sábado, 4 de agosto de 2018


CORRUPÇÃO 

   A corrupção define-se, no direito, como «aliciamento de uma ou mais pessoas, geralmente através da oferta de bens ou de dinheiro, para a prática de atos ilegais, em benefício próprio ou de outrem», comumente traduzido como «suborno», e que, em sentido figurado, se entende também como «degradação de costumes» ou de «valores morais, e ainda como «perversão»[1].

   O Papa Francisco tem assumido uma autêntica «cruzada» (entenda-se o termo em sentido figurado) contra a corrupção, pois, refere: «a corrupção é a chaga da sociedade», afirmando-a como a «lei da selva» e a «fraude da democracia»[2]. Presente na política, nas empresas, nos meios de comunicação, nas Igrejas e mesmo nalguns movimentos populares, ela é mais uma doença do que um mal, afirma Francisco. O Papa define ainda a corrupção como um processo de morte que é a raiz da escravidão, do desemprego, do abandono do destino universal dos bens e da destruição da própria natureza». Afirma ele que «a ambição do poder e do ter não conhece limites»[3], fazendo com que muitos persistam nesta atitude permanente de mal. Daí que tenha proposto a todos os cristãos e homens de boa vontade, como sua intenção para este mês de Fevereiro, o «não à corrupção»; precisamente «para que aqueles que têm poder político ou espiritual não se deixem dominar pela corrupção»[4]. A este mal que grassa, de forma transversal, na sociedade, o Papa contrapõe a revalorização da honestidade, como um valor pessoal e como um requisito para o exercício das funções públicas.[5]

   Curiosamente, e sem pretendermos fazer juízo do que se encontra em processo de inquérito e de julgamento nas instâncias próprias da justiça, Portugal tem-se confrontando, por estes dias, com processos de corrupção que atingem políticos, empresários, magistrados, dirigentes desportivos, entre outros, que se interligam em rede com alguns dos nomes mais sonantes destes processos. Procedimentos jurídicos, devido à corrupção, que se associam a outros, já em curso e à espera de uma conclusão que parece tardar. Conscientes desta realidade, podemos perguntar-nos: Portugal está doente? Por mais que afirmássemos que comparativamente a outros países não chegamos aos mesmos níveis de corrupção, efetivamente Portugal está doente! O nosso país ocupa, segundo o Transparency Internacional, a 29ª posição no ranking sobre os níveis de corrupção no setor público, segundo os dados apurados para 2016.[6] Relevando esta organização não-governamental a relação entre corrupção sistémica e as desigualdades sociais.[7]

   Ora, as consequências da corrupção em Portugal são diversas: desde logo, porque evidenciadas pelas elites sociais e políticas, causam um efeito de mimetismo, com prejuízo para as finanças públicas, para o equilíbrio social e para a igualdade de oportunidades entre cidadãos; depois, a corrupção cria desconfiança e torna-se motivo para descredibilizar quem exerce funções públicas. Mas, mais grave: ela é fonte de injustiça, impede o desenvolvimento social harmónico e equitativo, pondo em causa a paz social e debilitando a própria democracia.

   Neste sentido, temos todos de caminhar para uma sociedade mais justa, assente em valores fundamentais, onde se recupere como requisito fundamental para o serviço público a verdadeira honestidade, condição de idoneidade incontornável para cuidar da res publica. E quando digo todos, refiro-me mesmo a um esforço comum! Admira-me a condescendência de alguns setores da sociedade portuguesa na aceitação em cargos públicos de pessoas que foram condenadas precisamente devido à corrupção, como se pôde verificar nas últimas eleições autárquicas. Sinal de que estamos anestesiados; ou não valorizamos suficientemente as consequências da corrupção. Necessitamos de retomar valores fundamentais para o exercício de funções públicas! A todos os níveis da administração. E um desses valores fundamentais é precisamente a reconhecida honestidade!

