quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Ensino Superior


ENSINO SUPERIOR

   Este ano o número de jovens candidatos ao ensino superior aumentou, fazendo com que as vagas disponíveis, para este nível de ensino, fossem inferiores ao número dos que se candidatavam. Com efeito, há sete anos que não entravam tantos alunos no ensino superior.

   Indiscutivelmente, estamos perante um efetivo sinal animador; muito positivo para os jovens, denotando o investimento que estes pretendem fazer na sua formação; para as famílias, que parecem retomar confiança nalguma estabilidade económica, investindo na formação dos seus filhos; e para a sociedade, que vê retomar o investimento na qualificação dos seus jovens, enquanto capital social ímpar, pois a formação é a base de toda a ação renovadora de qualquer sociedade.

   Contudo, não basta que nos encerremos nestes números. É necessário que providenciemos a que estes candidatos, que agora ingressam, possam vir a concluir os seus estudos. Sabendo que para tanto é essencial que as condições económicas e sociais, que parecem animar-se, sejam sustentáveis, no médio e longo prazo, para que as famílias continuem a reunir efetivas condições para manter os seus jovens no ensino universitário. Isto é, que este fator social animador não se resuma a uma situação conjuntural, mas se solidifique, como fruto de uma melhoria económica estrutural, transversal a toda a sociedade portuguesa, tendo como consequência a melhoria nas condições económicas das famílias e, por conseguinte, o investimento em termos da permanência da formação.

   Por vezes tendemos a cair em leituras imediatas, sem uma visão alargada da realidade. Se o número de candidatos ao ensino superior é animador – e é-o, de facto! -, diria que será muito mais animadora a taxa futura de sucesso dos que agora ingressam, com a conclusão dos seus estudos. É que não podemos esquecer que o nível de abandono no ensino superior se tem cifrado, nestes últimos anos, em valores relativamente altos. A título de exemplo, no ano letivo de 2014 – 2015, a percentagem de abandono foi de 8,6%. E se é certo que este se deve a múltiplos fatores, todos temos consciência de que as condições económicas das famílias são o elemento mais determinante para tal abandono.

   Paralelamente a esta questão, das condições económicas, coloca-se uma outra, que me parece vital: a necessidade de adequação do ensino superior universitário e politécnico ao mercado de trabalho, bem como a articulação deste com a diversidade de áreas de formação oferecidas por este nível de ensino e sua integração no mercado de trabalho. Neste aspeto parece-me que ainda estamos muito longe do desejável; não obstante o ensino politécnico, pela sua especificidade, se aproximar mais da realidade empresarial. Registando, por isso, um maior acréscimo de novos alunos. Esta articulação é absolutamente necessária, pois o horizonte da empregabilidade, hoje tão difícil, é um estímulo determinante para a conclusão dos estudos.

   Apesar de persistirem algumas desconfianças, perfeitamente razoáveis, no mundo do trabalho, há que criar a consciência de que a formação é sempre uma ferramenta ímpar, para quem a conclui, e o maior ativo social de que todos podemos beneficiar. Ainda que o emprego futuro não seja aquele que se idealizou com o investimento intelectual realizado, a verdade é que a formação, seja ela qual for, capacita para uma grande diversidade de atividades – direta ou indiretamente ligadas à área de formação -, permitindo um maior sucesso pessoal e em termos profissionais. Devemos, por isso, afastar das nossas mentes a ideia de que não vale a pena estudar, atendendo a que o mercado de trabalho não absorve todos os que concluem os seus cursos. Formar-se é sempre uma enorme mais-valia – pessoal, social e laboral! Não devíamos manter-nos tanto numa mentalidade mais ou menos teleológica, que considera que a formação vale apenas quanto às suas finalidades imediatas; mas sim investirmos numa mentalidade personalista, considerando que a formação vale, como contributo ímpar, para a formação e valorização da pessoa, apetrechando-a, depois, para o exercício de qualquer tarefa.

