quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Da Tragédia à Oportunidade


DA TRAGÉDIA À OPORTUNIDADE!

   Este mês de Outubro revelou-se como o mais inclemente deste últimos anos, em Portugal: as elevadas temperaturas para a época, a seca extrema em muitos locais e, por fim – e o mais grave! – os horríveis incêndios que deflagraram por toda a região centro e norte do país, neste último domingo, com um número elevado de perdas de vidas humanas e de múltiplos bens de primeira necessidade para muitas famílias. Um domingo «horribilis», qual autêntico inferno, que se estendia a todo o lado!

   O momento presente é de chorar os mortos e de rezar pelas suas almas, bem como de apoiar os que viram os seus bens destruídos, para que possam, o mais breve possível, refazer as suas vidas.

   Mas esta tragédia não pode deixar-nos imóveis, sarando apenas as feridas. Tem de se constituir como a oportunidade de, efetivamente, pensarmos em novas ações de prevenção, para além da identificação séria e real das causas que estão na base de tantas ignições. Desde logo identificar essas causas e agir em conformidade, custe o que custar. E quando se tratar de crime, agir em conformidade, pois este deve ser punido e não aligeirado, como infelizmente parece acontecer, eventualmente pelo enquadramento da moldura penal, que deverá corresponder à gravidade das situações em causa.

    Posto isto, há que promover ações concretas de reorganização das florestas e da sua reflorestação. Portugal está desfigurado! É necessário, agora, refazer as suas paisagens: a sua mancha florestal e algumas das suas aldeias. As medidas legislativas que compreendem tais ações existem já; importa agora fazê-las passar à realidade. Sabendo, todavia, que temos de ir ainda muito mais longe: é urgente fazer a limpeza dos espaços que envolvem as casas, sem deixar tais tarefas para o verão do próximo ano; e é necessário utilizar novas espécies arbóreas para a reflorestação e, muito em particular, para os espaços envolventes das múltiplas aldeias, recorrendo àquelas que limitam a ação do fogo e, por isso, são denominadas árvores bombeiro ou corta-fogo, ocupando um perímetro razoável em torno destas aldeias, para que possam ser mais seguras, protegendo as suas habitações. Por outro lado, é urgente um ordenamento das florestas que seja efetivo: com exigência junto dos proprietários; com empenhamento dos municípios e das autoridades locais; mas igualmente com incentivos públicos a uma reflorestação equilibrada e inteligente. Criando-se condições para uma gestão mais alargada das florestas, que poderá compreender uma realidade semelhante ao modelo cooperativo.

   Estas ações, ou outras, que se julgarem necessárias, segundo os técnicos, é um imperativo moral para connosco, salvaguardando-se, assim, a tranquilidade futura. Mas é particularmente um dever para com quem perdeu a sua vida nestes incêndios e para com quem, neles, perdeu muito dos seus bens.

   É a segunda vez, este ano, que Portugal chora as vítimas dos incêndios. Não queremos voltar a chorar, num futuro próximo, as consequências humanas e materiais de tais ocorrências. Assim, agir, na hora presente, impõe-se-nos a todos! Autoridades e civis! Como bem afirmava o Senhor Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, «basta de discursos e boas intenções! É imperioso apurar responsabilidades e agir».

   Paralelamente a estas ações, é fundamental implementar medidas de educação ambiental, para que a agressão à floresta e, consequentemente, à vida humana, se converta em defesa de ambas. Uma punição de criminosos incendiários, alguns deles recorrentes, bem poderia passar por aí, com formação teórica e serviço prático nas florestas portuguesas. É que para evitar males futuros, temos de punir severamente quem beneficia do fogo e de reeducar quem perdeu a sensibilidade para a defesa do património natural que nos é comum! Portugal necessita de todo o nosso empenho e de cidadãos dotados de nova mentalidade!


