quarta-feira, 21 de junho de 2017

Fátima


FÁTIMA

   Estamos no mês de Maio! Um período do ano habitualmente dedicado a Nossa Senhora. Se o mês de Maio, como mês de Maria, vem já de longe na nossa história, ligado às devoções marianas; ganhou, para nós, um novo sentido com as aparições de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, na Cova da Iria, aos pequenos pastorinhos. Maio tornou-se o mês da Senhora de Fátima – nas celebrações marianas que pautam a vida de algumas das nossas comunidades paroquiais, das nossas famílias ou de algumas pessoas individualmente, com a celebração comunitária ou pessoal do terço; nas múltiplas peregrinações penitenciais ou de ação de graças, que enchem as nossas estradas e caminhos, de norte a sul do país, em direção ao santuário de Nossa Senhora; nas celebrações festivas do treze de Maio, que se renovam em cada ano, na consagração a Deus mediante a intercessão maternal de Maria.

   Este ano o mês de Maio ganha um novo colorido e uma nova alegria, na multiplicidade de acontecimentos que viveremos nas celebrações aniversárias, particularmente neste treze de Maio: o Centenário das Aparições aos pastorinhos, na Cova da Iria; a canonização de dois deles – Francisco e Jacinta Marto -; e a visita do Papa Francisco, que virá a Fátima como peregrino «na Paz e na Esperança». Certamente um momento de grande alegria para muitos de nós!

   Mas, no contexto do Centenário das Aparições, muitas vozes se têm levantado em torno da análise do que realmente se passou, há cem anos atrás, no descampado da Cova da Iria. Temos assistido a uma excessiva preocupação de clarificar conceitos como aparição ou visão. Sem me querer deter excessivamente nesta questão, direi apenas que Nossa Senhora apareceu efetivamente aos pastorinhos, porquanto aparição significa, entre outros sentidos, «visão sobrenatural». Ora, é evidente que Maria não apareceu de forma corpórea, física, àquelas crianças, mas sim numa visão espiritual – a «visão sobrenatural». Daí que Lúcia visse e ouvisse sempre Nossa Senhora, enquanto os dois irmãos, Francisco e Jacinta, tivessem experiências diferentes na visão e escuta da «Senhora mais brilhante que o sol». O mesmo acontecendo com as multidões que, entretanto, se foram deslocando para a Cova da Iria, a cada dia treze, particularmente do mês de Outubro, que não vendo Nossa Senhora, apenas testemunharam os sinais da sua presença, como aconteceu com o denominado «milagre do sol». Na verdade, como refere o Cardeal Ratzinger, perfeito da Congregação da Doutrina da Fé, atual Papa emérito Bento XVI, a visão que os pastorinhos tiveram foi uma «força de presença tal que equivale à manifestação externa sensível» (Comentário Teológico à Mensagem de Fátima). Isto é, não foi uma experiência meramente intelectual, muito menos fantasiosa, mas sim uma presença espiritual de tal ordem que bem podemos dizer que para aquelas crianças foi uma vivência real. Por outro lado, há ainda quem afirme que se tratou de uma mentira engendrada pelas crianças ou uma construção da Igreja Católica. Ora, nem aquelas simples crianças tinham capacidade de resistir às pressões a que foram sujeitas, pelas autoridades eclesiásticas e civis, inclusive com ameaças de morte, persistindo na mentira; nem a Igreja reconheceu imediatamente o fenómeno de Fátima, o que só viria a acontecer mais de uma década depois, em 1930.

   Fátima, cuja mensagem «profética» se foi desvendado ao longo destes cem anos, é hoje um singular espaço de espiritualidade. Ali vivemos facilmente a experiência do sobrenatural. E é ainda na história - de cada peregrino, de cada peregrinação, de presença de cada um dos últimos Papas, a começar logo em Paulo VI, em 1967 - que experimentamos o autêntico dom de Deus que, por Maria, Ele nos quer oferecer.