   No início de um novo ano, desejo as maiores felicidades a todos os que iniciam estudos superiores, bem como àqueles que os vão prosseguir ou terminar!

Pampilhosa, 14 de Setembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(55ª Reflexão)

Silêncios que corroem!


SILÊNCIOS QUE CORROEM!

   Com o final do mês de Agosto, a vida regressa à normalidade das atividades quotidianas, terminando, assim, um tempo de lazer e de descontração que marcou a vida de uma boa parte dos portugueses. O mês de Agosto, mês de férias por excelência, acrescido do mês de Julho e até de uma pequena parte do mês de Junho, deveria ser um tempo autêntico de serenidade, de tranquilidade, de calma, de festa e descontração, de são convívio e de pacificação íntima, após um ano inteiro de trabalhos diversos e de múltiplas responsabilidades: pessoais, laborais e sociais.

   Mas, infelizmente, não foi assim este último mês de Agosto. Para uma boa parte dos portugueses, foi um tempo de angústia, de sobressalto, de verdadeira aflição, de luta; nalguns casos, mesmo, de autêntico desespero! Devido às centenas de incêndios que deflagraram neste período de verão e à intensidade inaudita das suas chamas, vivemos o mês de Agosto numa espécie de «estado de guerra», como o qualifiquei, ao ver tamanha destruição, angústia e luta desigual face a um adversário que parecia agigantar-se cada vez mais. Foi ainda um tempo de devastação inaudita do nosso património florestal – numa área ardida que ascende, neste ano de 2017, aos 75.264 hectares, a maior da última década e a mais elevada de toda a União Europeia -, conjuntamente com tantos bens de cultivo, para não falar já das aldeias ameaçadas, que tiveram de ser evacuadas, e da destruição de casas, algumas delas de primeira habitação! Um verdadeiro horror!

   Mas findo este período, em que todas as energias se canalizaram para o combate às chamas, deixando para depois outras análises ao fenómeno dos incêndios, pontualmente marcado por indicações de causas mais e menos plausíveis, por parte de um ou de outro governante, parece agora cair uma sombra de silêncio sobre estes acontecimentos, tal como acontece no regresso ao trabalho, deixando no passado o que foi a vivência das férias. E ciclicamente habituamo-nos a este fatalismo!

   Ora, é urgente romper este ciclo de silêncio, de falta de responsabilização, de deixar permanecer tudo como está, exigindo-se uma resposta clara e que permita compreender as causas de tamanha tragédia. Os portugueses têm o direito a saber a verdade! E se no seu todo, porque este é um mal que afeta transversalmente a sociedade portuguesa, muito particularmente aqueles que foram lesados, quer nos seus bens, nos seus haveres, quer na sua tranquilidade. Perante tamanho inferno, é necessário conhecer as causas; é necessário responsabilizar quem é responsável e punir quem é criminoso. Esta é uma enorme questão de justiça e de dívida para com os portugueses, particularmente com os muitos que sofreram neste verão. E é igualmente um dever de quem governa, para poder manter a ordem pública e a salvaguarda dos interesses de quem é governado.

    Ora, o silêncio reinante, pautado apenas pela indicação de que foram apresentados a tribunal algumas dezenas de incendiários, regra geral postos de novo em liberdade, não explica nada, nem faz justiça a ninguém. Comporta em si, simplesmente, a capacidade de corroer a nossa confiança em quem detém a autoridade – no governo, porque não é exigente e não aponta razões credíveis que expliquem tamanho desastre; no poder judicial, porque não é suficientemente transparente, nem exigente na sua aplicação até às últimas causas. Para não falar já de autoridades intermédias, cuja falta de empenhamento no apuramento da verdade nos deixa uma sensação de silêncio conivente. Conduzindo tudo a uma desconfiança persistente, tão daninha quanto o silêncio, sobre os possíveis interesses que se movem por detrás desta realidade a que alguém, com responsabilidades públicas, chamou já a «empresa do fogo». Este silêncio tem ainda a desdita de corroer a própria democracia, porque não nos faz iguais perante a lei, retira às autoridades a idoneidade que lhes devia ser reconhecida, e permite que na sociedade fermentem suspeições.