Pampilhosa, 08 de Fevereiro de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(74ª Reflexão)



[1] Cf. Voc. Corrupção. In Dicionário da Porto Editora [online].
[2] PAPA FRANCISCO – Discurso ao Empresários. Vaticano, 18.11.2016. Disponível em pt.radiovaticana.va [Consultado a 05.02.2018].
[3] Papa apela ao combate à corrupção. In Rádio Renascença, 01.02.2018.
[4] In Passo a Rezar com o Papa. Disponível em: passo-a-rezar.net [Consultado a 05.02.2018].
[5] Cf. Discurso aos empresários. Op. Cit.
[6] Cf. Corrupção. Portugal piora e cai para 29º lugar no ranking. In Jornal Expresso (25.01.2017), disponível em expresso.sapo.pt [Consultado a 06.02.2018].
[7] Cf. Ibidem.

PARÓQUIAS

   A vida das nossas paróquias continua, essencialmente, assente na ação dos padres e na sua capacidade, maior ou menor, de resolver as necessidades pastorais de cada uma delas. Não obstante termos já algumas comunidades mais dinâmicas, capazes de uma ação mais desenvolta na realização das tarefas essenciais a desenvolver por estas instâncias pastorais.

   Mas para a compreensão desta realidade, necessitamos de atender ao modelo de serviço pastoral que ainda prevalece na maioria das comunidades, não só localmente, mas a nível global.

   O padre, que pelo seu ministério preside às comunidades, enquanto pastor próprio, unido ao bispo diocesano, é uma figura que vem de fora, investido na autoridade que lhe é conferida pelo direito canónico, superentendendo, assim, em todas as atividades das comunidades paroquiais. Algumas vezes não preside apenas, mas é chamado a realizar algumas tarefas que podem ser desempenhadas por outros membros das comunidades, o que cria uma visão de centralidade do sacerdote.

   Por seu turno, as comunidades paroquiais oscilam, ainda hoje, entre um claro sentido de responsabilidade laical e um espírito de simples colaboração, na realização das múltiplas tarefas que cabem a estas comunidades paroquiais. As diferenças são hoje notórias entre comunidades, por vezes mesmo de vizinhança.

   Neste quadro, existe ainda uma realidade que dificulta aquilo que pretendíamos como sentido de corresponsabilidade – a responsabilidade comunitária partilhada -, como, por exemplo, as exigências de respostas pontuais a cristãos ou pequenas comunidades que desconhecem o novo dinamismo eclesial, que se pretende de comunhão. Neste caso, podemos considerar a solicitação isolada de sacramentos, como o batismo ou o matrimónio; ou de sacramentais, como a celebração das exéquias ou de algumas festas, concretamente na realização de procissões. Quando, por razões pastorais ou de agenda, o pároco não pode corresponder às solicitações, a tendência é logo a de pedir outro padre, mesmo que este desconheça a vida da comunidade paroquial, mas que, não raro, se exige como um direito pessoal ou comunitário. Aliás, quando uma paróquia fica desprovida de padre, esse direito afirma-se claramente perante o bispo diocesano, como se este fosse o único responsável pela existência de padres disponíveis para as diversas paróquias.

   Ora, neste quadro, continuamos a viver uma vida comunitária centrada no padre e desresponsabilizando as comunidades pelas suas diversas tarefas, incluindo o despertar das diversas vocações, incluindo as de consagração.

   Necessitamos, então, de um novo modelo de paróquia: assente fundamentalmente na corresponsabilidade, visível na partilha efetiva de tarefas, que dá rosto à centralidade das comunidades. Neste quadro, o padre, sendo aquele que preside às comunidades paroquiais, que têm o centro da sua vida na Eucaristia, assume muito mais a tarefa de coordenação pastoral e de garante da fidelidade à Igreja, no seu todo, e às orientações da diocese, em particular, do que propriamente aquele que manda e age por si só. A centralidade deixa de ser sua, mas passa a ser da própria comunidade.

   Assim, caberá sempre a cada comunidade a resolução das suas próprias necessidades pastorais; por si, ou agregada a outras comunidades paroquiais. Logo, deixa de fazer sentido que, por exemplo, na celebração de atos de piedade – festas ou outras celebrações – se recorra a outro sacerdote sem um parecer da comunidade; isto é, sem um autêntico compromisso comunitário.

