terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Que destino para esta Nação?

Que destino para esta Nação? Existem duas ou três concepções básicas, da micro-administração, que não podem deixar de se alargar à macro-administração: a despesa nunca pode ser maior que a receita; se a despesa é maior que a receita, obrigatóriamente é necessário fazer ajustes, vulgarmente chamados cortes de despesa, para que se acertem as contas; a única forma de produzir receita é aumentar a produção! Isto que é básico para cada um de nós, não o será para quem administra a nível da macro-estrutura? Bem sei que as questões não são assim tão simples, mas as regras são claras. Senão hipotecamos um país chamado Portugal! Será que a história não nos ensinou nada, quando deixámos de aproveitar o muito que explorámos na América e na Ásia, sem termos sido capazes de transformar esses produtos em mais valias para o país - então, o Reino? Somos um povo empreendedor, mas parece faltar-nos alguma orientação!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

2010 – O início de uma década?

Com muita frequência, neste início de ano, tenho lido alguns artigos em que se afirma que estamos no início de uma nova década. Ora, nada mais falso. Todos nós sabemos que uma década inicia a 1 e termina a 10. Assim sendo, estamos – isso sim – no final da primeira década do século XXI. Tal confusão faz-nos regressar à origem do novo milénio – para uns ele iniciou-se em 2000, para outros em 2001. Para mim, o novo milénio apenas se iniciou em 2001 e uma nova década apenas se inicia em 2011, terminando esta em 2020. Ficou-me sempre na memória, desde o ensino Unificado (hoje básico) a divisão que éramos obrigados a fazer nas aulas de História: sempre que existisse um número positivo á direita estávamos no século seguinte; se o número fosse negativo – o zero, por exemplo – estávamos no mesmo século. Assim, 1900 é final do século XIX e não início do século XX. 1901 - esse sim - é início do século XX. 1700 é final do século XVII e 1701 início do século XVIII. Não entendo porquê esta confusão com o milénio e uma nova forma de contagem do tempo. Se alguém tiver uma indicação contrária a esta que possa justificar, agradeço o esclarecimento.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A questão de John Wycliffe (1320 – 1384)