   A par das medidas mais do que identificadas para a ação de prevenção e de revalorização das nossas florestas, que urge implementar, temos direito a saber quais as verdadeiras causas que conduziram a este flagelo, como meio de assunção de responsabilidades sociais e de prevenção de eventualidades futuras. Portugal é uma democracia assente no cumprimento igualitário da lei! Não podemos permitir que alguns – grupos ou pessoas – vivam à margem dessa lei, pondo em causa o bem-estar de todos. Urge assumirmos a verdade e a transparência como meio de credibilidade e de idoneidade para o exercício das mais altas tarefas do Estado. Custe a quem custar! 

Pampilhosa, 07 de Setembro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(54ª Reflexão)

 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Gestão Turística e Identidade


GESTÃO TURÍSTICA E IDENTIDADE!

   Estamos no verão! Período do ano em que a maioria das pessoas aproveita para viver alguns dias de férias, retemperando as forças após um ano de trabalho. Mas o verão, para nós, portugueses, tem significado também um maior afluxo de turistas estrangeiros, que nos visitam, aproveitando as qualidades naturais e culturais do nosso país, para usufruírem do mesmo descanso e de algumas atividades lúdicas que Portugal lhes possa proporcionar.

   Certo é que, apesar de o verão ser o período de turismo por excelência, o fenómeno turístico, particularmente de incoming (entrada de turistas estrangeiros em Portugal), já não se resume apenas a esta estação. Com fluxos diferentes, a entrada de turistas regista-se ao longo de todo o ano. O que é uma enorme vantagem económica, pois Portugal tem beneficiado profundamente desta atividade, fazendo com que o país se afirme cada vez mais como destino turístico.

   Todavia, há que salvaguardar alguns princípios fundamentais na gestão turística, para que esta atividade não se sobreponha a outras, conduzindo a situações de instabilidade e insustentabilidade. Como o boom turístico tem sido muito grande, nos últimos anos, há cada vez mais particulares, a par das grandes empresas do setor, a procurar beneficiar das vantagens económicas desta atividade. O que, em parte é legitimo, mas acarretando vários perigos.

   Todos sabemos que os fluxos do mercado – e o turismo, em boa parte, insere-se também aí – se definem por oscilações, variando entre movimentos em alta e em baixa, e não na permanência de uma linha contínua ou sempre em crescendo. Essa é a opinião unânime dos especialistas em economia e comprovável pela história. Portugal beneficia, de momento, ao nível do turismo, de vários fatores: das suas qualidades internas, que é fundamental promover; mas também de múltiplos condicionantes externos, que conduzem à opção por este destino turístico. Daí a necessidade de pensarmos o presente, mas também com o olhar no futuro. Ora, o preocupante é vermos muita gente a querer esgotar o presente sem essa perspetiva de futuro, na gestão da atividade turística, com prejuízo para a identidade das comunidades e com a possibilidade de comprometer o futuro próximo. Há dias ouvia a notícia de que vários proprietários de imóveis nos bairros típicos de Lisboa estão a notificar os seus inquilinos para que abandonem estes espaços, sob pretexto de quererem efetuar obras de fundo nestes imóveis. Sabendo que a lei permite ações de despejo com base neste pressuposto, a verdade é que muitos destes proprietários estão a reconverter os seus imóveis para alojamento familiar, destinando-os precisamente à atividade turística. E aqui está a perversão de um sistema, gerando instabilidade – particularmente para quem é morador – e futura insustentabilidade – pois é possível que não tenhamos, no futuro, mais longínquo, tantos turistas na cidade como presentemente. Conclusão: retiramos dos bairros os habitantes que lhes dão o seu verdadeiro rosto, com uma cultura típica, que tende a apagar-se, perdendo-se o que é genuíno e atrativo nestes bairros; indiferenciamos os espaços, o que lhes rouba o seu interesse; e futuramente podemos não ter turistas a ocupar estes imóveis; o que conduzirá, inevitavelmente, à perda de identidade e à desertificação destes espaços históricos. Ainda que sabendo que a venda de imóveis a estrangeiros, em Lisboa, seja atrativa, mas conscientes de que estes são, para eles, apenas uma segunda residência. O que, na prática, não inverte a tendência de desertificação, já tão acentuada pela falta de condições de habitabilidade nos centros históricos; essa, sim, uma situação a reverter.

