segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Poder na Igreja

1. O estudo do cabido da Sé de Coimbra, na segunda metade do séc. XVIII, permite-me perceber o exercício do poder no interior desta instituição eclesiástica, num período controverso, porque marcado pela busca de «honras» e «benefícios económicos», à custa de um certo desfalecimento da genuína vivência espiritual que, na conceção hodierna, se pretenderia marcasse aquela época; para além da perceção da relação com os demais poderes eclesiais, que pontificavam nesse período temporal.
O cabido, no período indicado, é fruto do seu tempo e dos contornos eclesiais, políticos, sociais, culturais e económicos, que lhe dão a sua fisionomia própria, enquanto instituição simultaneamente eclesial e senhorial. Todavia, o exercício do poder no seio da instituição capitular era profundamente regulado pelos seus Estatutos, que estabeleciam, com toda a precisão, as normas de precedências e de promoção nos diversos cargos, bem como o exercício dos diversos ofícios a exercer pelos vários capitulares. Aliás, toda a vida do cabido passava pelas suas sessões capitulares (denominadas precisamente de Cabido), em que se votavam todas as matérias, no que respeitava ao temporal e ao espiritual. Se para algumas delas era suficiente a maioria simples da votação por favas (o modo próprio de votar, com recurso a favas brancas e pretas); outras havia que exigiam uma maioria clara, de duas partes em três, ou mesmo a votação unânime, denominada, com frequência, nemine discrepante (sem qualquer discrepância). Por outro lado, ainda, a relação com os demais poderes estava igualmente regulada, não obstante os conflitos que emergiram na relação entre instituições de natureza similar. Aliás, quase todas as instituições, da época, tinham o seu regimento próprio, ou seus Estatutos, sobrando um poder mais pessoal ao detentor da mitra, no exercício da missão singular de que estava investido.
É certo que ao cabido não ascendia qualquer um. Sendo uma instituição senhorial, a ela tinham acesso os filhos segundos dos nobres, ou aqueles que passavam por um processo de nobilitação, pois os seus familiares haviam-se afirmado no alto comércio, no percurso universitário, ou simplesmente no exercício da magistratura, com um forte destaque para a burguesia que, neste período, procurava viver à maneira da nobreza. Mas a estrutura social do tempo enquadrava estas instituições eclesiásticas, com forte influência na sociedade civil, de que eram parte, pois não estamos ainda na divisão entre o mundo secular e o mundo eclesiástico, mas sim num corpo único, em que ambos os componentes sociais se interpenetram e compreendem.
Mas, repita-se, entrando na instituição capitular, todos se sujeitavam aos Estatutos, sabendo que eles delimitavam a natureza das funções de cada um e suas respetivas «carreiras» internas, até ao mais ínfimo pormenor. Era, efetivamente, um poder regulado. Na vivência interna e na relação interinstitucional, no campo da Igreja.

2. Analisar esta instituição, permite-me comparar o exercício de um dos poderes da época moderna com os poderes atuais, no seio da Igreja.
Se é certo que a «ascensão» eclesiástica resulta hoje, eminentemente, dos serviços prestados à comunidade eclesial, a verdade é que não estamos isentos de uma desregulação do exercício do poder no seio da Igreja, porque mais concentrado e menos regulamentado; o que tem causado, não raro, alguns transtornos ao corpo eclesial, quer a um nível superior, quer mesmo em níveis mais próximos de cada um de nós. Em última instância, superada a rigidez daqueles Regimentos, Estatutos, ou demais corpos normativos, o poder é menos partilhado e tende a acentuar a vontade unilateral do primeiro responsável eclesial (o Papa, para a Igreja Universal; ou o Bispo, para a Igreja Local), ou o daqueles que são os seus mais diretos colaboradores. E se esta vontade pessoal, pelo carisma próprio do episcopado, poderia assumir-se como uma garantia do equilíbrio eclesial, não está imune às influências, simpatias, sensibilidades pessoais, ou simplesmente ao desejo de promoção pessoal, expresso por aqueles que sabem aproximar-se ou ganhar as graças dos seus legítimos superiores. Corremos o risco, também hoje, e não menos do que ontem, de nos confrontarmos com um poder pessoal, unilateral, menos partilhado, que se assume como ponto único de equilíbrio entre as diversas instituições eclesiais.
Ora, precisamente este exercício do poder, no âmbito da Igreja, choca a sensibilidade dos nossos contemporâneos, precisamente por ser concentrado e, porventura, permeável a algumas arbitrariedades. Por muito que critiquemos o poder civil e a sua organização, ou mesmo a capacidade, no seu seio, de definição de percursos pessoais, pela permeabilidade que este poder comporta, a verdade é que o poder civil se afirma como mais transparente na sua organização. Isto porque compreende, habitualmente, o poder partilhado, ou seja, democrático.

