sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Ano Novo!


ANO NOVO

   Iniciámos um novo ano! Um novo ciclo de vida, que nos fará percorrer as suas etapas próprias; desde logo pautado pelas estações climatológicas; bem como pelas nossas vivências sociais e culturais. O período cronológico de um ano é muito diverso e rico nos subperíodos em que se divide e nas práticas sociais e culturais que os enquadram.

   Mas um novo ano nunca é uma realidade mimética dos ciclos anteriores. Ainda que semelhante, cada ano é sempre novo, irrepetível, singular e com enquadramento pessoal e sociocultural diversificado. Diria que sendo mesmo aparentemente igual, repetindo, cada ano, vivências semelhantes, é sempre uma realidade em espiral; num aprofundamento contínuo. O mais evidente é o avanço no tempo – o avanço cronológico -, que sendo comum, é igualmente uma realidade vivida na experiência pessoal. Tal como no avanço histórico e respetivos progressos: cada ano é sempre um novo devir na prossecução da realização humana e da sua história. Ainda que nem sempre privilegiando o que mais nos realiza pessoal e comunitariamente.

  Ora, se cada ano é, efetivamente, um tempo novo – cronológica, social, cultural e historicamente -, não deixará de o ser igualmente na perspetiva pessoal; enquanto oportunidade única, verdadeiramente singular, e desafiante, para a vida de cada um de nós! Viver é, de per si, o grande dom; pois a vida é o valor primeiro sobre o qual assentam todos os demais valores. Mas não basta repetir ciclos de vida; é necessário dar profundidade a cada um desses ciclos, na perspetiva de alcançarmos a nossa autêntica realização. Neste sentido, cada ano é sempre uma nova oportunidade!

   Pode acontecer que, volvido o meado de Janeiro, em que se diluem os votos de um bom ano, se retomem as rotinas habituais e a vida permaneça sem aquela novidade proclamada no seu início. Ora, um novo ano é a oportunidade de nos questionarmos, de revermos as nossas vidas, de equacionar o que está, ou não, em conformidade com esse desígnio que nos habita e que todos demandamos: sermos felizes! Assim, um novo ano desafia-nos à desinstalação, à capacidade de decisão, à revisão necessária, à força de opções pessoais e comunitárias no sentido de nos aproximarmos, cada vez mais, desse desígnio que nos habita.

   O mais fácil, para todos nós, é acomodarmo-nos a estilos de vida pessoais, familiares ou comunitários, assentes em rotinas já assumidas, mesmo quando essas rotinas fazem persistir angústias, dores, desilusões, inquietudes ou mesmo agressividades. Ora, um tempo novo comporta em si, simbolicamente, essa ousadia de cortar com algumas rotinas para definir novos horizontes. Cada tempo é-nos dado para que nele construamos a nossa felicidade. Então, ousemos recomeçar de novo, deixando de parte o que pessoal, familiar e comunitariamente impede essa felicidade, para vivermos um tempo novo com existências novas. E bem sabemos que tal se aplica à vida pessoal de cada um de nós, reacertando princípios de conduta pessoal; a tantas situações familiares, onde é necessário renovar um autêntico diálogo e vivência de amor, mediante os quais cada um se sente verdadeiramente acolhido e amado na sua comunidade originária; ou ainda socialmente, num respeito e empenho na procura do bem comum, capaz de mobilizar conjuntamente o que cada um tem de melhor, ao serviço de todos.

   Efetivamente, viveremos um ano novo se cada um de nós se renovar! Partindo, necessariamente, da consciência de que nenhum de nós é já um produto acabado. Então, sim, como referia Mahatma Gandhi, tornar-nos-emos a mudança que desejamos ver no mundo. Ou, como referia Madre Teresa de Calcutá, seremos a pequena gota a transformar o oceano, que é o nosso mundo; na certeza de que se não aceitarmos ser essa pequena gota de renovação, este oceano será bem mais pobre.

   Façamos justiça ao provérbio popular que, neste período, tanto usamos: «ano novo, vida nova». Não apenas porque mudamos alguns dos grandes projetos das nossas vidas, mas porque nos dispomos a mudar os nossos corações e as nossas atitudes! E um novo ano começa exatamente por aí!

   A todos um feliz e abençoado ano de 2017!