   O que acontece em Lisboa, acontece igualmente no Porto, nalguns espaços típicos da cidade, a serem igualmente reconvertidos quase exclusivamente para a atividade turística. Mas, fundamentalmente devemos atender a perigos semelhantes que possam alargar-se a outros âmbitos de ação comunitária, seja ela económica, social ou cultural, sempre que depreciamos ou abdicamos dos nossos valores e da nossa cultura, para dar lugar ao que nos é estranho! Quando assim é, perdemos a nossa identidade e nosso interesse! É que muitos dos estrangeiros procuram-nos devido ao sol, à beleza das nossas paisagens, à nossa gastronomia… mas também devido à nossa alma, presente nos nossos elementos identitários! Se os perdermos, estaremos a comprometer-nos na nossa identidade, mas também na oferta turística que fazemos a quem nos visita.                                  
 
Pampilhosa, 13 de Julho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(53ª Reflexão)

Partilha


PARTILHA!

   Neste último domingo, as comunidades cristãs foram chamadas a partilhar, no ofertório das celebrações eucarísticas, alguns dos seus bens monetários com os irmãos que foram vítimas dos recentes incêndios. Segundo me foi dado observar, não apenas nas comunidades que me estão confiadas, mas também noutras, de que tive conhecimento, as pessoas tomaram como sua esta causa, partilhando generosamente com quem, neste momento, carece de um pouco de tudo. Mas esta vivência da partilha, um sinal muito rico de comunhão, é apenas uma, entre tantas outras – de pessoas, de instituições, de empresas… Na verdade, foi tão grande a generosidade no imediato, após o inclemente flagelo do fogo, que as autoridades locais, dos concelhos afetados, tiveram mesmo de pedir que se abrandasse a entrega de mais bens, sobretudo perecíveis, sob pena de se estragarem; bem como de outros bens materiais, pois já não havia capacidade de armazenamento. Gestos, estes, que definem muito da nossa alma – autenticamente solidária, próxima e fraterna.

   Todavia, como escrevia o Carlos Neves, numa crónica do Correio de Coimbra (nº 4651, de 29 de Junho de 2017), fundamentado nos estudos de Susana Sacavino, a solidariedade humana compreende-se segundo quatro modelos distintos, que ele apresentava de forma gradual: a solidariedade estética, a solidariedade como campanha, como cooperação e a solidariedade como encontro. Convidando-nos a passar dos primeiros modelos, ao modelo da solidariedade como encontro, em que se relativiza “o eu que penso” e o “que me parece”, para dar lugar ao outro, num «encontro efetivo e afetivo com ele, lá no lugar onde ele está, seja o outro uma pessoa ou uma comunidade». Se é certo que, como sublinhava ainda o cronista, todos os modelos têm um contributo a dar e são importantes em contextos como aquele que vivemos, há que privilegiar o encontro, pois só este corresponde à logica mais profunda da solidariedade, em todas as suas dimensões, centrando-nos autenticamente na pessoa daqueles a quem pretendemos apoiar, acolhendo as suas verdadeiras necessidades e ajudando-os a restabelecer a sua vida numa recuperação autêntica das suas condições materiais e afetivas, num respeito singular pela sua dignidade. Sempre num apoio em que o protagonista é aquele que se encontra em necessidade.

