sábado, 13 de junho de 2009

Crise dos padres, uma oportunidade?

O papel do padre, em vez de se esboroar, tem-se afirmado com um relevo inédito. Pode mesmo dizer-se que o padre se torna cada vez mais importante.

Por bizarro que possa parecer, tornou-se muito raro ouvir falar da identidade ou da função do Padre na Igreja Católica sem associar imediatamente a palavra crise. Se este termo só muito recentemente entrou na gramática do quotidiano para designar a economia e a sociedade, há muito que ele acompanha a definição da figura e da missão do presbítero. Primeiro, porque as estatísticas desenham uma diminuição das vocações sacerdotais e religiosas que não pode não ter consequências.

Segundo, porque o modo como o padre era olhado do exterior também se alterou (o padre detinha um poder simbólico e exercia um magistério social inquestionáveis). E, por fim, e para resumir, a maneira como o Padre olha para si mesmo reflecte também novas interrogações, expectativas e possíveis caminhos. A grande questão é como transformar esta crise, que não é de ontem nem de hoje, numa oportunidade para a perspectivação e vivência deste ministério fundamental.

Há, num contexto de nem sempre fácil leitura, algumas linhas que vão sublinhando a esperança. Uma delas é a percepção paradoxal de que o papel do padre em vez de se esboroar se tem afirmado com um relevo inédito. Pode mesmo dizer-se que o padre se torna cada vez mais importante na vida dos cristãos e das comunidades. À medida que a visibilidade sociológica do padre parece diminuir, cresce a procura para o diálogo e o confronto da vida, as solicitações para acompanhar pequenos grupos e equipas, para estar presente nos momentos mais variados e em contextos mais íntimos. Lendo alguns sinais deste tipo, vemos emergir três eixos que constituem outros tantos desafios para o Padre de hoje:

1. O Padre é chamado a ser cada vez mais um homem da Palavra. Espera-se dele que tenha mergulhado a sua vida e a sua inteligência na Palavra de Deus e possa ser um anunciador, com capacidade de traduzi-la numa linguagem pertinente e actual, agindo com sentido profético e verdadeira sabedoria evangélica.

2. O Padre é chamado a exercer a paternidade espiritual de modo mais intenso, pela disponibilidade para acolher e acompanhar, sublinhando nos momentos diversos o essencial da esperança.

3. O Padre é chamado, até por fidelidade à tradição da Igreja, a sondar e a valorizar as novas fronteiras onde o Espírito se revela.

José Tolentino Mendonça
Fonte: Agência Ecclesia

sábado, 6 de junho de 2009

Preparação para o Matrimónio!