 
Pampilhosa, 05 de Janeiro de 2017
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(29ª Reflexão)

 

 

 

 

 

 

 

Família!


FAMÍLIA

   A família constituiu a estrutura de base na gestação, educação, crescimento, e acompanhamento de cada pessoa; sendo ainda o suporte fundamental da vida em sociedade. Mas, essencialmente, a família é uma comunidade de pessoas, unidas pelo vínculo singular do amor. Com razão afirma a Exortação Apostólica, do Papa João Paulo II, Familiaris Consortio: “A família, fundada e vivificada pelo amor, é uma comunidade de pessoas: os esposos, homem e mulher, os pais e os filhos e os parentes. O seu primeiro dever é viver fielmente a realidade da comunhão num constante empenho por fazer crescer a autêntica comunidade de pessoas. O princípio interior, a força permanente e a meta última de tal dever é o amor. Como, sem o amor, a família não é uma comunidade de pessoas, assim também sem o amor, a família não pode viver, crescer e aperfeiçoar-se como comunidade de pessoas” (FC. 18).

   Todavia, nos tempos que correm, a família, apesar dos sinais positivos da “consciência da liberdade pessoal”, da “maior qualidade das relações interpessoais no matrimónio”, da “promoção da dignidade da mulher”, da “procriação responsável” e da “educação dos filhos” (cf. FC. 6); sofre grande degradação quanto a alguns dos seus valores fundamentais: “errada concepção teórica e prática da independência dos esposos entre si”, “ambiguidades na relação de autoridade entre pais e filhos”, “dificuldade na transmissão de valores”, “número crescente de divórcios”, a realidade do “aborto”, a “esterilização” ou mesmo a instauração de uma mentalidade contraceptiva” (cf. FC. 6). A família tem sido, nas últimas décadas, uma instituição em permanente questionamento. Apesar de todas as dificuldades que enfrenta, a família é a estrutura base da sociedade, o seu autêntico «fundamento» (GS. 52), comunidade primeira de onde todos provimos, onde crescemos e onde permanentemente encontramos o nosso abrigo pessoal e afetivo; capaz de corresponder a todas as nossas necessidades humanas. Enfraquecer a família significa comprometer o desenvolvimento pessoal, o equilíbrio social e os valores que nos permitem realizarmo-nos como pessoas, bem como comprometer na nossa interação em sociedade.

   O tempo de Natal, que estamos ainda a viver, é um convite profundo ao reconhecimento e valorização da vida familiar: seja pela via litúrgica, da celebração da Sagrada Família, festa que se insere nas solenidades que celebramos; seja pela via simplesmente humana, em que cada um vive, em contexto familiar, esta quadra natalícia! Aliás, para muitos, a festa de Natal confunde-se mesmo com a festa da família. Mesmo quando, para outros, esta festa familiar é vivida na tristeza, na incerteza, no desconforto ou mesmo na dor. Realidades que merecem a nossa proximidade afetiva, acolhimento e compreensão.

  Não basta, contudo, que se afirmem os valores familiares; tão pouco é suficiente que a família tenha este lugar especial nestas celebrações natalícias;  é fundamental que nela se redescubra permanentemente o amor que a fundamenta e a une, na consciência de que é uma comunidade de pessoas, que partilham não apenas um mesmo espaço, mas as suas vidas e os seus afetos.

   Muitos entendem que a defesa da família continua a ser, nos dias que correm, uma espécie da «bandeira» da Igreja; todavia, pela sua identidade e missão, ela é insubstituível para a realização da pessoa humana. Daí que todos nos sintamos chamados a cuidar dela: seja a nível das instituições, seja nas vivências pessoais.

   «Familia, torna-te aquilo que és!» - foi o convite dirigido pelo Papa João Paulo II a todas as famílias do mundo, em 1981, na Exortação Apostólica já anteriormente referida! Julgo que o mesmo grito deve ecoar nos dias de hoje: não apenas para salvaguardar uma instituição; mas fundamentalmente para assegurar o bem da pessoa – de cada pessoa! – e o autêntico equilíbrio da vida em sociedade!

 
Pampilhosa, 29 de Dezembro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(28ª Reflexão)

 

 

 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Natal!


