sexta-feira, 15 de julho de 2016

Acolhimento


ACOLHIMENTO

   Desde há alguns anos, particularmente desde que assumi a direção nacional da Pastoral do Turismo, que tenho vindo a refletir sobre o acolhimento, como uma das atitudes humanas mais importantes na relação entre as pessoas. Se o turismo compreende várias dimensões desta atitude, aqui quero considerar o acolhimento essencialmente numa das suas vertentes – a disponibilidade para a escuta e a aceitação do outro.

   Frequentemente somos tentados a pensar que só ajudamos verdadeiramente os demais quando partilhamos com eles bens materiais; ajudamos a resolver um problema premente, como o acesso à condigna habitação ou ao trabalho; quando no empenhamos na resolução de um emergência pessoal ou familiar; ou ainda quando participamos em campanhas de angariação de fundos; em grupos de solidariedade ou de voluntariado social. Sem dúvida que estas ações, entre outras, são essenciais, enquanto expressão de uma autêntica solidariedade e de uma verdadeira caridade, para utilizar também aqui o conceito cristão. Aliás, para os cristãos um dever cimeiro!

   Tendemos, contudo, a esquecer que à nossa volta existem muitas outras pessoas que não necessitam desta partilha referida, mas simplesmente do nosso tempo, da nossa capacidade de escuta e do nosso sincero acolhimento. De um acolhimento pautado pela aceitação, sem julgamentos, disponível para ouvir, onde a empatia – essa capacidade psicológica de me colocar no lugar do outro e de compreender os seus sentimentos, vivências e emoções – se assume como a expressão mais profunda desse mesmo acolhimento. Atitude que humaniza e que nos abre à capacidade sincera de entreajuda; ao autêntico altruísmo. Atitude que se insere, ainda, naquele princípio evangélico de amar o próximo como a nós mesmos!

   Desde logo, pensemos em como as nossas relações seriam tão mais ricas, se conseguíssemos viver este acolhimento profundo!... E, ainda, como evitaríamos tantos juízos desnecessários, prejudiciais ou estéreis!...

   Esta necessidade de acolhimento é transversal a todas as classes sociais e, nos tempos que correm, talvez uma das maiores carências na nossa sociedade! Contudo, para vivermos este acolhimento necessitamos de disposição interior, bem como da disponibilização de nós mesmos e do nosso tempo. Ora, o tempo parece ser hoje um bem escasso. Todos nós nos confrontamos com um ritmo acelerado da vida, com múltiplas solicitações que, quantas vezes, nos impedem de ouvir o «grito» de quem clama por nós! Mesmo para mim, em contexto de vida sacerdotal, sinto que talvez seja premente repensar prioridades, mesmo quando as que se me impõem são as de ação sacramental ou de serviço administrativo. Cultivar a disponibilidade para ouvir é uma necessidade urgente! Mas é igualmente uma prioridade, pois a pessoa está antes de qualquer resposta técnica, administrativa, ou mesmo cultual. Ela é o valor primordial.

   Há uns anos, na Paróquia de Luso, alguém me falava do gosto que teria em participar na organização de uma espécie de gabinetes de acolhimento, cuja missão seria simplesmente receber e ouvir as pessoas! Não os concretizámos, mas ficou-me sempre esta memória / inquietação de uma necessidade para os nossos tempos.

   Numa sociedade que tende, por vezes, a desumanizar-se o acolhimento é a expressão mais viva de uma nova humanização, da aceitação do outro, da sua valorização e de uma nova fraternidade! O acolhimento é um dom precioso que urge cultivar!

 


Pampilhosa, 14 de Julho de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(9ª Reflexão)

 

  

 

  

 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Simpatia

SIMPATIA

   Há dias, numa deslocação à beira mar, parei num café – geladaria, recentemente aberto numa das nossas praias, da costa de Aveiro, para tomar um café e comprar uma água. Nada de especial, pois é o que todos fazemos em cada dia, à beira mar, ou noutro espaço qualquer.

   Surpreendeu-me, isso sim, o sorriso e a amabilidade com que fui acolhido. Senti-me como se fora um cliente de todos os tempos! O cuidado posto no acolhimento, na pergunta de como desejava o café, mas particularmente no olhar sorridente, expressando amabilidade e simpatia, é que me fez sentir tocado por dentro. Naturalmente que aquela atitude me encheu a alma e foi um apontamento de particular riqueza humana naquele dia. Já no caminho pensava em como estes pequenos gestos fazem a grande diferença nas nossas vidas. Por vezes procuramos grandes acontecimentos ou atitudes para neles encontrarmos a felicidade, quando esta se pode esconder em pequenos gestos, como este, no nosso quotidiano. E, inevitavelmente, ocorreu-me refletir sobre  a importância da simpatia, nas nossas relações humanas.

