terça-feira, 25 de outubro de 2016

Idosos!


                                        IDOSOS                                            

   Celebrámos, no passado dia um de outubro, o Dia Internacional do Idoso. Instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1991, este ano teve como lema: Tome uma posição contra o envelhecimento. Visando a «tomada de consciência das atitudes negativas e discriminatórias», que hoje se vivem, em razão da idade, e seu «consequente prejuízo nas pessoas idosas», pretendeu-se alertar, com esta celebração, para a consciência de que todas as pessoas de idade têm o direito de alcançar o seu pleno potencial, ao mesmo tempo que a sociedade cumpre a sua promessa de construir uma vida de dignidade e de respeito pelos direitos humanos de todos, segundo a declaração de Ban Ki-moon, Secretário-geral da ONU.

   Em Portugal, conforme as últimas estatísticas do INE, cerca de vinte por cento da população tem mais de sessenta e cinco anos. Numa tendência progressiva de acréscimo, atendendo à baixa natalidade que se regista entre nós. Aliás, Portugal é mesmo um dos países europeus com uma das taxas de natalidade mais baixa, como se pode averiguar dos dados relativos à União Europeia.

   Na abordagem do conceito de pessoa idosa e como consequência de uma maior longevidade, mencionamos hoje uma terceira e uma quarta idade, que claramente se distinguem entre si. Na terceira idade, concretamente no exercício de uma “segunda maternidade”, enquanto avós, muitos são os idosos que desempenham tarefas fundamentais para o equilíbrio familiar. Como bem refere o Documento preparatório do Sínodo dos Bispos de 2015, denominado: A Vocação e a Missão da Família na Igreja e no Mundo Contemporâneo, muitos avós «ocupam-se dos netos», educando-os e transmitindo-lhes, inclusive, o próprio dom da «fé». Garantindo ainda, quantas vezes de forma silenciosa e discreta, um «precioso apoio económico aos jovens casais» (nº 18).

   Contudo, um dos primeiros deveres que todos temos de assumir para com os idosos – na terceira ou quarta idade - é o do reconhecimento e do autêntico respeito. Melhor ainda: o dever de um reconhecimento amoroso e de um respeito reverencial. Sabendo que os idosos «constituem o elo de união entre as gerações, garantindo a transmissão de tradições e hábitos nos quais os mais jovens podem encontrar as próprias raízes» (nº 18). Assim é, de facto, nalgumas sociedades organizadas segundo modelos ancestrais, onde os idosos continuam a ser reconhecidos na sua sabedoria e vivência, merecendo por parte da comunidade o respeito e mesmo uma certa veneração. Entre nós, nas denominadas sociedades desenvolvidas, tendemos a perder este sentido humano do lugar devido ao idoso. Centrados na produtividade, na eficácia e numa conceção hedonista da vida, os idosos podem parecer socialmente dispensáveis ou, de alguma forma, limitadores dessa fruição livre e completa da vida, transformando-se num certo peso familiar e social. Como refere o Papa Francisco: «o número de idosos multiplicou-se, mas as nossas sociedades não se organizaram suficientemente para lhes deixar espaço, com o justo respeito e a concreta consideração pela sua fragilidade e dignidade» (nº 17). É certo que as condições de vida se alteraram, mormente as condições laborais e familiares. Contudo, mesmo em novos contextos, é nosso dever cuidar zelosamente dos nossos idosos! Proporcionando-lhes novas oportunidades de criatividade, de aprofundamento de conhecimentos e de uma vivência jubilosa deste momento da sua vida e da sua história. Infelizmente, entre nós, um dos principais problemas dos idosos continua a ser o isolamento e a solidão, à semelhança de outros países, associados, quantas vezes, à pobreza e à desnutrição, fruto dos seus parcos rendimentos e reformas! Uma interpelação pessoal, a cada um singularmente e a todos, enquanto sociedade.

   Necessitamos de redescobrir a dignidade da pessoa idosa e de a revalorizar: em contexto familiar, institucional e comunitário; com um novo enquadramento mental e social. A interação entre gerações, particularmente entre os mais novos e os mais velhos, bem pode desempenhar aqui o papel pedagógico relativamente a este desiderato. Relembrando aquele princípio de Jean-Jacques Rosseau: «A juventude é a época de se estudar a sabedoria; a velhice é a época de a praticar»!