  Mas, mais do que qualquer outra consideração, em Fátima cada um de nós encontra a ternura de uma Mãe que nos acolhe – nas nossas alegrias, tristezas, esperanças e inquietações – e com a sua solicitude maternal nos encaminha para o coração amoroso de seu Filho e para a comunhão amorosa com o Deus Trindade.

   Que Ela, a Mãe que amorosamente quis habitar no meio de nós, nos acolha, nos escute e nos conduza à vida plena no seu Filho Jesus Cristo, a Quem permanentemente nos oferece!

Pampilhosa, 04 de Maio de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(45ª Reflexão)

 

 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Futebol!


FUTEBOL
    Desde sempre, na história, os diversos jogos constituíram a vivência lúdica das pessoas e das comunidades. Para tanto, na antiga Grécia e antiga Roma construíram-se espaços próprios para a prática destes desportos, que eram, simultaneamente, ponto de encontro social e de vivência comunitária. Sem dúvida que algumas práticas eram marcadas pela agressividade dos participantes, como as lutas de gladiadores na antiga Roma, que podiam terminar com a morte de um deles, sob indicação do imperador; ou como as cenas de martírio, nomeadamente de alguns cristãos que, à época, entravam na arena para serem colocados em luta contra animais ferozes, com os quais se debatiam (ou talvez não!), até à morte, para gáudio dos assistentes. A verdade, porém, é que estes jogos e vivências lúdicas serviam para congregar as comunidades, para a sua distração (mesmo que aos olhos do nosso tempo com práticas inaceitáveis!) e não para as opor ou fazer conflituar.

   Ora, as nossas práticas lúdicas – onde se insere uma grande diversidade de vivências culturais e desportivas – evoluíram com os tempos, assumindo modos e contornos diferentes! Uma das práticas desportivas que mais se afirmou, um pouco por todo o mundo, foi precisamente o futebol – jogo que nasce, ainda que sem certeza absoluta, cerca de 3.000 a 2.500 a.c., na China, embora com a sua organização atual no séc. XIX. Esta vivência lúdica evoluiu, com as suas múltiplas equipas, colocando em confronto grupos rivais, que procuravam, no confronto de grupos, alcançar a desejada vitória. É certo que esta rivalidade se inscreve no espírito de luta e confronto que sempre marcaram os vários grupos humanos, visando a vitória. De alguma forma, mimetizando os próprios combates tribais ou comunitários que procuravam a sua subsistência no confronto com o inimigo.

   Mas o futebol tornou-se exclusivamente uma experiência lúdica, onde a oposição entre equipas e adeptos se vivia num espírito de sã convivência e confronto. Daí a afirmação, tão genuína, do denominado fair play que, significando literalmente “jogo justo”, veio a considerar-se como jogo amigável e de respeito mútuo.

   Acontece, todavia, que no presente – e de forma transversal a vários países – o futebol se tornou num combate bastante agressivo. Não tanto ao nível das equipas, onde, não raro, vemos belos sinais de amizade e de respeito entre jogadores, mas sim ao nível dos adeptos e dos dirigentes. É que o futebol tornou-se num imenso negócio, que envolve milhões de euros e a participação de milhares e milhares de pessoas, guiadas, não raro, pelos dirigentes desportivos.

   Portugal vive de forma singular este fenómeno, ou não fosse um país de futebol. Mas aquele que era um fenómeno de sã convivência e de sã rivalidade, transformou-se numa vivência de oposição e de luta, com confrontos verbais e físicos muito cruéis, onde, inclusive e com demasiada frequência, se põe em causa a integridade física de muitos dos adeptos das várias equipas. Sobretudo para muitos elementos das claques de futebol, cujo objetivo seria apoiar a sua equipa, o futebol transformou-se paulatinamente numa vivência de confronto e de agressividade. É certo que nesta vivência de grupo, unidas às convicções de clube, se unem muitas realidades sociais, culturais e até políticas, que formam um caldo propício para este tipo de fenómenos. Serão os psicólogos e sociólogos certamente os mais capazes de explicar tais manifestações. Mas é minha convicção de que as condições apontadas, manipuladas pelos dirigentes desportivos – que neste quadro têm uma responsabilidade acrescida – se constituem como a base onde assenta toda esta agressividade.