   Estas considerações, que li com especial atenção, mais do que me terem deixado a pensar na diversidade de modelos de solidariedade e na sua eficácia, fizeram-me tomar consciência de duas coisas: a necessidade do autêntico encontro e a permanência de um apoio verdadeiramente humano.

   O encontro, em situação de carência, para além do material – absolutamente necessário! – pressupõe o afetivo, a escuta e o amparo emocional. Daí revalorizar agora, ainda mais, as palavras do pároco de Pedrogão Grande, Pe Júlio Santos, logo após aquele infortúnio: «o que mais preocupa é o estado de espírito das pessoas, a parte psicológica»; para logo acrescentar que o mais necessário na primeira hora é mesmo mostrar a proximidade com quem sofre.[1] Na verdade, é necessário reconstruir as condições materiais, para que as pessoas retomem as suas vidas e as retomem com dignidade; mas há vidas que necessitam de se reconstruir interiormente, seja pela dor da perda dos seus familiares, seja pela dor de uma vida transformada num momento. Estar com o outro e atender às suas múltiplas necessidades será, por certo, a melhor forma de viver a solidariedade. E esta faz-se sempre na proximidade.

   Por outro lado, é necessária a permanência. É que nem as condições materiais se recuperam num ápice, sendo, por vezes, longas no tempo; nem as feridas se curam no imediato. Bem sabemos que só o tempo sarará o que um momento feriu. Daí que esta proximidade afetiva também deva permanecer.

   Se nos cabe a todos tomar consciência destes factos, passíveis de serem vividos especialmente pelas pessoas e comunidades de vizinhança, importa que os meios ao nosso dispor (nomeadamente de comunicação, a que havemos de voltar) não nos permitam esquecer! Não para nos dar uma notícia fácil ou de exploração sentimental; mas para nos recordar que a solidariedade é a vivência de um encontro que não se resume apenas a algumas semanas!


Pampilhosa, 06 de Julho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(52ª Reflexão)



[1] Pedrogão Grande. Pároco, filho da terra, preocupado com «estado de espírito» das populações. In Agência Ecclesia, 19 de Junho de 2017.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Mendigos II


MENDIGOS (II) 

   Em reflexão anterior, de há algumas semanas atrás, abordámos a questão da mendicidade, sublinhando o significado deste termo e a sua fundamentação etimológica. Afirmámos, então, que de alguma forma todos nós somos mendigos – de gestos de atenção, de amor, de presença, de reconhecimento, de vida em plenitude!...

    Se é certo que o termo mendum – como referíamos – nos reporta um limite físico, julgo que podemos alargar este âmbito para compreender que todos nós, em virtude da nossa humanidade, estamos marcados por múltiplos limites. A vida humana é um dom incomensurável; todavia, é um dom frágil! Por entre múltiplas possibilidades e sonhos, a vida humana é efetivamente frágil. Mas nós não desanimamos! Para quem tem fé, todo o limite é transitório diante da vida em plenitude: vida que contemplamos e que já recebemos, ainda que na esperança da sua plena realização futura.

   Mas, se a vida humana é marcada por estes limites - e alguns irmãos nossos experimentam-nos de sobremaneira! –, que fazer? Num mundo que tende a valorizar positivamente o indivíduo, mas depois nos projeta no individualismo, enquanto centralidade do eu, sem atenção a quem está ao nosso redor, eis que a resposta é a proximidade, a solidariedade, a comunhão, o amor.