 NATAL  

    Estamos em tempo de Natal! Expressão, que provinda do latim natalis, significa nascimento. Ora, o Natal significa o nascimento de Jesus, o Filho de Deus que se fez homem no meio de nós! Ainda que alguns possam não se rever nos conteúdos da fé, o Natal comporta, contudo, dois elementos incontornáveis para todos nós: a realidade histórica de Jesus de Nazaré e o seu nascimento, ainda que o dia de Natal seja definido a partir da conceção do nascimento do sol invicto (natalis invicti solis), da mitologia romana e sua expressão religiosa, que os cristãos, posteriormente, converteram na data do nascimento de Jesus Salvador, como autêntico sol que ilumina toda a humanidade; e a identidade cultural do Natal, que provém precisamente da tradição cristã.

   Em abono da verdade e já longe das práticas mitológicas romanas, o Natal celebra sempre o nascimento de Jesus, Aquele que depois proclamamos o Cristo, em virtude da Sua Morte e Ressurreição.

   Todavia, desde meados do século XX, após a campanha economicamente agressiva da americana Coca-Cola, que, em 1931, transformou a lenda de São Nicolau, que se celebrava a 6 de Dezembro, com a habitual distribuição de presentes, no atual Pai Natal - essa figura de aspeto rechonchudo, simpática, de barbas brancas e vestido de vermelho, a cor da marca -, que tal figura veio a assumir protagonismo nas celebrações natalícias.

   De um modo particular, o Pai Natal é uma figura atrativa para as crianças, precisamente porque a sua principal missão, em cada ano, é distribuir presentes, o que o torna particularmente cativante.

   Ora, o Natal compreende hodiernamente duas figuras: a do Menino Jesus e a do Pai Natal. Inequivocamente, com presença e expressão bem distintas no nosso contexto social. O Pai Natal é servido por um poderoso império comercial, aliado aos ainda mais poderosos meios de comunicação social, capazes de mobilizar uma sociedade inteira em torno de uma figura comum, definindo assim o sentido desta quadra festiva.

   O Menino Jesus parece continuar a nascer escondido, na humildade da gruta de Belém. O seu lugar, hoje, continua a ser o das nossas Igrejas e o espaço íntimo de algumas famílias cristãs. Não obstante se celebre o Seu nascimento.

   Mais do que colocar em confronto duas figuras, ou, de alguma forma, pretender excluir qualquer vivência do Natal, sinto que necessitamos de repor a verdade desta quadra natalícia. Não apenas para fazer justiça ao Menino; mas para que a nossa vida humana não seja apenas condicionada – diria mesmo: subjugada – pelos interesses económicos. É que os grandes valores do Natal têm de estar para além dessa tentativa de comercialização da vida humana, radicada nas compras, nas ofertas e nos gastos. O Natal, assente na humildade do Deus feito Menino, convida-nos à solidariedade, ao amor, à ternura, ao reconhecimento da dignidade do outro, à partilha generosa, ao encontro e à fraternidade, realizando os ideais humanos mais profundos, os únicos que são capazes de nos humanizar. Sim, porque o Natal é humanização: não apenas de Deus que se faz homem, mas igualmente do homem que O reconhece no rosto humano dos outros.

    Além disso, só no Deus Menino ganha sentido a vida humana, na pobreza e na abundância, na saúde e na doença, na alegria e na dor!... Nessa vida tão bem retratada pelo conto de Eça de Queirós, O Suave Milagre, que nos coloca diante de uma criança pobre e doente que deseja ver Jesus. E quando a mãe tenta dissuadi-lo, por ser pobre, eis que Jesus o visita. Este suave milagre é uma interpelação e uma resposta à vida de cada um de nós, em tempo de Natal! No sentido de vivermos a mesma consolação daquela criança. Escreve Eça de Queirós: «De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou: - Mãe, eu queria ver Jesus… E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança: - Aqui estou!».

 
Pampilhosa, 22 de Dezembro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(27ª Reflexão)

 

 

Solidão!


SOLIDÃO
 
   A solidão é uma das vivências mais dolorosas da existência humana. Ver-se privado da relação com o outro, ou com os outros, e obrigado a um isolamento na própria intimidade, física ou emocional, sem interação com os demais, é sempre uma vivência perturbadora para as pessoas que o experimentam.

   Não obstante as múltiplas formas de comunicação, de que hoje dispomos, o encontro com o outro exige uma presença real; o olhar, olhos nos olhos; o abraço, em que se expressa fisicamente o afeto; uma presença pessoal, que possibilite a relação humana em verdadeira alteridade.