   Se é certo que temos de melhorar permanentemente as nossas condições sociais e culturais, temos igualmente de renovar o sentido de fair play, para que o futebol seja apenas e tão só aquilo que é: uma sã competição, entre rivais que se respeitam, como vivência lúdica das comunidades que tanto o apreciam. O futebol tem de ser uma experiência grata e de feliz concorrência entre equipas opostas – numa oposição saudável, na amizade e no respeito mútuo! Precisamos de reavivar o fair play!

Pampilhosa, 27 de Abril de 2017
Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho
(44ª Reflexão)

Avós!


AVÓS

    Há dias senti-me particularmente tocado pela profunda comoção com que um jovem se despedia de um dos seus avós, no contexto da sua partida do meio de nós. E compreendi profundamente tal comoção! Afinal aquele não fora apenas o seu avô, um familiar direto, por quem nutriu um natural carinho, na proximidade normal das relações familiares. Fora muito mais: fora o seu amparo, o seu herói e o seu paciente caminheiro, que tantas vezes manifestou a paciência necessária para o acompanhar, se alegrar e entusiasmar nas suas conquistas pessoais – essas conquistas que se vão alcançando com a idade, cada uma própria da respetiva etapa de crescimento. E aquele avô acompanhou cada uma, especialmente nas diversas fases da sua infância e parte da sua adolescência! Mas, acima de tudo, aquele avô foi o seu companheiro, o seu contador de histórias, o poço de afeto onde, quando criança, aquele jovem mergulhou a sua vida e bebeu da água saborosa do seu amor. Aquele avô abriu-lhe perspetivas de vida, sem o saber, precisamente com as suas histórias, o seu exemplo, e a sua suave conduta, ajudando-o a discernir o que é importante do que não é importante. Numa palavra: aquele avô ensinou-o a ser homem! Esse homem que ele agora quer ser!

   No breve cortejo fúnebre, até ao carro que o levaria à sua última morada, o jovem seguiu silencioso, mas solícito, abraçando a sua avó – essa mulher que acabava de perder o companheiro de todas as horas, mas que fora, para ele, o seu neto, igual suporte de uma infância e de uma adolescência feliz! Essa avó que o acolhia, logo de manhã, em sua casa, para que ele pudesse dormir o último sono do amanhecer, antes de ir para a creche, pois os pais saiam cedo para o emprego; essa avó que o acolhia sempre de sorriso rasgado e com um coração de imenso afeto, quando o avô chegava com ele, pela mão, para lanchar; essa avó que igualmente ouvia as suas histórias e que brincava com ele, nalguns momentos de lazer; essa avó que lhe contava outras histórias, mas do mesmo tempo das do avô, que tanto o faziam sonhar por dentro. Afinal, essa avó desmedida no seu afeto que, quantas vezes, se permitia tolerar pequenos prazeres ou pequenas travessuras, que os seus pais jamais tolerariam – são assim os avós, quase sempre mais condescendentes que os pais, sem fazer perigar um projeto de educação! Por isso aquele jovem a abraçava e sentia dever ser ele, agora, o seu amparo, numa hora de tristeza e de dor.

   Esta história, deste jovem, num contexto natural de separação, será, por certo, a história de tantos jovens e de tantos avós.

   Num tempo em que a vida, felizmente, se prolonga e ganha nova qualidade no avançar dos anos; mas num tempo, igualmente, em que os casais jovens têm tanta dificuldade em conciliar a sua vida laboral com a vida familiar, os avós surgem como uma bênção – um dom para os filhos, permitindo-lhes a organização das suas vidas; mas, sobretudo, uma enorme bênção para os netos, a quem, com uma enorme ternura e disponibilidade dedicam as suas vidas e os seus recursos íntimos, de afeto e ternura, tornando-se nos verdadeiros pilares do seu crescimento humano equilibrado e feliz.