Porque em artigo anterior referi a complexidade de elementos que se cruzam na interpretação de factos históricos, entendi exemplificar, agora, esta realidade com um elemento concreto da História da Igreja e da nossa História Universal. De largo alcance, de resto. Trata-se da história de John Wycliffe, sacerdote inglês que viveu, como indicado, entre os anos 1320 e 1384. Sendo natural de uma família tradicional do Yorkshire, na Inglaterra, foi enviado para a Universidade de Oxford, onde cursou Teologia, Filosofia e Cânones. Desta vasta formação salienta-se o seu doutoramento em Teologia, que conduzirá John Wycliffe ao professorado no Balliol College, na mesma cidade de Oxford.
No aprofundamento das suas teses, Wycliffe defende a purificação da Igreja de seu tempo, considerando que esta deveria regressar ao seu estado original, em conformidade com o Evangelho. Mas, desde logo, entenda-se que esta não será a única voz, ao longo da História da Igreja, que defende tal regresso às origens – defenderam posição semelhante muitos dos Humanistas, do período do Renascimento, e muitas outras figuras maiores da própria Igreja, como, por exemplo São Francisco de Assis e São Domingos, no período medieval; ou mesmo ainda, São Bernardo de Claraval, fundador da Ordem de Cister, para me referir ao mesmo período. E, no nosso tempo, sob a intuição do Papa João XXIII a Igreja realiza uma das maiores renovações, através do Concílio Ecuménico Vaticano II, por ele mesmo convocado. A diferença entre Wycliffe e estes outros reformadores – entre os muitos que poderíamos apontar – define-se a partir dos métodos e dos objectivos que se pretendem alcançar. E Wycliffe, segundo as suas intuições, visava retirar à Igreja elementos constitutivos que lhe são essenciais. Além do mais, permite que o seu pensamento perca a isenção quando se mistura com outros interesses de carácter político e económico que, definitivamente, o condicionam. Claro que – como os demais – Wycliffe é um «produto» do seu tempo. Mas vejamos: nas suas reformas, defende a sujeição do poder eclesiástico ao poder temporal, alicerçado no princípio ideológico (que marcou a idade média e a moderna) de que o poder régio provinha de Deus. Certo é que colocava a Igreja na esfera do poder temporal, num período em que os poderes se sobrepunham, ora favorecendo a perspectiva eclesial, ora a perspectiva secular. De resto, retirava à Igreja boa parte da sua identidade, tornando-a cativa do poder secular. Esta intuição de Wycliffe, que não surtiu efeito no seu tempo, veio a fundamentar a posição de Henrique VIII, quando, por razões meramente pessoais, que todos bem conhecemos, como era a questão do seu divórcio e recasamento, o levaram, sensivelmente dois séculos depois, a quebrar a união com Roma e a assumir-se como chefe da Igreja de Inglaterra, abrindo espaço à divisão Anglicana.
Mas, dado importante, é que durante o período de produção das teses de Wycliffe estamos em plena Guerra dos Cem Anos (1337 – 1453), que opõe precisamente, entre outros, a Inglaterra à França. Ora, nada servia melhor a causa Inglesa, e as suas afirmações nacionalistas, senão a separação do papado, porquanto este, precisamente entre 1309 e 1377, se encontrava em Avinhão, território francês. Daí, inicialmente, a adesão clara dos poderes instituídos e do próprio povo à causa de Wycliffe. Por outro lado, como haveria de acontecer com Lutero, dois séculos depois, os grandes senhores pretendiam libertar-se dos tributos ao Papa; acrescendo ainda, agora, o desejo de se apossarem dos bens da Igreja, que passavam para a sua tutela.
Importa ainda considerar que Wycliffe, particularmente na fase final da sua vida, e já depois de admoestado pela competente autoridade eclesiástica, procura anular um elemento fundamental da eclesiologia, como era, e continua a ser, a sucessão apostólica, anulando o papado e a própria hierarquia da Igreja. Mesmo em relação aos padres, retirava-lhes a natureza sacramental da ordenação, o que inviabilizava o exercício específico do seu ministério. De igual modo, negava a transubstanciação no mistério Eucarístico. E quanto à divulgação da Bíblia, um outro problema igualmente se levantava – o da interpretação do texto sagrado. Pela sua natureza, o texto bíblico necessitava de ser interpretado para não se desvirtuar, como, de resto, veio a acontecer depois da Reforma Protestante, iniciada com Lutero. A livre interpretação, sem fundamentação, abria espaço a uma profunda ruptura da fé e da unidade doutrinal. Certo é que a maior parte dos Ingleses, com a tradução para a sua língua mãe, não tinha acesso ao texto – muito caro, porque manuscrito, e porque grassava ainda um profundo analfabetismo entre a população. Mas abria-se espaço para uma ruptura na unidade da fé, que assenta no dado revelado. Realidade que, uma vez mais, pudemos constatar dois séculos depois com Lutero, sobretudo quando a Bíblia passa a ser impressa. O problema não é da leitura (ainda que a Igreja a reservasse), era sim o da interpretação. E a verdade é que a livre interpretação, sem aqui a valorar, criou uma imensa diversidade de Igrejas que se extremam até ao limite dos grupos sectários. Portanto, unida à questão política estava uma sensível questão religiosa.
Ora, neste contexto, não foi apenas a Igreja que reagiu; o próprio poder régio assume acção determinante na inviabilização da difusão das ideias de Wycliffe, quando, em meados de 1381, o rei Ricardo II, na sequência de um movimento social, atribuído aos discípulos de Wycliffe, conhecidos como «lolardos», pede à Universidade de Oxford que expulse este professor e impede a difusão das suas teses em sermões ou demais formas de ensino, sob pena de prisão para quem infringisse tal determinação.
Wycliffe viria a morrer na sequência de uma apoplexia, sofrida a 28 de Dezembro de 1384. Só posteriormente o Concilio de Constança (que decorreu entre 1414 e 1418) declarou as suas teses heréticas, particularmente quando, na esteira de tal mestre, Jan Huss e Jerónimo de Praga, seus discípulos, intentavam nova reforma que punha em causa a unidade da Igreja.
É certo que os seus escritos foram queimados, bem como os seus restos mortais. Mas tão pouco nos devemos admirar de tal processo, no período em questão, porquanto o fogo assumia um simbolismo purificador. Tal aconteceu, igualmente, em toda a época moderna, nos simples movimentos sociais, de carácter civil – na nossa linguagem hodierna – em que tudo o que se considerava iníquo era destruído pelo fogo, com este mesmo simbolismo de purificação.
A concluir, podemos sintetizar com a afirmação clara de que o processo de Wycliffe é transversal à realidade do seu tempo – política e religiosa. E não se propagou devido à oposição de todos os poderes instituídos. O mesmo não aconteceu com Lutero, que beneficiou dos interesses económicos e políticos de uma nova conjuntura, própria da época em que viveu e deu forma ao seu pensamento. Todavia, Wycliffe foi o primeiro teorizador da reforma que, depois, com Lutero havia de vingar.
Quanto à Igreja, por muito que nos custe aceitá-lo hoje, segundo a nossa mentalidade, necessariamente diversa da daquele tempo histórico, tomou as medidas necessárias para que a sua identidade e constituição se não desvirtuassem. O processo de Wycliffe não é, pois, um processo simples, mas de «luta» por uma identidade que até hoje se não perdeu! E mesmo se as divisões da Igreja acabaram por se consumar – ferida maior na sua História – tendem agora a dissipar-se com novas formas de aproximação, que só o futuro poderá erradicar de vez, num processo de Ecumenismo que não cessa de produzir os seus belos frutos! O último dos quais é a aproximação Anglicana, numa abertura bela à comunhão e unidade de uma única Igreja, segundo a vontade do Seu fundador e que nos cabe a todos restabelecer!

