais, em benefício próprio ou de outrem», comumente traduzido como «suborno», e que, em sentido figurado, se entende também como «degradação de costumes» ou de «valores morais, e ainda como «perversão»[1].

   O Papa Francisco tem assumido uma autêntica «cruzada» (entenda-se o termo em sentido figurado) contra a corrupção, pois, refere: «a corrupção é a chaga da sociedade», afirmando-a como a «lei da selva» e a «fraude da democracia»[2]. Presente na política, nas empresas, nos meios de comunicação, nas Igrejas e mesmo nalguns movimentos populares, ela é mais uma doença do que um mal, afirma Francisco. O Papa define ainda a corrupção como um processo de morte que é a raiz da escravidão, do desemprego, do abandono do destino universal dos bens e da destruição da própria natureza». Afirma ele que «a ambição do poder e do ter não conhece limites»[3], fazendo com que muitos persistam nesta atitude permanente de mal. Daí que tenha proposto a todos os cristãos e homens de boa vontade, como sua intenção para este mês de Fevereiro, o «não à corrupção»; precisamente «para que aqueles que têm poder político ou espiritual não se deixem dominar pela corrupção»[4]. A este mal que grassa, de forma transversal, na sociedade, o Papa contrapõe a revalorização da honestidade, como um valor pessoal e como um requisito para o exercício das funções públicas.[5]

   Curiosamente, e sem pretendermos fazer juízo do que se encontra em processo de inquérito e de julgamento nas instâncias próprias da justiça, Portugal tem-se confrontando, por estes dias, com processos de corrupção que atingem políticos, empresários, magistrados, dirigentes desportivos, entre outros, que se interligam em rede com alguns dos nomes mais sonantes destes processos. Procedimentos jurídicos, devido à corrupção, que se associam a outros, já em curso e à espera de uma conclusão que parece tardar. Conscientes desta realidade, podemos perguntar-nos: Portugal está doente? Por mais que afirmássemos que comparativamente a outros países não chegamos aos mesmos níveis de corrupção, efetivamente Portugal está doente! O nosso país ocupa, segundo o Transparency Internacional, a 29ª posição no ranking sobre os níveis de corrupção no setor público, segundo os dados apurados para 2016.[6] Relevando esta organização não-governamental a relação entre corrupção sistémica e as desigualdades sociais.[7]

   Ora, as consequências da corrupção em Portugal são diversas: desde logo, porque evidenciadas pelas elites sociais e políticas, causam um efeito de mimetismo, com prejuízo para as finanças públicas, para o equilíbrio social e para a igualdade de oportunidades entre cidadãos; depois, a corrupção cria desconfiança e torna-se motivo para descredibilizar quem exerce funções públicas. Mas, mais grave: ela é fonte de injustiça, impede o desenvolvimento social harmónico e equitativo, pondo em causa a paz social e debilitando a própria democracia.

   Neste sentido, temos todos de caminhar para uma sociedade mais justa, assente em valores fundamentais, onde se recupere como requisito fundamental para o serviço público a verdadeira honestidade, condição de idoneidade incontornável para cuidar da res publica. E quando digo todos, refiro-me mesmo a um esforço comum! Admira-me a condescendência de alguns setores da sociedade portuguesa na aceitação em cargos públicos de pessoas que foram condenadas precisamente devido à corrupção, como se pôde verificar nas últimas eleições autárquicas. Sinal de que estamos anestesiados; ou não valorizamos suficientemente as consequências da corrupção. Necessitamos de retomar valores fundamentais para o exercício de funções públicas! A todos os níveis da administração. E um desses valores fundamentais é precisamente a reconhecida honestidade!

Pampilhosa, 08 de Fevereiro de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(74ª Reflexão)



[1] Cf. Voc. Corrupção. In Dicionário da Porto Editora [online].
[2] PAPA FRANCISCO – Discurso ao Empresários. Vaticano, 18.11.2016. Disponível em pt.radiovaticana.va [Consultado a 05.02.2018].
[3] Papa apela ao combate à corrupção. In Rádio Renascença, 01.02.2018.
[4] In Passo a Rezar com o Papa. Disponível em: passo-a-rezar.net [Consultado a 05.02.2018].
[5] Cf. Discurso aos empresários. Op. Cit.
[6] Cf. Corrupção. Portugal piora e cai para 29º lugar no ranking. In Jornal Expresso (25.01.2017), disponível em expresso.sapo.pt [Consultado a 06.02.2018].
[7] Cf. Ibidem.