Terminámos hoje a 1ª série de Encontros de Preparação para o Matrimónio, no Arciprestado da Mealhada. É grato concluir que os noivos se manifestaram interessados, próximos, dialogantes e afáveis no trato. Sinal disso mesmo foi a permanência da grande maioria dos casais, no final do encontro, em diálogo informal e convívo sereno - a conversa que permite um mais profundo e sereno conhecimento e estabelecimento de relações de amizade. Mas foi igualmente interessante escutar a sua avaliação dos encontros (o primeiro dinamizado pelo Filipe e o segundo por mim, com a participação também de alguns casais da pastoral familiar arciprestal) - a necessidade de mais tempo para aprofundar algumas temáticas; a abertura a posteriores encontros para continuar alguma reflexão; o interesse das temáticas abordadas; etc, etc. Enquanto regressava a casa pensava no dever que temos de proporcionar espaços do género aos jovens noivos e jovens casais. Não podemos deter-nos em impressões que nos levam a julgar que os jovens podem não estar interessados. Estão! Participam! Reflectem! E dão-nos ânimo para continuar! Achei curioso que um casal de noivos tivesse pedido mesmo mais tempo de preparação, pois o tempo de que dispusémos pareceu insuficiente. Sinal bem positivo! Enquanto Igreja, nós temos o dever de celebrar com os noivos o seu matrimónio sacramental. Mas temos, igualmente, o dever de reflectir com eles; de propor caminhos; de aprofundar escolhas; de abrir espaço à compreensão dos direirtos e deveres da família; de aprofundar a sua importância na Sociedade e na Igreja; e, essencialmente, de os ajudar a perceber o que distingue o matrimónio cristão de outras opções de vivência conjunta. Para tal, temos de empenhar cada vez mais os casais; temos de responsabilizar todos os agentes pastorais, a começar pelos sacerdotes. É que não basta falar da importância da família: temos de ser nós a promovê-la! E tão pouco basta que avaliemos os nossos jovens pela sua maior ou menor capacidade de assumir compromissos no tempo e na cultura hodierna! É nosso dever caminhar com eles! É nosso dever animá-los na opção que escolheram! E não se trata apenas de um dever pastoral; trata-se, também, de uma forma de vivência da Igreja que é comunhão e comunhão no Amor! Mais: este bem pode ser um espaço para viver sinceramente a caridade cristã! Olhando cada rosto, cada casal de noivos (daqueles doze casais iniciais e catorze hoje) não será caridade cristã sentir que podemos - mais ou menos - contribuir para uma vivência mais rica do ponto de vista humano, no compromisso cristão, no compromisso social e, essencialmente, na felicidade de cada um? Prouvera a Deus que sim! Que as nossas palavras possam ser um contributo para seu e nosso bem!
De realçar ainda a preocupação dos casais da pastoral familiar em levar alguns bolos e algumas bedidas, o que nos permitiu permanecer em convívio por algum tempo. É que as relações de amizade, de confiança e de proximidade constroem-se, quantas vezes, deste modo!... E foi bom estarmos juntos em serena conversação sobre vivências, projectos, expectativas... Num espaço em que cada um pode falar de si! A «cumplicidade» faz-se muita vezes assim!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Ano Sacerdotal!

Prestes a iniciarmos um «Ano Sacerdotal», instituído pelo Papa Bento XVI, por ocasião da celebração dos 150 anos da morte de S. João Maria Vianney, o Santo Cura d'Ars, julgo que esta será uma óptima oportunidade para (re)pensar aspectos essenciais da vida sacerdotal. Sem os desenvolver agora, não deixo de referir alguns:


1. A identidade do sacerdote;

2. A espiritualidade sacerdotal;

3. A formação teológica do sacerdote e sua contínua reactualização:

4. Os novos desafios da prática pastoral, como resposta ao «hoje» da Igreja e do Mundo;

5. A pertença a um Presbitério;

6. Novos caminhos para a comunhão e serviço presbiteral;

7. Pastoral vocacional em ordem ao exercício do Ministério Ordenado.

Cada um deste campos será, por certo, motivo profundo de reflexão. Espero eu próprio fazê-la ao longo do ano, porventura partilhando-a aqui. Julgo que este será um momento excepcional de graça para os sacerdotes e para a Igreja. Tanto mais que ser padre, hoje, nos lança desafios tão profundos quanto renovados - na linguagem, no estilo de vida, na comunhão sacerdotal, na capacidade de resposta às inquietações do homem hodierno... Em suma, na capacidade de no aqui e agora - como noutros tempos! - sermos as «actuais» testemunhas de Cristo Bom Pastor!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Obrigado à abstenção!