   A palavra simpatia, do grego sympátheia (syn – junto e pathos – sentimento), expressa a capacidade de sentir os mesmos sentimentos que outra pessoa, ou seja, uma comunhão de sentimentos entre pessoas. Por via latina, cujo significado é o mesmo que o grego, chega ao português, com o sentido de «sentimento de identificação entre pessoas», uma espécie de «afinidade moral»[1].

   Ora, a simpatia expressa a minha capacidade de comunhão com o outro, colocando-me numa atitude de sintonia com ele e de acolhimento profundo da sua própria pessoa – essa afinidade moral. Daí que a simpatia seja tão importante para todos nós, pois nos faz sentir profundamente acolhidos.

    É certo que a simpatia pode ser uma questão temperamental e a sua ausência fruto de múltiplas frustrações e problemas que se acumulam nas nossas vidas, limitando essa capacidade de comunhão com o outro, já que muitas vezes estamos excessivamente absorvidos pelo nosso ego e pelas suas condicionantes. A simpatia requer, sem dúvida, a disponibilidade do ego para o alter, isto é do eu para o tu, para aquele que é outro. Esta disponibilidade pode treinar-se, no exercício continuado de me descentrar de mim, para me centrar naquele com quem me encontro. Tal exercício constitui, ainda, um esforço de aperfeiçoamento humano que nos enriquece, já que somos permanentemente seres em construção. Na verdade, a simpatia também se cultiva.

   Por oposição, a antipatia resulta de uma certa descarga emocional, sobre os outros, do nosso mal-estar ou das nossas frustrações. O que resulta no agudizar da tensão interior, pois a descarga emocional negativa sobre os demais não resolve os nossos problemas, antes os adensa, quanto mais não seja pela consciência de sermos injustos.

   Pessoalmente, não deixei de pensar nesta experiência e rever-me nela, já que eu também presto serviço público, por vezes privilegiado, porque, no ministério, toco aspetos íntimos da vida das pessoas. Mas pensava igualmente nos múltiplos serviços públicos e privados, das repartições de serviços do estado, aos serviços e escritórios particulares, até ao mais simples espaço de comércio, intuindo que se procedêssemos todos assim – com verdadeira simpatia – seriamos imensamente mais felizes.

   Na verdade, a simpatia é um valor a cultivar, pois por ela nos acolhemos mutuamente e somos efetivamente mais felizes!

 

 
Pampilhosa, 07 de Julho de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(8ª Reflexão)

 




[1] Cf. http://www.significadosbr.com.br

domingo, 3 de julho de 2016

Silêncio


SILÊNCIO
 

   Num tempo, este nosso, marcado pela agitação, pelos compromissos que se sucedem a um ritmo vertiginoso; pela sensação frequente de que o tempo é um bem escasso; marcado pela multiplicidade de palavras, onde cada acontecimento tem de ser coberto ao minuto (com jornalistas, nalgumas redações ou emissões diretas, pressionados no sentido de cobrirem acontecimentos ao instante, fruto da concorrência dos meios de informação, cada vez mais sofisticados e abundantes); num tempo marcado pela ânsia de comunicar, especialmente quando temos ao nosso dispor novos instrumentos de comunicação e partilha, mediante os quais somos como que solicitados a estar permanentemente on-line, para escutar ou responder a quem nos interpela; num tempo em que pautamos a nossa vida por um encontro contínuo com os outros, com o recurso às redes sociais; necessitamos, não raro, de parar, de fazer silêncio, para quebrar a dispersão interior e encontrarmo-nos connosco mesmos, restabelecendo o nosso equilíbrio interno.

   Com frequência ouvimos, todos nós, algumas pessoas dizerem: necessitava de fugir para um lugar isolado; onde pudesse descansar e não ouvir ninguém! Será, por certo, o reverso da realidade que acabamos de descrever, nem sempre positiva, é certo, mas um “grito” que evidencia um valor fundamental, de que continuamos a necessitar: o silêncio!