 

Pampilhosa, 13 de Outubro de 2016
Pe. Carlos Alberto Godinho
(19ª Reflexão)

 

 

 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Só o amor cura!


SÓ O AMOR CURA  
                                
   Passando recentemente pelo Brasil, ao serviço da Pastoral do Turismo, tive a oportunidade de visitar e conhecer a «Fazenda da Esperança». Uma comunidade terapêutica destinada a recuperar jovens toxicodependentes, que nasceu da iniciativa do, então, jovem Nelson Rosendo dos Santos e do total apoio do seu pároco, frei Hans Stapel, franciscano alemão, a quem pudemos escutar na visita. A recuperação, nesta comunidade, assenta em três pilares metodológicos fundamentais: espiritualidade, convivência e trabalho. Nascida em Guaratinguetá, Estado de São Paulo, nos inícios da década de oitenta, esta primeira comunidade deu origem a muitas outras Fazendas, masculinas e femininas, no Brasil e em dezasseis outros países, incluindo Portugal, pois temos uma Fazenda em Maçal do Chão, concelho de Celorico da Beira.

   Se a espiritualidade é um pilar fundamental para a recuperação, com a reflexão da Palavra diária, a convivência é pautada por pequenos gestos de amor quotidianos, capazes de recuperar estes jovens, fazendo deles novos homens e novas mulheres.

   Num breve momento, em que passeava sozinho por algumas das ruas da Fazenda, refletia, uma vez mais: basta amar, pois só o amor cura! E percebi novamente que o amor é o único que liberta e nos refaz; o único que nos dignifica e nos constrói. Como esquecer o abraço profundo e sincero daquele jovem, em recuperação, que nos atendeu no serviço de bar? Ou o daquele outro com quem conversei, por alguns momentos, numa das ruas da Fazenda? O afeto partilhado é fruto do afeto recebido, pois quem é amado tende a amar. Verdadeiramente, uma aprendizagem para mim, levando-me à conclusão íntima, uma vez mais, e que reafirmo agora, na partilha convosco: basta amar, pois só o amor cura! E cura-nos a todos, de tantas limitações humanas. Não apenas a estes, em situação de dependência química; mas a tantos outros – a cada um de nós – nas situações tão diversas da existência humana! O amor é a chave fundamental para o crescimento humano – pessoal e comunitário! Reaprendi – pois a vida é sempre uma reaprendizagem contínua - que mais do que o afastamento ou a marginalização, necessitamos de ir ao encontro do outro ou dos outros, sem pretensões, simplesmente de coração aberto para acolher, para escutar, para amar. Só então, partindo daqui, podemos contribuir para a ajuda ao outro, seja a que nível for. Muitas vezes numa caminhada conjunta, em que ambas as partes se enriquecem na procura de uma nova humanização.

   Quando nas nossas comunidades tendemos a marginalizar, ou mesmo – no extremo – a ostracizar pessoas ou grupos, talvez devamos reaprender esta lógica: que a marginalização degrada pessoal, social e espiritualmente aqueles que afastamos de nós; ao passo que o amor regenera e reconstrói em todos essas dimensões da vida humana.

   Imerso numa experiência real de amor, como a daquela comunidade terapêutica, compreendi melhor a expressão de Madre Teresa de Calcutá: «o importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá»!

   Nas nossas comunidades - sejam elas civis, religiosas, laborais, de amigos; em suma: humanas – necessitamos de renovar o amor! Para que a ninguém falte este dom que nos constrói! Conscientes de que – como referia ainda Madre Teresa - «a falta de amor é a maior de todas as pobrezas».

Pampilhosa, 06 de Outubro de 2016
Pe. Carlos Alberto Godinho
(18ª Reflexão)

 

 

Só o amor cura!