   São tantos hoje os que vivem sós entre multidões, gente que arrasta os seus dramas e fantasmas pessoais sem terem quem os escute! Ora, em autêntica fraternidade, urge saber estar atento a quem nos rodeia, sabendo acolher e ouvir! Num tempo em que as exigências laborais retiram aos pais o tempo e a disponibilidade necessária para escutar e viver o afeto na relação com os seus filhos, urge reequacionar as prioridades, articular as várias dimensões da vida, para que não tenhamos crianças e jovens cada vez mais entregues a si mesmos e às novas tecnologias, mas a crescer sem amor! Esse amor que é essencial para o seu equilíbrio humano! Num tempo em os encargos pessoais, laborais e familiares retiram a necessária disponibilidade para os mais idosos, quantas vezes pais ou familiares diretos, tantas vezes fragilizados pela idade e pela falta de saúde, não basta que procuremos soluções estáveis de resposta às suas necessidades básicas, com o recurso – cada vez mais difícil! – às instituições de solidariedade social. Mas quando tal se manifesta necessário, não os abandonemos, pois o amor de funcionários (e há daqueles que se desdobram em afeto para com todos!) nada há como a ternura  e o amor de um filho, de uma filha, ou de um sobrinho. Mesmo quando ainda bastando-se a si próprios, não podemos descuidar os mais idosos, visitando-os, apoiando-os ou simplesmente tendo algum tempo para estar com eles, para que se quebrem tantos laços de solidão e de sensação de injustiça, pois que muitos vivem o drama de tudo ter feito para bem dos filhos, vendo-se depois esquecidos ou abandonados por estes.

   Quando, em sociedade, nos sentimos tentados a condenar alguns comportamentos, ou porque saem da norma legal, ou porque nos aparecem como estranhos e esotéricos, talvez devêssemos primeiro tornar-nos próximos e compreender o porquê desse modo de ser e de agir. Certamente no respeito pela individualidade de cada um, mas igualmente com a consciência de que há muita gente que não foi verdadeiramente amada! Há gente que, em sociedade, reclama pela negativa o que lhe foi negado – o direito básico ao amor! Há gente mal-amada, com uma baixa autoestima, que necessita mais do nosso abraço do que do nosso juízo! Enfim… são tantas as fragilidades humanas a merecerem a nossa atenção e a fazer-nos perceber que todos somos mendigos! Já nem me refiro às fatalidades, a que todos nós estamos igualmente sujeitos. Em todas as situações cabe-nos viver o cuidado de uns para com os outros. No respeito pela individualidade de cada um, mas em autêntica proximidade.

   Por fim, todos nós temos desejo de vida plena, confrontando-nos, todavia, com a morte! Consciente de que todos, no mais profundo de si, se questionam sobre o sentido da vida e a sua realização, somos mendigos do além; dessa outra realidade, que não vemos, mas que já nos está dada em esperança!

   Vivendo em cada dia o valor singular da vida, prosseguindo o ideal da felicidade, que nos é comum; todos, mais ou menos, somos mendigos! E mendigos porque frágeis! Deixemos, então, que o amor, que é efetivamente o centro construtivo de autêntica humanidade, dê rosto às nossas vidas, em verdadeira comunhão! E da eternidade tenhamos uma sede infinda que nos abra ao dom da própria fonte!


Pampilhosa, 29 de Junho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(51ª Reflexão)

 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Em hora de dor!...


EM HORA DE DOR!...

   O momento presente, em Portugal, é uma hora de dor para todos nós. Pouco valem as palavras, nesta ocasião, quando urge minimizar o que, entretanto, os incêndios já destruíram. Perguntamo-nos, com estupefação: como foi possível este drama? Certamente que o futuro trará – obrigatoriamente – algumas respostas. Sim, porque estes trágicos acontecimentos não podem ficar sem uma necessária e profunda análise, no sentido de se compreenderem profundamente as suas causas, se prevenirem possíveis realidades futuras, bem como para se repensar o território agora devastado!

   Contudo, na hora atual, algumas atitudes se nos impõem: em primeiro, o silêncio e a oração; depois, o apoio à reconstrução material e às vítimas deste enorme flagelo; por fim, implementar as medidas administrativas já definidas para reorganizar a floresta nacional.