Pampilhosa, 19 de Outubro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(59ª Reflexão)

 

 

Poder Local


PODER LOCAL

   O início deste mês de Outubro foi marcado, a nível nacional, pelas eleições autárquicas – para as Câmaras Municipais, respetivas Assembleias e Assembleias de Freguesia. Uma verdadeira expressão da democracia, com a participação dos eleitores, dos múltiplos eleitos e das demais listas concorrentes aos cargos locais, de norte a sul do país. Com efeito, o poder local reveste-se de características muitos próprias, de entre as quais podemos salientar a proximidade, a descentralização, a cidadania e o controle democrático mais eficaz. Na verdade, uma das características fundamentais do poder local é precisamente a proximidade, com a sua capacidade de resolução próxima das necessidades das pessoas e das comunidades. Constituindo-se esta numa das características mais importantes; mobilizadora, por isso, de uma maior participação dos eleitores locais. Por outro lado, as autarquias locais constituem-se como sedes de poder que cooperam na realização das orientações comuns que provêm do estado central. Em muitas matérias, são responsáveis pela sua implementação nas comunidades locais e na mobilização política e administrativa enquanto agentes locais de autoridade. Convém, todavia, que esta articulação entre competências do poder central e do poder local seja ampliada, no sentido de se operacionalizarem decisões políticas e administrativas, facilitadoras da implementação de muitas das diretivas decididas nos órgãos de soberania central. A proximidade, uma vez mais, possibilita a eficácia na implementação de reformas administrativas e num governo mais eficaz do todo nacional. Neste sentido, o poder local nunca pode ser visto como opositor, que reclama ou compromete o poder central, mas sim como cooperador, trabalhando ambos num serviço mais célere e eficiente aos cidadãos e às respetivas comunidades locais. Muitas têm sido as manifestações de sensibilidade política no sentido de descentralizar serviços, nos vários quadrantes políticos, e que urge implementar, para que o exercício do governo se torne mais célere, eficaz e menos burocrático. Devemos considerar, ainda, que o exercício do poder local promove uma mais ampla participação cívica, porquanto está em causa o governo da comunidade de pertença. E esta mobilização é notória nas listas dos que concorrem a estes cargos públicos, bem como na participação dos eleitores nas eleições autárquicas, não obstante os elevados índices de abstenção que ainda podemos registar, embora menor nestas eleições. Por fim, há igualmente um exercício de democracia mais evidente nas eleições locais: as pessoas conhecem melhor os programas eleitorais, conhecem as pessoas que se propõem aos cargos, bem como as suas capacidades de realização dos programas a sufragar; tendo ainda, mais facilmente, a possibilidade de avaliar a eficácia de governo local, podendo efetuar sempre, no fim de cada mandato, um juízo sério sobre o exercício do poder assumido por aqueles que foram investidos nos cargos. Não obstante, temos ainda de caminhar bastante no sentido de assegurar esta escolha objetiva. Para tanto – julgo - deveríamos privilegiar mais as listas nominais, mesmo que dependentes do espetro dos partidos políticos nacionais, e não tanto as listas de partidos, onde, inclusive, os candidatos estão ausentes, em termos de boletim de voto. Por outro lado, os programas eleitorais deveriam constituir-se como elemento chave de escolha, mais do que a opção partidária de cada eleitor. A escolha, cada vez mais ampla, de listas de independentes, vem sublinhar alguns destes aspetos, conquanto não sejam listas de dissidentes partidários que se propõem à votação, excessivamente centradas no culto de algumas pessoas.

   Volvidos mais de quarenta anos sob a renovação do poder local, como poder democrático e não apenas administrativo, há que aprofundar as suas competências e possibilidades. Por certo, um poder local forte, eficaz, com mais amplos poderes de ação e fiscalizado pelos cidadãos, contribuirá para um governo mais equitativo, mais eficiente e facilitador de um desenvolvimento global do todo nacional.

   Terminados os escrutínios, num período em que os novos eleitos são agora empossados nos seus cargos, resta-nos desejar as maiores felicidades a todos os que assumem funções de governo, na esperança de que os seus programas eleitorais sejam levados à prática, a bem das pessoas e das comunidades que servem.

Pampilhosa, 12 de Outubro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(58ª Reflexão)

 

Recomeço


RECOMEÇO

   O mês de Setembro é caracterizado por múltiplos recomeços: recomeçou um novo ano letivo, para as nossas crianças e jovens, para os seus pais, para os seus professores e auxiliares de educação; recomeçaram as atividades de vários grupos e associações, depois da época estival; e recomeçou um novo ano pastoral, para as nossas comunidades cristãs. Este ano, sob o impulso de um novo Plano Pastoral, na Diocese de Coimbra, que nos conduzirá ao longo de todo o triénio, até 2020. Diríamos que a vida retoma aquela normalidade que caracteriza a maior parte do ano, enquanto permanência de uma certa forma de estar e de viver.