É curioso como o nosso sistema eleitoral ainda obriga alguns cidadãos a abster-se de votar em alguns dos actos eleitorais. Será esta a minha situação - que me indigna! - no próximo dia 7 de Junho. Na verdade, eu mantenho residência oficial em Águas Belas - Ferreira do Zêzere; mas, por dever de trabalho, resido habitualmente no Luso. Tendo contactado os serviços respectivos da «Direcção Geral da Administração Interna», é-me confirmado que apenas posso votar no espaço de residência oficial! Reserva-se o voto antecipado apenas para um conjunto muito restrito de actividades profissionais, onde não se encaixa a minha situação pessoal. Ora, mantendo residência oficial num espaço que me é habitual e não num outro que, de momento, me é necessário; impossibilitado de me deslocar - por razões de disponibilidade de tempo - à minha mesa de voto; impossibilitado de votar antecipadamente; resta a alternativa: não votar! E eu constato como é curioso este sistema. A proposta que me é feita seria a de alterar a minha residência. Mas como hoje estou aqui e amanhã não estarei, julgo que não devo proceder a tal alteração. Conclusão: porque tenho a (in) felicidade de ser padre - e, portanto, de «trabalhar» ao domingo - apenas voto quando tiver tempo livre para me deslocar! De resto, esta questão dos padres poderá ser semelhante a muitas outras actividades!... O direito de cidadania fica assim limitado! Tanto mais que quando foram marcadas as eleições já eu tinha agenda feita para aquele dia! Não seria de avançar - de vez! - com um sistema de voto electrónico e que as pessoas votassem onde se encontram? Já que tanto temos avançado em termos de informatização de serviços, porque não informatizar esta valorização da cidadania? Fica aqui o meu reparo!

terça-feira, 12 de maio de 2009

A Catequese!

Entre os muitos «problemas» que a Catequese enfrenta nos dias de hoje, parece-me que o fundamental é o facto de se pretender fazer «Mistagogia» sem que exista um verdadeiro «primeiro anúncio». Na verdade, a Catequese continua a pressupôr a intervenção dos pais como agentes desta primeira evangelização, reservando-se, depois, para a compreensão dos grandes mistérios da fé. Ora, como hoje os pais não realizam este primeiro anúncio, ou o realizam com particular dificuldade, a Catequese falha a sua orientação! Necessitamos, portanto, de rever todo o processo. A Catequese tem de inserir na sua dinâmica um espaço de claro e inequívoco primeiro anúncio, que seja preparação para a clebração dos sacramentos e verdadeira conversão à vida cristã. Só depois poderá continuar a desenvolver-se, esclarecendo todas as componentes desta mesma vivência. Não será certamente por acaso que o Arcebispo de Évora, D. José Alves, desafia a Igreja em Portugal a repensar o processo catequético, de modo a que ele forme na fé, insira na comunidade e, igualmente, insira na prática sacramental. É que a falta de prática sacramental é uma evidência desta falha - sem prática sacramental não há verdadeira vida cristã; não há conversão; não há consciência de se ser discípulo. Todos nós conclímos que a nossa Catequese forma teóricamente (quando forma!...), mas não existencialmente. Necesitamos de inverter este processo!

terça-feira, 28 de abril de 2009

D. Nuno Álavares Pereira – Apontamentos de Roma.

Neste Domingo que passou, como muitos outros Portugueses, pude participar em Roma na Canonização de D. Nuno de Santa Maria Álvares Pereira, o Condestável que se tornou «frade donato», para se dedicar totalmente «ao serviço do Senhor, de Maria – a sua terna Padroeira que sempre venerou –, e dos pobres, nos quais reconhece o rosto de Jesus»[1]. Foi uma experiência rica de espiritualidade, de comunhão eclesial e de comunhão presbiteral, já que tive a graça de, com muitos outros sacerdotes, estar no serviço de distribuição da comunhão, o que me permitiu viver mais intimamente toda a celebração Eucarística presidida pelo Papa.
Um conjunto de reflexões me foram surgindo, antes, durante e depois da celebração. Desde logo, as minhas motivações pessoais para me encontrar ali; depois, a participação portuguesa em Roma – tão entusiástica, reconhecida, e claramente feliz com tão significativo acontecimento; e ainda as atitudes expressas por alguns meios de comunicação social, relativamente a um acontecimento que nos deveria mobilizar muito mais profundamente.
1. As minhas razões pessoais talvez sejam, no contexto deste artigo, as que menos peso têm. Todavia, não posso deixar de considerar que foi importante para mim participar na Canonização de um homem que marca indelevelmente a nossa identidade; que é capaz de abandonar todos os seus bens para, numa atitude de extrema humildade servir os mais pobres dos pobres; e que, ainda por cima, é natural – muito provavelmente – de um espaço que me é tão próximo fisicamente. Acrescendo ainda que a freguesia que me viu nascer foi pertença de seu meio-irmão, Rodrigo, que veio a constituir a linhagem dos morgados de Águas Belas. Também aqui nos faz bem sentirmos a «santidade próxima», pois que evidencia esse convite que a Lúmen Gentium do Vaticano II a todos dirige: o convite universal à santidade!