3. Em tempo de oração pela santificação dos sacerdotes, agora que se aproxima o dia do Sagrado Coração de Jesus – instituído pelo Papa Bento XVI como dia de oração pela santificação dos ministros ordenados – talvez devamos, todos nós, atender muito mais ao modo como o poder se exerce na comunidade eclesial (poder que na Igreja tem de ser serviço). Isto porque – infelizmente – também nós não estamos isentos das fragilidades humanas, que buscam no poder a assunção de si próprios, encobrindo, quantas vezes, nos seus serviços prestados algumas apetências pessoais, ou apetências de pequenos grupos.
Se nos centramos, hoje, noutras preocupações de purificação pessoal e comunitária, em sintonia com toda a Igreja, também este campo da vivência eclesial deverá merecer o nosso especial cuidado, para não desvirtuarmos o Evangelho.

Conclusão: não pretendo, de modo algum, nestas singelas palavras, fazer qualquer crítica negativa à Igreja; procuro, isso sim, uma crítica positiva, no intuito de trilharmos continuamente os caminhos de uma sincera purificação conjunta. Tão pouco se devem atribuir a estas palavras despretensiosas qualquer intenção pessoal, pois que, muito sinceramente, não se fundam em qualquer questão de foro particular, mas na leitura ampla da realidade que vou procurando fazer. Julguei-as simplesmente apropriadas, pois partindo do estudo do passado e consciente do nosso presente, sinto que o futuro deve ser, cada vez mais, de profunda transparência, também neste âmbito tão sensível do exercício do poder na Igreja, para que se supere qualquer desejo de brilho pessoal e se deixe brilhar a única luz que se pretende mostrar – a luz do Senhor Ressuscitado.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Regresso logo que seja possível

Com a realização de alguns trabalhos académicos, neste ano curricular de doutoramento, não me tem sido possível actualizar este espaço. Volto logo que me seja possível. Cumprimentos a todos os que passam por este meu espaço virtual de partilha.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Perda e encontro do Sagrado!