   É certo que existe também uma «solidão positiva» - assim denominada por vários autores -, que permite o encontro consigo mesmo, a criatividade, o aprofundamento intelectual, espiritual, ou existencial. Contudo, resultante de uma opção livre e, em regra, limitada no tempo; compensada, depois, pelo reencontro com os mais próximos, em família ou em comunidade.

   Na verdade – como refere o adágio popular - «ninguém é feliz sozinho», pois é na relação com os outros que nos descobrimos permanentemente e nos construímos como pessoas, em desenvolvimento autenticamente humano.

   Ora, a solidão toma hoje vários rostos! A solidão física, de quem vive isolado, não raro devido às limitações da mobilidade e abandono, particularmente entre os mais idosos. Depois, a solidão afetiva: de tantos que não se sentem acolhidos; aceites na sua diversidade; amados; ou encerrados em si, nos seus dramas pessoais, sem capacidade de abertura confiante a quem os rodeia, vivendo a sua identidade mais profunda num reduto interior, inexpugnável e de solidão. Por fim, a solidão social, hoje cada vez mais disseminada, seja pela fixação nas tecnologias que isolam as pessoas, em espaços públicos; seja pelo individualismo, que tende a fechar cada pessoa no seu mundo e nos seus interesses; ou ainda, pela imposição social de isolamento àqueles que não são amados comunitariamente, fruto das suas vivências humanas perturbadas por qualquer fatalidade.

   A solidão, esse limite humano, fonte de dor e de angústia, exige, de todos nós, uma nova humanidade e uma nova proximidade; que, em muitos casos, é expressão de justiça e de dever. Exige essencialmente uma nova fraternidade!

   Desde logo, necessitamos de redescobrir os valores familiares, não permitindo que os mais velhos sejam privados dos mais novos e das relações que lhe são devidas! É uma questão de justiça! Depois, a necessidade de aprofundarmos o valor do voluntariado, na ação de visitadores, ou mesmo no acompanhamento próximo de pessoas mais desprotegidas. Sinal muito positivo é o dos jovens estudantes que habitam com idosos, beneficiando, cada um, do que ou outro pode oferecer – a hospedagem e a companhia; criando-se, quantas vezes, laços profundos de familiaridade. As próprias comunidades hão-de promover e dinamizar novos centros de convívio e de encontro, onde se viva a comunhão entre as pessoas e o seu enriquecimento humano.

   Por outro lado, todos nós devemos aprender a viver permanentemente o grande dom do acolhimento, da aceitação do outro, na sua identidade e diferença, no respeito pela sua verdade mais íntima. As amizades, sinceras e fiáveis, hão-de permitir a expressão autêntica daqueles que nos são queridos, abrindo-os à sinceridade diante de nós, por que se sabem amados. Todos nós devemos cultivar gestos de ternura para com todos, quebrando tantos respeitos humanos e receios, que ainda nos habitam. Precisamos de redescobrir a relação interpessoal, marcada pelo encontro efetivo e não meramente virtual que, quantas vezes, é ilusório. Necessitamos de quebrar as regras, que se impõem tacitamente, do isolamento em público, para gerarmos novas interações entre pessoas, geradoras de uma nova e autêntica humanidade. Necessitamos de reaprender o acolhimento para com todos e, muito especialmente, para com aqueles que ninguém ama, na consciência de que o isolamento e o alheamento geram mais problemas humanos e sociais, do que o acolhimento sincero. Precisamos de quem ame famílias ou pessoas, vítimas de situações humanas difíceis ou dolorosas, ajudando-as a recuperar a alegria e a dignidade!

   Um ideal? Sim, um ideal! Mas um ideal realizável, se cada um de nós o abraçar! É que só o amor, feito gesto de ternura e de acolhimento, é capaz de nos humanizar!

Pampilhosa, 15 de Dezembro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(26ª Reflexão)

 

Reconciliação!