   A comunidade, como responsável por toda a sua ação e vivência, desperta ainda para a diversidade de ministérios e serviços, capazes de corresponder às suas necessidades de ação pastoral; incluindo as vocações de consagração. Sabendo que a Eucaristia forma a comunidade e que é o centro da sua vida enquanto tal, necessariamente tem de despertar em si as vocações sacerdotais, como as demais vocações, para que possa realizar a sua missão.

   Urge passarmos de um modelo clerical (centrado no padre, no clérigo), para um modelo comunional (de verdadeira comunhão de pessoas e serviços, visível na comunidade) para que a Igreja corresponda aos desígnios do Concílio Vaticano II; regresse à vivência das origens, dos seus primeiros séculos; e responda às necessidades deste tempo.

Pampilhosa, 01 de Fevereiro de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(73ª Reflexão)

DESTINO UNIVERSAL DOS BENS

   A Constituição Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, ao referir-se ao destino universal dos bens, afirma perentoriamente: «Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos, de modo que os bens criados devem chegar equitativamente a todos, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade» (GS. 69).

   Ora, se este é um princípio de equidade básica, que todos aceitamos, porque inscrito nos direitos fundamentais de todo o ser humano, a verdade é que a realidade é bem distinta de tal princípio. Bastará, para o consciencializar, atender à notícia, publicada no Jornal online Notícias ao Minuto, do passado dia 21, com o título: «Mais de 80% da riqueza gerada em 2017 está nas mãos de 1%»[1]. A notícia avança com a análise dos lucros dos mais ricos, com o aumento do número de bimilionários, deixando-nos perceber a distância, sempre tão aguda, entre quem possui desmedidamente e quem não possui os bens essenciais para viver dignamente. Sem me deter demasiado na notícia, sublinho apenas a afirmação de que «o aumento da riqueza registada no ano de 2017 dava para acabar com a pobreza extrema no mundo mais de sete vezes». Assim sendo, estamos efetivamente diante de um terrível desequilíbrio na redistribuição dos rendimentos auferidos, enquanto resultado dos bens produzidos. Um desequilíbrio entre pessoas, entre nações (algumas delas fornecendo matérias primas e sem serem devidamente ressarcidas por esses fornecimentos) e entre regiões geográficas. Estamos num mundo economicamente desequilibrado e injusto.

   Certamente que não pretendo afirmar aqui um igualitarismo, enquanto sistema ideológico, que nivelasse a vida de todos os homens numa igualdade absoluta, sem diferenças; mas, sim, salvaguardar a dignidade e os direitos básicos de pessoas e povos. De resto, os modelos igualitaristas, assentes em modelos de propriedade coletiva dos meios de produção e de anulação das classes sociais, faliram, ao longo da história, deixando-nos entrever que mediante o esforço de todos apenas uma minoria usufruía qualitativamente dos resultados dessa produção. Por outro lado, também o capitalismo desenfreado, onde o lucro é a palavra de ordem, deixa na margem a maioria das pessoas, beneficiando apenas algumas. Como, de resto, se pode verificar no artigo indicado.

   Assim sendo, temos de encontrar um meio-termo, que sirva a justiça social e a equidade.

    Conscientes de que as empresas e os serviços beneficiam do trabalho de todos, não nos será difícil compreender que uma boa parte do lucro é pertença dos trabalhadores, por direito próprio, que lhe é assegurado mediante uma justa remuneração. Ao mesmo tempo que estes se empenham no desenvolvimento e crescimento das empresas e serviços onde colaboram e asseguram o seu trabalho; na certeza de que o bem das empresas é também o seu próprio bem. Pelo menos assim deveria ser, não obstante uma certa tendência atual para a procura do lucro à custa, quantas vezes, do trabalho mal remunerado dos colaboradores de algumas empresas e serviços.

   Inclusive, uma justa remuneração não pode nivelar-se simplesmente pelos valores superiormente definidos como mínimos; mas, para que seja justa, tem de considerar o trabalho realizado e a produção alcançada. Isto é, uma remuneração em linha com os bens auferidos.

   Algumas empresas, com forte sentido de compromisso social, fazem-no e vão mesmo até mais longe, atribuindo prémios de produção aos funcionários ou colaboradores. Não sendo tal ação obrigatória, é um forte incentivo à produção e uma expressão clara de sensibilidade social.