   Mas falar de recomeço pode deixar-nos numa atitude simples de repetição de vivências anteriores, de conformação com certas formas de estar e de agir, num quase mimetismo do que já passou, pese embora a novidade de cada tempo.

   Nos séculos pretéritos, esta normalidade do tempo e das suas ações era muito mais evidente, quando após as romarias de verão e os pagamentos aos senhores, feitas por ocasião das celebrações do São João e do São Miguel, coincidindo esta última com o fim das colheitas e a distribuição dos proveitos por todos os seus beneficiários, os pobres camponeses se lançavam de novo à terra, para viver um novo ciclo de trabalho duro, na esperança de que o novo ano fosse ainda mais favorável.

   Certo é que a hora presente não nos permite esta repetição que podemos como que entrever nesses séculos passados. A força dos meios tecnológicos, particularmente de comunicação, como que aceleram o tempo e colocam-nos permanentemente em estado de vigília, atentos à constante novidade que o mundo plasma diante de nós. Todavia, apesar destes estímulos – para o bem e para o mal! – que advêm dos meios de comunicação, corremos o risco de interiormente permanecermos numa inércia normalizadora, que já não nos permita definir novos objetivos, novas metas e novos desafios a alcançar. Ora, cada recomeço é exatamente isso mesmo: um começar de novo! E se, pela força do dinamismo da história, com os seus tempos e os seus ritmos, somos levados a viver cada ciclo; a autêntica sabedoria está em não nos deixarmos arrastar simplesmente pelo tempo, mas a vivê-lo na sua novidade, singularidade e renovada oportunidade. Neste sentido, mais do que uma imposição exterior, o autêntico recomeço resulta verdadeiramente de uma decisão interior. Decisão de crescimento humano, num desenvolvimento pessoal integral, que permita trilhar os caminhos da autêntica realização, crescendo como pessoas e realizando objetivos que concretizem essa permanente maturação humana. Oportunidade igualmente de revisão de vida, de modo a que tudo o que é empecilho a esta humanização se afaste, reformulando-se modos de ser e de estar, mais condizentes com a dignidade pessoal, com o bem dos outros e a paz que queremos na relação com os demais. Um tempo de uma nova criatividade, não apenas pessoal, mas também de serviço aos outros, num espírito de autêntica fraternidade, para que o mundo cresça com o nosso crescimento. Um tempo novo para abrir novos horizontes pessoais, mas igualmente comunitários e sociais, num empenho sincero na busca de um verdadeiro bem conjunto, que seja expressão de uma comunidade que pretendemos mais humanizada e fraterna. Afinal, um tempo de oportunidade singular, que nos é dado como dom, e que urge saber viver!

   Recomeçar, para, no recomeço, realizarmos aquela expressão de Miguel Torga, no seu poema «Sísifo», que nos convoca a sermos inteiros:

   «Recomeça… se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade».
 

Pampilhosa, 28 de Setembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(57ª Reflexão)

 

 

 

Bondade


BONDADE

   No decurso da semana passada e com o início desta, que estamos a viver, fui-me confrontando, assiduamente, com a palavra bondade. Uma palavra que radica, em última instância, na autenticidade do amor. O termo bondade, derivado do latim bonitatem[1], tem como definição própria a disposição natural para fazer o bem, a qualidade do que é bom, mas igualmente a brandura, e a benevolência.[2] Mas, na sua significação, compreende ainda a amabilidade, aprofundando assim o seu conceito e relacionando-o com o amor, porquanto este é a base desta característica ou atributo da bondade.

   Vem isto a propósito de três momentos celebrativos e existenciais destes oito dias: a expressão de S. Paulo à comunidade de Roma, numa das leituras do vigésimo terceiro domingo do tempo comum, em que o apóstolo exortava os romanos, dizendo-lhes: «não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros» (Rom. 13, 8); a notícia inesperada da morte do Bispo do Porto, Senhor D. António Francisco dos Santos, e consequentes reações a tão fatídico acontecimento; e, de novo, a liturgia deste último domingo, com a resposta de Jesus à interpelação de Pedro, que o questiona sobre quantas vezes devemos perdoar, se até sete vezes ou eventualmente mais, ao que Jesus responde: «não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (Mt. 18, 21 – 22); o que, na simbologia bíblica significa sempre – em quantidade e em qualidade. Isto é, perdoar sempre que necessário, com verdade e autenticidade, sem que reste qualquer rancor ou ressentimento.