      1. Face aos dramas pessoais e familiares que, na sequência do terrível incêndio de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, vêm ao nosso conhecimento, particularmente na atenção aos que morreram, com famílias inteiras dizimadas, ou parte substancial delas desfeitas, resta-nos o silêncio respeitoso de uma comunhão sincera. E, para quem é crente, a oração sincera, que gera comunhão e conforto, pela paz dos que partiram e pelo consolo dos que ficaram. Há momentos na vida humana em que pouco mais podemos fazer, senão o silêncio e a oração. Ainda que sempre numa proximidade afetiva e autenticamente fraterna com quem sofre. As histórias são múltiplas e angustiantes! Unamo-nos nesta comunhão fraterna e na oração.

       2. Paralelamente a esta atitude de memória e oração, impõe-se-nos a ação, na mobilização de todos, no sentido de ajudarmos a prover às necessidades mais básicas de quem perdeu tudo – de quem perdeu “o trabalho de uma vida”, como referia uma vítima deste incidente inclemente. Neste sentido, são múltiplas as campanhas de angariação de bens de primeira necessidade, de contas abertas para apoio monetário, entre outras iniciativas de apoio, que visam mobilizar toda a sociedade portuguesa. Mas há que atender que o processo de reconstrução será longo e exigente. Algumas aldeias ficaram praticamente destruídas e muitos dos seus habitantes perderam todos os seus haveres. Ajudá-los a reconstruir a sua vida, com casa e condições dignas, não se opera apenas no primeiro momento; exige uma partilha mais alargada no tempo. Daí que a Cáritas Diocesana de Coimbra esteja já no terreno a fazer levantamento de necessidades para orientar um programa de apoio às pessoas e às populações. As comunidades paroquiais têm aqui um dever cimeiro, como testemunho de fraternidade e caridade, correspondendo aos pedidos do Bispo Diocesano e do serviço referido. Conscientes, ainda, de que não se trata simplesmente de um apoio técnico, mas de um auxílio que traduza a nossa proximidade e afeto. Como referia o pároco de Pedrógão Grande, Pe. Júlio Santos, numa entrevista à Agência Ecclesia e com palavras que eu próprio lhe ouvi, em conversa pessoal, este momento exige muita proximidade afetiva, para minorar uma dor imensa, de gente que perdeu tudo, quer familiares, quer bens essenciais. O que fizermos que o façamos sempre com este amor e a proximidade possível.

       3. Em terceiro lugar, urge implementar as medidas administrativas já definidas para a gestão da nossa floresta. Já em 2012, a propósito de um artigo no âmbito da Pastoral do Turismo, cuja direção me está confiada, pude escrever «num país verde, como Portugal, infelizmente tão flagelado pelos incêndios florestais, é urgente uma nova política para a floresta e para a reflorestação». Nessa ocasião li mesmo a documentação legal existente sobre a gestão da floresta em Portugal. E pude concluir, então, como várias personagens, de quadrantes sociais e políticos distintos, o têm referido agora, que os estudos estão feitos, as necessidades estão identificadas; as metodologias estão definidas. Basta apenas vencer o que se tem tornado mais difícil: a inércia na aplicação de tais normas.

   Este não é um tempo de balanços e de grandes análises, como muitos têm afirmado. Sem dúvida! Contudo, fica-nos a certeza de que se não tivéssemos abandonado as nossas florestas não seriamos agora vítima delas, como temos sido. Se não cuidarmos da natureza, será ela que se voltará contra nós. E nós?!… Nós não queremos chorar mais mortos de tão inglórios infortúnios!