RECONCILIAÇÃO


   A Igreja encerrou universalmente, no passado domingo, Solenidade Cristo Rei e Senhor do Universo, o Ano Santo da Misericórdia. O final, para a Igreja Católica, de um período cronológico de uma especial vivência da misericórdia, nas suas dimensões teológica, espiritual e pastoral. Mas um ano igualmente acolhido, com entusiasmo, por outras Igrejas e homens e mulheres de boa vontade. Um encerramento que não significa, contudo, o términus de um espírito que há-de permanecer na vivência eclesial, agora aprofundado, pois, segundo as palavras do Papa Francisco, na sua Carta Apostólica Misericordia et Misera, com que encerrou este ano, «a misericórdia não se pode reduzir a um parêntesis na vida da Igreja, mas constitui a sua própria existência, que torna visível e palpável a verdade profunda do Evangelho» (nº 1).

   Também as comunidades paroquiais que me estão confiadas – Luso e Pampilhosa – depois de haverem iniciado este ano com uma obra de misericórdia corporal: «dar de comer a quem tem fome»; quiseram terminá-lo com uma obra de misericórdia espiritual: «perdoar as injúrias». Assim, toda a nossa reflexão e ação, no encerramento do Ano da Misericórdia, se centrou no imenso valor da reconciliação. Sabendo que esta constitui a base de uma vivência de tranquilidade, de autêntica paz e de verdadeira fraternidade. Pretendendo comprometer-nos em criar comunidades de irmãos, comunidades de amor, na alegria da sincera comunhão. Sabendo, todavia, que o caminho exige uma atenção contínua e um esforço permanente de superação das nossas divisões.

   Mas este convite não se limita às comunidades cristãs. Bem pelo contrário: é uma proposta de vida que compreende todas as relações em sociedade – as de maior proximidade, ou de menor proximidade!

   Na verdade, quantas vezes nos confrontamos com pessoas angustiadas, tristes, desalentadas, deprimidas, de semblante anuviado, fruto de relações humanas degradadas pelos ódios, rancores, más querenças, ciúmes ou mesmo vinganças? Pessoas que se ignoram ou rejeitam, mesmo quando têm de partilhar espaços próximos, quantas vezes de vizinhança, na mesma rua ou no mesmo prédio! As nossas relações humanas enfermam devido à incapacidade de diálogo, à inaceitação do modo de ser e de agir dos outros, às nossas suscetibilidades, à arrogância, ao orgulho, à luta de interesses, não raro entre familiares, por razões de preferências, de divisão de bens, que conduzem, quantas vezes, a ódios e divisões, onde, afinal, deveria persistir a ternura e o amor! Quantas vezes colegas de trabalho se ignoram, mesmo trabalhando lado a lado? Enfim… São múltiplas as realidades que estão na base dos nossos desencontros e deterioração das nossas relações humanas!

   Contudo, todos desejamos viver em paz, na tranquilidade, na ternura, no reconhecimento e na aceitação. Todos desejamos ser felizes, sabendo que estar de bem com os demais é ingrediente fundamental para essa felicidade! Assim, não obstante as realidades humanas que nos possam dividir, a grandeza da vida humana reconhece-se na capacidade de ultrapassar todas essas dificuldades, permitindo-nos viver relações positivas, marcadas pela tranquilidade e pela paz. Sabendo que, para tanto, necessitamos de abdicar das nossas atitudes de orgulho e de vingança, para, com um coração límpido, trilharmos caminhos de diálogo e de compreensão, de perdão e de reencontro, conducentes à verdadeira comunhão com os demais – próximos ou mais distantes! Necessitamos de reaprender, permanentemente, o valor da reconciliação! Que na expressão latina – reconciliare – significa precisamente «pacificar, juntar de novo, restabelecer a concórdia e as boas relações»! Necessitamos de homens e mulheres reconciliados, construtores de comunidades fraternas, de acolhimento, de amor e de paz. Sabendo, contudo, que todas estes valores nascem do coração e do agir de cada um de nós!

   Como se referia numa pequena folha que distribuíamos, a propósito do encerramento do Ano da Misericórdia, «o perdão não é sinónimo de fraqueza ou ausência de amor-próprio; pelo contrário, demonstra grandeza de alma e muita coragem!» E é disto que precisamos: de homens e mulheres corajosos, capazes de trilhar todos os caminhos que conduzam à paz; pois a guerra, ao invés do que se possa pensar, é a arma dos fracos, já que apenas no amor se reconhece a verdadeira humanidade!


Pampilhosa, 24 de Novembro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(25ª Reflexão)

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Proximidade!