                                                    SÓ O AMOR CURA  
                                
   Passando recentemente pelo Brasil, ao serviço da Pastoral do Turismo, tive a oportunidade de visitar e conhecer a «Fazenda da Esperança». Uma comunidade terapêutica destinada a recuperar jovens toxicodependentes, que nasceu da iniciativa do, então, jovem Nelson Rosendo dos Santos e do total apoio do seu pároco, frei Hans Stapel, franciscano alemão, a quem pudemos escutar na visita. A recuperação, nesta comunidade, assenta em três pilares metodológicos fundamentais: espiritualidade, convivência e trabalho. Nascida em Guaratinguetá, Estado de São Paulo, nos inícios da década de oitenta, esta primeira comunidade deu origem a muitas outras Fazendas, masculinas e femininas, no Brasil e em dezasseis outros países, incluindo Portugal, pois temos uma Fazenda em Maçal do Chão, concelho de Celorico da Beira.

   Se a espiritualidade é um pilar fundamental para a recuperação, com a reflexão da Palavra diária, a convivência é pautada por pequenos gestos de amor quotidianos, capazes de recuperar estes jovens, fazendo deles novos homens e novas mulheres.

   Num breve momento, em que passeava sozinho por algumas das ruas da Fazenda, refletia, uma vez mais: basta amar, pois só o amor cura! E percebi novamente que o amor é o único que liberta e nos refaz; o único que nos dignifica e nos constrói. Como esquecer o abraço profundo e sincero daquele jovem, em recuperação, que nos atendeu no serviço de bar? Ou o daquele outro com quem conversei, por alguns momentos, numa das ruas da Fazenda? O afeto partilhado é fruto do afeto recebido, pois quem é amado tende a amar. Verdadeiramente, uma aprendizagem para mim, levando-me à conclusão íntima, uma vez mais, e que reafirmo agora, na partilha convosco: basta amar, pois só o amor cura! E cura-nos a todos, de tantas limitações humanas. Não apenas a estes, em situação de dependência química; mas a tantos outros – a cada um de nós – nas situações tão diversas da existência humana! O amor é a chave fundamental para o crescimento humano – pessoal e comunitário! Reaprendi – pois a vida é sempre uma reaprendizagem contínua - que mais do que o afastamento ou a marginalização, necessitamos de ir ao encontro do outro ou dos outros, sem pretensões, simplesmente de coração aberto para acolher, para escutar, para amar. Só então, partindo daqui, podemos contribuir para a ajuda ao outro, seja a que nível for. Muitas vezes numa caminhada conjunta, em que ambas as partes se enriquecem na procura de uma nova humanização.

   Quando nas nossas comunidades tendemos a marginalizar, ou mesmo – no extremo – a ostracizar pessoas ou grupos, talvez devamos reaprender esta lógica: que a marginalização degrada pessoal, social e espiritualmente aqueles que afastamos de nós; ao passo que o amor regenera e reconstrói em todos essas dimensões da vida humana.

   Imerso numa experiência real de amor, como a daquela comunidade terapêutica, compreendi melhor a expressão de Madre Teresa de Calcutá: «o importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá»!

   Nas nossas comunidades - sejam elas civis, religiosas, laborais, de amigos; em suma: humanas – necessitamos de renovar o amor! Para que a ninguém falte este dom que nos constrói! Conscientes de que – como referia ainda Madre Teresa - «a falta de amor é a maior de todas as pobrezas».

Pampilhosa, 06 de Outubro de 2016
Pe. Carlos Alberto Godinho
(18ª Reflexão)

 

 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Turismo acessível a todos!