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho
NOTA: Texto publicado no Jornal da Mealhada

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Mistério de Natal!...

O Natal coloca-nos, uma vez mais – embora sempre de forma nova – diante do Mistério do Amor de Deus pelos homens. Na verdade, Deus não nos oferece a participação da Sua Divindade de forma distante, mas assume participar da nossa humanidade, tornando-se um de nós na pessoa do Filho, para nos elevar à condição divina. O nosso Deus é, efectivamente, um Deus profundamente comprometido connosco e com a nossa história. Salva-nos a partir do seio dos nossos condicionalismos – faz-se limite connosco para nos transfigurar consigo.
Assim sendo, duas atitudes se nos impõem, enquanto cristãos: a abertura à presença viva de Deus na nossa história pessoal e comunitária; e um compromisso novo com a humanidade redimida por Jesus Cristo feito carne. Em certo sentido, uma revalorização do Amor a Deus e do Amor ao próximo – coordenadas fundamentais do nosso agir de cristãos.
Num tempo em que o homem parece esquecer Deus, embora d’Ele careça como princípio e fim da sua existência, torna-se urgente regressar à comunhão de amor com Aquele que em Si nos oferece a vida plena. É uma necessidade do homem e não de Deus. Sob pena de o próprio homem se sentir solitário, desorientado, sem esperança e sem sentido para a vida que, por si, compreende já – quantas vezes – tanta desilusão, tanta solidão e tão profundos questionamentos. É o homem que necessita de contemplar o rosto de Deus para se redescobrir a si mesmo e as energias que dão futuro à sua vida, para redescobrir a esperança que plenifica a sua existência. Deus não força esta abertura; reclama-a apenas por amor ao próprio homem, para que este acolha o dom da vida que Aquele lhe oferece. Em tempo de Natal, o convite é a redescobrir o rosto de Deus e a deixarmo-nos contagiar pela vida que vem até nós! Isso pressupõe uma renovada abertura de coração para que o dom se nos comunique e em nós frutifique.
De igual forma, o tempo de Natal convida-nos a redescobrir o valor da vida humana, o seu sentido mais profundo – a sua dignidade – e o valor da comunhão entre os homens. Deus, em Jesus Cristo, compartilha connosco a existência humana para nos abrir à compreensão profunda do valor do outro, que jamais nos poderá ser indiferente. Assim sendo, as alegrias e esperanças, as inquietações e sucessos, as amarguras e as felicidades dos demais, numa vivência de verdadeira comunhão, hão-de ser também as nossas alegrias e as nossas esperanças, as nossas inquietações e os nossos sucessos. Mais ainda, o outro – como sugere Bento XVI, na sua Encíclica Sacramento de Caridade – há-de ser amado por nós com um coração semelhante ao de Deus. Ora, se Deus assume uma profunda compaixão pela nossa humanidade, como não havemos de assumir a mesma compaixão pelo destino dos nossos irmãos? Só assim o Evangelho se incarna na história humana e nos tornamos verdadeiros discípulos de Cristo. Não apenas na forma, mas no conteúdo! Jesus Cristo é dom e modelo. E é neste duplo sentido que havemos de O acolher.
Em tempo de Natal, propício para uma maior solidariedade com o outro, o cristão sente, mais vivamente, esta urgência da caridade! Que não se resume a este tempo, mas que se há-de prolongar por todos os tempos e contextos diversos.
Com este duplo desafio, que me imponho e vos proponho, quero desejar a todos um Santo Natal. Que signifique um verdadeiro nascimento de Cristo na vida e história de cada um e a redescoberta da humanidade nova que Ele mesmo – o Senhor feito Carne – inaugurou!

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Resposta a André Vaz!

Ao ler o artigo de André Vaz, que me é dirigido explicitamente, a propósito das minhas observações sobre a obra «Caim» de José Saramago, apraz-me referir o seguinte:

1. Se é certo que leio sempre os artigos de André Vaz com algum interesse, pela sua capacidade reflexiva e pelo belo uso da palavra, não posso deixar de dizer que efectivamente estamos em campos opostos (embora os opostos, para mim, sejam sempre de respeitar!) pelos pressupostos ideológicos (ou pelo menos de pensamento) que cada um de nós vive. Na verdade, eu sou cristão e, por consequência, partilho os princípios do Cristianismo, enquanto o André é niilista, partilhando os princípios de Friedrich Wilhelm Nietzsche (filósofo que defende um niilismo activo contra o chamado niilismo passivo, que ele próprio combateu). Ora, o niilismo (atitude filosófica que melhor define Nietzsche, particularmente na transmutação de todos os valores que compreendem a morte de Deus) consiste na «absolutização do nada», no extremo da negatividade, a que Nietzsche responde com a absolutização do eu, contrapondo a uma outra concepção niilista.
Ora, posta assim a questão, não estranhará o leitor a diversidade de argumentos.