O tempo presente é marcado por uma perda e, simultaneamente, por uma nostalgia do sagrado. As Igrejas ditas tradicionais parecem não convencer, não motivar os mais novos a participar na sua vida e nas suas celebrações, sendo estes cada vez mais seduzidos por formas de espiritualidade mais individual e atraídos por novas práticas, caracterizadas, algumas delas, por um forte exotismo. Aliás, esta espiritualidade vende-se hoje como tantas outras coisas, numa complexa procura de felicidade e bem-estar. Basta olhar os escaparates de algumas livrarias, com suas secções de “Espiritualidade e Esoterismo”.
Se em causa está um fenómeno religioso e cultural complexo, que exigiria uma análise exaustiva destas novas expressões da religiosidade actual, não deixa de estar, também, uma provocação implícita às Igrejas, que identificamos como tradicionais, nomeadamente à Igreja Católica.
Desde logo, não obstante a sua missão primeira de ser enviada a Evangelizar, continuamos a deparar-nos com uma formação religiosa deficiente, assente numa prática muito ritualizada e sem grande exigência em termos de verdadeira Iniciação Cristã. Espelho disto mesmo são as nossas catequeses. Estamos convictos (e digo-o no plural, porque não sou apenas eu a afirmá-lo!) que a formação cristã que ministramos não chega a tocar, em muitas circunstâncias, o âmago das vivências pessoais, capaz de fazer, de quem por ela passa, verdadeiros discípulos de Cristo, objectivo definido como essencial. E pactuamos com este status quo, ao mantermos os mesmos esquemas, as mesmas exigências e as mesmas práticas. De algum modo, iludimo-nos, numa prática entre vivências de Cristandade e novos tempos.
Urge, inequivocamente, encontrar novos caminhos, novas práticas, novas exigências – talvez a adequação de um Catecumenado sério, adaptado aos nossos tempos.
Uma das ambiguidades deste tempo é precisamente a contradição entre o excesso de movimento, de barulho, de agitação, próprios do mundo hodierno, e a ânsia de silêncio, de recolhimento, de meditação, tão bem expresso nas diversas formas de yoga e de novas vivências espirituais, marcadas pelo recolhimento, importadas da tradição Oriental.
Ora é aqui que a Igreja tem de investir também. Sem silêncio, sem meditação, sem recolhimento, prendemo-nos excessivamente ao ritual, ao exterior, que a certo momento deixa de assumir novidade, tornando-se cansativo, repetição de gestos e de palavras que carecem da sua dinâmica interior. A Igreja tem hoje de investir cada vez mais aí: em recuperar espaços de interioridade, que dêem sentido à experiência religiosa, que é, simultaneamente, encontro com os outros e encontro com o Outro. Sem esta experiência de fundo, a vivência espiritual não tem raízes e, como tal, dificilmente pode produzir frutos.
Tanto mais que se vulgariza a procura da igreja em momentos de silêncio e de solidão, como espaço apaziguador; se encontram necessidades de escuta do silêncio (quantas vezes através da música!), como possibilidade de encontro consigo próprio.
O Papa, em comunhão com os Bispos, vem, em certo sentido, colocar a tónica na necessidade de interioridade, ao chamar a atenção para as nossas celebrações, na Exortação pós-sinodal Sacramento da Caridade. E nós devemos usar critérios claros de leitura destas propostas, não nos deixando enredar numa poeira informativa que, de imediato, se levanta em torno destas orientações.
Há um longo caminho a percorrer. Mas encontramos sinais positivos. Recordo dois: há uns anos, quando pároco de Bolho, ouvia da boca de uma catequista a chamada de atenção das suas crianças para a necessidade de falar com Jesus, junto ao Sacrário, como tinham feito uma vez; e hoje, pároco de Luso, dou graças a Deus por um conjunto de Jovens (a celebrar os vinte e cinco anos da sua Associação de Jovens Cristãos!) pelos tempos de silêncio e recolhimento que sabem viver, acompanhados pela simbologia da tenda, quando a par de momentos de descontracção e de lazer, se encontram uns com os outros e com o Outro, chamado Jesus, em momentos de silêncio fecundo.
Afinal, não nos é pedido nada de particularmente novo, mas de potenciarmos uma experiência fundante da Igreja, numa capacidade de diálogo com este tempo, assumindo esta sensibilidade a um conjunto de valores, mas também as diferenças que nos distinguem, sem receio e com determinação.


Carlos Alberto da Graça Godinho
Estudar permite-me conhecer outros «universos» que, caso o não fizesse, ficariam por percorrer!...

Por esta razão tenho estado ausente. Logo que me seja possível, regressarei com algumas reflexões pessoais! Até lá!
Carlos Alberto Godinho

domingo, 10 de outubro de 2010

CENTENÁRIO DA REPÚBLICA PORTUGUESA!

A República Portuguesa comemora hoje, 5 de Outubro de 2010, o seu primeiro Centenário. É, efectivamente, um regime político afirmado no tempo, capaz de compreender ainda outros tempos; tantos quantas as várias imagens de tal regime, em Portugal. De facto, a República Portuguesa não tem apenas um rosto; tem, pelo menos, três, coincidentes com a primeira República, com o período Ditatorial e com a experiência Democrática. Em Portugal, tal regime não é uma realidade homogénea, mas como que construído por diversos estratos temporais e ideológicos – a cada tempo correspondem ideias diferentes: revolução, ditadura, democracia! Não é meu intento deter-me, agora, sobre cada um deles, para estabelecer diferenças ou considerações específicas de cada qual; procurando antes – isso sim – olhar a globalidade da experiência Republicana em Portugal. Concretamente, para sublinhar três aspectos que assumo como questionamentos em aberto. Em primeiro lugar, afirma-se a República, na sua implantação inicial, como «a Revolução que foi proclamada por todo o povo antes ainda de decidida a última acção, ou se saber quem alcançaria a vitória…» (“As Constituições de 1911 e os seus Deputados” in Desdobrável Comemorativo do Centenário da República (1910 – 2010)). Se é certo que a Monarquia Constitucional e, particularmente, os seus últimos governos, passaram por graves dificuldades políticas e económicas, a verdade é que os movimentos de opinião republicanos apenas se manifestaram nas principais urbes (ainda que o Republicanismo se tivesse difundido pelas várias cidades do Reino), através de alguns letrados, muito especialmente afectos ao Partido Republicano Português (PRP). A generalidade do povo estava à margem dos processos ideológicos da época; pois, ou não os conhecia, ou simplesmente não os entendia. De resto, perseverava, no povo, uma mentalidade tradicional, conformada com a realidade existente. A República foi gizada e levada a cabo por um conjunto de ideólogos, da elite política e cultural, especialmente afectos aos ideais revolucionários, que se souberam servir da Maçonaria e da Carbonária (esta última derivada da primeira, com intuitos mais radicais, levando a cabo a acção armada, como havia acontecido já, dois anos antes, com o regicídio – cf. António Arnaut, Introdução à Maçonaria, pp. 69 - 70). O povo tanto gritaria pela República, como continuaria a aclamar o Rei, caso persistisse o regime Monárquico, entretanto decapitado (tal é confirmado, pouco antes do 5 de Outubro, pela passagem de D. Manuel II pelas terras Aveirenses, onde foi profundamente ovacionado e extremamente bem acolhido). O povo português, na sua maioria, era iletrado, ou mesmo analfabeto, o que o colocava à margem da decisão da causa pública. Aliás, a primeira República reconheceu-o, concedendo o direito de voto apenas aos minimamente letrados, num processo de restrição de participação cívica singular, face ao praticado anteriormente, na Monarquia Constitucional. De resto, uma inequívoca contradição do novo regime.
Em segundo lugar, a República visava implementar, na esteira do Liberalismo já reinante, os ideais da Revolução Francesa – «Liberdade, Egualdade e Fraternidade» (in “Imagem da República”, 1910 – 2010: República Portuguesa, Brochura Comemorativa do Centenário da República, Museu da Presidência da República). Em sintonia com estes ideais, a primeira Constituição da República Portuguesa afirmava: «Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária» (“Constituição da república Portuguesa” in Desdobrável Comemorativo do Centenário da República). Ora, é esta afirmação de fundo que hoje nos serve para uma profunda análise da sociedade portuguesa e, consequentemente, para questionar: atingiu a República os seus objectivos? Ainda que tais questionamentos exigissem um espaço mais alargado de exposição, podemos concluir, sumariamente, que realmente não atingiu os objectivos apontados! A República só atingiria os seus fins se os princípios enunciados se tornassem operativos e fossem realidades adquiridas na construção da nossa identidade colectiva. Na verdade, nem a dignidade da pessoa é regra máxima para a estruturação da vida em sociedade, nem a liberdade ou a fraternidade são ditames essenciais para essa organização. Sem nos determos nos tempos pretéritos, atentemos no conceito de liberdade e na sua operacionalização nos tempos que correm: para que exista liberdade é essencial assegurar o direito igualitário à justiça, como salvaguarda da integridade pessoal de cada um e dos seus bens, e como esteio da vivência em democracia. Ora, a justiça – pilar e garantia da liberdade individual e colectiva – é hoje das realidades mais sensíveis e desigualitárias da sociedade portuguesa! Por seu turno, o conceito de igualdade remete-nos para uma certa uniformização social, onde cada um possa assumir, de forma fundamentada e capaz, uma verdadeira intervenção cívica. A este propósito, considere-se o estado da educação e o modo como tem sido assumida pelos sucessivos governos republicanos, no sentido de aferirmos se a intervenção cívica e qualificada (mormente no aspecto laboral), e os benefícios que lhe estão associados, são uma evidência para o Portugal moderno que pretendemos construir! De vários quadrantes chegam indicações de que temos de privilegiar uma educação de qualidade, em detrimento de uma educação estatística. Já no que se refere à fraternidade, ainda que vivendo numa sociedade que contempla o «estado social», a realidade é bem mais dura. A cem anos da implantação da República persistem, em Portugal, mais de dois milhões de pobres (e alguns outros no limiar da pobreza), num universo de cerca de dez milhões que constituem a sociedade portuguesa. Em termos sociais, Portugal tende a polarizar-se – à semelhança de algumas sociedades latino-americanas – em duas classes: a classe rica e a classe pobre, esvaziando aquela que prevalecia como classe dominante – a classe média.
Exposto isto, a pergunta: que lugar para comemorar a República (sem me deter, também, na análise dos períodos anteriores)?
De qualquer forma, e porque a República é, em Portugal, uma instituição centenária, dois aspectos a sublinhar, ao terminar: no período republicano entrámos na União Europeia (ainda que o republicanismo não seja um requisito exigível para essa adesão), o que nos garante a sustentabilidade como nação num mundo cada vez mais globalizado; findos os primeiros cem anos, fica-nos a esperança de que o futuro traga no seu seio o que o passado ainda não foi capaz de construir. A bem de Portugal e dos Portugueses!

Lisboa, 5 de Outubro de 2010
Carlos Alberto da Graça Godinho

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Direito à Profissão de Fé!

Na sequência de algumas opiniões publicadas, nos meios de comunicação, de um ou outro leigo, e mesmo dos nossos Bispos, referindo a legitimidade de a Igreja assumir a sua missão, a ênfase continua a colocar-se, não raro, no serviço social que a Igreja presta a nível nacional. É inequívoco este serviço; e seria catastrófico para o Estado se a Igreja se demitisse destas suas responsabilidades. Sem dúvida que não o fará, na justa medida em que esta acção se insere no cerne da sua vocação.
Mas parece-me, na linha daquilo que se pode subentender das palavras do Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, que afirmava, há dias, que o serviço social tem a sua origem na experiência do templo, particularmente na escuta da Palavra, que a profissão de qualquer fé está a montante desta prática social e que é um direito inalienável da pessoa humana. O direito a professar uma fé e a expressá-la pessoal e comunitariamente é um direito da pessoa humana. De tal modo assim é que a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia o consigna num dos seus artigos. Refere este documento, estruturante da vida dos cidadãos da Europa: «Todas as pessoas têm direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, bem como a liberdade de manifestar a sua religião ou a sua convicção, individual ou colectivamente, em público ou em privado, através do culto, do ensino, de práticas e de celebração de ritos» (Art. 10º. §1 – Liberdade de pensamento, de consciência e de religião).
Ora, neste sentido, cabe a cada sociedade e a cada estado, democraticamente organizado, o respeito indiscutível pelos direitos mais fundamentais da pessoa humana, que aqui estão consignados. Ou seja, o estado tem o dever inquestionável de respeitar a prática religiosa pessoal e a livre associação em comunidade para a praticar.
A Igreja, por seu turno, não tem de se escudar na sua acção social. Sendo este um serviço inquestionável à pessoa humana e à sociedade, é apenas uma dimensão da sua prática e da sua acção. O direito ao culto é algo que lhe é devido! E não será qualquer organização do Estado, particularmente na União Europeia, que pode privá-la desse direito. Estamos todos obrigados ao respeito de normas comuns, mesmo que essas normas se refiram a convicções que não partilhamos. Um estado democrático assenta aqui as suas bases: no respeito pelo direito dos povos. E este é um, de entre tantos outros, que temos de saber assumir, afirmar e reivindicar.
Bom seria que os cristãos, conscientes da sua fé, assumissem como exigência – implicando as instituições públicas – o respeito por um direito que lhes é devido.
É nesta linha que entendo a atitude do presidente francês de salvaguarda de princípios religiosos básicos. E partindo deste mesmo pensamento, acho perfeitamente inaceitável a afronta explícita, ou implícita, que certos governos europeus tentam fazer à Igreja, sejam eles italianos, espanhóis ou portugueses. O respeito pela legitimidade e pela acção de cada um é o único suporte de uma sociedade justa, equilibrada, mas igualmente democrática.

Carlos Alberto da Graça Godinho

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Perspectivas para uma Pastoral das Termas (Resumo)

No intuito de propor algumas reflexões, que sirvam a uma renovada Pastoral das Termas, considerarei, na minha exposição, três aspectos que julgo cruciais para o seu desenvolvimento: a análise da Pastoral das Termas, segundo inquérito elaborado; as orientações da Igreja para a Pastoral do Turismo, em que as termas se inserem; e algumas orientações práticas, emanadas da mesma documentação, reflectidas pessoalmente e adaptadas às comunidades que compreendem espaços termais.
Depois da abordagem de alguns pressupostos e símbolos, concretamente a especificidade da Pastoral das Termas no contexto da pastoral do Turismo, porquanto ela visa responder a uma realidade eminentemente ligada ao conceito de saúde e não tanto a uma dimensão lúdica, recreativa ou cultural, ainda que a possa e deva pressupor, consideraremos a simbologia da água, particularmente na sua visão bíblica, que nos permite introduzir uma concepção global de saúde, que não se limite ao simples bem-estar físico, mas que abre o homem à sua dimensão mais profunda, numa visão integradora de todas as dimensões da existência humana, a que a pastoral terá de responder.
Fundamental para uma adequação de propostas será a análise dos resultados recolhidos do inquérito sobre A realidade das Termas em Portugal e respectiva Acção Pastoral, enviado a todos os párocos encarregados de estâncias termais. Ainda que os resultados obtidos nos permitam simplesmente uma amostragem, pois que responderam menos de 50% dos contactados, podemos concluir alguns dados significativos, como são a tipologia das termas, as faixas etárias que frequentam os espaços termais, a existência, ou não, de relações próximas com as paróquias, os serviços religiosos mais solicitados e as respostas específicas facultadas pelas comunidades paroquias. Pudemos concluir, deste inquérito, que a Pastoral das Termas é eminentemente de tipo celebrativo ou sacramental, que optámos por definir como tradicional, e muito pouco missionária. Ora, a perspectiva que importa incrementar é exactamente esta segunda, em conformidade com a documentação da Igreja para a Pastoral do Turismo, particularmente com as Orientações para a Pastoral do Turismo, do Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes. Neste sentido, far-se-á uma reflexão mais alargada sobre as oportunidades de acção em tempo livre; o turismo – e nele o termalismo – como desafio pastoral; algumas acções pastorais a desenvolver, entre as quais se destacam o acolhimento e a formação de novos agentes de pastoral, que comprometam toda a comunidade cristã e, se possível, os próprios agentes profissionais ligados directamente às termas; o relacionamento com as autoridades públicas, no intuito de estabelecer pontos de diálogo que permitam um acompanhamento mais alargado dos termalistas; chegando mesmo a um compromisso com novas dinâmicas de acção que contemplem o respeito pela natureza e seu usufruto, como dom de Deus que podemos contemplar. Por fim, as propostas práticas a apresentar, pretendem passar do patamar celebrativo ou sacramental, ainda que a Eucaristia, particularmente a dominical, desempenhe aqui lugar central, como nas mais diversas realidades eclesiais, para uma dinâmica mais aberta à comunidade, tendo em consideração quem nos visita, os agentes profissionais que trabalham no termalismo, o trabalho em equipa pastoral, para além de muitos outros elementos concretos que facilmente podem ser assumidos pela Pastoral das Termas e ser ponto de encontro da Comunidade que acolhe com aqueles que são acolhidos. Preocupação fundamental é a de que, quem chega, possa sentir como sua, ainda que transitoriamente, a Comunidade Cristã de acolhimento. Comunidade aberta à relação interpessoal, à partilha de experiências, à reflexão, à revitalização da vida sacramental e de aprofundamento da fé. Toda a perspectiva de fundo será de assumir, como indicada, a dinâmica missionária, que permita ao termalista uma revitalização da sua vida espiritual, ao mesmo tempo que a revitalização física e de bem-estar que procura nas estâncias termais. Neste sentido, as paróquias não poderão ficar à espera de quem procure os seus serviços, mas deverão ser capazes de definir meios para ir ao encontro de quem chega, franqueando-lhes as suas portas e fazendo propostas objectivas que ajudem os termalistas a viver o tempo de descanso, e de tratamentos, como um tempo propício para um renovado encontro consigo, com os outros e com Deus.

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho
Pároco de Luso

Publicado in Agência Ecclesia