TURISMO ACESSÍVEL A TODOS

   O Dia Mundial do Turismo, celebrado no passado dia 27, convida-nos a viver o princípio definido pela Organização Mundial de Turismo (OMT): Turismo para todos: promover a acessibilidade universal. Tendo em consideração o tema proposto pela OMT e pelo Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, organismo da Igreja Católica, que se associa, desde início, a este dia, na qualidade de diretor do organismo de Pastoral do Turismo, em Portugal, escrevi a nota nacional que fiz assentar em dois pilares fundamentais, para que o turismo seja realmente acessível a todos: o desenvolvimento do denominado "turismo social" e a criação de condições de mobilidade para todos aqueles que estão limitados nessa mobilidade por qualquer forma de deficiência. Se para estes últimos a permanente preocupação será a de promover um turismo integrador, que resulte, desde logo, na criação de condições de acesso aos diversos locais de interesse turístico, com a implementação de rampas, ou ainda à instalação de dispositivos que respondam às diversas formas de limitação, em linha, de resto, com muita da legislação portuguesa já em vigor; já para os primeiros a realidade é mais complexa. Vivemos, em Portugal, num contexto socioeconómico desfavorável a muitos. Com um cômputo geral de cidadãos nacionais que se encontram em pobreza ou em vias de pobreza, a cifrar-se nos dois milhões, sendo que um em cada cinco portugueses vive numa realidade socioeconómica deficitária. Sendo assim, podemos perguntar-nos: será o turismo uma prioridade, quando existem tantas outras carências humanas básicas não satisfeitas? Diremos que sim! Não sendo o turismo, é certo, uma prioridade na satisfação dessas necessidades básicas, é todavia um direito que assiste a todos, independente das suas condições económicas! Assim o defende o Código Mundial de Ética do Turismo, ao afirmar: «o turismo constitui um direito aberto do mesmo modo a todos os habitantes do mundo e nenhum obstáculo dever ser interposto no seu caminho» (Art. 7ª, nº 1).

   É que o turismo não contempla apenas a realidade do lazer, enquanto repouso, que já de si é um direito de todos; mas é igualmente fonte de conhecimento de outros povos e culturas; promotor da paz e do diálogo entre pessoas e comunidades; autêntica possibilidade de crescimento pessoal, na formação cultural, humana, cívica e espiritual. Um meio inequívoco de formação e de educação.

    Para que estes benefícios, próprios do turismo, sejam acessíveis a todos, e particularmente aos mais desfavorecidos economicamente, exige-se hoje um maior compromisso social das entidades públicas e privadas, com autênticas responsabilidades na promoção das pessoas e comunidades que servem ou onde se inserem. Mas exige igualmente um sentido profundo de partilha e de solidariedade entre membros de uma mesma comunidade, permitindo que a partilha de uns se transforme no bem de outros. O denominado «turismo social» resulta desta congregação de vontades, envolvendo a todos. Múltiplas são as suas formas de realização: desde as colónias de férias para crianças e jovens; a viagens organizadas nas comunidades, acessíveis a quem tem menores rendimentos, ou mesmo gratuitas, como acontece já com algumas das nossas entidades municipais, com passeios definidos para determinadas faixas etárias; até às parcerias com instituições orientadas para este tipo de turismo; entre tantas outras possibilidades, no compromisso público ou privado. 

   A Organização Mundial de Turismo deixa-nos, este ano, um forte desafio no sentido de esbatermos desigualdades, infelizmente tão desniveladoras da realidade social. A bem de um princípio de direito, de integração e de partilha. Um turismo acessível a todos deve ajudar-nos a reconhecer a dignidade de tantos que habitualmente vivem em situações de precariedade, como que à margem desses direitos que lhes deveriam ser assegurados. O compromisso da partilha e da solidariedade, também no turismo, pode levar-nos a garantir a muitos as condições de justiça e equidade que a realidade quotidiana não lhes garante. Necessitamos também, nesta atividade humana, de promover uma acessibilidade universal. A bem da justiça, da equidade e do respeito pela dignidade de cada pessoa.

Pampilhosa, 29 de Setembro de 2016
Pe. Carlos Alberto Godinho
(17ª Reflexão)

 

 

Preservar a Memória!


PRESERVAR A MEMÓRIA

   Uma das características das sociedades humanas é a sua permanente evolução. A vida é um devir constante, não apenas na novidade dos dias, mas igualmente na capacidade de desenvolvimento humano, tecnológico e mental, integrando aquilo que denominamos como desenvolvimento cultural. Entendendo-se a cultura como «tudo aquilo com que o homem apura e desenvolve os variados dotes do corpo e do espírito, com que procura submeter o universo ao seu poder, pelo conhecimento e pelo trabalho; torna mais humana a vida social, tanto na família, como em toda a comunidade civil, mediante o progresso dos costumes e instituições; e, finalmente, no decurso dos tempos, exprime, comunica e conserva, nas suas obras, as grandes experiências espirituais e aspirações, para que sirvam ao progresso de muitos, e até de todo o género humano» (GS. 53).

   No presente esta evolução, particularmente tecnológica, fruto das novas capacidades científicas, com consequências inevitáveis na vida social, transformou-se numa realidade vertiginosa. Evoluímos mais, em termos de conhecimento, nas últimas quatro décadas, do que em vários séculos passados. Com consequências positivas para o desempenho de várias funções; com benefícios para a vida humana, particularmente no que respeita à saúde e longevidade; mas também com algumas consequências negativas, particularmente refletidas no mundo do trabalho, onde os recursos humanos são cada vez menos necessários, provocando instabilidade social, particularmente devido ao desemprego. Certo é que esta transformação é inevitável, correspondendo à permanente arte criadora do ser humano.

   Não obstante esta evolução, não existem cortes entre tempos e modos de realizar determinadas tarefas. Existe, sim, uma espécie de linearidade que permite compreender os factos, os acontecimentos e suas evoluções inscritos no tempo longo, ou na «longa duração», para usar um conceito histórico.

   Ora é esta compreensão histórica que urge preservar como memória. A memória, que significa a conservação da experiência anterior, trazendo-a de novo à memor (palavra que significa «aquele que recorda» e que é raiz de memória) significa reter na consciência coletiva as técnicas, costumes, hábitos, modos de agir e de pensar de outros tempos, no sentido de preservarmos essa continuidade histórica, que nos serve como fonte de permanente recriação e como suporte para a compreensão do que somos e de que como agimos no presente. No fundo uma anamnese (recordação) que nos permita saber de onde provimos, para definirmos os caminhos que pretendemos construir permanentemente. Por outro lado, ainda, com a memória preservamos essa parte da cultura, anteriormente referida: na capacidade de exprimir, comunicar e conservar as grandes obras, experiências e aspirações humanas, que serviram para a compreensão do progresso hoje alcançado (cf. GS. 53).

   No presente opõem-se duas atitudes face à preservação da memória: por um lado, a incrível perda de memória, que limita a nossa autoconsciência, identidade e equilíbrio no processo evolutivo; e, por outro, a fixação na memória, quase como um anacronismo, pretendendo que o presente seja uma replicação do passado, impedindo o natural curso da história. Que muitas vezes mais não é senão a nostalgia do que já não existe.

   Ora, preservar a memória é um dever e uma necessidade de cada sociedade. Pois perdê-la é perder a sua identidade. Nesse sentido, o recurso a registos, sejam eles escritos, gravados em áudio ou em vídeo, a fotografias, a manuscritos, a recolhas testemunhais, a representações etnográficas, etc., são formas de preservar localmente essa memória. Várias são as instituições que têm este mérito, de preservar a memória coletiva, realizando um autêntico serviço público. Recordo instituições como o GEDEPA, na Pampilhosa, mas igualmente os múltiplos grupos de folclore, que assentam as suas danças em tradições ancestrais, trazendo ao presente o que fomos no passado. Não obstante, necessitarmos de agilizar outros recursos, mesmo mais institucionalizados, como museus e repositórios locais que atestem essa mesma memória. Um dever cultural das instituições públicas e mesmo de algumas instituições e empresas privadas.

   É inevitável a permanente mudança! Mas nunca podemos esquecer de onde provimos e para onde caminhamos, deixando que a memória desempenhe aqui uma função que lhe é tão meritória!
 
Pampilhosa, 22 de Setembro de 2016
Pe. Carlos Alberto Godinho
(16ª Reflexão)

 

Tempo das colheitas!


TEMPO DAS COLHEITAS

    O mês de Setembro coincide com a época das colheitas! Este ano em menor quantidade, dizem os agricultores, como que a fazer jus ao ano bissexto em que nos encontramos. É certo que são menos os que dependem hoje exclusivamente do trabalho agrícola, pois entre nós continua a persistir uma agricultura de subsistência, assente no minifúndio. Não obstante, muitos são os que trabalham pequenas leiras de terra, recolhendo alguns dos seus frutos, que contribuem como boa ajuda para a subsistência familiar.