   Ao invés, o salário justo é um dever, resultante do trabalho realizado, que é um direito dos trabalhadores e a salvaguarda da sua dignidade, bem como daqueles que lhe estão afetos, dependendo deles economicamente.

   Na perspetiva do «princípio do uso comum dos bens», afirmava o Papa João Paulo II, na Encíclica Laborem Exercens: «um salário justo apresenta-se em todos os casos como verificação concreta da justiça de cada sistema socioeconómico e, em qualquer hipótese, do seu justo funcionamento» (LE. 19). Certamente um percurso a aferir permanentemente e, sobretudo, a aperfeiçoar. A bem da justiça e da dignidade humana.

Pampilhosa, 25 de Janeiro de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(72ª Reflexão)



[1] Cf. www.noticiasaominuto.com [consultado a 21.01.2018].

SERVIÇOS DE SAÚDE

   Temos assistido, nos últimos dias, a um espetáculo degradante, nalguns hospitais do Serviço Nacional de Saúde, no que toca às condições de acolhimento, de instalação e de tratamento de muitos dos doentes que recorrem àqueles serviços. Degradante pelas condições oferecidas e pelo desrespeito pelos direitos básicos dos utentes, que ali permanecem por longas horas, se não mesmo dias, com parco alimento, sem condições de higiene e expostos às vulnerabilidades uns dos outros. São os próprios profissionais de saúde – médicos e enfermeiros – a denunciá-lo, requerendo outras condições de serviço e de atenção aos doentes. Uma situação que se agrava neste período do ano, devido particularmente ao surto de gripe e às doenças a ela associadas.

   Se esta pode entender-se como uma contingência própria de um período especial do ano, temos de atender que temos uma população cada vez mais necessitada de apoio hospitalar, fruto do aumento do número de idosos, com o envelhecimento contínuo da sociedade portuguesa, o que levará a um recurso cada vez maior a estes serviços hospitalares.

   Neste contexto, vivemos, contudo, um processo contraditório: aumentam as necessidades, porque aumenta a população idosa; mas concentram-se meios hospitalares, fechando-se os pequenos hospitais de apoio que respondiam a muitas destas situações de assistência hospitalar.

   Quando, há mais de dezoito anos, cheguei a estas terras bairradinas, para o serviço que me é próprio, tínhamos, para além dos Hospitais da Universidade de Coimbra e de Covões, os hospitais de Anadia, Cantanhede e Águeda, que, num raio geográfico não muito distante, respondiam às necessidades básicas da população. Entretanto, a tendência foi para a concentração de serviços, por razões económicas, o que despersonalizou o atendimento, concentrou o número de doentes, alargando naturalmente os tempos de espera para atendimento, e degradou a qualidade dos serviços de saúde, não obstante o empenhamento das equipas de saúde – médicos, enfermeiros e auxiliares de ação médica.

   Por outro lado, ao longo deste período pude acompanhar a emergência de uma ideia e sua materialização na construção do Hospital da Misericórdia da Mealhada. Uma resposta qualificada, em colaboração com os parceiros dos serviços de saúde, capaz de responder com muita qualidade às necessidades da população da Mealhada e zonas limítrofes. Um projeto que nasce de uma visão alargada do provedor e direção da Santa Casa da Misericórdia da Mealhada e que hoje se constitui como uma das maiores mais-valias em termos de qualidade de vida e de saúde dos munícipes da Mealhada. Uma ideia feliz, de serviço ao público, que hoje qualifica a Mealhada no cômputo dos seus serviços mais relevantes. Mais tarde, Anadia seguiria caminho semelhante, com a entrega à Misericórdia local do Hospital Luciano de Castro, mantendo este algumas das especialidades médicas que respondem, em proximidade, às necessidades dos habitantes daquele município.