2. Estranho, todavia, é que sem me conhecer pessoalmente, assuma em relação à minha pessoa laivos de «dogmatismo» quando me insere, sem mais, nesse conjunto de pessoas destituídas de conhecimento e de preocupações intelectuais. Meu caro André, antes de nascer – ou pelo menos no seu período de «cueiros» – já eu havia lido a Gaia Ciência e Assim Falava Zaratustra, de Nietzsche, obras inicialmente publicadas, respectivamente, em 1881 e 1885. Além disso, a sua leitura inseria-se numa visão de conjunto da filosofia que define a formação intelectual de quem cursa Teologia. De resto, sem que as obras referidas fossem obrigatórias, entendi lê-las porque percursoras da filosofia que marca profundamente os meados do século XX e que conhecemos como «existencialismo». Sem ser propriamente existencialista, Nietzsche, na senda de Sören Kierkegaard – considerado como o verdadeiro percursor deste movimento filosófico – exprime a sua percepção angustiante da vida. Mesmo que inverta a sua afirmação sobre o sentido da vida humana. É curioso – e lamento que assim seja – que os «dogmatismos» ateus se tornem tão contundentes, senão mesmo agressivos, ainda que desconhecendo os alvos que visam. E nesta atitude ainda têm a veleidade de criticar a Igreja! Porque olham para o argueiro da vista do irmão e não para a trave que têm na sua? - parafraseando Jesus, no Evangelho! Mas bem… deixemo-nos destes meandros.
Quanto à minha formação, caro André – e perdoem-me os leitores a minha aparente imodéstia, que a não é – não devo nada à formação contínua que hoje é tão valorizada. Desde a minha ordenação sacerdotal, em 1991, só deixei um plano regular de estudos num período que vai de 1991 a 1995. Depois disso, voltei a cursar Teologia, Filosofia (que interrompi por estar a repetir conteúdos) e História, na qual estou agora envolvido, não me detendo simplesmente no primeiro grau de formação. Portanto, numa formação contínua, que conta já catorze anos, julgo ser evidente que privilegio o pensamento, a reflexão, a discussão e a compreensão da realidade, que me faz passar do âmbito da Teologia para outros diálogos e compreensões. Mas, repito, isto é só ilustrativo, sem querer usar qualquer curriculum para me credenciar ou justificar.

3. Mas, voltemos a Nietzsche, para que os leitores compreendam as nossas diferenças. Este filósofo, nascido a 15/10/1844, numa família de protestantes – o seu pai era pastor protestante, assim como o seu avô o tinha sido – faz toda a sua formação inicial no colégio protestante de Pforta, célebre pela tradição humanista e luterana. Nietzsche estava destinado a ser pastor como os seus antecessores. Descobrindo aí a cultura clássica que se une à sua perda da fé, este filósofo viria a fazer do pensamento helenista a fonte essencial da sua filosofia. Todavia, o pensamento de Nietzsche insere-se num período de oposição a um pensamento burguês que definia a realidade socioeconómica finissecular. E a sua luta contra o Cristianismo insere-se numa visão pietista e nominalista que de modo pouco critico recebe desse contexto político, social e cultural. Qualquer filósofo é fruto do seu tempo. De resto, algo de semelhante, embora de orientação diferente, havia acontecido com Marx. A verdade é que o pensamento de Nietzsche resulta também das suas experiências traumáticas, particularmente quando, em 1879, teve de abandonar a docência na Universidade de Basileia por ter contraído doença bastante grave. Doença que sempre o acompanhará e o levará a morrer na loucura em Weimar, a 25/08/1900. O período de doença do filósofo coincide com o grande período de produção literária. De modo que muitos autores consideram que as obras de Nietzsche são feitas «do seu próprio drama». E a morte de Deus – reacção a uma concepção negativa e triste da vida, em sintonia com a moral luterana – leva-o a buscar a divindade em si próprio, numa afirmação exacerbada do «eu». Como refere uma autora – Lou Salomé – «Nietzsche toda a vida se esforçou por descobrir através das diferentes figuras de divinização de si mesmo um substituto para o Deus morto». Ou seja, a eliminação do Cristianismo é mais a substituição de uma divindade por outra, mais do que a tentativa de eliminar a ideia de divino. Certo é que Nietzsche intenta eliminar a herança cristã, mas sendo perfeitamente incapaz de criar novos valores.

4. No que se refere a Saramago – pois foi a partir da sua obra «Caim» que se iniciou esta contraposição de argumentos (pretendo que o seja, mais que qualquer forma de ataque!) – mantenho exactamente o que escrevi. Saramago, como romancista, é livre de escrever o que quiser e sobre o que quiser. Mas, como escreve para leitores, tem de ser exigente no uso das fontes que lhe servem de fundamento. Ora, para uma autêntica compreensão do texto bíblico é essencial que se atenha a conceitos básicos de hermenêutica (já não digo de exegese!). Assim, do ponto de vista hermenêutico, é impossível compreender a Escritura sem a enquadrar nos seus géneros literários, na realidade cultural do povo de Israel (bem como na dos povos da antiguidade), na sua geografia e na sua história. Partir do texto sem estas coordenadas é dizer barbaridades! Imagine-se Saramago usar como fundamento da sua escrita os Lusíadas, mas desvirtuando o seu sentido de base! Que credibilidade nos mereceria? É que, como afirmei, não se trata só da Sagrada Escritura, mas também da fundamentação histórica, mitológica, ou de qualquer outra. Já agora, esta percepção não é exclusivamente minha, nem dos «homens da Igreja»: vejam-se, a este propósito, alguns comentários de diversos intelectuais ao Jornal de Letras, nas novas redes socais disponíveis na Internet.

5. Quanto às acusações que dirigia à Igreja, peço-lhe, caro André, em nome da inteligência que não enverede pelas atitudes simplesmente anacrónicas com que muitos, hoje, olham o passado. Ler o passado – sejam as instituições, as concepções políticas, religiosas, culturais – sem um verdadeiro enquadramento no seu contexto é desvirtuar os factos e usá-los simplesmente a nosso favor! A Igreja tão pouco era uma instituição separada do poder político, como depois – e bem – se estabeleceu a partir dos inícios da época contemporânea. As instituições, como a inquisição, serviram tanto a Igreja como o rei e o poder político instituído. Sinal disso é que a última vítima da Inquisição em Portugal – a título de exemplo – foi o Padre Gabriel Malagrida, Jesuíta, mandado executar pelo Marquês de Pombal. Os processos de Wycliffe, de Giordano Bruno ou de Galileu Galilei (que foi capaz de entender o que significavam as suas afirmações para a época; um homem à frente do seu tempo, como bem reconheceu o Papa João Paulo II) ainda que objectivamente maus, só se entendem no quadro das suas mundividências. De outro modo, estamos a extrapolar acontecimentos do suporte objectivo que nos permite o seu necessário enquadramento. E, assim, os acontecimentos tornam-se mitos, no pior sentido do termo. Aliás, sobre as temáticas da Igreja e da sua acção, nos períodos medieval e moderno, talvez valha a pena serem retomadas, mas noutra exposição, pois que urge clarificar muitas realidades.

6. Porque já vai demasiado longa esta resposta, gostaria de terminar com algumas considerações finais. A ideia de que no seio da Igreja – pois não me critica apenas a mim, mas também os demais cristãos – não existe formação já teve o seu tempo. É certo que muito há a fazer; serei o primeiro a afirmá-lo! Mas dê graças a Deus (mesmo que isto seja um paradoxo para si!) pelas possibilidades que teve, tal como eu também tive, e seja compreensivo para com quem não teve as mesmas oportunidades. De resto, existe hoje muita gente ciosa de uma formação mais consistente, de que eu sou testemunha pessoal, mesmo que carecendo de formação de base. Além do mais, a vida cristã não se baseia num simples conhecimento intelectual (embora ele seja necessário), mas numa atitude existencial. Ou seja, a vida cristã não se baseia numa ideia, mas numa Pessoa – Jesus Cristo. E, neste sentido, permita-me que ao seu «modelo» eu contraponha o meu. É que o meu modelo, mais do que as ideias inconsequentes (ou de nefastas consequências), leva-me a agir, centrando-me num princípio vital de realização humana no seu todo – no amor, enquanto serviço! (E veja como Saramago não tinha razão!). Por incrível que pareça, a Igreja tem como centro da sua acção a linguagem da vida e não «linguagem da morte», como refere. Desde logo, porque é chamada a viver o amor (enquanto doação) que tudo recria; depois, porque no limite está sempre a vida como esperança. Ao contrário, o pensamento de Nietzsche apenas conduz à morte, ao sem sentido; e aqui, na vivência que nos é própria, à luta do mais forte sobre o mais fraco. Pese embora o valor do pensamento – de que eu não abdico – prefiro o meu Deus ao seu «deus». É que Ele não é só divino, mas é igualmente muito mais humano! Só por isso já valeria a pena professar a fé. Mas esta mesma fé perspectiva-nos para horizontes mais largos, face ao mistério da existência humana. E, já agora, se o mal existe, porque existe, é porque Deus sabe respeitar a liberdade individual de cada um. Deus não criou «marionetas» com quem possa divertir-se; criou, isso sim, homens capazes de dialogar com Ele, o que pressupõe uma verdadeira liberdade (possibilidade de opção, de livre arbítrio!) Além disso, este Deus ensina-me o valor da humildade, que se contrapõe à arrogância, o lugar do outro face ao meu eu; o valor da alteridade face ao egocentrismo. Também aqui (sem qualquer juízo das suas acções, que as não conheço, nem aqui são importantes!) divergimos – afinal – nos modelos!

PS. Com o mesmo recurso a post-scriptum, acrescentarei apenas que não me recuso responder a interpelações sempre que estas sejam feitas no claro respeito pelas pessoas e pelas instituições, sejam elas do meu agrado ou não. De outro modo estaremos a usar os meios de comunicação para uma atitude de incorrecção que desdiz de um fim construtivo que se pretende, para além de poderem expressar uma explicita falta de cidadania, que começa num autêntico respeito pela diferença.

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho


(Este artigo foi escrito na sequência de um outro, do autor referido, publicado no Jornal da Mealhada).

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A Sé (Velha) de Coimbra.

A propósito da celebração da Festa da Dedicação da Catedral de Coimbra, celebrada no passado dia 16 do corrente, e sem pretender acrescentar nada de novo ao que muitos, bem mais credenciados do que eu, já afirmaram, permito-me, não obstante, fazer sobre este assunto algumas considerações. E a primeira é a de que, não raro, olhamos as realidades que constituem o nosso património espiritual, cultural e arquitectónico com um excesso de coração que, por vezes, ofusca a nossa razão. Aconteceu comigo na defesa da Sé Nova de Coimbra, reclamando para ela a dignidade que lhe é própria enquanto actual Catedral da Diocese. Contudo, depois de algumas leituras atentas e – mesmo que paradoxalmente – «apaixonadas»; inicialmente das excelentes obras do Reverendo Pe. Dr. José Eduardo Reis Coutinho, sobre a Sé Velha e a Sé Nova de Coimbra (esta última a Igreja dos Jesuítas), a que se seguiu a da excelente obra do grande Mestre Doutor António de Vasconcelos, sobre a Sé Velha de Coimbra; tive oportunidade – essa que advém do esclarecimento – de rever as minhas opções interiores. Assim:

1. É inequívoco o dever de reconhecer o valor da Sé Velha! Não apenas na sua dimensão arquitectónica, enquanto património nacional – pois que esse ninguém o recusa – mas na sua identidade e na natureza da sua construção. Efectivamente, a Sé Velha de Coimbra foi a única Igreja construída, de raiz, para ser a mãe de todas as Igrejas da Diocese. Neste sentido, ela expressa a sua identidade, mas encerra igualmente, na sua história, a dinâmica da construção da Igreja em Coimbra – a história da Diocese – compendiando a vivência de tantos homens e mulheres cristãos que, a partir dela, alimentaram a sua fé, numa comunhão permanente com os Bispos que desde o seu seio conduziram esta «porção do Povo de Deus», que constitui a vetusta Diocese Coimbrã. E que Bispos cruzam a sua história com a da sua Catedral!... Na impossibilidade de referir todos, relembremos apenas alguns dos nomes maiores: D. Miguel Pais Salomão, que constrói a Catedral; D Jorge de Almeida, esse príncipe da Igreja que dotou a sua Catedral, para além de outros elementos, do seu magnifico retábulo; D. Frei João Soares, prelado do Concilio de Trento, que haveria de dotar a sua Igreja da expressiva Capela do Santíssimo, com toda a beleza que a pedra trabalhada nos permite observar; D. Afonso de Castelo Branco, que, para além de Vice-Rei do Reino, foi um dos grandes benfeitores da cidade, onde, ao longo de trinta anos, exerceu proficuamente o seu ministério episcopal; e D. Manuel Correia de Bastos Pina, homem de profunda sensibilidade, cultura e visão esclarecida das realidades, para além de grande empreendedor na valorização do património diocesano, que, entre muitas outras acções, providenciou para que se efectuasse a recuperação da sua antiga Sé. Mas ao lado destes, quantos outros bispos?!... Podíamos referir, ainda, a grandeza de um D. Miguel da Anunciação que, após a sua libertação de Pedrouços, onde esteve encarcerado ao longo de oito anos, regressou à sua Sé, entretanto, mudada de uma para outra Igreja. E com que sentimentos? Enfim… é toda esta realidade viva que se projecta do passado que a veneranda Igreja Catedral de Coimbra reflecte a partir de si.