   Certamente que aquele jovem, recordando as suas memórias de infância, de quando olhava o céu estrelado com o seu avô e contemplava as estrelas como se fossem seres pessoais, nas noites da sua vida irá olhar para uma delas e repetir, como tantas vezes terá feito: «Avô conta-me aquela história!». E vai recordar como cada história foi tão importante para si!


Pampilhosa, 20 de Abril de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(43ª Reflexão)

 

 

Páscoa!


PÁSCOA

   A palavra Páscoa, com origem no hebraico pesah e no aramaico phasha, por via do grego pascha, significa literalmente «passagem», ou «trânsito»[1].

   Para o povo hebraico, a páscoa significava a libertação do Egito, pela mão de Moisés e a condução à Terra da Promessa que o Senhor, o Deus de Israel, lhes havia prometido. Na verdade, a páscoa judaica celebra o início desse trânsito e a passagem a caminho da terra prometida. Para os cristãos, a Páscoa toca o mistério mais profundo de toda a nossa existência humana – a passagem da morte à vida! Efetivamente, celebrando o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, o Filho de Deus que desceu à nossa humanidade, e que por nós deu a Sua vida, celebramos igualmente com Ele a nossa passagem a essa mesma vida, como dom que nos vem da graça batismal. Com esta certeza, afirmava São Paulo: «Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Porque, assim como por um homem veio a morte, também a ressurreição dos mortos veio por um homem» (1Cor. 15, 20 – 21). Na verdade, Cristo foi o primeiro a ressuscitar – como primícia – para nos fazer viver uma vida semelhante à Sua. E essa graça já nos foi dada pelo dom batismal, pois, como afirma a Igreja, pelo batismo «somos regenerados como filhos de Deus» e «tornamo-nos membros de Cristo» (CIC. 1213). Ora, ser regenerado significa, etimologicamente, nascer de novo (regenerare), precisamente porque nos tornámos membros de Cristo. N’Ele, o Senhor Vivo e Ressuscitado, vivemos uma vida nova. Este é o grande dom pascal e a fonte de toda a nossa esperança. Por isso esta é a nossa maior alegria, que não nos cansamos de proclamar neste tempo.

   Mas se a Páscoa tem este sentido para quem é crente – judeu ou cristão -, que significado poderá ter para quem não tem fé? Numa perspetiva transcendente, os cristãos creem que Cristo morreu por todos e a todos concedeu já uma vida nova. Por isso se empenham no anúncio permanente desta boa notícia (evangelion) a cada um dos seus irmãos, para que todos n’Ele acolham esta boa nova. Contudo, numa perspetiva meramente imanente ou horizontal, a ressurreição é um convite à permanente renovação da vida humana. Perante as múltiplas situações de morte que a humanidade, e cada um de nós, enfrenta, em tantas circunstâncias, somos convidados, neste tempo, a passar dessas vivências de morte à renovação do dom da vida. São sinais de morte a violência, a guerra, a injustiça, a mentira, a maledicência, a desonestidade, o roubo, a deslealdade ou a infidelidade. Como são sinais de morte tantos vícios que, depauperando a dignidade da vida humana, condicionam a vida como uma existência livre. O tempo da Páscoa, enquanto «passagem» ou «trânsito» é um convite singular à renovação. Passar da morte à vida, significará então assumir a não-violência, a construção da paz, a luta pela justiça e pela verdade, o cultivo da bondade e da honestidade, a lealdade ou a verdadeira fidelidade.

   Mas, acima de tudo, a Páscoa é a grande realização do amor – da entrega da vida de Alguém que, por amor de nós, aceitou oferecer-se até ao fim. Dessa entrega em que emerge a absoluta novidade da Ressurreição. Se a consideramos em sentido pleno, tendo como consequência essa vida que jamais terá fim; não deixamos de a considerar também como um convite permanente, para todos, a fazer da nossa história pessoal e coletiva, uma contínua passagem do nosso egoísmo ao autêntico e verdadeiro amor. Realidade que não é exclusiva de alguns, mas sim património de todos! O amor, que está no centro de toda a vida humana, como seu fundamento e sentido, será por certo o grito maior a ecoar na Páscoa de cada um de nós – crentes e não crentes!