2. Interessante foi a participação portuguesa: cerca de dois mil concidadãos congregados em Roma para celebrar o mesmo acontecimento. Certamente – pelos testemunhos que se puderam recolher – não apenas para celebrar a história, numa figura do passado; mas sim para celebrar a história que, enquanto ciência do passado, lança desafios ao presente e ao futuro. É assim com o Santo Condestável: distante de nós no tempo, é mais que contemporâneo nos desafios que nos lança à vivência de uma séria e profunda identidade cristã. E os portugueses têm consciência disso. De resto, esta poderá ser uma óptima oportunidade para fazer catequese sobre os grandes desafios que nos lança o compromisso da fé, partindo de tão notável testemunho. O Papa referiu-o bem, quando, sem descuidar o enquadramento histórico da sua vida e acção, soube apresentá-lo como modelo de espiritualidade e de serviço ao bem comum, capaz de nos interpelar no hoje da vivência da fé – num mundo que necessita de redescobrir a espiritualidade e de promover, de modo mais decidido, esse mesmo bem comum.
Certamente que esta vivência de tantos concidadãos, expressa na sua alegria e entusiasmo, há-de dar frutos no tempo que se aproxima.

3. Não pude deixar de registar, contudo, algumas reacções da «elite» política e intelectual deste país, que precederam a Canonização. Tais reacções foram – ainda que de modo não muito expressivo – veiculadas por alguns meios de comunicação. Eu próprio expressava assim a minha admiração em mensagem a alguns amigos: «Há uma contestação dos senhores laicos à Canonização de D. Nuno Álvares Pereira que é impressionante. Aliás, bacoca! Se são laicos, porque os incomoda tanto a Canonização deste Santo Português?». Enfim, não me detenho aqui na oposição que parece persistir relativamente a tudo o que vem da Igreja Católica – de maior, ou menor valor para a sociedade portuguesa! Não deixei de considerar como curioso um artigo de tal natureza bem patente num semanário que, nesta semana, contestava a censura, enquadrada no contexto das celebrações do 25 de Abril (Visão nº 482, 23 a 29 de Abril de 2009). Se é certo que o artigo apenas fazia notícia, não deixou de me questionar a exclusiva publicação da «polémica». E o resto? E os outros cidadãos? E o valor simbólico do reconhecimento de um português, mesmo que não numa perspectiva de fé? Não serão dignos de notícia? E porque não a representação a mais alto nível – a representação de Estado? Não foi Nuno Álvares Pereira, ele mesmo, um cidadão que exerceu funções de Estado ao mesmo nível? De resto, num período tão conturbado da nossa história e da nossa independência!... Representação ao mais alto nível não era apenas – como foi – um direito do Estado Português; era também um claro dever! Por vezes fica-me a dúvida se, porventura, alguns destes senhores pensam que o Estado Português apenas surgiu com a República?!.... Pois; mas não: Portugal é uma realidade dinâmica, na qual se congregaram muitos esforços para a erguer como Nação! E o Santo Condestável foi dessas forças maiores! Aliás, Portugal antes da República conta com cerca de oito séculos de história. Construímos na continuidade e não na oposição! Somos o que nos legaram e devemos fazer jus a essa herança!
Se porventura fosse uma personalidade de reconhecida afirmação «laica» bradar-se-ia se as autoridades se não fizessem representar; mas como era uma figura da Igreja, ainda que de reconhecida acção política, minimiza-se! Naturalmente que não peço fé aos governantes – cada um saberá de si! -; mas peço, sim, responsabilidade cívica e política! