sábado, 4 de agosto de 2018

Médio Oriente


MÉDIO ORIENTE

   O conflito no Médio Oriente tem sido uma chaga permanente, a criar instabilidade política e social na região, mas também no mundo inteiro. Refiro-me não aos diversos conflitos que assolam presentemente aquele espaço geográfico, mas especificamente às relações de tensão permanente entre judeus e palestinianos.

   Sem nos determos excessivamente sobre a história deste conflito e a sua génese, recordemos apenas que após a Segunda Guerra Mundial, depois de muitos judeus se terem refugiado já em Israel, a Organização das Nações Unidas (ONU) sentiu a necessidade de propor uma solução de consenso entre judeus e palestinianos, no sentido de partilharem o território, com a constituição do estado de Israel, que contava já com 650 mil habitantes, e um Estado Árabe-Palestiniano, que contava com mais do dobro dessa população israelita. Com o processo negocial a decorrer, David Ben Gurion, a 14 de Maio de 1948, lê a declaração de independência de Israel, logo reconhecida pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética, tornando-se Ben Gurion o primeiro chefe de governo do novel estado de Israel. Acontece, porém, que logo no dia a seguir à declaração de independência, os árabes uniram-se para atacar Israel. Como este saiu vitorioso da luta contra os árabes, conquistaram logo 78% do antigo território palestiniano, mais 22% do que se previa com o acordo da ONU. É certo que em 1949 foi firmado um acordo de paz entre Árabes e o estado de Israel; mas a verdade é que decorrida toda a segunda metade do séc. XX e já parte do séc. XXI, o Estado da Palestina nunca chegou realmente a ser criado e a paz nunca mais se alcançou em definitivo.

  Ora, numa perspetiva ocidental, muitos tendem a olhar com mais simpatia para Israel e, porventura, com menos simpatia para os Palestinianos. Sendo esta, de resto, uma imagem frequentemente transmitida por vários opinion makers, de alguns canais de televisão. Contudo, quem experimenta a realidade in loco apercebe-se de uma relação injusta entre dois povos, que tinham direito a viver uma relação pacífica. Por um lado, os palestinianos, com os seus territórios dispersos no seio do estado de Israel, veem-se não só profundamente limitados no acesso ao território israelita, como ainda lhes é vedada a circulação de acesso aos demais territórios da palestina, tendo, mesmo, num dos casos que pude conhecer, de transitar pela Jordânia para aceder a estes territórios. Por outro lado, na sequência da Guerra dos Seis Dias, ou terceira Guerra Israelo-Árabe, travada entre 05 e 10 de Junho de 1967, Israel ultrapassou a denominada «linha verde» (que delimitava os territórios de Israel e da Palestina), construindo colunatos em território palestiniano, exercendo, assim, um domínio injusto sobre aquele território e asfixiando, cada vez mais, os seus habitantes. Extensão e domínio que nunca mais pararam, tornando-se uma fonte permanente de opressão dos palestinianos.

   A estas razões políticas, juntam-se as de natureza religiosa, particularmente no que se refere a Jerusalém – a cidade santa para Judeus, Cristãos e Árabes.

   Ora, é neste quadro tão complexo, quanto injusto, pesem embora todas as razões históricas e religiosas reclamadas pelas partes, que o presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, numa ação completamente irracional, que se inscreve no seu espírito belicoso e irresponsável, vem agudizar, ainda mais, o conflito no Médio Oriente, com a declaração da transferência da embaixada dos Estados Unidos da América de Telaviv para Jerusalém; o que significa, na prática, o reconhecimento político de que Jerusalém é a capital do Estado de Israel. Sendo uma afronta aos Palestinianos, provocou imediatamente novos conflitos, com centenas de feridos e alguns mortos e renovou a instabilidade que se refletirá em todo o mundo ocidental. Numa palavra: acicatou ainda mais os ódios contra os Estados Unidos e seus aliados, muitas vezes canalizados em atos terroristas que, cada vez mais, nos colocam sob a sensação de instabilidade global. Ato verdadeiramente irresponsável.