   A todos, votos de uma Páscoa Feliz!



Pampilhosa, 13 de Abril de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(42ª Reflexão)



[1] FLORISTÁN, Cassiano – Voc. Páscoa. In FLORISTÁN, Cassiano – Dicionário de Pastoral. Porto: Editorial Perpétuo Socorro, 1990, p. 402.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Humanidades!


HUMANIDADES

   No Jornal «Público», da passada segunda-feira, José Pacheco Pereira afirmava que o prémio Pessoa, atribuído a Frederico Lourenço, não nos deve «iludir», num artigo intitulado «O nó górdio». Não que o autor discorde da atribuição do prémio; bem pelo contrário: reconhece-o inteiramente merecido. Mas sublinha o cronista que «o mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico» (Público, 03.04.2017).

   Na verdade, a sociedade atual tende a organizar-se em torno das tecnologias e das ciências exatas, definindo-se estas últimas pela sua capacidade de expressar o quantificável, segundo métodos próprios de análise; compreendendo as Matemáticas, a Física, as Engenharias, a Química, as Estatísticas, ou a Computação. Isto em desprimor das ciências humanas, que tendo o próprio ser humano e as sociedades como objeto de estudo, se desenvolvem em áreas tão distintas como a Filosofia, a História, a Arqueologia, a Antropologia, as Artes ou as Letras.

   Não obstante a relativa procura de alguns cursos de ciências humanas ou Humanidades, como a História por exemplo, cujas vagas na Faculdade de Letras, na Universidade de Coimbra, quase sempre se preenchem; há hoje uma subalternização destas áreas do saber, face à procura, por parte do mercado de trabalho, de competências adquiridas no saber tecnológico e nas ciências exatas ou nas ciências naturais.

   Esta situação é sintoma de três dificuldades que advêm da nossa vivência social, no momento presente: um mercado que não se adequou e desvalorizou o potencial de conhecimento que advém das ciências humanas; uma universidade que afunilou a sua oferta, nesta área, restringindo-a a duas ou três áreas de intervenção no mundo laboral, das quais ainda não se libertou; e -o mais grave – o incremento de um enorme desconhecimento da vida humana e suas principais inquietações, da construção da história e seus dinamismos, bem como do desconhecimento dos valores culturais e patrimoniais; limitando, ainda, o sentido crítico face à vida pessoal e em sociedade. Por certo que alguns conhecimentos na área das humanidades inviabilizariam algumas práticas a que hoje já começamos a assistir: no mundo da gestão, da política, dos meios de comunicação, entre tantos outros.

   Necessitamos de redescobrir a unicidade de todo conhecimento, mesmo para quem enverede por uma prática mais tecnológica ou própria das ciências exatas, num diálogo profícuo entre todas as áreas do saber. Sob pena de nos tornarmos autómatos, sem uma autêntica consciência do eu e suas inter-relações sociais. Em última instância, poderíamos chegar ao ponto daquela sociedade concebida por Aldous Huxley, no seu livro Admirável Mundo Novo, publicado em 1932, onde cada um estaria programado para executar uma e única ação em sociedade, segundo a categoria definida nessa estruturação social, mesmo sem a sua conceção do pré-condicionamento biológico.

   É certo que o imediatismo cultural em que vivemos não facilita uma visão de um conhecimento alargado. Mas ele é absolutamente necessário. Tanto mais que todas as áreas do conhecimento, em última instância, tratam do «fenómeno humano», para utilizar uma expressão de Teilhard de Chardin, sem as quais o homem, na sua compreensão, estará sempre incompleto!

 Pampilhosa, 06 de Abril de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(41ª Reflexão)

 

 

Sentido Crítico!


