quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Morte e Ressurreição!


 MORTE E RESSURREIÇÃO


   Acabámos de entrar na denominada hora de inverno, que privilegia a luz do amanhecer, em detrimento de um prolongamento maior da presença da luz na hora do anoitecer. De igual modo, este período do ano, até ao solstício de inverno, em dezembro, é ainda especialmente marcado por uma natural e progressiva ausência de luz, com o consequente aumento, mais prolongado, do tempo noturno. Um período do ano que nos remete para a sensação de trevas e de escuridão.

   Por outro lado, iniciámos o mês de novembro recordando os nossos entes queridos que, num tempo mais próximo ou mais distante, já partiram, cruzando o limiar da morte. Assim, também esta época, e especialmente este início de novembro, parece ser um tempo triste, na recordação da morte – recordação de quem partiu e consciência de que este limiar é transversal à história de todos nós. Esta memória é ainda igualmente vivida quando a própria natureza parece, também ela, querer adormecer nesse sono de morte, pois o inverno, que se aproxima, caracteriza-se precisamente pela ausência do vigor de outras estações e sua respetiva vitalidade!

   Morte, trevas e escuridão poderiam entender-se como uma espécie de caldo único a alimentar a nossa tristeza e desalento, num tempo revestido de tristeza e de uma espécie de finitude. É verdade que o tempo prefigura a nossa história humana e o inverno seria o tempo da velhice. Por contraste – como tantas vezes fazemos significar – com a primavera da vida, símbolo da juventude.

   Mas se este período do ano se reveste de alguns destes traços, desejados por uns e desagradáveis para outros, sabemos bem que cada estação prepara sempre aquela que se lhe segue! Assim, o inverno, com os seus rigores próprios, é essencial para que na primavera brote pujante a vida; para que tudo rejuvenesça e da terra brote abundante, luxuriante e vigorosa a natureza, num ciclo permanente de renovação.

   Também assim na nossa vida: na contagem do tempo, no acumular de estações e quando o inverno da existência se aproxima, a atitude não pode ser de tristeza e de solidão! A cada estação da vida, sucede outra estação; e após o inverno da existência abre-se-nos o vigor de uma nova primavera! Se na brevidade da vida contemplamos as múltiplas estações, o inverno não será a última, de uma finitude sem fim, de qualquer solidão ou tristeza! O inverno da existência é o tempo fecundo, das sementes adormecidas, que prepara uma nova pujança e uma outra existência que há-de brotar em todo o seu esplendor! E, então, como as estações do ano, que se entendem na sua inter-relação, também as estações da vida se compreendem à luz de uma permanente existência, mesmo tendo de se cruzar o umbral da morte! Sim, esse inverno existencial que nos abre à eterna primavera! Á vida! Que não se esgota numa fase da existência, mas se renova até à sua plenitude!

   Este tempo, com as suas características naturais, sociais e religiosas, tem a virtualidade de nos colocar face a face com uma das perguntas mais candente, que a todos habita: que sentido tem a vida? Qual o meu futuro?

   Para quem não perfilha a fé cristã, este pode ser um tempo oportuno para refletir a existência pessoal por comparação com a natureza e os seus ciclos, procurando descortinar neles um sentido para a vida! Para outros – que hoje tendem a viver um sincretismo religioso e de pensamento – a vida seria um eterno retorno, nos ciclos contínuos de purificação, até atingir a sua comunhão plena com o cosmos, num estado de graça e de paz absolutos. Todavia,  já sem qualquer identidade pessoal.

   Para mim, e para todos os que perfilham a fé cristã, o enigma das estações da vida foi descodificado por Aquele que se fez um de nós, que passou o limiar da morte e que agora vive ressuscitado! Aquele que permanentemente nos afirma: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em Mim, ainda que morra viverá. E quem vive e crê em Mim jamais morrerá» (Jo. 11, 25 – 26). Aquele de quem Paulo afirma que ressuscitou dos mortos como «primícias dos que adormeceram» (cf. 1Cor. 15, 20).