   Na verdade, como defendeu a ONU, e como defendem alguns estadistas, a questão da Palestina só se resolve com a definição de dois estados e seus legítimos territórios: o Estado de Israel e o Estado da Palestina. Por seu turno, como bem defendeu o Papa João Paulo II, e bem defende o Papa Francisco, atualmente, Jerusalém, pela sua natureza, necessita de um estatuto especial, que contemple a partilha dos dois povos e dos três credos.

   Podemos concluir que sem justiça e com opressão nunca se alcançará a paz desejada. A Palestina é um exemplo singular disto mesmo! Um exemplo que vale para muitos outros âmbitos das relações internacionais, locais e até pessoais: só com justiça e respeito pela dignidade dos demais a paz será possível.


Pampilhosa, 14 de Dezembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(67ª Reflexão)

 

 

Para haver Natal


PARA HAVER NATAL

    Com frequência ouvimos nas campanhas publicitárias desta época natalícia, nos meios de comunicação social, particularmente na televisão, a expressão: «Não há Natal sem…», a que acresce o produto que se pretende publicitar. Ora, partindo desta expressão, pergunto-me interiormente: o que é necessário para que haja Natal? Tanto mais que vivemos um tempo preparatório da sua celebração, o tempo de Advento.

   Em primeiro lugar, teremos de definir a orientação do nosso Natal: se orientado para nós e para os nossos interesses, muitas vezes forjados desde a mais tenra infância; se orientado para relação com o tu, na alteridade e na partilha; ou ainda, para quem vive a natureza íntima do Natal, se para a relação com o Tu (com letra maiúscula). Podendo-nos assim questionar, também, se o Natal nos fecha em nós, ou se nos abre, para além da renovada comunhão familiar, à relação universal com os demais e com a própria criação.

   Vivido num clima de intimidade, até pela estação do ano, que convida ao recolhimento, o Natal é uma época de atenção aos que estão mais próximos, confinando-se, não raro, à comunidade familiar, mais restrita ou mais alargada. Mas o Natal, pela sua natureza, é um convite ao reconhecimento de cada homem e de cada mulher como autênticos irmãos, numa familiaridade que se estende para além dos laços de sangue e que não é compaginável apenas com algumas campanhas de solidariedade que, por muito proveitosas que sejam e são, não podem esgotar o sentido do Natal. O Natal é isso mesmo: um tempo de novo nascimento, de renovação, de aprofundamento do que mais nos humaniza e nos realiza precisamente como seres humanos – a verdadeira fraternidade.

   Assim, para que haja Natal; ou melhor, tomando a expressão inicial, «não há Natal sem» Jesus. É o seu nascimento que vamos celebrar! Ele é o sentido do Natal e mais ninguém. Tudo o resto são acréscimos a uma quadra festiva, que tem o Seu nascimento como centro.

   Mas celebrar o Natal (nascimento) de Jesus não é algo de meramente ritual, que nos satisfaça simplesmente com as celebrações litúrgicas, tão cheias de afeto e ternura, que caracterizam esta quadra. Também esse seria o perigo de alguns cristãos: ritualizar, sem grande compromisso, o tempo do Natal.

   Para haver Natal tenho de me redescobrir a mim, aprofundando a minha identidade humana que se ilumina à luz do mistério de um Deus incarnado; e tenho, muito particularmente, de redescobrir o sentido do outro, à luz da presença interlocutora de Deus, que Se faz carne, no Deus Menino, tornando-se um de nós e interlocutor nosso no devir da nossa história humana.