   Mas o tempo das colheitas detém uma carga simbólica, que o tempo foi esbatendo. Era neste período que os arrendatários - nos séculos passados denominados como foreiros ou enfiteutas - pagavam as rendas aos seus senhores, proprietários de largas parcelas de terra, pois na sua maioria estas eram agricultadas, assegurando a base da subsistência das populações e da economia da época. Dividiam-se as parcelas dos cereais nas eiras e cada um recolhia a parte que lhe pertencia; acrescendo ao foreiro a obrigação de entregar, ao seu senhor, parte de outros produtos, bem como o dízimo, que nem sempre pertencia à Igreja. Este sistema cessou nos finais do século XVIII, dando lugar a uma nova conceção do domínio da terra, muito mais democratizado. Pese embora nalguns espaços persistisse uma forma próxima dessas rendas antigas até períodos relativamente próximos de nós. Com o aprofundamento dos avanços tecnológicos, a beneficiar as grandes explorações agrícolas, e com as migrações internas das aldeias para as vilas e cidades, particularmente na segunda metade do século XX, as terras foram ficando cada vez mais sujeitas ao abandono. Muitas delas dando lugar a matos e a pinheiros. Hoje, muitas dessas terras, entre nós, foram invadidas pela monocultura do eucalipto, espécie florestal de crescimento rápido - não obstante a sua ação nociva para os solos, particularmente no que se refere ao equilíbrio dos lençóis freáticos -, como meio de rendimento igualmente rápido. Certo é que esta nova conceção da terra e da sua exploração se tem manifestado como lesiva para o bem-estar das populações, para o equilíbrio ecológico e mesmo para a biodiversidade que é uma riqueza a múltiplos níveis. Os recentes incêndios que assolaram o país, e que tanto nos perturbaram também a nós, vieram colocar-nos a questão do domínio da terra e das formas de exploração que devem ser permitidas. Não obstante a permanência da posse da terra na pessoa dos seus titulares, há hoje quem defenda uma nova intervenção dos municípios e uma dependência dos titulares face às suas orientações. Mais: há mesmo quem defenda, face à incúria de alguns proprietários, que a gestão das florestas deveria passar mesmo para o domínio público, assegurado precisamente pelos municípios, pagando os proprietários uma taxa associada a essa gestão, na qual se integraria a limpeza dos terrenos e a sua reflorestação. Tudo isto discutível; é certo!

   Inequívoca é a consciência de que necessitamos de uma nova conceção de exploração da terra, particularmente se florestada. Certamente que poucos agricultores, ou detentores de largas faixas florestais, têm capacidade de as gerir sozinhos, sobretudo quando urge um plano global para as múltiplas parcelas, englobando-as em áreas maiores, onde se possa repensar o modo de reflorestar, providenciando a uma nova fisionomia da floresta em Portugal.

   Urge, muito particularmente, providenciar a uma reflorestação com diversidade de espécies florestais, umas autóctones, outras implantadas, segundo a conveniência de um plano devidamente elaborado.

   Se o usufruto da terra passou a ser um direito particular, que nós não questionamos; a sua exploração requer presentemente novas formas de compromisso comunitário. Entre os foros do passado e o abandono do presente, é necessário um meio-termo que providencie à conveniente exploração da terra, seja a agricultada, seja a destinada à floresta. Este é um caminho de decisão – pois a reflexão está praticamente feita e vertida em lei – que tem de ser assumido por todos os intervenientes: proprietários, autoridades públicas e mesmo instituições associativas, criadas ou a criar. A bem da nossa segurança, do equilíbrio ecológico e da diversidade paisagística que, para além da segurança, constitui a mais-valia de ser atrativa até do ponto de vista turístico. Algo que nos diz tanto, nas terras bairradinas! Que não nos falte a coragem para implementar as medidas que, nas atuais circunstâncias, urge tomar!

Pampilhosa, 15 de Setembro de 2016
Pe. Carlos Alberto Godinho
(15ª Reflexão)

 

Tradição e Igreja!