PARÓQUIAS

   A vida das nossas paróquias continua, essencialmente, assente na ação dos padres e na sua capacidade, maior ou menor, de resolver as necessidades pastorais de cada uma delas. Não obstante termos já algumas comunidades mais dinâmicas, capazes de uma ação mais desenvolta na realização das tarefas essenciais a desenvolver por estas instâncias pastorais.

   Mas para a compreensão desta realidade, necessitamos de atender ao modelo de serviço pastoral que ainda prevalece na maioria das comunidades, não só localmente, mas a nível global.

   O padre, que pelo seu ministério preside às comunidades, enquanto pastor próprio, unido ao bispo diocesano, é uma figura que vem de fora, investido na autoridade que lhe é conferida pelo direito canónico, superentendendo, assim, em todas as atividades das comunidades paroquiais. Algumas vezes não preside apenas, mas é chamado a realizar algumas tarefas que podem ser desempenhadas por outros membros das comunidades, o que cria uma visão de centralidade do sacerdote.

   Por seu turno, as comunidades paroquiais oscilam, ainda hoje, entre um claro sentido de responsabilidade laical e um espírito de simples colaboração, na realização das múltiplas tarefas que cabem a estas comunidades paroquiais. As diferenças são hoje notórias entre comunidades, por vezes mesmo de vizinhança.

   Neste quadro, existe ainda uma realidade que dificulta aquilo que pretendíamos como sentido de corresponsabilidade – a responsabilidade comunitária partilhada -, como, por exemplo, as exigências de respostas pontuais a cristãos ou pequenas comunidades que desconhecem o novo dinamismo eclesial, que se pretende de comunhão. Neste caso, podemos considerar a solicitação isolada de sacramentos, como o batismo ou o matrimónio; ou de sacramentais, como a celebração das exéquias ou de algumas festas, concretamente na realização de procissões. Quando, por razões pastorais ou de agenda, o pároco não pode corresponder às solicitações, a tendência é logo a de pedir outro padre, mesmo que este desconheça a vida da comunidade paroquial, mas que, não raro, se exige como um direito pessoal ou comunitário. Aliás, quando uma paróquia fica desprovida de padre, esse direito afirma-se claramente perante o bispo diocesano, como se este fosse o único responsável pela existência de padres disponíveis para as diversas paróquias.

   Ora, neste quadro, continuamos a viver uma vida comunitária centrada no padre e desresponsabilizando as comunidades pelas suas diversas tarefas, incluindo o despertar das diversas vocações, incluindo as de consagração.

   Necessitamos, então, de um novo modelo de paróquia: assente fundamentalmente na corresponsabilidade, visível na partilha efetiva de tarefas, que dá rosto à centralidade das comunidades. Neste quadro, o padre, sendo aquele que preside às comunidades paroquiais, que têm o centro da sua vida na Eucaristia, assume muito mais a tarefa de coordenação pastoral e de garante da fidelidade à Igreja, no seu todo, e às orientações da diocese, em particular, do que propriamente aquele que manda e age por si só. A centralidade deixa de ser sua, mas passa a ser da própria comunidade.

   Assim, caberá sempre a cada comunidade a resolução das suas próprias necessidades pastorais; por si, ou agregada a outras comunidades paroquiais. Logo, deixa de fazer sentido que, por exemplo, na celebração de atos de piedade – festas ou outras celebrações – se recorra a outro sacerdote sem um parecer da comunidade; isto é, sem um autêntico compromisso comunitário.

   A comunidade, como responsável por toda a sua ação e vivência, desperta ainda para a diversidade de ministérios e serviços, capazes de corresponder às suas necessidades de ação pastoral; incluindo as vocações de consagração. Sabendo que a Eucaristia forma a comunidade e que é o centro da sua vida enquanto tal, necessariamente tem de despertar em si as vocações sacerdotais, como as demais vocações, para que possa realizar a sua missão.

   Urge passarmos de um modelo clerical (centrado no padre, no clérigo), para um modelo comunional (de verdadeira comunhão de pessoas e serviços, visível na comunidade) para que a Igreja corresponda aos desígnios do Concílio Vaticano II; regresse à vivência das origens, dos seus primeiros séculos; e responda às necessidades deste tempo.