   Seja qual for a convicção de cada um, este é um tempo oportuno para respondermos honestamente às dúvidas que nos habitam, ou para aprofundarmos a consciência da esperança que nos anima. Um convite neste tempo de trevas aparentes, que, não obstante, traz no seu seio, como sementes, os raios esplendorosos duma incessante Luz!

Pampilhosa, 03 de Novembro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(22ª Reflexão)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Vida por Vida!


VIDA POR VIDA


   A Associação Humanitária dos Bombeiros da Pampilhosa está a celebrar, neste ano de 2016, o seu nonagésimo aniversário; assinalado, no passado dia 16 de Outubro, em cerimónia solene. São noventa anos de serviço abnegado às comunidades locais – à Pampilhosa, às demais comunidades concelhias e às necessidades de âmbito nacional, em cooperação com as demais Associações de Bombeiros.

   Para além desta efeméride, que me leva, uma vez mais, a felicitar a nossa corporação de Bombeiros, gostaria de sublinhar duas notas essenciais que definem e enquadram a ação da maior parte das Corporações de Bombeiros do nosso país: o seu lema e a sua condição de voluntários!

   O lema - «Vida por Vida» - expressa bem a natureza do seu serviço: uma entrega, de corpo e alma, na proteção das pessoas e dos seus bens. Se é certo que um lema traduz um ideal de vida, não é menos certo que os bombeiros – homens e mulheres abnegados – o realizam com profunda dedicação, quantas vezes pondo em risco as suas próprias vidas. Com frequência, na ânsia dessa salvaguarda, na proteção de pessoas e bens, o ideal torna-se mesmo realidade, levando a que algumas vidas se salvem, à custa do sacrifício de outras. Bastaria recordarmos o World Trade Center, aquando dos atentados de 2001, nos EUA: apesar da consciência do perigo, os bombeiros não hesitaram em avançar para a sua missão. Ficando, muitos deles, sob os escombros daqueles monstros de cimento e ferro!

   Mas o ideal «Vida por Vida» não deve entender-se como um sacrifício extremo de tal nível! Deverá providenciar-se, ao invés, que, na sua ação, os bombeiros vejam sempre salvaguardada a sua integridade pessoal. Daí a justa reclamação, de algumas corporações, no sentido de que lhes sejam garantidas condições materiais de trabalho.

   O ideal «Vida por Vida» vive-se cada dia, na capacidade permanente de abnegação, de inteira disponibilidade para qualquer emergência, na capacidade de deixar tudo por causa do bem do outro, em autêntica atitude de amor ao próximo! Sim: amor ao próximo! Seja aquele que o realiza crente ou não crente, perfilhe este ou aquele credo religioso, ou porventura nenhum, ou se reveja, ainda, em ideais distintos de qualquer compromisso religioso. É que o amor não tem fronteiras – religiosas, ideológicas ou institucionais. O amor realiza-se sempre que alguém serve o outro, com a sua total disponibilidade, de tal modo que o bem alheio se transforma no seu próprio bem e na sua alegria! Tal vivência traduz sempre o que há de mais nobre no coração e no agir humano. E os bombeiros, fiéis ao seu lema, realizam permanentemente gestos sublimes de amor, atendendo às necessidades dos seus concidadãos, particularmente em situações de fragilidade, debilidade ou de perigo. Volvidas as exigências do verão, receio que a ação dos bombeiros regresse a um certo alheamento das populações. Quando, na verdade, a sua ação – que é diária! – vai muito além do combate aos incêndios! Os nossos bombeiros merecem, pois, o reconhecimento contínuo das suas comunidades, não num permanente aplauso, que dispensam, mas no carinho que lhes é devido, no reconhecimento das ações nobres que realizam e no apoio que lhes possamos dar, ainda que com gestos simples de proximidade.

   Releve-se, por outro lado, que uma grande parte dos nossos bombeiros são efetivos voluntários! Entre gente mais jovem e menos jovem (felizmente que os jovens são uma presença evidente nas corporações, sinal que o ideal permanece e mobiliza!), muitos são os que compaginam esta disponibilidade com o seu trabalho profissional, a família e mesmo a convivência social, prontos a deixar tudo à chamada, para corresponder à missão que se lhes confia. Sinal ainda maior dessa vivência nobre de serviço aos outros, pois nada mais esperam em troca, senão o bem daqueles que são chamados a servir.