TRADIÇÃO E IGREJA

    Com o início do mês de Setembro, retomamos o comum das nossas vidas, particularmente no âmbito profissional. Mas o início deste mês significa igualmente a abertura de novos ciclos de vida e de aprendizagem. Assim acontece com as nossas escolas, onde em breve se retomarão os ritmos normais de ensino e aprendizagem, num novo ano letivo; na atividade de algumas empresas e espaços comerciais, onde o ritmo de laboração e de vendas se retomam até ao próximo verão; entre muitas outras atividades que se reiniciam, após um período mais longo, ou breve, de paragem ou de relativa acalmia.

   Também a Igreja retoma as suas atividades próprias, segundo um plano pastoral, agora em elaboração, depois de um tempo de manutenção das atividades indispensáveis à vivência e celebração da fé, no contexto do período de férias. Cada vez mais, em conformidade com as novas exigências do mundo e da própria realidade interna da Igreja, necessitamos de definir orientações claras de ação, partilháveis por todos os elementos das comunidades cristãs, especialmente por aqueles que nelas exercem maior responsabilidade. Sabemos que para a maioria dos batizados, que nem sempre têm prática cristã, a Igreja deve é manter essencialmente a tradição; isto é, manter simplesmente os seus ritos e gestos, repetidos no contexto de cada ato sacramental, tempo litúrgico ou momento do ano e respetivas festividades. Contudo, não é assim! A palavra tradição, proveniente do latim traditio, com o significado de «entrega» ou de «transmissão», significa, para a Igreja, a permanente receção da Palavra de Deus e dos conteúdos da fé, para iluminar, com a sua força, a vivência das pessoas e das comunidades, em permanente evolução. E se há tempo que exige da Igreja uma capacidade de resposta célere, esse tempo é este, em que vivemos, particularmente acelerado pelos desenvolvimentos tecnológicos e sociais. A igreja, quer nos conteúdos da sua ação pastoral, sem por em causa os princípios da fé, a que chamamos dogmas; quer na sua forma de agir, não pode permanecer em imobilismos estéreis, incapazes de responder à vida das pessoas. Assim, como em tudo o mais, também na Igreja a tradição é viva: os conteúdos da fé adequam-se a novas realidades pessoais e sociais e as formas de realização sintonizam igualmente com cada tempo e suas características. Só assim a Igreja será fiel à sua missão e ao homem a quem é enviada.

   Acontece, contudo, um paradoxo frequente: aqueles batizados que mais reclamam a adequação doutrinal da Igreja à vida das pessoas, são frequentemente os mesmos que pretendem musealizar as práticas eclesiais, requerendo que tudo se faça da mesma forma, como nas décadas ou mesmo séculos precedentes. Tal acontece porque se retém da tradição simplesmente a forma e não o conteúdo, quantas vezes desconhecido ou desvalorizado.

   Sem dúvida que a tradição, na Igreja, é um fator essencial. Precisamente porque ela recebe, transmite e interpreta a Revelação de Deus, oferecendo um alimento sólido ao povo de Deus e a todos os homens de boa vontade. Sabendo, todavia, que essa receção, transmissão e interpretação se operam em conformidade com a história dos homens e as novas realidades eclesiais.

   Na hora presente, fruto das múltiplas transformações sociais e humanas, das limitações de agentes pastorais na Igreja, especialmente do número de sacerdotes e suas capacidades, e da necessidade de a Igreja se reorganizar pastoralmente, de modo a responder a todas as comunidades e seus membros, de igual forma, continuaremos, entre nós, a nossa caminhada de aprofundamento da Unidade Pastoral da Mealhada, com uma única proposta pastoral à diversidade de paróquias que a integram. Será uma crescente oportunidade de comunhão, na partilha da diversidade de identidades paroquiais. Todos os cristãos, bem como os homens e mulheres de boa vontade, estão chamados a colaborar na construção deste tempo novo, segundo o dinamismo do Espírito de Deus que, em cada tempo, suscita sempre novas respostas para as novas necessidades da Igreja e do mundo. Que saibamos todos acolher este dinamismo e levá-lo à prática! Na fidelidade a Deus e aos homens do nosso tempo!


Pampilhosa, 08 de Setembro de 2016
Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho
(14ª Reflexão)