Pampilhosa, 01 de Fevereiro de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(73ª Reflexão)

DESTINO UNIVERSAL DOS BENS

   A Constituição Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, ao referir-se ao destino universal dos bens, afirma perentoriamente: «Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos, de modo que os bens criados devem chegar equitativamente a todos, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade» (GS. 69).

   Ora, se este é um princípio de equidade básica, que todos aceitamos, porque inscrito nos direitos fundamentais de todo o ser humano, a verdade é que a realidade é bem distinta de tal princípio. Bastará, para o consciencializar, atender à notícia, publicada no Jornal online Notícias ao Minuto, do passado dia 21, com o título: «Mais de 80% da riqueza gerada em 2017 está nas mãos de 1%»[1]. A notícia avança com a análise dos lucros dos mais ricos, com o aumento do número de bimilionários, deixando-nos perceber a distância, sempre tão aguda, entre quem possui desmedidamente e quem não possui os bens essenciais para viver dignamente. Sem me deter demasiado na notícia, sublinho apenas a afirmação de que «o aumento da riqueza registada no ano de 2017 dava para acabar com a pobreza extrema no mundo mais de sete vezes». Assim sendo, estamos efetivamente diante de um terrível desequilíbrio na redistribuição dos rendimentos auferidos, enquanto resultado dos bens produzidos. Um desequilíbrio entre pessoas, entre nações (algumas delas fornecendo matérias primas e sem serem devidamente ressarcidas por esses fornecimentos) e entre regiões geográficas. Estamos num mundo economicamente desequilibrado e injusto.

   Certamente que não pretendo afirmar aqui um igualitarismo, enquanto sistema ideológico, que nivelasse a vida de todos os homens numa igualdade absoluta, sem diferenças; mas, sim, salvaguardar a dignidade e os direitos básicos de pessoas e povos. De resto, os modelos igualitaristas, assentes em modelos de propriedade coletiva dos meios de produção e de anulação das classes sociais, faliram, ao longo da história, deixando-nos entrever que mediante o esforço de todos apenas uma minoria usufruía qualitativamente dos resultados dessa produção. Por outro lado, também o capitalismo desenfreado, onde o lucro é a palavra de ordem, deixa na margem a maioria das pessoas, beneficiando apenas algumas. Como, de resto, se pode verificar no artigo indicado.

   Assim sendo, temos de encontrar um meio-termo, que sirva a justiça social e a equidade.

    Conscientes de que as empresas e os serviços beneficiam do trabalho de todos, não nos será difícil compreender que uma boa parte do lucro é pertença dos trabalhadores, por direito próprio, que lhe é assegurado mediante uma justa remuneração. Ao mesmo tempo que estes se empenham no desenvolvimento e crescimento das empresas e serviços onde colaboram e asseguram o seu trabalho; na certeza de que o bem das empresas é também o seu próprio bem. Pelo menos assim deveria ser, não obstante uma certa tendência atual para a procura do lucro à custa, quantas vezes, do trabalho mal remunerado dos colaboradores de algumas empresas e serviços.

   Inclusive, uma justa remuneração não pode nivelar-se simplesmente pelos valores superiormente definidos como mínimos; mas, para que seja justa, tem de considerar o trabalho realizado e a produção alcançada. Isto é, uma remuneração em linha com os bens auferidos.

   Algumas empresas, com forte sentido de compromisso social, fazem-no e vão mesmo até mais longe, atribuindo prémios de produção aos funcionários ou colaboradores. Não sendo tal ação obrigatória, é um forte incentivo à produção e uma expressão clara de sensibilidade social.

   Ao invés, o salário justo é um dever, resultante do trabalho realizado, que é um direito dos trabalhadores e a salvaguarda da sua dignidade, bem como daqueles que lhe estão afetos, dependendo deles economicamente.

   Na perspetiva do «princípio do uso comum dos bens», afirmava o Papa João Paulo II, na Encíclica Laborem Exercens: «um salário justo apresenta-se em todos os casos como verificação concreta da justiça de cada sistema socioeconómico e, em qualquer hipótese, do seu justo funcionamento» (LE. 19). Certamente um percurso a aferir permanentemente e, sobretudo, a aperfeiçoar. A bem da justiça e da dignidade humana.

Pampilhosa, 25 de Janeiro de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(72ª Reflexão)



[1] Cf. www.noticiasaominuto.com [consultado a 21.01.2018].