   Penso que estes dois exemplos – de construção e de reconversão – bem podem servir de visão de futuro, no que toca à saúde em Portugal. Mais do que concentrar em si a gestão de todos os serviços de prestação de cuidados de saúde, o estado deve tutelar a saúde, no seu todo, mas em cooperação com parceiros capazes, como estes que acabo de identificar. Se agíssemos assim certamente não assistiríamos, tão frequentemente, aos dramas da massificação de doentes em hospitais públicos; e muitas pessoas, sobretudo no interior do nosso país, teriam cuidados de saúde a que hoje dificilmente podem aceder. A saúde necessita de uma forte reflexão e de um renovada visão para corresponder às necessidades fundamentais dos portugueses, de forma capaz, digna e personalizada.


Pampilhosa, 18 de Janeiro de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(71ª Reflexão)

 

 

 

INTEGRAÇÃO SOCIAL

   Espero, com esta crónica, não cometer alguma inconfidência, ao referir-me a uma conversa particular, entre pessoas responsáveis pela vida da comunidade, cada uma segundo a sua natureza e funções. No passado mês de Dezembro, em conversa pessoal e informal com a Engenheira Arminda Martins, vereadora da Câmara Municipal da Mealhada, no contexto do jantar de Natal do Agrupamento de Escuteiros da Pampilhosa, dialogávamos sobre a realidade social do município e, muito particularmente, sobre os distúrbios sociais que, no final do ano, assolaram um pouco todo o concelho. Neste sentido, afirmava de forma clarividente a senhora Vereadora: «Mas as comunidades fazem ainda muito pouco para integrar aqueles que vivem na marginalidade». Se é certo que se as situações de marginalidade, que conduzem a distúrbios na comunidade, como furtos e destruição, necessitam de uma intervenção decidida das autoridades competentes; não é menos verdade que estas situações só se resolvem, na raiz, quando nos empenharmos em procurar recuperar quem vive na marginalidade, na sua maioria jovens ou jovens adultos. Bem sei que não é fácil, mesmo até por experiência própria. Mas há que assumir este desafio: procurar integrar quem vive na marginalidade. Empenhando, para tanto, todas as forças sociais, capazes de contribuir para este desiderato.

   Na sequência desta conversa, veio-me à memória a Fazenda da Esperança, que conheci no Brasil, onde se recuperam jovens toxicodependentes. E lembrava-me, então, da expressão que partilhei aqui, de que «só o amor cura». Por mais idílico que este princípio possa parecer, na verdade só o amor cura, ao passo que a marginalização gera marginalidade. Em espirais de destruição ou de recuperação.

   Naquele contexto de Natal lia, ainda, a Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz, que se assinalou no dia 1 de Janeiro deste ano. Muito embora o Papa se referisse, nesta sua mensagem, à problemática dos refugiados, indicava quatro verbos que – parece-me! – podem ter uma extensão maior, na relação com várias problemáticas humanas. Afirmava o Papa que em relação aos refugiados devemos saber «acolher», «proteger», «promover» e integrar».

   Ora, nas situações de marginalidade, que temos estado a considerar, aplicam-se claramente três destes verbos: «acolher», «promover» e «integrar». Efetivamente, o acolhimento é a capacidade de aceitação do outro e das suas condições, não para nos resignarmos a elas, mas para, a partir daí, podermos propor outra forma de ser e de estar. Este acolhimento pró-ativo visa, então, a promoção daqueles que somos capazes de acolher. E feita esta sua promoção, muitas vezes exigente e requerendo esforços concertados, podemos experimentar a satisfação por reintegrar quem se pôs à margem da comunidade, vivendo em conflito com ela.

   Estes três verbos cruzaram-se com aquela conversa, reforçando em mim a certeza de que eles se constituem como um verdadeiro caminho programático na abordagem de alguns dos nossos problemas sociais, também aqui no concelho da Mealhada.

   Para mim são um forte incentivo e desafio! Quem dera o possam ser para muitos mais, para que, na verdade, as nossas comunidades cuidem melhor de quem vive em marginalidade e sejam capazes de viver, na relação com estes, num permanente processo de acolhimento e reintegração.

Pampilhosa, 11 de Janeiro de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(70ª Reflexão)

 

 

Janeiro


JANEIRO

   No permanente ciclo das nossas vidas, entrámos num novo ano – um tempo propício à reflexão sobre o sentido da história e da nossa própria existência; bem como um tempo oportuno para renovar compromissos pessoais e de empenhamento comunitário. A experiência do reinício comporta, quase sempre, esta vontade de recomeçar. O reinício é sempre uma oportunidade para aprofundarmos a nossa maneira de ser e de estar, num dinamismo contínuo de aperfeiçoamento – na relação intrapessoal, na relação interpessoal e na relação com o mundo.

   Mas confrontamo-nos, não raro, com três atitudes possíveis: a inércia, como predisposição mais comum, deixando que a vida prossiga, com os mesmos hábitos e costumes, mesmo quando estes são penosos para a vida pessoal ou para a relação comunitária; o desejo do passado, do que já se viveu e conhece, como que numa espécie de nostalgia da vida já vivida; e o investimento e determinação em viver um tempo novo, sem medos, nem receios, mesmo que tendo de assumir limites humanos sérios, num verdadeiro compromisso que se inicia com a atitude pessoal de autodeterminação.

   É interessante que o significado do mês de Janeiro nos reporta precisamente para estas duas últimas atitudes. O nome janeiro provém, como alguns outros do calendário anual, da mitologia romana, recordando-nos o deus Jano (Janus, em latim). Ora, o deus Jano é precisamente o deus da mudança, o deus dos começos e dos fins. Daí ser representado com duas caras – uma virada para o passado e a outra virada para o futuro. Com efeito, este deus associava-se, frequentemente, a direções opostas, como a guerra e a paz, ou o passado e o futuro.

   Situados neste mês de Janeiro, e tomando a simbologia da mitologia romana, somos colocados diante desta dupla opção – viver do passado ou construir o futuro. Isto é, olhar para trás, ou ser capaz de me determinar a olhar para a frente, para o tempo novo que surge. Naturalmente, a vida não se faz com sobressaltos – e nenhum de nós os deseja! -, mas é um crescimento contínuo – amadurecimento físico, psíquico, emocional, social,  a que chamamos processo contínuo de maturação -, que se processa sempre no presente. Sem nos determos excessivamente em conceitos filosóficos, o que existe é apenas o presente, pois o passado já não é e futuro sê-lo-á. Todavia, alicerçados no passado, esse lastro fundamental que dá profundidade à vida, somos convidados, no início de cada ciclo anual, a viver o presente, com a perspetiva de que o futuro seja promissor. É isto que nos desejamos, uns aos outros, nos votos de bom ano.

   Mesmo que as nossas vidas estejam condicionadas por múltiplos fatores que são alheios à nossa vontade, mas que são próprios da nossa humanidade frágil, a coragem de viver o presente, rompendo com cadeias do passado, que não nos deixam ser livres e felizes, será, por certo, a forma mais sábia e inteligente de viver a vida. A vida humana não é algo que tenhamos de arrastar, mas sim um dom que temos de viver, esse dom primeiro que nos foi confiado. E há vidas arrastadas! O compromisso, para todos nós, ao iniciarmos um novo ano tem de ser mesmo este: viver a autodeterminação na vida pessoal, interpessoal e comunitária! Assumindo atitudes que constituam fonte de felicidade para cada um de nós e para os demais. Se limitados, nas nossas condições de vida, por realidades que nos tolhem, assumamos, então, a resiliência como atitude, sabendo que seremos sempre mais fortes que todos os nossos limites! Para todos, seja qual for a condição, mesmo que distinta à partida, existe sempre uma oportunidade de ser feliz!

   É com estas reflexões que desejo a todos os ouvintes da RCP/fm um excelente 2018! Um ano verdadeiramente novo na capacidade de recriarmos as nossas vidas e as nossas relações! Tornando-as mais positivas e felizes!