2. A transição para a Sé Nova – a Igreja dos Jesuítas – insere-se num período complexo das relações do poder régio com as instâncias eclesiásticas, mormente com a Companhia de Jesus, nas quais sobressai a incontornável imagem do Marquês de Pombal. Se é certo que a Igreja dos Jesuítas, vaga após a sua expulsão, servia melhor os ofícios religiosos do Cabido ou aqueles a que os Bispos presidiam, a verdade é que houve uma intenção clara de desapossar a Ordem expulsa de qualquer dos seus bens. A mudança da Sé Velha para a então chamada Sé Nova dá-se a 21 de Outubro de 1772, organizando-se para tal uma imponente procissão, que incorporava muito do clero regular, quase todo o clero secular da Diocese, bem como diversas autoridades locais, como era próprio da organização social no período em questão. Nesta procissão procede-se à trasladação do Santíssimo Sacramento, de uma Igreja para a outra. E, segundo ainda notícia da época, à noite foram várias as luminárias que se acenderam por toda a cidade celebrando esta mudança. Reconhecia-se como Catedral a Igreja dos Jesuítas que, dois dias antes, a 19 de Outubro, havia sido entregue pelo próprio Marquês de Pombal aos Cónegos Nuno Pereira Coutinho e Rodrigo de Almeida, procuradores do Cabido, conjuntamente com o provisor do Bispado, enquanto procurador da Mitra.
Certo é que esta mudança – pela sua natureza e pelos elementos jurídicos e litúrgicos que encerra – não destituiu a Velha Catedral da sua própria identidade. Destituiu-a, sim, simbolicamente, deixando-a entregue a uma certa voragem que em muito a prejudicou. Mas é igualmente inequívoco – como se pode perceber das obras indicadas, da autoria do Reverendo Pe. Dr. José Eduardo Reis Coutinho – que o facto histórico é inultrapassável: a Sé Velha foi construída para ser a Igreja Maior de Coimbra e a Sé Nova mantém, ainda hoje, os seus traços que a definem claramente como Igreja da Companhia de Jesus. Além disso, como refere António de Vasconcelos, apesar destas vicissitudes porque passou a Sé Velha, esta Igreja não perdeu as honras e prerrogativas de Catedral de Coimbra, bem como o seu título, pois que nunca, por direito, lhe foram retirados.
De resto, na sequência da exemplar restauração que, ao longo de quase dez anos, esta Igreja veio a merecer, com os contributos ímpares do Mestre António Augusto Gonçalves, do Bispo Conde D. Manuel Correia de Bastos Pina e da Rainha D. Amélia de Orleans; e após pedido para que se alterasse a data da Dedicação da Igreja de 31 de Agosto para 16 de Novembro, por ser mais condizente com a disponibilidade dos Bispos e do Cabido, vemos como a Cúria Romana anuiu a tal solicitação, através da Sagrada Congregação dos Ritos, por decreto de 26 de Abril de 1916, em que se concedia esta outra data para tal celebração. E referia-se, é óbvio, àquela que, por direito, sempre fora a Catedral de Coimbra.

3. Conclui-se, então, que a celebração da Dedicação da Catedral, a efectuar na Sé Velha, não é apenas um acto de cultura e de sensibilidade. É, sim, um acto de justiça e de verdadeira piedade, num respeito sincero pelo dinamismo espiritual que brotou daquele espaço e que hoje se continua, é certo, na Nova Catedral. Mas esta última não anula, nem substitui a primeira. Aliás, a figura jurídica que os autores nomeados apontam, a que se junta a opinião de muitos outros, como a do actual pároco da Sé Velha, é de todo razoável – que se mantenha como Catedral a Sé Velha e a Sé Nova se reconheça como pró-Catedral. Ninguém, por certo, desejaria mudar a Cátedra do Bispo de uma para a outra Igreja – agora num processo inverso ao que a história registou –; trata-se, isso sim, de reconhecer a mesma dignidade de cada Igreja e de as recolocar no seu justo lugar como expressão visível da Igreja Coimbrã.

Carlos Alberto da Graça Godinho



quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O «CAIM» DE SARAMAGO!

Publicado o romance «Caim» de José Saramago, as críticas da Igreja Católica ao seu novo escrito não se fizeram esperar. Mas, a verdade é que elas foram suscitadas pelo próprio escritor, ao afirmar (num golpe de marketing) que a «Bíblia é um manual de maus costumes» e ao deixar entrever que o seu romance afectaria simplesmente os Judeus e não tanto os Católicos, por estes últimos serem uns ignorantes no conhecimento da Escritura (e não só! Sim, é que das palavras de Saramago depreendem-se outras ignorâncias!). Certo é que o próprio Vaticano já veio desvalorizar tal polémica, dizendo que a Igreja está acima de toda esta controvérsia. Contudo, não deixei de me sentir indignado com a afirmação do escritor quando este referia: «surpreende-me a frivolidade dos senhores da Igreja»! Ora, como frivolidade significa «futilidade», «insignificância» ou «coisa de pouco valor»; sabendo que por tal se expressa – aplicado aos homens da Igreja – uma consideração de gente sem importância nos argumentos a que aduzem (ficando-me agora só por este nível), não deixo de fazer as seguintes considerações:

1 – O Romance, enquanto composição literária, obedece à ficção. Assim cada autor é sumamente livre de criar segundo a sua própria sensibilidade, criatividade e objectivos delineados para a obra que idealizou. Quanto a isto nada há a opor. Aliás, temos magníficos exemplos de criação neste género literário que tanto enriquecem as nossas mundividências e capacidades de pensar a realidade, a partir do seu imaginário. É nesta perspectiva de produção livre que se insere – como os demais Romances – o «Caim» de Saramago: personagem central de toda a obra que percorre uma parte da história bíblica, capaz de ir ao futuro, como «futuro presente», na linguagem do autor.