   Apesar do seu contexto litúrgico e eclesial, estas expressões e factos valem para todos nós, e não apenas para os cristãos, porque são universais. Desde logo, porque o amor tem de estar na base de todas as nossas vivências pessoais e interrelacionais, enquanto alicerce sólido de toda a nossa construção pessoal e social. Num tempo em que tendemos para a autossuficiência e para o individualismo, Paulo vem recordar-nos algo de essencial: que o amor é uma dívida constante de uns para com os outros; consciente de que ele é um dinamismo permanente, nunca acabado, a necessitar sempre de novos gestos e cuidados. Acolher este convite de Paulo significa trilharmos caminhos de autêntica realização e de felicidade. Ora, uma das características deste amor é exatamente a bondade, enquanto atenção, respeito e proximidade construtiva na relação com quem nos é próximo. De igual modo, o perdão sem reservas, como afirmava Jesus, no Evangelho de Mateus, conduz a uma sociedade benevolente, onde, apesar das nossas diferenças e desencontros, é sempre possível refazer as nossas relações humanas, com base na humildade que conduz à permanente amabilidade e a uma autêntica fraternidade. Assim, uma vez mais, a bondade se reafirma por oposição a toda a forma de maldade, de iras, de ódios, desrespeitos ou de rixas. É, uma vez mais, o convite ao amor, sublinhando a bondade na relação de uns com os outros.

   Diríamos, eventualmente, que tais princípios são ideais humanos inalcançáveis! Serão certamente um desafio constante às nossas vivências e suas motivações. Mas não são algo de impossível. Bem pelo contrário: são luzeiros permanentes a iluminar os nossos caminhos, para que por eles cheguemos à felicidade para que fomos criados.

   Na ocasião da morte do Sr. D. António Francisco dos Santos, ao tomar conhecimento de tão amarga notícia, a primeira palavra que me ocorreu para caracterizar a sua pessoa foi precisamente a afabilidade. Qualidade que se insere no âmbito da bondade. E foi precisamente esta última qualidade - a sua bondade - que mais se afirmou, ao longo dos dias da sua celebração exequial, e no legado que tão naturalmente nos deixou. A candura do seu olhar, a atenção à singularidade de cada um, a benevolência, a doçura no trato, o sorriso afável e a capacidade de desculpar, mesmo nas situações mais difíceis (incluindo aquelas que se inscreveram no seu múnus de pastor), são uma herança de uma profunda humanidade, capaz de tocar o coração de tantos que, mais direta ou indiretamente, privaram com este grande homem e grande bispo. Os testemunhos neste sentido são múltiplos, desde as mais altas figuras de estado, ao povo simples que teve a graça de o ter como pastor. Para mim – certamente para muitos de nós! – ficou esta certeza, ao recolher tão belo testemunho: a bondade é uma das qualidades humanas que maior beleza confere à nossa humanidade. E que mais enriquece as nossas relações interpessoais. O senhor D. António, com a sua vivência simples e humilde, mas tão próxima de todos, assegurou-nos, afinal, que a bondade é realmente possível!
 

Pampilhosa, 21 de Setembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(56ª Reflexão)



[1] Cf. Voc. Bondade. In Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa. Disponível em http://www.michaelis.uol.com.br
[2] Cf. Cf. Dicionário Priberam. Disponível em: http://www.priberam.pt
 

Ensino Superior


ENSINO SUPERIOR

   Este ano o número de jovens candidatos ao ensino superior aumentou, fazendo com que as vagas disponíveis, para este nível de ensino, fossem inferiores ao número dos que se candidatavam. Com efeito, há sete anos que não entravam tantos alunos no ensino superior.

   Indiscutivelmente, estamos perante um efetivo sinal animador; muito positivo para os jovens, denotando o investimento que estes pretendem fazer na sua formação; para as famílias, que parecem retomar confiança nalguma estabilidade económica, investindo na formação dos seus filhos; e para a sociedade, que vê retomar o investimento na qualificação dos seus jovens, enquanto capital social ímpar, pois a formação é a base de toda a ação renovadora de qualquer sociedade.

   Contudo, não basta que nos encerremos nestes números. É necessário que providenciemos a que estes candidatos, que agora ingressam, possam vir a concluir os seus estudos. Sabendo que para tanto é essencial que as condições económicas e sociais, que parecem animar-se, sejam sustentáveis, no médio e longo prazo, para que as famílias continuem a reunir efetivas condições para manter os seus jovens no ensino universitário. Isto é, que este fator social animador não se resuma a uma situação conjuntural, mas se solidifique, como fruto de uma melhoria económica estrutural, transversal a toda a sociedade portuguesa, tendo como consequência a melhoria nas condições económicas das famílias e, por conseguinte, o investimento em termos da permanência da formação.

   Por vezes tendemos a cair em leituras imediatas, sem uma visão alargada da realidade. Se o número de candidatos ao ensino superior é animador – e é-o, de facto! -, diria que será muito mais animadora a taxa futura de sucesso dos que agora ingressam, com a conclusão dos seus estudos. É que não podemos esquecer que o nível de abandono no ensino superior se tem cifrado, nestes últimos anos, em valores relativamente altos. A título de exemplo, no ano letivo de 2014 – 2015, a percentagem de abandono foi de 8,6%. E se é certo que este se deve a múltiplos fatores, todos temos consciência de que as condições económicas das famílias são o elemento mais determinante para tal abandono.

   Paralelamente a esta questão, das condições económicas, coloca-se uma outra, que me parece vital: a necessidade de adequação do ensino superior universitário e politécnico ao mercado de trabalho, bem como a articulação deste com a diversidade de áreas de formação oferecidas por este nível de ensino e sua integração no mercado de trabalho. Neste aspeto parece-me que ainda estamos muito longe do desejável; não obstante o ensino politécnico, pela sua especificidade, se aproximar mais da realidade empresarial. Registando, por isso, um maior acréscimo de novos alunos. Esta articulação é absolutamente necessária, pois o horizonte da empregabilidade, hoje tão difícil, é um estímulo determinante para a conclusão dos estudos.

   Apesar de persistirem algumas desconfianças, perfeitamente razoáveis, no mundo do trabalho, há que criar a consciência de que a formação é sempre uma ferramenta ímpar, para quem a conclui, e o maior ativo social de que todos podemos beneficiar. Ainda que o emprego futuro não seja aquele que se idealizou com o investimento intelectual realizado, a verdade é que a formação, seja ela qual for, capacita para uma grande diversidade de atividades – direta ou indiretamente ligadas à área de formação -, permitindo um maior sucesso pessoal e em termos profissionais. Devemos, por isso, afastar das nossas mentes a ideia de que não vale a pena estudar, atendendo a que o mercado de trabalho não absorve todos os que concluem os seus cursos. Formar-se é sempre uma enorme mais-valia – pessoal, social e laboral! Não devíamos manter-nos tanto numa mentalidade mais ou menos teleológica, que considera que a formação vale apenas quanto às suas finalidades imediatas; mas sim investirmos numa mentalidade personalista, considerando que a formação vale, como contributo ímpar, para a formação e valorização da pessoa, apetrechando-a, depois, para o exercício de qualquer tarefa.

   No início de um novo ano, desejo as maiores felicidades a todos os que iniciam estudos superiores, bem como àqueles que os vão prosseguir ou terminar!

Pampilhosa, 14 de Setembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(55ª Reflexão)

Silêncios que corroem!


SILÊNCIOS QUE CORROEM!

   Com o final do mês de Agosto, a vida regressa à normalidade das atividades quotidianas, terminando, assim, um tempo de lazer e de descontração que marcou a vida de uma boa parte dos portugueses. O mês de Agosto, mês de férias por excelência, acrescido do mês de Julho e até de uma pequena parte do mês de Junho, deveria ser um tempo autêntico de serenidade, de tranquilidade, de calma, de festa e descontração, de são convívio e de pacificação íntima, após um ano inteiro de trabalhos diversos e de múltiplas responsabilidades: pessoais, laborais e sociais.