Pampilhosa, 04 de Janeiro de 2018
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(69ª Reflexão)

 

"E o Verbo fez-se Carne"


“E O VERBO FEZ-SE CARNE”
(Jo. 1, 14) 

   «E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós» (Jo. 1, 14) é a afirmação que traduz o sentido do Natal. Expressão que, proclamada solenemente na liturgia do dia de Natal, aquando da leitura do Prólogo do Evangelho de São João, nos faz tomar consciência de que Deus desce à nossa humanidade, na sua condição de «fraqueza» e de «mortalidade», bem como numa presença «pessoal» e «sensível» do divino entre os homens.[1] Isto é, Deus, que compreendemos na Sua transcendência, faz-se um de nós, partilhando toda a nossa condição humana. Por isso, os que creem em Cristo podem afirmar, com maior propriedade do que os israelitas, o que no Deuteronómio era afirmação sob a forma de questão: «Qual a grande nação cujos deuses lhe estejam tão próximos, como Iahweh nosso Deus, todas as vezes que o invocamos?» (Dt. 4, 7). Sabendo que aqui já não se trata de uma presença de proximidade espiritual, mas sim de uma realidade que a suplanta, pela presença real, no mistério da encarnação.

   Considerar este acontecimento inefável de um Deus que se faz próximo, descendo à nossa condição humana (cf. Fil. 2, 7), não nos remete para uma visão pretérita e eventualmente de um simples e singular significado cultural. É que o mistério da encarnação do Verbo de Deus, que desce à nossa humanidade, só se compreende na totalidade da sua vida humana e da sua entrega até ao fim. Este Verbo feito carne é aquele que se humilha «até à morte e morte de cruz» (Fil. 2, 8), mas que o Pai «sobrexaltou grandemente» (Fil. 2, 9), pela Sua ressurreição, ao ponto de toda a língua proclamar que Ele é o «Senhor» (Fil. 2, 11). Assim, o mistério da encarnação do Verbo de Deus torna-se a condição da divinização do humano. N’Ele, O Verbo feito carne, o homem (todos os homens!) encontra o sentido pleno da sua vida e o autêntico significado da sua humanidade; ou, o mesmo é dizer, da sua dignidade. Jesus, o Verbo de Deus, desce à nossa humanidade para nos elevar consigo à condição de filhos de Deus. E este é o dom maior que nos é concedido pela encarnação do Verbo que faz carne.

   Mas, porque assume a nossa condição humana e nos revela o seu significado pleno, o Verbo de Deus faz-nos redescobrir ainda o autêntico valor de toda a vida humana. À luz da Sua humanidade redescobrimos a sacralidade impressa em toda a nossa humanidade. Ao fazer-se um de nós, quer que cada um de nós seja semelhante a Ele, pelo que toda a humanidade se renova nesta grandeza da encarnação do Filho de Deus. Assim, ao contemplar este mistério, já não é apenas o Filho de Deus que contemplamos, mas igualmente o dom de uma nova dignidade de que todos fomos revestidos. Dignidade, esta, que urge reconhecer, respeitar e valorizar na identidade de cada pessoa. Daí não estranharmos que o Natal nos faça olhar, com ainda maior acuidade, para cada homem e cada mulher cuja dignidade é desrespeitada, seja nas diversas fases da sua vida, seja nas condições existenciais em que é forçado a viver. Um desrespeito pela dignidade do outro é sempre um desrespeito pela revelação amorosa de Deus, na encarnação do Seu Filho, em Quem nos redescobrimos.

   Mas o próprio Jesus intensifica ainda mais esta compreensão, ao afirmar: «sempre que o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes» (Mt. 25, 40), concretamente quando nos apela ao serviço aos mais pobres, desprotegidos e abandonados. O critério do amor para com Ele é exatamente a medida do amor para com os Seus irmãos. Assim, em tempo de Natal, contemplando o mistério inefável da encarnação do Filho de Deus, a quem elevamos o coração agradecido em hinos de louvor, não esqueçamos que Ele continua a clamar por nós nas múltiplas ruas e praças, visível no rosto de cada um dos Seus irmãos, particularmente dos mais abandonados e tristes, em cada rosto macerado pela dor, pelo abandono, pela solidão, pela pobreza. Adoremos o Deus Menino: com hinos de louvor; mas igualmente com gestos renovados daquele amor que Ele encarnou e a que permanentemente nos convida.

   A todos um Santo e Feliz Natal!

 
Pampilhosa, 21 de Dezembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(68ª Reflexão)



[1] Cf. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1986, p. 1986, notas m e n.