PROXIMIDADE


   Na passada semana fui tocado por dois acontecimentos ligados ao mundo da música: a partida de Leonard Cohen, que nos deixa um imenso legado, e a oração a Nossa Senhora, de Eric Clapton, composta num momento de profunda angústia, ou mesmo de desespero do seu autor. Retenho aqui, mais do que quaisquer outras questões ligadas ao génio destes dois homens, duas histórias de vida, que partilharam connosco. Leonard Cohen, no seu discurso aquando da receção do prémio Príncipe das Astúrias, em 2011, fez memória do seu professor de guitarra, que lhe ensinou os primeiros seis acordes, sobre os quais – dizia! – construiu toda a sua música, sem que quase nada soubesse dele, senão simplesmente que era um cidadão espanhol! Quando, num certo dia, o professor não apareceu para a aula particular que lhe lecionava, como era hábito, Cohen contactou a pensão onde se hospedava e confrontou-se com o choque enorme da notícia do suicídio do seu mestre de guitarra. Concluía que devia muito a Espanha, pois havia sido um espanhol a ensinar-lhe os primeiros acordes de guitarra. Mas deixava implícita a mensagem, de um modo subliminar, que, afinal, beneficiou dos conhecimentos de um professor que, verdadeiramente, nunca chegou a conhecer.

  Por seu turno, Eric Clapton, na sua autobiografia, relata um momento de particular angústia e sofrimento, quando, na tentativa de recuperar da dependência de drogas, em 1987, numa certa noite apenas lhe restou contar com o apoio de Nossa Senhora, a quem dedicaria uma melodia excecional: «Holy Mother» (Mãe Divina), que, mais não é, senão um enorme grito de súplica e de pedido de auxílio.

   Estes dois relatos, de músicos ímpares, cada um segundo o seu estilo, mas universalmente conhecidos e aplaudidos, fizeram-me pensar na solidão e na angústia de tantos que, não obstante a fama e o sucesso, vivem uma infinita solidão interior, quantas vezes conducentes ao limite de se privarem da própria vida. E pensava, ainda, que tal realidade é transversal a toda a sociedade, na qual tantos aparecem com a aura de homens e mulheres de sucesso e que, afinal, vivem vidas marcadas por uma imensa infelicidade e solidão! Ou ainda naquelas pessoas que, à nossa volta, aparentemente felizes e realizadas, vivem uma solidão semelhante! É que «nem tudo é o que parece», segundo o adágio popular! Que fazer, então? Como podemos contribuir para reverter tais situações? Não tenho dúvidas: todos nós necessitamos de sair, cada vez mais, de nós mesmos e criar uma maior proximidade com os outros; criar autênticos laços de afeto e de comunhão! Não numa proximidade invasiva, que desrespeite o direito à individualidade e à legítima privacidade – por vezes tão maltratada por quem se faz próximo, mas não é verdadeiramente amigo! -; mas uma proximidade afetiva, disponível, fiável, capaz de permitir a cada um, num momento de solidão, de angústia ou de profunda tristeza, a possibilidade de encontrar um ombro amigo, que sirva de apoio, e um coração disponível, capaz de ajudar a reencontrar caminhos! Necessitamos de maior comunhão, afeto e proximidade, refazendo as nossas relações humanas, sejam elas de amizade ou simplesmente sociais. Necessitamos de cuidar uns dos outros, na consciência de que ninguém – absolutamente ninguém! – é uma ilha isolada! Precisamos de escancarar, com sinceridade, as portas do nosso coração e as nossas mãos amigas para que o outro, sempre que sinta necessidade, se abeire de nós com confiança.

   A história daquele professor e a solidão de Clapton são uma espécie de grito, a interpelar-nos no sentido de construirmos um mundo mais fraterno, de mais afeto e de maior disponibilidade para com aqueles que estão ao nosso lado; que caminham nas nossas ruas, que vivem nos nossos prédios, ou que, inclusive, frequentam as nossas casas! Que nenhum de nós tenha de concluir, em circunstância alguma, como referia Cohen: «eu não sabia nada daquele homem», mesmo partilhando com esse homem algo de tão significativo para a sua vida. Cohen deixa-nos um lamento, que bem pode ser um gesto profético para os tempos que vivemos!

 
Pampilhosa, 17 de Novembro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(24ª Reflexão)

 

Superação!