SENTIDO CRÍTICO

    Há alguns anos, quando ainda seminarista, no Seminário Maior de Coimbra, ouvia da boca do Monsenhor António Duarte de Almeida, então um dos diretores espirituais do Seminário, uma expressão que nunca mais esqueci e que, mais do que nunca, se adequa aos nossos tempos. Dizia ele, referindo-se ao poder dos meios de comunicação, particularmente da televisão, e ao modo como as pessoas absorviam toda a informação que lhes era facultada: «as pessoas estão diante da televisão como quem enche chouriças!». Queria ele dizer que consumiam tudo, de forma acrítica, como se toda a informação tivesse a mesma importância, a mesma qualidade e a mesma veracidade. Engoliam tudo, de forma passiva, como se em tudo o que ali se afirmava e visualizava residisse a autêntica verdade.

   Atualmente, a informação evoluiu bastante, na sua democraticidade e globalização. Todos nós, com os novos meios ao nosso dispor, podemos criar e aceder a mais informação, a novos conteúdos, e ainda sem os limites de um alinhamento televisivo e os horários pré-estabelecidos.

   Ora, face a esta nova realidade, necessitamos hoje, mais do que nunca, de um autêntico sentido crítico, que nos permita filtrar, com critérios objetivos, a informação a que acedemos. Necessitamos de um apurado sentido crítico para não nos deixarmos condicionar pelas opiniões correntes, pelas primeiras afirmações que nos chegam e que, quantas vezes, damos como adquiridas, mesmo quando elas carecem de fundamento e são, não raro, utilizadas para manipular opiniões. Chega a ser dramática a forma como hoje se usam os novos meios de comunicação, particularmente as redes sociais. Sendo um bem, na capacidade de comunhão entre as pessoas, de partilha de ideias, de participação cívica e meio pessoal de expressão, há, todavia, quem absorva tudo sem qualquer filtro, deixando-se perturbar nas suas convicções e nas suas vivências com a mais simples publicação. Há dias circulou pelas redes sociais um conjunto de notícias sensacionalistas, aparentemente de fontes fidedignas, mas que afinal provinham de uma fonte que tem como finalidade exclusiva difundir notícias falsas. Não estranhei tanto o conteúdo das notícias em si, perfeitamente fantasiosas, quanto a receção e a reação a tais notícias! E percebi, claramente, como tantos consomem a informação sem qualquer questionamento. Isto é, dando como certo tudo aquilo que é publicado. Ora, neste contexto, os novos meios de comunicação, permitindo a referida democraticidade e até mesmo uma outra participação cívica na construção de debates comuns, são um espaço aberto de condicionamentos e de manipulação ideológica ou de interesses diversos.

   A par da formação no acesso aos novos meios de comunicação, sinto que é urgente ajudar as pessoas atualmente a munirem-se de instrumentos pessoais para aprenderem a gerir estes novos meios e seus conteúdos. É que podemos estar a viver uma nova iliteracia: não já de quem não sabe ler; mas de quem não sabe interpretar devidamente o que lê! E esta nova realidade trabalhada por especialistas de marketing, de psicologia ou mesmo de algumas pretensões ideológicas, podem constituir um perigo para o equilíbrio pessoal e social. Aliás, a maioria, senão a totalidade, das novas tendências sociais, politicas, económicas e ideológicas valem-se destas ferramentas para atingir os seus objetivos.

   Se Karl Popper dizia já, em 1995, no seu célebre livro Televisão: um perigo para a Democracia, que «a televisão se tornou um poder incontrolado, e qualquer poder incontrolado contradiz os princípios da democracia»; hoje confrontamo-nos com um poder massificado, onde a liberdade e a consciência pessoal se podem diluir, dissolvendo-se nessa massificação da informação e dos seus objetivos.