   Se os bombeiros são, em si e pela sua ação, merecedores do nosso reconhecimento; são, de igual modo, uma permanente interpelação à nossa consciência pessoal, comunitária e social, no sentido de cultivarmos, entre todos nós, o que na humanidade há de mais nobre – o cuidado de uns para com os outros. Numa sociedade que tende a acentuar o individualismo, o seu ideal e a sua vivência interpelam-nos a sairmos de nós mesmos e, em pequenos gestos, a vivermos o que há de mais autenticamente humano! Sabendo que o amor de uns para com os outros será sempre o ideal maior!

Pampilhosa, 27 de Outubro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(21ª Reflexão)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

A Vitalidade da Esperança!


A VITALIDADE DA ESPERANÇA


   Após o terrível incêndio que, em Agosto passado, lavrou por estas terras Bairradinas, e mesmo ainda antes da época das chuvas, deslocando-me, há dias, pela estrada nacional, em direção à Mealhada, constatava como, por entre as árvores queimadas e um chão de cinza, surgem já alguns tímidos sinais de verdura, prometendo uma nova vida àqueles espaços negros e tristes, onde o fogo tudo transformou em morte aparente. São os fetos que começam a brotar; os rebentos de eucalipto que despontam – não obstante a preocupação dos silvicultores, porque nocivos à reflorestação desejada; o despertar de matos e outras plantas endémicas, que começam a querer surgir!... Como que deixando adivinhar uma natureza vigorosa, capaz de se reinventar e de redimir um passado próximo de grande destruição.

   Ao passar por ali e ao reparar nestes indícios de nova vida, vinha-me à mente a perceção de que estes ténues sinais de recomposição são como que uma bela metáfora a iluminar algumas situações da nossa vida humana: confrontados, quantas vezes, com dramas pessoais ou familiares, de naturezas tão diversas, criamos a noção, por momentos, de que a vida desaba, desfazendo-se em negras cinzas, onde apenas resta a tristeza e a total desolação. Face ao fracasso, à angústia, à dor, ou, especialmente, à possibilidade da morte, a vida como que se desfaz num campo de cinzas, onde todo o vigor e pujança é substituído pela tristeza de uma paisagem escura e sem vida. Essa paisagem interior, espelhada num rosto fechado, de preocupação, de lágrimas, ou de angústia!...

   Se são mais que legítimos tais sentimentos, face às múltiplas formas de dor e à evidência dos limites humanos; também não é menos certo que, não raro, em tais circunstâncias, nos deixamos agrilhoar pelo momento presente, sem almejar um qualquer outro futuro. Identificando esse presente, inclusive, com a noção do tempo que pára; expressão tão comum para traduzir a nossa angústia, face aos acontecimentos que, aparentemente, imobilizam as nossas vidas. 

   Contudo, tal como na natureza, também a nossa vida se renova permanentemente. Por vezes, com sinais ténues de um novo despontar, num processo lento de renovação da alegria e da esperança, da confiança e da serenidade. Mas tudo se renova! E à distância, sem que as cicatrizes da dor se desfaçam, a vida ganha um novo sentido. Não é por acaso que a sabedoria popular afirma, de forma proverbial: «não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe», remetendo-nos para a permanente novidade – para o bem e para o mal, é certo! – que define a nossa existência humana.

    Com esta consciência, necessitamos, nas horas difíceis e de dor, de alargar o nosso olhar interior, na esperança de que um tempo futuro cure as feridas do momento presente. Como a nova vida, que brota da terra, a recompor o solo das cinzas, necessitamos, nessas horas de dor, de um futuro que ilumine o presente, na certeza de que nada permanece insanável e de que tudo permanentemente se refaz! Necessitamos, pois, de reconquistar horizontes de vida! Isto, exatamente: horizontes de vida! Marcados por rejuvenescimentos de esperança! Mesmo quando a vida nos trai e no horizonte se inscreve a morte!