SUPERAÇÃO
 

   Uma das riquezas da humanidade é a singularidade de cada um dos seus membros. Nenhum de nós se repete, pesem embora as semelhanças físicas que nos possam aproximar desta ou daquela pessoa. E, sendo assim do ponto de vista físico, tal singularidade determina-nos também do ponto de vista da personalidade. Cada um de nós é, efetivamente, uma riqueza singular, irrepetível, única!

   Existem, contudo, traços característicos que nos podem aproximar, tanto física como psiquicamente, a que a psicologia chama «biotipos»: os pícnicos, os atléticos e os leptossómicos, com características físicas e psíquicas determinadas. Mas, sem nos determos nestas classificações, concordaremos que, não raro, nos podemos agrupar nalguns tipos de temperamento, expressos no modo como entendemos e vivemos a nossa existência pessoal: alguns de nós mais otimistas; outros mais pessimistas; e outros, ainda, particularmente realistas. Certo é que, sejam quais forem as nossas características, todos temos um desejo comum: sermos felizes!

    Ora, tal desejo profundo, que engloba e orienta as nossas vidas, é particularmente condicionado por essas características pessoais: se para um otimista cada ocasião vivida é entendida como uma oportunidade, mesmo as mais difíceis e penosas; já para um pessimista muitas das suas vivências são entendidas como uma provação, marcadas pelo peso, pela inquietação e, não raro, pelo desânimo. Enquanto um realista, por seu turno, tende a olhar para os factos com alguma racionalidade e enfrentá-los nessa perspetiva racional, por vezes até mesmo com alguma frieza ou distanciamento emocional.

   Assim sendo, e na perspetiva da felicidade, nem todos partimos da mesma linha: se uns, pelas suas características pessoais, têm a corrida mais facilitada; outros necessitam de maior superação de si, para atingir as mesmas metas existenciais. Assim, a estes últimos exige-se-lhes essa capacidade maior de superação, enquanto esforço para ultrapassar as dificuldades ou perspetivas de vida, colhendo, então, o que esta de melhor tem para lhes oferecer.

   Certo é que não existem categorias perfeitas, pelo que todos necessitamos de nos superar permanentemente, relativizando o que a vida comporta de negativo, para nos deixarmos iluminar permanentemente pelo que esta nos oferece enquanto possibilidades. É, no fundo, a história do ponto negro na folha branca: quantas vezes nos debruçamos exclusivamente no ponto negro, que é mínimo no espaço de uma folha branca, e esquecemos a própria folha branca, com todas as possibilidades oferecidas à nossa criatividade de escrita. Assim é a nossa vida: quantas vezes nos centramos excessivamente nos nossos problemas e dificuldades, em vez de nos preocuparmos em reter da vida tudo quanto de bom ela nos oferece?!... Sabendo, contudo, que esta última atitude é que pressupõe a verdadeira sabedoria e é fonte de felicidade!

   Sempre admirei as pessoas que, sendo vítimas de problemas humanos graves, procuraram, ou procuram, o lado mais belo da existência! Por vezes com a consciência de uma vida curta, mas na opção de aproveitar o tempo que lhes é dado viver, mais do que lamentando aquele de que não poderão usufruir; privilegiando o que se tem, mais do que aquele que se poderia ter! Gestos e exemplos de um enorme significado humano e de uma imensa sabedoria!

   Com maiores ou menores dificuldades existenciais, todos nós temos de aprender a arte da superação, no sentido de nos recentrarmos permanentemente nas oportunidades da vida, oferecidas em cada dia, no intuito de colhermos o que de melhor nos é dado viver! Dependendo sempre do nosso olhar e da nossa capacidade de privilegiar o que nos constrói. Fazendo dessa vida uma realidade gozosa, que valha a pena ser vivida!

   Necessitamos, permanentemente, de colher os frutos belos da existência, para que o seu sabor nos dê o suave paladar da felicidade. Nas coisas maiores de cada dia, ou naquelas que nos parecem mais insignificantes!

   Se para uns é mais fácil tal percurso, enquanto para outros mais exigente, certo é que todos temos capacidade de aproveitar o tempo que nos é dado viver enquanto oportunidade de realização. É que, parafraseando Enéas, nenhum de nós quer apenas uma vida com final feliz, mas sim uma vida inteira preenchida pela felicidade!


Pampilhosa, 10 de Novembro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(23ª Reflexão)