   O silêncio que não é apenas ausência de palavras; mas sim possibilidade de serenidade exterior e interior; de encontro connosco mesmos e com o nosso ser mais profundo! Um silêncio que não é apenas vazio; mas que é esvaziamento de tudo, para me encher de mim, da consciência íntima dos outros e para o encontro com a plenitude e o absoluto, onde, tantos de nós, reconhecemos o rosto de Deus. Um silêncio fecundo, a proporcionar a consciencialização dos nossos projetos de vida e sua revalidação, de modo a evitar uma permanente dispersão.

   Quem não fez já esta experiência, acompanhado por uma música suave, no íntimo da sua casa, ou simplesmente pelo bater das ondas, à beira do mar?

    É cada vez mais frequente encontrarmos gente que procura este silêncio. Gente que procura, a maioria das vezes, a paz interior, no encontro consigo e com a natureza, na intimidade exclusiva dos seus familiares mais próximos. Desde muito novo que me habituei a ouvir falar de famílias estrangeiras que procuravam os vales mais recônditos do rio Zêzere, onde acampavam, longe de tudo e de todos, vivendo a paz sublime que aquelas paisagens lhes facultavam. Ou ainda, desde jovem, aquando dos acampamentos do Mocanfe, começava a ver reerguerem-se velhas aldeias abandonadas, agora procuradas pelo seu silêncio, como o Talasnal, em plena Serra da Lousã. E que dizer, uma vez mais, do crescente número de peregrinos, que trilham os Caminhos de Santiago?! … Experiências distintas, como distintas são as suas motivações! Mas todas pautadas por um denominador comum – a busca de si, onde o silêncio é um sublime artífice! Um silêncio fecundo que regenera e reequilibra!

   Entre nós, fazemos memória de um espaço privilegiado de silêncio, bem no coração do Bussaco – o deserto carmelita! Um espaço que ainda hoje nos convoca ao recolhimento, à comunhão com a natureza e ao encontro profundo connosco mesmos! Ao mesmo tempo que, para alguns, constitui igualmente uma oportunidade de encontro com Deus!

   Tendendo a ser um ponto turístico de excelência, mas de um turismo de massas, porque não facultar a experiência do silêncio, na senda dos carmelitas? Uma interpelação que deixo em aberto!

   O silêncio é um dom a cultivar! Se um provérbio chinês afirmava: «A palavra é prata, o silêncio é ouro»; Aldous Huxley é sublime, ao referir: «o silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência, como o mármore, não talhado, é rico em escultura»[1].

 

Pampilhosa, 30 de Junho de 2016
Pe. Carlos Alberto G. Godinho
(7ª Reflexão)

 



sexta-feira, 24 de junho de 2016

Humildade


HUMILDADE 

   Uma das características que mais enobrece a vida humana é a qualidade da humildade. É certo que a palavra humildade, que provém do latim humilitate, significa coisas tão distintas como a qualidade do que é humilde, modéstia, submissão ou inferioridade. Daí que tendamos a confundir, não raro, humildade com humilhação, enquanto desvalorização de algo ou de alguém.

   A verdade é que a humildade é a qualidade de quem age com simplicidade, verdade e respeito. Ser humilde é ser simples e genuíno.

   A humildade não é nem retraimento de si, nem desconsideração dos outros. Pelo contrário: a humildade, enquanto qualidade positiva e benéfica, permite-nos, a título pessoal, avaliar, com verdade, as nossas capacidades – com suas potencialidades e limites – e tornar-nos decididos na luta pela realização de objetivos pessoais. E, na relação com os demais, leva-nos a compreender que ninguém é melhor ou pior do que os outros, mas que todos devem ser igualmente reconhecidos na sua dignidade, com autêntica cordialidade, honestidade e respeito.

   Vem esta minha reflexão a propósito do Europeu de Futebol, que estamos a viver. Não porque alguém tenha desrespeitado os seus adversários; mas porque tendemos a querer celebrar por antecipação o que ainda não foi alcançado no seu espaço próprio – o estádio! Bem sabemos que o desporto compreende estas atitudes, de disputa entre «adversários», ainda por antecipação. Mas também aqui, como em tudo na vida, devemos ser mais simples e humildes. É que só assim, sem perder a garra e o entusiasmo, que nos levam a apoiarmo-nos numa causa comum, seremos capazes de nos incentivar a crescer nos nossos objetivos, mas sem desconsiderar aqueles que connosco se confrontam.