   Para quem é crente, mesmo aqui, na morte - pese embora, como para os demais, se experimente a mesma dor da perda e da ausência de quem é querido - abre-se um horizonte infinito de esperança, um rejuvenescimento absoluto da vida, uma transfiguração da paisagem humana, em que do pó e da cinza, se ergue uma nova natureza, um ser radicalmente novo, transfigurado numa eterna primavera – o mistério da ressurreição! Não já uma renovação da vida, sem mais, mas a vida em plenitude, como se de uma eterna primavera se tratasse!

   A vida humana, jogada entre alegrias e dores, tem sempre no seu horizonte uma contínua esperança! Uma esperança que é sentido e alento! Uma esperança que urge reconquistar permanentemente! É que – como bem refere José Luís Nunes Martins - «cada esperança abre horizontes infinitos e possibilidades imprevistas»!

 

Pampilhosa, 20 de Outubro de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(20ª Reflexão)

Idosos!


                                        IDOSOS                                            

   Celebrámos, no passado dia um de outubro, o Dia Internacional do Idoso. Instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1991, este ano teve como lema: Tome uma posição contra o envelhecimento. Visando a «tomada de consciência das atitudes negativas e discriminatórias», que hoje se vivem, em razão da idade, e seu «consequente prejuízo nas pessoas idosas», pretendeu-se alertar, com esta celebração, para a consciência de que todas as pessoas de idade têm o direito de alcançar o seu pleno potencial, ao mesmo tempo que a sociedade cumpre a sua promessa de construir uma vida de dignidade e de respeito pelos direitos humanos de todos, segundo a declaração de Ban Ki-moon, Secretário-geral da ONU.

   Em Portugal, conforme as últimas estatísticas do INE, cerca de vinte por cento da população tem mais de sessenta e cinco anos. Numa tendência progressiva de acréscimo, atendendo à baixa natalidade que se regista entre nós. Aliás, Portugal é mesmo um dos países europeus com uma das taxas de natalidade mais baixa, como se pode averiguar dos dados relativos à União Europeia.

   Na abordagem do conceito de pessoa idosa e como consequência de uma maior longevidade, mencionamos hoje uma terceira e uma quarta idade, que claramente se distinguem entre si. Na terceira idade, concretamente no exercício de uma “segunda maternidade”, enquanto avós, muitos são os idosos que desempenham tarefas fundamentais para o equilíbrio familiar. Como bem refere o Documento preparatório do Sínodo dos Bispos de 2015, denominado: A Vocação e a Missão da Família na Igreja e no Mundo Contemporâneo, muitos avós «ocupam-se dos netos», educando-os e transmitindo-lhes, inclusive, o próprio dom da «fé». Garantindo ainda, quantas vezes de forma silenciosa e discreta, um «precioso apoio económico aos jovens casais» (nº 18).

   Contudo, um dos primeiros deveres que todos temos de assumir para com os idosos – na terceira ou quarta idade - é o do reconhecimento e do autêntico respeito. Melhor ainda: o dever de um reconhecimento amoroso e de um respeito reverencial. Sabendo que os idosos «constituem o elo de união entre as gerações, garantindo a transmissão de tradições e hábitos nos quais os mais jovens podem encontrar as próprias raízes» (nº 18). Assim é, de facto, nalgumas sociedades organizadas segundo modelos ancestrais, onde os idosos continuam a ser reconhecidos na sua sabedoria e vivência, merecendo por parte da comunidade o respeito e mesmo uma certa veneração. Entre nós, nas denominadas sociedades desenvolvidas, tendemos a perder este sentido humano do lugar devido ao idoso. Centrados na produtividade, na eficácia e numa conceção hedonista da vida, os idosos podem parecer socialmente dispensáveis ou, de alguma forma, limitadores dessa fruição livre e completa da vida, transformando-se num certo peso familiar e social. Como refere o Papa Francisco: «o número de idosos multiplicou-se, mas as nossas sociedades não se organizaram suficientemente para lhes deixar espaço, com o justo respeito e a concreta consideração pela sua fragilidade e dignidade» (nº 17). É certo que as condições de vida se alteraram, mormente as condições laborais e familiares. Contudo, mesmo em novos contextos, é nosso dever cuidar zelosamente dos nossos idosos! Proporcionando-lhes novas oportunidades de criatividade, de aprofundamento de conhecimentos e de uma vivência jubilosa deste momento da sua vida e da sua história. Infelizmente, entre nós, um dos principais problemas dos idosos continua a ser o isolamento e a solidão, à semelhança de outros países, associados, quantas vezes, à pobreza e à desnutrição, fruto dos seus parcos rendimentos e reformas! Uma interpelação pessoal, a cada um singularmente e a todos, enquanto sociedade.