   Sabendo, assim, que o sentido crítico consiste na capacidade de questionar e analisar de forma racional e inteligente cada assunto, procurando sempre a verdade; é hoje necessário, mais do que nunca, cultivarmos tal atitude, formando as gerações mais novas para uma atitude semelhante! Em nome da procura da verdade, do cultivo da liberdade, contra a massificação, e mesmo na salvaguarda permanente do equilíbrio pessoal e social.


Pampilhosa, 30 de Março de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(40ª Reflexão)

 

Preconceito!


PRECONCEITO 

    Nos tempos que correm, em que tudo parece tão volátil e a imagem define muitas das nossas impressões interiores, corremos o risco de absolutizar essas mesmas impressões, tornando o nosso conhecimento algo de efémero; inviabilizando o aprofundamento da razão de ser das coisas e o conhecimento sério do mundo e das pessoas. Esta forma de agir, com base no imediato, no transitório e na primeira imagem, comporta o que definimos como preconceito, que carece sempre de novas abordagens, ulteriores desenvolvimentos e conhecimento mais aprofundado, para se poder tornar num autêntico conceito. Se o preconceito, que se define pela «ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial»[1] e ainda como «opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos»[2], se pode aplicar a todas as coisas, causando uma visão ofuscada da realidade e do mundo; torna-se particularmente grave quando se aplica à relação com as pessoas, podendo compreender mesmo atitudes de intolerância. Certamente que já nos aconteceu a todos fazermos juízo de uma pessoa, com base numa primeira imagem, que depois se esfuma na relação pessoal – para o bem e para o mal. A primeira imagem pode criar, ou não, alguma empatia, que só no conhecimento mais aprofundado do outro se pode esclarecer. Ora, nós tendemos, quantas vezes, a determo-nos na primeira imagem que construímos de algumas pessoas – o preconceito -, sem lhes darmos, pela relação interpessoal, a possibilidade de se revelarem tal qual são, na sua verdadeira identidade. Tal significa sempre um empobrecimento das relações humanas e uma limitação na capacidade de acolhimento e de conhecimento dos demais.

   Mas o preconceito pode advir, também, da impressão que os outros nos transmitem sobre uma terceira pessoa, passando nós a pensar segundo um conceito que não é propriamente nosso, mas daquele que no-lo transmitiu. Se não nos dermos a oportunidade de fazer a experiência pessoal do conhecimento dessa outra pessoa, fundamentando nesse conhecimento a nossa opinião pessoal, podemos tornar-nos profundamente injustos e precipitados na visão dos demais.

   O preconceito está muito mais presente nas nossas relações humanas do que podemos imaginar. Com o risco de selecionarmos as pessoas, com quem nos relacionamos, com base na aparência ou naquilo que delas ouvimos dizer.

   Necessitamos, pois, de redescobrir as nossas relações humanas – relações marcadas pelo acolhimento, conhecimento sério e pelo respeito mútuo. Por outro lado, não obstante acolhermos frequentemente impressões alheias sobre determinada pessoa ou mesmo famílias, necessitamos de estabelecer relações autênticas de conhecimento pessoal e social, que nos conduzam a uma visão justa e equilibrada do outro, ou dos outros, assente na nossa experiência e não apenas no que advém do conhecimento alheio.

    O preconceito, por vezes inevitável na nossa primeira abordagem à relação com o mundo e com as pessoas, nunca pode ser a estância última do nosso conhecimento, até porque, como refere William Hazlitt, «o preconceito é filho da ignorância». Necessitamos de ir sempre mais longe no conhecimento das realidades e das pessoas. Quanto a estas, o preconceito é sempre inimigo da relação humana. Ora, para termos relações humanas sadias, temos de ultrapassar sempre o perigo deste preconceito, abrindo-nos permanentemente aos outros em sincera atitude de alteridade, de acolhimento e de amor. Sabendo que só estas atitudes humanizam verdadeiramente as nossas relações interpessoais.

Pampilhosa, 23 de Março de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(39ª Reflexão)



[1] Voc. Conceito. In Dicionário Priberam. In https://www.preberam.pt [Consultado a 12.03.2017].
[2] Ibidem.