   Mas todo o quadro do nascimento de Jesus é já, em si, uma forte interpelação simbólica! Mais do que as palavras, o presépio contemplado é uma interpelação a olhar os presépios do nosso tempo: dos que nascem em casebres ou vivem nas ruas, sem lugar nas hospedagens; dos que não têm condições básicas de vida, de higiene, de saúde, de formação, de trabalho, enfim… condições que lhes permitam viver dignamente a sua existência humana. O presépio, que São Francisco de Assis tão bem quis representar, continua a ser uma lição nos dias de hoje. E sê-lo-á tanto mais quanto calarem fundo no nosso coração aquelas palavras do próprio Jesus: «O que fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos a Mim o fizestes» (Mt. 25, 40). Jesus, nascido na pobreza, em Belém, lança o nosso olhar para as pobrezas de todas as cidades e aldeias, dizendo-nos que é nelas, trabalhando pela justiça e pela equidade entre todos os homens, socorrendo todos os que estão necessidade, que viveremos realmente o Natal.

   Então… não há Natal sem Jesus; nem há Natal sem os irmãos! Particularmente sem os mais pobres, desfavorecidos, injustiçados da nossa sociedade. Se nos alhearmos destes, detendo-nos no conforto dos nossos lares, viveremos o Natal. Mas, definitivamente, faltar-nos-á o autêntico espírito do Natal, pois é nesses que Jesus teima em querer nascer no meio de nós!


Pampilhosa, 07 de Dezembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(66ª Reflexão)

 

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Ambiente


AMBIENTE

   Uma das questões mais candentes da atualidade, não obstante haver ainda quem a relativize, é a questão ambiental. De uma forma muito sucinta, esta pode definir-se como uma preocupação social (há quem refira mesmo um movimento social!) em torno dos problemas que a falta de um desenvolvimento sustentável adequado pode trazer para a qualidade de vida do ser humano, na atualidade, e para o futuro das próximas gerações.[1] Realidade que ultrapassou, há muito, os meandros de algumas ideologias, para assumir lugar importante na agenda política internacional. Pese embora, apesar de algumas decisões assertivas, permaneça enfraquecida face à supremacia de alguns interesses económicos, que relegam para segundo plano a sustentabilidade ambiental. Todavia, estamos num ponto sem retorno. E quem no-lo diz são, uma vez mais, os cientistas. Depois de um primeiro grande aviso sobre as consequências de uma destruição ambiental, de há vinte cinco anos atrás, da Union of Concerned Scientists, acompanhada da assinatura de mais mil e setecentos cientistas independentes, alguns deles prémio nobel da ciência, com o documento «Advertência dos Cientistas do Mundo à Humanidade», de 1992, em que referiam perentoriamente que «é necessária uma grande mudança na nossa gestão da Terra e da vida para se evitar uma vasta miséria humana»[2]; eis que surge agora uma segunda advertência, que nos chama a atenção para o fracasso das medidas tomadas desde então, com exceção da diminuição da camada de ozono, e a advertência de que estamos à beira de uma catástrofe ambiental, sobretudo devido à trajetória das mudanças climáticas, como consequência do aumento dos gases de efeito estufa (GEE), particularmente provocados pela queima de combustíveis fósseis, desmatamento e aumento significativo de produção agropecuária, entre outras causas. Nesta segunda advertência, em que se propõem diversas medidas concretas em ordem a uma nova sustentabilidade ambiental, reafirma-se que «para evitar miséria generalizada e perda catastrófica de biodiversidade, a humanidade deve adotar práticas ambientalmente mais sustentáveis e alternativas em relação às práticas atuais»[3].

   Ora, sem uma visão demasiado pessimista, podemos afirmar que começamos já a sentir os efeitos das alterações climáticas enunciados. Particularmente os países do sul da Europa, como Portugal e Espanha, são dos mais vulneráveis, onde o aumento das temperaturas e a diminuição da pluviosidade mais se fazem sentir, com todas as consequências que daí advêm para a resposta às nossas necessidades humanas mais básicas e às necessidades da produção agrícola. Este ano, em que tivemos menos chuva e temperaturas mais elevadas, ainda que podendo ser um ano de exceção, insere-se, todavia, num ciclo de continuidade temporal que não é muito animador. Assim, necessitamos de nos consciencializar que urge tomarmos medidas eficazes que envolvam a sociedade no seu todo – decisores políticos, empresários, instituições formativas e cada cidadão, em particular. A defesa do ambiente deve ser transversal a todas as nossas atividades – públicas e privadas.