   Neste sentido, a humildade, numa perspetiva construtiva, compreende algumas atitudes que me parecem fundamentais: a tomada de consciência de nós mesmos, com simplicidade, e a definição clara de objetivos pessoais ou de grupo; o esforço sério, o trabalho, e a exigência para que estes sejam alcançados; o respeito pelos outros, nomeadamente pelos companheiros e adversários, sem nunca descurar as suas capacidades; o confronto sério, respeitoso e equilibrado, onde a excelência se alcança como resultado do nosso esforço; e, por fim, a capacidade de celebrar as vitórias pessoais ou de grupo, sem nunca humilhar quem connosco se bateu por um sucesso semelhante. E assim no desporto, como na vida!

    Certamente que muitos de nós, a outros níveis, já experimentámos exemplos singulares de humildade. Como o daquele professor catedrático, que após ter atingido o cume da excelência na sua área de ensino e investigação, passeava o seu cão no espaço do Jardim Botânico, em Coimbra, acolhendo com simplicidade alunos e professores, que com ele se cruzavam, e para com quem tinha sempre uma palavra simples e amiga. Ou ainda, um outro professor, reconhecido internacionalmente pelas suas descobertas na área da botânica, que ao chegar junto dos seus alunos, antes de iniciar as aulas, começava por os abraçar. Ou aquele padre artista, de obra plástica singular, que nunca deixou de ser o homem de postura simples e fraterna, mesmo no contexto do seu reconhecimento pessoal. Exemplos singulares que me marcaram!

   A humildade abre-nos, efetivamente, ao desenvolvimento de nós e à valorização aos outros; enquanto o orgulho, atitude antagónica da humildade, nos fecha nas nossas certezas adquiridas, limitando o nosso crescimento pessoal; e fechando-nos, igualmente, ao sincero, respeitoso e frutuoso reconhecimento dos outros. Compreendemos, assim, a máxima de Ernest Hemingway: «o segredo da sabedoria, do poder e do conhecimento é a humildade»; e ainda esta outra, de Rabindranath Tagore: «Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza»[1].

 

Pampilhosa, 23 de Junho de 2016

Pe. Carlos Alberto G. Godinho

(6ª Reflexão)



[1] Cf. http://www.citador.pt

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Amor


AMOR
 

   Ouso hoje refletir convosco sobre uma temática universal, das mais caras a cada um de nós, enquanto pessoa – o Amor! Algo de tão forte e tão banalizado! Forte, porque o amor é essencial à vida humana: nascemos por amor, existimos por amor e vivemos para amar! Sem amor a vida perderia não apenas o seu sentido, mas também o seu fundamento. Bastaria perceber como a inteligência afetiva influencia todo o nosso agir; e como sem afeto a vida se torna inviável (um dos documentários que mais impressionou, neste sentido, há anos, foi precisamente o de uma creche, na China, onde as funcionárias podiam alimentar os bebés, mas sem lhes tocarem, sabendo que eles morreriam por falta de afeto, expresso no toque).

   Mas o amor – essa plataforma da existência – tende hoje a banalizar-se ou a contradizer-se! Talvez daí encontrarmos à nossa volta tanta solidão. Já não me refiro a programas televisivos, como o «Love on Top», onde o amor se comercializa, para se tornar em produto de sucesso.

   O amor é entendido, não raro, como a satisfação de si, em vez da procura do bem do outro, numa negação da sua identidade própria, fechando o sujeito na vivência de um egocentrismo que nega a natureza própria do amor.

   Mas face à pergunta: o que é o amor?, talvez muitos se ergam afirmando que este é indefinível! Talvez! Talvez apenas possamos conceder aos poetas a aproximação ao seu conceito! Talvez! Contudo, ouso arriscar um sentido e uma lógica para o amor. E faço-o segundo um conceito cristão! Um dia, em diálogo com os seus discípulos, no momento dramático em que prepara a entrega plena da Sua vida, Jesus diz-lhes: «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei» (Jo. 15, 12). Ora, segundo esta expressão, a medida do amor está na dádiva do Mestre, medida esta que só se entende no mistério da Sua cruz. Face a esta grandeza de amor, a lógica, para nós, é percetível: o amor é dádiva! Não dádiva de qualquer coisa, mas dádiva de si mesmo! Se necessário, até ao fim! De tal modo, que o bem do outro se transforma no meu próprio bem! É esta, para mim, inequivocamente a lógica clara do amor!