   Mas, infelizmente, não foi assim este último mês de Agosto. Para uma boa parte dos portugueses, foi um tempo de angústia, de sobressalto, de verdadeira aflição, de luta; nalguns casos, mesmo, de autêntico desespero! Devido às centenas de incêndios que deflagraram neste período de verão e à intensidade inaudita das suas chamas, vivemos o mês de Agosto numa espécie de «estado de guerra», como o qualifiquei, ao ver tamanha destruição, angústia e luta desigual face a um adversário que parecia agigantar-se cada vez mais. Foi ainda um tempo de devastação inaudita do nosso património florestal – numa área ardida que ascende, neste ano de 2017, aos 75.264 hectares, a maior da última década e a mais elevada de toda a União Europeia -, conjuntamente com tantos bens de cultivo, para não falar já das aldeias ameaçadas, que tiveram de ser evacuadas, e da destruição de casas, algumas delas de primeira habitação! Um verdadeiro horror!

   Mas findo este período, em que todas as energias se canalizaram para o combate às chamas, deixando para depois outras análises ao fenómeno dos incêndios, pontualmente marcado por indicações de causas mais e menos plausíveis, por parte de um ou de outro governante, parece agora cair uma sombra de silêncio sobre estes acontecimentos, tal como acontece no regresso ao trabalho, deixando no passado o que foi a vivência das férias. E ciclicamente habituamo-nos a este fatalismo!

   Ora, é urgente romper este ciclo de silêncio, de falta de responsabilização, de deixar permanecer tudo como está, exigindo-se uma resposta clara e que permita compreender as causas de tamanha tragédia. Os portugueses têm o direito a saber a verdade! E se no seu todo, porque este é um mal que afeta transversalmente a sociedade portuguesa, muito particularmente aqueles que foram lesados, quer nos seus bens, nos seus haveres, quer na sua tranquilidade. Perante tamanho inferno, é necessário conhecer as causas; é necessário responsabilizar quem é responsável e punir quem é criminoso. Esta é uma enorme questão de justiça e de dívida para com os portugueses, particularmente com os muitos que sofreram neste verão. E é igualmente um dever de quem governa, para poder manter a ordem pública e a salvaguarda dos interesses de quem é governado.

    Ora, o silêncio reinante, pautado apenas pela indicação de que foram apresentados a tribunal algumas dezenas de incendiários, regra geral postos de novo em liberdade, não explica nada, nem faz justiça a ninguém. Comporta em si, simplesmente, a capacidade de corroer a nossa confiança em quem detém a autoridade – no governo, porque não é exigente e não aponta razões credíveis que expliquem tamanho desastre; no poder judicial, porque não é suficientemente transparente, nem exigente na sua aplicação até às últimas causas. Para não falar já de autoridades intermédias, cuja falta de empenhamento no apuramento da verdade nos deixa uma sensação de silêncio conivente. Conduzindo tudo a uma desconfiança persistente, tão daninha quanto o silêncio, sobre os possíveis interesses que se movem por detrás desta realidade a que alguém, com responsabilidades públicas, chamou já a «empresa do fogo». Este silêncio tem ainda a desdita de corroer a própria democracia, porque não nos faz iguais perante a lei, retira às autoridades a idoneidade que lhes devia ser reconhecida, e permite que na sociedade fermentem suspeições.

   A par das medidas mais do que identificadas para a ação de prevenção e de revalorização das nossas florestas, que urge implementar, temos direito a saber quais as verdadeiras causas que conduziram a este flagelo, como meio de assunção de responsabilidades sociais e de prevenção de eventualidades futuras. Portugal é uma democracia assente no cumprimento igualitário da lei! Não podemos permitir que alguns – grupos ou pessoas – vivam à margem dessa lei, pondo em causa o bem-estar de todos. Urge assumirmos a verdade e a transparência como meio de credibilidade e de idoneidade para o exercício das mais altas tarefas do Estado. Custe a quem custar! 

Pampilhosa, 07 de Setembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(54ª Reflexão)

 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Gestão Turística e Identidade


GESTÃO TURÍSTICA E IDENTIDADE!