   Necessitamos de redescobrir a dignidade da pessoa idosa e de a revalorizar: em contexto familiar, institucional e comunitário; com um novo enquadramento mental e social. A interação entre gerações, particularmente entre os mais novos e os mais velhos, bem pode desempenhar aqui o papel pedagógico relativamente a este desiderato. Relembrando aquele princípio de Jean-Jacques Rosseau: «A juventude é a época de se estudar a sabedoria; a velhice é a época de a praticar»!

 

Pampilhosa, 13 de Outubro de 2016
Pe. Carlos Alberto Godinho
(19ª Reflexão)

 

 

 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Só o amor cura!


SÓ O AMOR CURA  
                                
   Passando recentemente pelo Brasil, ao serviço da Pastoral do Turismo, tive a oportunidade de visitar e conhecer a «Fazenda da Esperança». Uma comunidade terapêutica destinada a recuperar jovens toxicodependentes, que nasceu da iniciativa do, então, jovem Nelson Rosendo dos Santos e do total apoio do seu pároco, frei Hans Stapel, franciscano alemão, a quem pudemos escutar na visita. A recuperação, nesta comunidade, assenta em três pilares metodológicos fundamentais: espiritualidade, convivência e trabalho. Nascida em Guaratinguetá, Estado de São Paulo, nos inícios da década de oitenta, esta primeira comunidade deu origem a muitas outras Fazendas, masculinas e femininas, no Brasil e em dezasseis outros países, incluindo Portugal, pois temos uma Fazenda em Maçal do Chão, concelho de Celorico da Beira.

   Se a espiritualidade é um pilar fundamental para a recuperação, com a reflexão da Palavra diária, a convivência é pautada por pequenos gestos de amor quotidianos, capazes de recuperar estes jovens, fazendo deles novos homens e novas mulheres.

   Num breve momento, em que passeava sozinho por algumas das ruas da Fazenda, refletia, uma vez mais: basta amar, pois só o amor cura! E percebi novamente que o amor é o único que liberta e nos refaz; o único que nos dignifica e nos constrói. Como esquecer o abraço profundo e sincero daquele jovem, em recuperação, que nos atendeu no serviço de bar? Ou o daquele outro com quem conversei, por alguns momentos, numa das ruas da Fazenda? O afeto partilhado é fruto do afeto recebido, pois quem é amado tende a amar. Verdadeiramente, uma aprendizagem para mim, levando-me à conclusão íntima, uma vez mais, e que reafirmo agora, na partilha convosco: basta amar, pois só o amor cura! E cura-nos a todos, de tantas limitações humanas. Não apenas a estes, em situação de dependência química; mas a tantos outros – a cada um de nós – nas situações tão diversas da existência humana! O amor é a chave fundamental para o crescimento humano – pessoal e comunitário! Reaprendi – pois a vida é sempre uma reaprendizagem contínua - que mais do que o afastamento ou a marginalização, necessitamos de ir ao encontro do outro ou dos outros, sem pretensões, simplesmente de coração aberto para acolher, para escutar, para amar. Só então, partindo daqui, podemos contribuir para a ajuda ao outro, seja a que nível for. Muitas vezes numa caminhada conjunta, em que ambas as partes se enriquecem na procura de uma nova humanização.

   Quando nas nossas comunidades tendemos a marginalizar, ou mesmo – no extremo – a ostracizar pessoas ou grupos, talvez devamos reaprender esta lógica: que a marginalização degrada pessoal, social e espiritualmente aqueles que afastamos de nós; ao passo que o amor regenera e reconstrói em todos essas dimensões da vida humana.

   Imerso numa experiência real de amor, como a daquela comunidade terapêutica, compreendi melhor a expressão de Madre Teresa de Calcutá: «o importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá»!