   Esta lógica, da entrega, é visível, depois, em múltiplas experiências humanas: na capacidade que os pais têm de abdicar de tudo por causa de seus filhos, procurando apenas o bem destes; no cuidado que uma filha presta ao seu pai ou à sua mãe idosa e acamada, por vezes já inconsciente, mas a merecer toda a atenção, carinho, e mesmo sacrifícios pessoais; naquela atitude – que tanto me impressionou, há tempos, na televisão – de um idoso que cuidava da sua esposa vítima de Alzheimer, que já não o reconhecia, mas que, mesmo assim, ele tinha dificuldade em aceitar vê-la partir, cuidando dela com todo o esmero; em cada voluntário ou voluntária, que dispondo de alguns anos da sua vida para servir quem está em maior necessidade, longe ou perto, sem nada em troca, nada mais visa senão a melhoria de condições de vida, de saúde ou de educação, daqueles a quem serve; de religiosos e religiosas que partem para os sítios mais recônditos, onde tudo falta, para levar carinho e novas possibilidades de vida humanamente mais digna, a quem a não tem!... São múltiplos os exemplos humanos de amor, cuja raiz é sempre a mesma: a dádiva de si! Essa dádiva que contribui para um autêntico bem do outro! Daí que o amor seja sempre centrifugo, partindo do coração e da ação de cada um ao encontro dos outros; e não centrípeto, buscando nos outros a satisfação pessoal ou das suas necessidades!

   O Amor é dádiva! Necessitamos, pois, de renovar o amor, deixando que ele dê sempre, de modo renovado, um sentido novo às nossas vidas pessoais e às nossas vidas em comunidade!

 

Pampilhosa, 16.06.2016

Pe. Carlos Alberto Godinho
(5ª Reflexão)

Género


GÉNERO


    Um dos sinais mais inquietantes da cultura hodierna, pelo que significa de degradação da identidade humana e da sua intersubjetividade e comunhão, é a atual questão do género. Uma séria antropologia, assente em factos e não em simples teorias, perfilha o princípio fundamental de que nos dividimos entre o masculino e o feminino; isto é, entre a riqueza de ser homem e de ser mulher. Este é um dado fundamentalíssimo da nossa identidade humana, que assenta numa conceção antropológica com bases científicas – seja na conceção física, psíquica, afetiva ou espiritual de cada ser humano. Todos nós somos homem ou mulher; e nunca uma realidade neutra; ou, menos ainda, uma realidade metamórfica que nos permita ser uma e outra coisa, de forma alternada ou permanente, como se em nós subsistisse o «Hermafrodito» - a divindade grega híbrida que, em certo sentido, representava a união entre Hermes e Afrodite.

   A teoria de género fez o seu percurso ao longo dos últimos séculos, particularmente com as lutas feministas, na procura de suplantar a dominação masculina sobre o feminino, ganhando nova cidadania a partir da década de setenta, do século passado, com os estudos de género (gender studies). Mas estes estudos deram origem, atualmente, a uma ideologia – a ideologia de género - que dificulta a compreensão do ser humano, provocando uma autêntica revolução no conceito de pessoa. A ideologia de género absolutiza o individuo e o seu desejo subjetivo, independentemente de fatores determinantes de caráter físico, psíquico, afetivo ou social. Esta ideologia, assente em quatro pilares fundamentais: a negação da diferenciação entre homem e mulher, que subsiste apenas devido a uma distinção social, e que será necessário ultrapassar; a separação entre sexualidade e reprodução; a separação entre sexo e género, o que significa que cada um pode ter uma característica sexual e optar por viver um género diferente; e a multiplicação de termos para enquadrar novas possibilidades de autodeterminação de género, rejeitando como pensamento retrógrado e anticientífico quem reafirme os princípios tradicionais; coloca-nos face a uma visão subjetivista e desestruturadora da realidade humana, conduzindo-nos a uma conceção de pessoa que nega o que há em nós de mais profundo, pois nunca se pode estabelecer a cisão entre ser físico e ser psíquico ou espiritual. O ser humano é uno, sendo estas dimensões, que se interpenetram, constitutivas da identidade própria de cada individuo. Certamente enquanto dado natural e socialmente adquirido, sempre em aprofundamento, mas em conformidade com essa mesma identidade.

   Partilhando o princípio da ideologia de género, chegaremos à negação da nossa identidade pessoal; bem como à confusão do que pretendemos ser. Por outro lado, a ideologia de género, abre espaço a uma desestruturação social, onde a autêntica inter-relação, que é alteridade, em última instância se transforma em absoluto egocentrismo, solidão existencial e isolamento.