Pampilhosa, 22 de Junho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(50ª Reflexão)

Mendigos (I)


MENDIGOS (I)

   A palavra mendigo, fruto de novas conceções da pessoa e da sua respetiva integração social, parece ter caído em desuso, dando lugar, atualmente a novas terminologias para definir aqueles que vivem da mendicidade. Com efeito, a palavra mendigo, que significa pedir esmola, comporta na sua raiz o étimo mendum que, no contexto das sociedades pretéritas, se associava à deficiência física, já que o termo latino mendum significa precisamente ter um defeito físico.

  Ora, atualmente convivemos com a mesma prática da mendicidade, mas já sem essa carga estigmatizante. As pessoas que vivem da esmola enquadram-se em categorias diferenciadas, consoante as suas necessidades e o objetivo da recolha das dádivas que pedem. Nalguns casos tais categorias coincidem na mesma pessoa; mas nem sempre. Temos os sem-abrigo, privados das condições mais básicas de vida, a habitar as nossas ruas, devido a fatalidades da sua história pessoal; temos os pedintes, que vivem de uma prática enraizada de mendicidade; alguns toxicodependentes que, não tendo recursos próprios, recorrem à mendicidade para prover às suas necessidades imediatas de estupefacientes que lhes permitam o equilíbrio físico, psíquico e emocional, quantas vezes já completamente comprometido pela presença desses mesmos produtos. Em suma, pessoas que vivem uma extrema carência material, que as incapacita de sobreviver com meios próprios.

   Em termos de respostas sociais, são hoje várias as instituições públicas e privadas, que intentam suprir algumas destas necessidades. Mas a maioria dos problemas de incapacidade de sobrevivência digna persiste em boa parte dos casos. Neste sentido, é com agrado que vejo a iniciativa do Senhor Presidente da República, insistindo com o governo e a sociedade, no sentido de nos mobilizarmos para erradicarmos, desde logo, os sem-abrigo, respondendo às suas necessidades mais básicas de uma casa e de alimentação. Sabendo que, em muitos destes casos, tal processo tem de passar pela reeducação e pela capacidade de oferta de trabalho às pessoas que se encontram nestas circunstâncias.

   Mas esta é uma causa que nos deve mobilizar a todos, mais próximos ou mais distantes deste espetáculo degradante que envergonha a sociedade. Sim, porque aquele princípio afirmado pela Gaudium et Spes do Vaticano II não vale apenas para os católicos, mas é uma interpelação a todos os homens de boa vontade, quando afirma: «Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para o uso de todos os homens e povos, de modo que os bens criados devem chegar equitativamente a todos, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade» (GS. 69).

   Mesmo das situações sociais mais problemáticas, de que é exemplo a toxicodependência, nenhum de nós se pode alhear. Numa sociedade que tende para o individualismo, o mais fácil é ignorarmos estas situações, ou então apaziguarmos as nossas consciências com um pequeno gesto de partilha – uma moeda, por exemplo – pensando que já fizemos a nossa parte. Num tempo em que recrudesce a intervenção cívica, sobretudo na política, com novos movimentos desalinhados das propostas políticas tradicionais, porque não constituirmos movimentos cívicos que pugnem pela resolução destas situações humanas e sociais, no sentido de termos uma comunidade mais justa?

   Todos podemos olhar com distanciamento para as situações de carência alheia; todavia, só seremos autenticamente humanos quando reconhecermos no rosto do outro, em situação de privação, um rosto irmão, a amar e a auxiliar.

   De resto, todos nós somos, em certo sentido, verdadeiros mendigos, como havemos ainda de refletir – de gestos de atenção, de amor, de presença, de reconhecimento, de vida em plenitude!...

   Atendendo a que tudo nesta vida é transitório, ainda que nos prendamos excessivamente ao que possuímos, também nós somos mendigos: essencialmente dessa vida plena, da vida que apenas Outro nos pode dar! É da Sua dádiva de amor e de vida que recolhemos o dom e a obrigação de cuidarmos uns dos outros, como verdadeiros irmãos!


Pampilhosa, 08 de Junho de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(49ª Reflexão)