   Nas nossas comunidades - sejam elas civis, religiosas, laborais, de amigos; em suma: humanas – necessitamos de renovar o amor! Para que a ninguém falte este dom que nos constrói! Conscientes de que – como referia ainda Madre Teresa - «a falta de amor é a maior de todas as pobrezas».

Pampilhosa, 06 de Outubro de 2016
Pe. Carlos Alberto Godinho
(18ª Reflexão)

 

 

Só o amor cura!


                                                    SÓ O AMOR CURA  
                                
   Passando recentemente pelo Brasil, ao serviço da Pastoral do Turismo, tive a oportunidade de visitar e conhecer a «Fazenda da Esperança». Uma comunidade terapêutica destinada a recuperar jovens toxicodependentes, que nasceu da iniciativa do, então, jovem Nelson Rosendo dos Santos e do total apoio do seu pároco, frei Hans Stapel, franciscano alemão, a quem pudemos escutar na visita. A recuperação, nesta comunidade, assenta em três pilares metodológicos fundamentais: espiritualidade, convivência e trabalho. Nascida em Guaratinguetá, Estado de São Paulo, nos inícios da década de oitenta, esta primeira comunidade deu origem a muitas outras Fazendas, masculinas e femininas, no Brasil e em dezasseis outros países, incluindo Portugal, pois temos uma Fazenda em Maçal do Chão, concelho de Celorico da Beira.

   Se a espiritualidade é um pilar fundamental para a recuperação, com a reflexão da Palavra diária, a convivência é pautada por pequenos gestos de amor quotidianos, capazes de recuperar estes jovens, fazendo deles novos homens e novas mulheres.

   Num breve momento, em que passeava sozinho por algumas das ruas da Fazenda, refletia, uma vez mais: basta amar, pois só o amor cura! E percebi novamente que o amor é o único que liberta e nos refaz; o único que nos dignifica e nos constrói. Como esquecer o abraço profundo e sincero daquele jovem, em recuperação, que nos atendeu no serviço de bar? Ou o daquele outro com quem conversei, por alguns momentos, numa das ruas da Fazenda? O afeto partilhado é fruto do afeto recebido, pois quem é amado tende a amar. Verdadeiramente, uma aprendizagem para mim, levando-me à conclusão íntima, uma vez mais, e que reafirmo agora, na partilha convosco: basta amar, pois só o amor cura! E cura-nos a todos, de tantas limitações humanas. Não apenas a estes, em situação de dependência química; mas a tantos outros – a cada um de nós – nas situações tão diversas da existência humana! O amor é a chave fundamental para o crescimento humano – pessoal e comunitário! Reaprendi – pois a vida é sempre uma reaprendizagem contínua - que mais do que o afastamento ou a marginalização, necessitamos de ir ao encontro do outro ou dos outros, sem pretensões, simplesmente de coração aberto para acolher, para escutar, para amar. Só então, partindo daqui, podemos contribuir para a ajuda ao outro, seja a que nível for. Muitas vezes numa caminhada conjunta, em que ambas as partes se enriquecem na procura de uma nova humanização.

   Quando nas nossas comunidades tendemos a marginalizar, ou mesmo – no extremo – a ostracizar pessoas ou grupos, talvez devamos reaprender esta lógica: que a marginalização degrada pessoal, social e espiritualmente aqueles que afastamos de nós; ao passo que o amor regenera e reconstrói em todos essas dimensões da vida humana.

   Imerso numa experiência real de amor, como a daquela comunidade terapêutica, compreendi melhor a expressão de Madre Teresa de Calcutá: «o importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá»!

   Nas nossas comunidades - sejam elas civis, religiosas, laborais, de amigos; em suma: humanas – necessitamos de renovar o amor! Para que a ninguém falte este dom que nos constrói! Conscientes de que – como referia ainda Madre Teresa - «a falta de amor é a maior de todas as pobrezas».

Pampilhosa, 06 de Outubro de 2016
Pe. Carlos Alberto Godinho
(18ª Reflexão)

 

 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Turismo acessível a todos!


TURISMO ACESSÍVEL A TODOS

   O Dia Mundial do Turismo, celebrado no passado dia 27, convida-nos a viver o princípio definido pela Organização Mundial de Turismo (OMT): Turismo para todos: promover a acessibilidade universal. Tendo em consideração o tema proposto pela OMT e pelo Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, organismo da Igreja Católica, que se associa, desde início, a este dia, na qualidade de diretor do organismo de Pastoral do Turismo, em Portugal, escrevi a nota nacional que fiz assentar em dois pilares fundamentais, para que o turismo seja realmente acessível a todos: o desenvolvimento do denominado "turismo social" e a criação de condições de mobilidade para todos aqueles que estão limitados nessa mobilidade por qualquer forma de deficiência. Se para estes últimos a permanente preocupação será a de promover um turismo integrador, que resulte, desde logo, na criação de condições de acesso aos diversos locais de interesse turístico, com a implementação de rampas, ou ainda à instalação de dispositivos que respondam às diversas formas de limitação, em linha, de resto, com muita da legislação portuguesa já em vigor; já para os primeiros a realidade é mais complexa. Vivemos, em Portugal, num contexto socioeconómico desfavorável a muitos. Com um cômputo geral de cidadãos nacionais que se encontram em pobreza ou em vias de pobreza, a cifrar-se nos dois milhões, sendo que um em cada cinco portugueses vive numa realidade socioeconómica deficitária. Sendo assim, podemos perguntar-nos: será o turismo uma prioridade, quando existem tantas outras carências humanas básicas não satisfeitas? Diremos que sim! Não sendo o turismo, é certo, uma prioridade na satisfação dessas necessidades básicas, é todavia um direito que assiste a todos, independente das suas condições económicas! Assim o defende o Código Mundial de Ética do Turismo, ao afirmar: «o turismo constitui um direito aberto do mesmo modo a todos os habitantes do mundo e nenhum obstáculo dever ser interposto no seu caminho» (Art. 7ª, nº 1).

   É que o turismo não contempla apenas a realidade do lazer, enquanto repouso, que já de si é um direito de todos; mas é igualmente fonte de conhecimento de outros povos e culturas; promotor da paz e do diálogo entre pessoas e comunidades; autêntica possibilidade de crescimento pessoal, na formação cultural, humana, cívica e espiritual. Um meio inequívoco de formação e de educação.

    Para que estes benefícios, próprios do turismo, sejam acessíveis a todos, e particularmente aos mais desfavorecidos economicamente, exige-se hoje um maior compromisso social das entidades públicas e privadas, com autênticas responsabilidades na promoção das pessoas e comunidades que servem ou onde se inserem. Mas exige igualmente um sentido profundo de partilha e de solidariedade entre membros de uma mesma comunidade, permitindo que a partilha de uns se transforme no bem de outros. O denominado «turismo social» resulta desta congregação de vontades, envolvendo a todos. Múltiplas são as suas formas de realização: desde as colónias de férias para crianças e jovens; a viagens organizadas nas comunidades, acessíveis a quem tem menores rendimentos, ou mesmo gratuitas, como acontece já com algumas das nossas entidades municipais, com passeios definidos para determinadas faixas etárias; até às parcerias com instituições orientadas para este tipo de turismo; entre tantas outras possibilidades, no compromisso público ou privado. 

   A Organização Mundial de Turismo deixa-nos, este ano, um forte desafio no sentido de esbatermos desigualdades, infelizmente tão desniveladoras da realidade social. A bem de um princípio de direito, de integração e de partilha. Um turismo acessível a todos deve ajudar-nos a reconhecer a dignidade de tantos que habitualmente vivem em situações de precariedade, como que à margem desses direitos que lhes deveriam ser assegurados. O compromisso da partilha e da solidariedade, também no turismo, pode levar-nos a garantir a muitos as condições de justiça e equidade que a realidade quotidiana não lhes garante. Necessitamos também, nesta atividade humana, de promover uma acessibilidade universal. A bem da justiça, da equidade e do respeito pela dignidade de cada pessoa.

Pampilhosa, 29 de Setembro de 2016
Pe. Carlos Alberto Godinho
(17ª Reflexão)