   Criados em «igualdade, enquanto pessoas humanas» (cf. CIC. 369), homem e mulher são feitos um para o outro (cf. CIC. 372), completando-se nessa entrega.

   Atente-se, todavia, que a negação da ideologia de género não significa a inaceitação terminante, sem discernimento, de outras formas de vivência da sexualidade e da intersubjetividade, que não podemos agora analisar. Terminologias como heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade ou transsexualidade, derivam da mesma conceção básica da natureza humana, ou seja do modelo primeiro do ser homem e mulher; deixando espaço, depois, ao modo como pessoalmente isso é vivenciado.

   Aceitar a ideologia de género significaria negarmos a nossa identidade pessoal e social. Necessitamos urgentemente de nos redescobrir como pessoas, na nossa identidade mais profunda; e como pessoas em relação, o que modela toda a nossa vida em sociedade!

 

Pampilhosa, 09 de Junho de 2016

Pe. Carlos Alberto Godinho
(4ª Reflexão)

 

Educar


EDUCAR 
 

   Nos últimos tempos temos assistido a um aceso debate público a propósito dos contratos de associação entre o Estado e os Colégios Particulares. Durante algum tempo – décadas – estes colégios complementaram e enriqueceram a rede pública de educação. Mas agora a realidade começa a inverter-se! Não querendo entrar, aqui, diretamente nesta problemática da legitimidade, ou não, do financiamento público dos colégios privados com contrato de associação, julgo que devem merecer a nossa atenção algumas das razões que subjazem a esta problemática, bem como a pergunta: a quem compete educar?

   Dois fatores são determinantes para a atual situação das escolas e a pretensão de rever imediatamente os critérios de contrato de associação. Em primeiro lugar, o fator demográfico: assistimos a uma crescente baixa da natalidade que, como seria de esperar, se viria a refletir nas escolas. Obrigando, naturalmente, a rever os estabelecimentos /escolas oferta face a uma diminuição da procura. Este é um fator que tende a agravar-se, no futuro, face à baixa natalidade. Depois, a opção governamental de revisão imediata e unilateral, sem reflexão apropriada, evidencia uma questão claramente ideológica, sobrepondo o decisor – o Ministério da Educação – a alguns dos seus parceiros que detêm a missão de educar. Bem sabemos, como afirma Fernando Catroga, na referência à «batalha pela escola laica» em França, na década de oitocentos, que «contra um ensino dogmático, ultramontano e antimoderno, se impunha [nessa altura] edificar uma «educação nacional» que fosse alfobre de cidadania”[1]. Por certo, não estaremos longe, hoje, deste princípio ideológico.

   Mas educar (na sua origem etimológica “direcionar para fora”; isto é, preparar as pessoas para o mundo e para a vivência em sociedade) cabe essencialmente aos pais, na escolha dos modelos de formação que pretendem para os seus filhos. Ao contrário de algumas teorias que afirmam que a escola apenas instrui, devemos afirmar que a escola educa – na formação de conteúdos, mas também no desenvolvimento pessoal e na cidadania. Ora, a escolha dos pais é mais do que legítima. Tanto mais que, pese embora a Constituição afirme que ao Estado pertence «assegurar o ensino básico e universal», criando um «sistema público» de educação (art. 74º); a mesma Constituição refere que é «garantida a liberdade de aprender e ensinar» e que o Estado «não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas» (art. 43º). Assim, as escolas não podem deter uma orientação monolítica. Mais do que a problemática entre escola pública e privada, deve equacionar-se o modelo de escola e de educação que pretendemos atualmente, correspondendo aos anseios dos pais, quanto à formação dos seus filhos. Neste sentido, necessitamos de novos modelos, com a definição clara e diversificada de projetos educativos; a liberdade de escolha de cada projeto; e um envolvimento efetivo dos pais na definição desses mesmos projetos de formação dos seus filhos. Não cabe ao Estado educar, mas sim garantir a todos a educação! Educar é tarefa dos pais, segundo os modelos que legitimamente se enquadrem nas opções formativas que estes desejem para os seus filhos.

 
Pampilhosa, 02 de Junho de 2016

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho
(3ª Reflexão)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




[1] CATROGA, Fernando – Entre Deuses e Césares. Secularização, Laicidade e Religião Civil – Uma perspetiva histórica. Coimbra: Edições Almedina, 2006, p. 330.