2 – Todavia, quando um escritor usa algumas fontes, sejam elas históricas, narrativas, mitológicas, ou de qualquer outra natureza, o que dele se espera é que crie na fidelidade a essas mesmas fontes, usando-as com critério sólido, coerente e – condição fundamental – com um conhecimento profundo daquilo que lhe serve de ponto de partida. Ora, o problema de Saramago no seu «Caim» é exactamente a «frivolidade» – de que acusa os homens da Igreja – no modo como usa a Escritura e, concretamente, algumas das suas narrativas. Efectivamente, o autor utiliza o texto da forma mais imediata para atingir os seus fins. Não se preocupa em contextualizar, em inserir o texto no contexto, em compreender o tipo de narrativa que suporta a sua criação; o que produz um ponto de partida manifestamente inconsistente. A abordagem do texto bíblico pressupõe um mínimo de hermenêutica que o autor simplesmente recusa efectuar. Não se trataria aqui, obviamente, de uma exposição teológica, mas de uma fundamentação segura, do ponto de vista científico.

3 – Mas o mais significativo é que Saramago pretende usar o texto para atingir dois objectivos muito claros: branquear a imagem de Caim (ícone da verdadeira humanidade, inteiramente livre) e ridicularizar a ideia de Deus (o mito que interessa apagar da consciência do homem, tornando-o algo de profundamente nefando para a história da humanidade). Neste sentido, Caim é o homem bom, que teve a desdita de matar seu irmão por culpa do próprio Deus; enquanto este último é o ser mau, caprichoso, violento, invejoso, vingativo, vaidoso, desapiedado, a que o autor chega a chamar «louco»; isto para não referir já outros epítetos muito mais contundentes nas considerações que este faz da pessoa divina.

4 – Para além do romance em si – esperando já uma natural reacção das entidades religiosas, porque Saramago não é estulto – a polémica surge nas acusações que o autor formulou contra Deus e contra a Igreja na apresentação do seu livro. Ora, neste sentido, devo dizer ao Senhor José Saramago que a ideia de Deus não só é razoável, como é legítima. De igual modo, na Igreja existe também muita gente inteligente, culta e de grande valor intelectual. Não só nas Ciências Sagradas (nas várias áreas da Teologia, a que pertence o estudo da Sagrada Escritura), como também na Filosofia, na História, na Literatura, entre muitas outras áreas em que tantos se têm distinguido. Nomeadamente no Romance. Portanto, um pouco de humildade e de consideração pelos outros não lhe faria mal nenhum. Quanto à leitura desta última obra da sua lavra, Saramago deve ficar ainda ciente que muitos de nós lemos e estamos atentos ao que no nosso meio se vai produzindo. Passe a imodéstia, tive oportunidade de ler «Caim» no espaço de menos de vinte e quatro horas. Portanto, o velho preconceito de que o clero e demais pessoas da Igreja são ignorantes já teve o seu tempo. Impõe-se um necessário respeito mútuo para que o diálogo seja possível.

Em conclusão, «Caim» é, como já deixei entrever, uma leitura ideológica de algumas narrativas bíblicas, manifestamente de quem tem alguns problemas com a ideia de Deus. E que, consequentemente – mesmo que respeitando a sua legitimidade – mais não faz do que afirmar o seu ateísmo militante. E se as opções de cada um são respeitáveis, não se pode aceitar é que estas se afirmem contra as opções dos outros. Veja-se como no romance todas as personagens aliadas de Deus são mal vistas; enquanto, ao contrário, Caim (a ideia do homem de Saramago) é o herói, o único que permanece capaz de enfrentar Deus. Não seria demasiado compreender – e isto também assiste ao leitor e à sua interpretação – que só o homem que se opõe a Deus é merecedor de permanência, enquanto todos os outros devem desaparecer. Assim termina, de resto, o romance – da arca de Noé apenas saem os animais e a humanidade de Caim. Todos os outros seres humanos foram simplesmente aniquilados. Este epílogo traduz bem a atitude do autor. Legítima, por certo! Mas tão legítima como aquela de quem se lhe opõe e possui um outro entendimento de Deus, do homem e do seu percurso na concretização da história!

Carlos Alberto da Graça Godinho