   Estamos no verão! Período do ano em que a maioria das pessoas aproveita para viver alguns dias de férias, retemperando as forças após um ano de trabalho. Mas o verão, para nós, portugueses, tem significado também um maior afluxo de turistas estrangeiros, que nos visitam, aproveitando as qualidades naturais e culturais do nosso país, para usufruírem do mesmo descanso e de algumas atividades lúdicas que Portugal lhes possa proporcionar.

   Certo é que, apesar de o verão ser o período de turismo por excelência, o fenómeno turístico, particularmente de incoming (entrada de turistas estrangeiros em Portugal), já não se resume apenas a esta estação. Com fluxos diferentes, a entrada de turistas regista-se ao longo de todo o ano. O que é uma enorme vantagem económica, pois Portugal tem beneficiado profundamente desta atividade, fazendo com que o país se afirme cada vez mais como destino turístico.

   Todavia, há que salvaguardar alguns princípios fundamentais na gestão turística, para que esta atividade não se sobreponha a outras, conduzindo a situações de instabilidade e insustentabilidade. Como o boom turístico tem sido muito grande, nos últimos anos, há cada vez mais particulares, a par das grandes empresas do setor, a procurar beneficiar das vantagens económicas desta atividade. O que, em parte é legitimo, mas acarretando vários perigos.

   Todos sabemos que os fluxos do mercado – e o turismo, em boa parte, insere-se também aí – se definem por oscilações, variando entre movimentos em alta e em baixa, e não na permanência de uma linha contínua ou sempre em crescendo. Essa é a opinião unânime dos especialistas em economia e comprovável pela história. Portugal beneficia, de momento, ao nível do turismo, de vários fatores: das suas qualidades internas, que é fundamental promover; mas também de múltiplos condicionantes externos, que conduzem à opção por este destino turístico. Daí a necessidade de pensarmos o presente, mas também com o olhar no futuro. Ora, o preocupante é vermos muita gente a querer esgotar o presente sem essa perspetiva de futuro, na gestão da atividade turística, com prejuízo para a identidade das comunidades e com a possibilidade de comprometer o futuro próximo. Há dias ouvia a notícia de que vários proprietários de imóveis nos bairros típicos de Lisboa estão a notificar os seus inquilinos para que abandonem estes espaços, sob pretexto de quererem efetuar obras de fundo nestes imóveis. Sabendo que a lei permite ações de despejo com base neste pressuposto, a verdade é que muitos destes proprietários estão a reconverter os seus imóveis para alojamento familiar, destinando-os precisamente à atividade turística. E aqui está a perversão de um sistema, gerando instabilidade – particularmente para quem é morador – e futura insustentabilidade – pois é possível que não tenhamos, no futuro, mais longínquo, tantos turistas na cidade como presentemente. Conclusão: retiramos dos bairros os habitantes que lhes dão o seu verdadeiro rosto, com uma cultura típica, que tende a apagar-se, perdendo-se o que é genuíno e atrativo nestes bairros; indiferenciamos os espaços, o que lhes rouba o seu interesse; e futuramente podemos não ter turistas a ocupar estes imóveis; o que conduzirá, inevitavelmente, à perda de identidade e à desertificação destes espaços históricos. Ainda que sabendo que a venda de imóveis a estrangeiros, em Lisboa, seja atrativa, mas conscientes de que estes são, para eles, apenas uma segunda residência. O que, na prática, não inverte a tendência de desertificação, já tão acentuada pela falta de condições de habitabilidade nos centros históricos; essa, sim, uma situação a reverter.

   O que acontece em Lisboa, acontece igualmente no Porto, nalguns espaços típicos da cidade, a serem igualmente reconvertidos quase exclusivamente para a atividade turística. Mas, fundamentalmente devemos atender a perigos semelhantes que possam alargar-se a outros âmbitos de ação comunitária, seja ela económica, social ou cultural, sempre que depreciamos ou abdicamos dos nossos valores e da nossa cultura, para dar lugar ao que nos é estranho! Quando assim é, perdemos a nossa identidade e nosso interesse! É que muitos dos estrangeiros procuram-nos devido ao sol, à beleza das nossas paisagens, à nossa gastronomia… mas também devido à nossa alma, presente nos nossos elementos identitários! Se os perdermos, estaremos a comprometer-nos na nossa identidade, mas também na oferta turística que fazemos a quem nos visita.                                  
 
Pampilhosa, 13 de Julho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(53ª Reflexão)