   Mas sintomas deste efeito da crise ambiental registam-se ainda a outros níveis, de que é exemplo a degradação do património histórico construído. Como se pode constatar na Catedral de Notre Dame, em Paris, cujas pedras multiseculares estão a desfazer-se com a poluição, ameaçando ruir. Realidade que afeta outros monumentos, um pouco por toda a parte.

   A preservação do ambiente e, consequentemente, da nossa casa comum, exige-nos uma nova atitude. O Papa Francisco, na sua encíclica Laudato Si (Louvado Sejas – Sobre o cuidado da casa comum), dirigida a todos os cristãos e a todos os homens de boa vontade, faz um apelo veemente neste sentido, interpelando-nos a viver uma autêntica «conversão ecológica» (LS. 217); que compreenda uma nova mentalidade e uma nova atitude na relação com a criação. É que a questão ambiental não é já uma questão ideológica, como alguns ainda querem fazer crer, mas sim uma questão da nossa sobrevivência!

 
Pampilhosa, 30 de Novembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(65ª Reflexão)



[1] Cf. GRUPO ESCOLAR – A questão ambiental. Disponível em www.grupoescolar.com (consultado a 28.11.2017).
[2] Cf. Advertência dos Cientistas do Mundo à Humanidade: um segundo aviso. In Sustentabilidade é ação. Disponível em: http://sustentabilidadenaoepalavraeaccao.blogspot.com (Consultado a 28.11.2017).
[3] Cf. Ibidem.

Dia Mundial dos Pobres


DIA MUNDIAL DOS POBRES

   No passado domingo, a Igreja Católica celebrou, universalmente, o Iº Dia Mundial dos Pobres. Uma celebração instituída pelo Papa Francisco, na sequência do recente Jubileu da Misericórdia. Ainda que sendo um convite dirigido aos cristãos, este dia alarga-se a todos, como refere o Papa Francisco: «Este dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro» (DMP. 6). Para logo acrescentar, numa perspetiva universal: «Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade» (DMP. 6).

   O fenómeno da pobreza tem causas muito profundas e diversificadas, que não podemos analisar aqui, senão enunciá-las: políticas erradas, nacionais e internacionais, incapazes de integrar socialmente todos os cidadãos; interesses económicos desmedidos, por parte de pessoas e empresas; assimetrias geográficas, em termos de capacidade de produção; falta de solidariedade efetiva entre as nações; cultura do bem-estar e do desperdício de alguns, face à necessidade de bens essenciais para outros… Enfim, uma multiplicidade de razões que nos colocam num mundo profundamente desequilibrado, onde uma minoria detém bens de forma excedentária e uma grande maioria não possui os bens essenciais para a sua subsistência e desenvolvimento, como sejam os bens alimentares, o acesso à saúde, à educação, ao desenvolvimento tecnológico, etc. Mas tudo isto resulta essencialmente de uma atitude de egoísmo que marca a nossa humanidade. O Papa Francisco, na sua mensagem para este dia, afirma claramente: «Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão» (DMP. 6). Em conformidade, de resto, com a afirmação da Gaudium et Spes do Vaticano II, que diz: «Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para uso de todo o género humano e de todos os povos, de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade» (GS. 69).

   Ora, se este é o panorama internacional, também a nível nacional vivemos desequilíbrios muito profundos. Bastaria, para o evidenciar, enunciar dois aspetos: num país com cerca de dez milhões de habitantes, mais de dois milhões de portugueses vivem na pobreza; e, no contexto da crise que atravessámos, nos últimos anos, as diferenças acentuaram-se, tendo Portugal registado um número impar de milionários.

   Se é certo que não se pretende nivelar, sem mais, o nível de vida de todos os cidadãos, num igualitarismo ideológico; a verdade é que cabe à Igreja, associada a todos os homens de boa vontade, trabalhar no sentido da implementação da justiça, que mais não é senão o dar a cada um o que lhe é devido! Precisamente o que lhe é devido pela criação, naquela conceção do destino universal dos bens, que está sempre acima de qualquer apropriação pessoal ou de apenas algumas comunidades.

   É certo também que muitos dos nossos concidadãos têm uma incapacidade quase permanente de orientação pessoal e de gestão básica dos seus bens, o que os remete para situações de fragilidade social: por via do álcool, da toxicodependência, da falta de capacidade mental, ou de outras condicionantes pessoais, de caráter familiar ou até mesmo de inadaptação laboral.

   Tendo em consideração todas estas situações, cabe-nos a nós, em espírito de autêntica fraternidade, cuidarmos uns dos outros, não nos alheando dos seus problemas. Ora, é precisamente isto que o Papa Francisco nos pede, com a instituição deste dia. Afirma ele, apontando-nos o grande objetivo do Dia Mundial dos Pobres: «Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste» (DMP. 6).

   Um desafio que se tem de estender para além de um dia; mas cuja recordação, no domingo que lhe é dedicado, tem este desiderato: fazer-nos lembrar que somos todos irmãos e que devemos cuidar uns dos outros, promovendo sempre a justiça e a equidade.

Pampilhosa, 23 de Novembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(64ª Reflexão)

 

Descentralização



DESCENTRALIZAÇÃO

   O drama dos incêndios, deste verão e outono, colocou-nos, uma vez mais, face à questão da administração do território português. Já vai longe, cronologicamente, a pretensão, referendada, de pretender constituir regiões administrativas em Portugal. Todavia, esta questão nunca deixou de ser um dos assuntos em debate nas diversas instâncias de governo e de administração do país. Portugal, apesar de ser territorialmente pequeno, comparado com outros países, necessita absolutamente de um novo modelo administrativo, facilitador de decisões mais céleres, ajustadas e de proximidade em relação às comunidades. Seja por via de entidades regionais, seja pela dos municípios, Portugal tem de se repensar no seu modelo administrativo para ser eficaz e promover um desenvolvimento integrado e coeso de todo o território nacional. Um dos exemplos evidentes desta ação de descentralização e seus benefícios, são as Entidades Regionais de Turismo. Todas elas subordinadas ao Turismo de Portugal, desenvolvem projetos de proximidade e de resposta à diversidade de projetos turísticos próprios de cada região. E, no cômputo geral, têm sido um sucesso. Ora, este exemplo vale para outras áreas e ações de governo e de administração. Caso contrário, uma boa parte do território nacional continua dependente de decisões centralizadas que desconhecem a realidade objetiva e a especificidade de cada região, quer ao nível das suas potencialidades, quer das suas carências. Com a agravante de uma política que tende a privilegiar as zonas mais habitadas, por uma questão de sobrevivência político-partidária. Neste sentido, como ainda há dias alguém referia, no contexto das últimas Jornadas de Pastoral do Turismo, se Portugal fosse como um barco, estaríamos já todos afogados no oceano. Isto para evidenciar o desenvolvimento e investimento no litoral, em desfavor das regiões do interior. Questão semelhante se colocava, há dias, no “Prós e Contras”, da RTP 1, ao olhar para a realidade do Alentejo, particularmente mais interior.

   O fenómeno da centralização, em Portugal, conta já com séculos de história. Se remontarmos ao séc. XVII e, concretamente, à corte de D. João IV, no contexto da afirmação da soberania de Portugal relativamente a Espanha, após o domínio Filipino, reparamos como, ao invés dos tempos anteriores, se intensificou a centralização do poder, com recurso aos Conselhos, que apoiavam o rei na sua governação.[1] Ora, todas as casas senhoriais, para garantirem o seu poder de influência, passam a aproximar-se da corte, passando mesmo a residir na capital, sem abandonar as suas propriedades locais. Neste contexto, ainda que o poder local seja reforçado, nomeadamente no que toca à justiça, com os denominados «juízes de fora»[2], a administração ficou cada vez mais dependente da coroa e dos seus conselheiros.

   Esta modalidade de governo permaneceu, mesmo com regimes distintos, após a passagem do regime senhorial para a monarquia constitucional e, posteriormente, para a república, bem como, ainda, para o Estado Novo, que apesar de ter criado as diversas corporações, por setores de atividade económica, se fundou na Constituição de 1933, que centralizava, uma vez mais, o governo da nação.[3]

   Ora, nos tempos que correm, e após uma nova mentalidade administrativa, Portugal carece de novos meios de administração e de governo: seja por via das regiões; das comunidades intermunicipais, com poderes mais efetivos; ou pelo reforço do poder dos municípios. Só assim o país se desenvolverá globalmente, corrigindo as assimetrias político-económicas e sociais que provêm do passado.

   Um bom exemplo desta necessidade de descentralização é a urgência de uma nova gestão local das florestas: com a prevenção de incêndios; o seu combate; e, atualmente, a necessidade da reflorestação da imensa mancha verde que foi dizimada com os últimos incêndios. Tenho constatado em várias pessoas, entendidas nestas matérias, alguma desconfiança face à capacidade de realizar o trabalho que urge fazer. Isto porque o estado central não consegue, de per si, mobilizar instituições e pessoas neste autentico desígnio nacional. Será na proximidade, com as comunidades intermunicipais e muito particularmente com os municípios que este desígnio se poderá operar. Para tanto, carecemos, nesta matéria, da descentralização de meios – legislativos e económicos, que obriguem e viabilizem os projetos a executar. Tal tarefa só se realizará na proximidade! Tanto mais que o envolvimento, absolutamente necessário, dos cidadãos, só acontecerá através de instâncias de poder locais. A reflorestação do país bem poderia servir de teste a uma certa forma de descentralização, não obstante outras que, com sucesso, já operam neste sentido.



Pampilhosa, 16 de Novembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(63ª Reflexão)



[1] Cf. PROENÇA, Maria Cândida – Uma História Concisa de Portugal. Lisboa: Temas e Debates – Círculo de Leitores, 2015, p. 386.
[2] Cf. Ibidem, p. 390.
[3] Cf. Ibidem, pp. 671 – 672.

Mês das Almas


MÊS DAS ALMAS
 
   O mês de Novembro é conhecido, na tradição cristã, como o mês das almas. Precisamente porque se inicia este ciclo de trinta dias com a Solenidade de Todos os Santos e, muito particularmente, com a Comemoração de todos os Fiéis Defuntos. A que não é estranho, de igual modo, o final do ciclo litúrgico anual, com um particular enfoque na dimensão escatológica da vida – vida humana e de toda a criação. Assim, o convite litúrgico é o de olharmos para as realidades temporais, mas na consciência de que elas não são eternas e que a nossa meta se compreende na transcendência.

   A oração pelas almas – o mesmo é dizer, a oração pelos defuntos, na sua integridade e corporeidade, para ultrapassarmos os conceitos neoplatónicos de separação de corpo e alma – centra-nos particularmente na solicitude para com as almas do purgatório. Ora, falar precisamente de purgatório coloca-nos aparentemente numa posição de choque com a mentalidade hodierna, porquanto muitos consideram o termo purgatório ultrapassado; e poucos são os que acreditam no, então chamado, «fogo do purgatório». Entendamo-nos então: a palavra purgatório, provém do latim purgatoriu, significando purga ou purgativo, que, por sua vez, significa purificar, limpar. Ora, o purgatório não é mais do que um processo existencial de purificação para participarmos na santidade de Deus. Todos nós, homens, fruto da nossa condição frágil, cometemos pecados (as nossas múltiplas fragilidades), o que nos constitui como seres limitados. Por seu turno, só Deus é santo! A santidade é uma especificidade de Deus. Assim, o humano e o divino parecem ser realidades intocáveis, pela sua diferenciação. Que não o são, efetivamente, pois Deus, na Sua bondade, enviou o Seu Filho, que se fez homem – «em tudo igual a nós, exceto no pecado» (cf. Hb. 2, 17) - para nos elevar à condição divina. E Jesus, pela Sua morte e ressurreição – o seu Mistério Pascal -, tornou-se para nós o Cristo, elevando a nossa humanidade a esta condição divina. De tal condição participam todos os batizados, porquanto mediante este dom gratuito de Deus fomos tornados membros de Cristo, participando da Sua própria vida. Assim, o purgatório não é mais do que esta plena configuração com Cristo; dom, recebido no batismo, que nós manchámos ao longo da nossa história, necessitando agora de uma purificação plena. Por outro lado, a conceção literalista do purgatório como fogo provém das conceções teológicas tardo-medievais, que representavam deste modo o lugar de purificação, assumindo, desta forma, a simbologia bíblica. O purgatório não é um lugar, mas sim uma realidade existencial; além disso, não se trata de fogo, mas sim de um total envolvimento da graça divina que nos confronta com a nossa humanidade frágil. Daí que ao referimos a dor – sempre com as categorias humanas -, apenas podemos aludir à dor que advém da consciência da fragilidade humana diante da santidade de Deus. Assim, nós rezamos para que Deus purifique os que fazem esta experiência, numa dimensão meta-histórica, concedendo-lhes plenamente a Sua própria santidade. E se há fogo, há apenas um: o do amor de Deus pelos homens, que o levou a dar-nos o Seu próprio Filho e a conceder-nos a graça de sermos igualmente Seus filhos.

   Sabendo que nos referimos a realidades que nos transcendem, mas reveladas em Jesus Cristo, mesmo que o Evangelho nunca refira explicitamente o purgatório e Jesus, na sua pregação, nos aponte o fogo purificador apenas como imagem; a verdade é que, ainda antes da revelação cristã da vida eterna, todas as culturas referem processos de purificação, como meios de alcançar a eternidade. Apenas as culturas moderna e pós-moderna, com as suas raízes no racionalismo e empirismo racionalista e, ultimamente, fundamentada na enorme capacidade tecnológica, transferiram paulatinamente o conceito de eternidade da sua realidade transcendente para uma dimensão imanente. Isto é, rejeitando a transcendência, procura-se na realidade material e histórica a plenitude da vida – a eternidade. Não obstante este desenvolvimento tecnológico, o envelhecimento e a falência histórica da vida serão sempre uma realidade, segundo os especialistas. Pelo que este ciclo mensal e as suas características, mesmo que esbatidas pela cultura atual e até pela vida eclesial, é uma oportunidade de olharmos para o sentido da vida e para a sua meta plena. A vida não se perpetua definitivamente na história; então qual o seu sentido? Se, para alguns, ela termina com o fim da história pessoal, o que significaria sempre a máxima frustração humana; para outros ela compreende-se à luz de uma eternidade revelada. Todavia, este tempo, para todos, poderá ser uma oportunidade de questionamento interior, face às inquietações fundamentais que sempre persistiram em cada coração humano: para onde caminho eu? Afinal, qual o sentido e o fim último da minha vida?

Pampilhosa, 09 de Novembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(62ª Reflexão)

 

 

 

 

Água


ÁGUA 

    Nestes dias tenho-me sentido particularmente interpelado pelas questões em torno da sustentabilidade e usufruto de um produto essencial à vida – a água. Foram as Jornadas de Pastoral do Turismo, com um painel sobre o ambiente; foi o programa, do canal 1 da RTP, «Prós e Contras», com a temática do desenvolvimento do Alentejo, a problemática da seca persistente, em que temos vivido, e a sustentabilidade nos reservatórios da água, nesta região do país; e é ainda a releitura da Carta Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si. Uma variedade de eventos e leituras que me fazem olhar de outra maneira para um bem essencial que, tão poucas vezes, valorizamos suficientemente.

   Não me vou deter na importância da água, sobejamente conhecida de todos nós. Aliás, basta-nos confrontarmo-nos com uma breve interrupção do fornecimento deste bem indispensável, para todos nós sentirmos quanto dependemos dela, não só como elemento essencial à vida, mas também para múltiplos usos, que vão desde a higiene às demais formas de utilização. E não me refiro já a quem necessita absolutamente da água para o seu trabalho, desde a agricultura, às demais diversas formas de laboração, de pequenas, médias ou grandes indústrias. A água está omnipresente nas nossas vidas e dependemos dela.

   Mas a água é um bem escasso. Sem alarmismos, mas conscientes, sabemos que os períodos de seca, como o que estamos a atravessar, tendem a alargar-se numa perspetiva de futuro. Este é o parecer dos estudiosos do ambiente, ao analisarem as consequências do aquecimento global. É certo que em todos os períodos da história tivemos alternância entre períodos mais húmidos e mais secos, propiciando melhores ou piores condições económicas, sobretudo quando o sustento assentava na produção da terra. Contudo, hoje a realidade é distinta: não se trata apenas de um elemento natural, nas alternâncias climáticas, mas sim de uma consequência da massiva intervenção humana, devido a uma feroz industrialização e suas consequências ambientais.

   Neste quadro, atingimos todo um patamar de bem-estar social e de condições de vida de que não queremos abdicar. Todavia, se não alterarmos os nossos hábitos de consumo, dificilmente conseguiremos manter tal qualidade.

   Muitos de nós, por certo, diremos que esta é uma realidade que não nos toca diretamente, porquanto não é ainda um problema imediatamente nosso. Para além da necessária solidariedade – e mesmo partilha deste bem essencial! – com aqueles que sofrem as consequências da falta de água, temos de nos consciencializar de podemos chegar a um tempo de racionamento deste bem fundamental, mas escasso. Ou melhor, que tende a escassear. Neste sentido, e antes que tal tenha de acontecer, urge tomarmos medidas de poupança que nos possam beneficiar a todos. Poupar água, hoje, não será apenas uma medida económica; trata-se, sim, de um dever cívico, na prossecução de assegurar a todos um verdadeiro bem comum. Com verdade, nos recorda o Papa Francisco, na sua encíclica Laudato Si: «É bem conhecida a impossibilidade de sustentar o nível atual de consumo [de água] dos países mais desenvolvidos e dos setores mais ricos da sociedade, onde o hábito de “desperdiçar e deitar fora” atinge níveis inauditos» (LS. 27), a que acrescenta: «A disponibilidade de água manteve-se relativamente constante durante muito tempo, mas agora, em muitos lugares, a procura excede a oferta sustentável, com graves consequências a curto e a longo prazo» (LS. 28).

   Ora, também neste contexto, do usufruto inteligente e sustentável deste bem essencial, temos de viver aquele princípio defendido, ainda, pelo Papa Francisco, dirigido particularmente aos cristãos, mas também aos homens de boa vontade: necessitamos, na hora presente, de viver uma autêntica «conversão ecológica» (cf. LS. 217), para que a ninguém falte o bem essencial, que é a água, sabendo, também aqui, que «a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar todos» (LS. 93).

 
Pampilhosa, 02 de Novembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(61ª Reflexão)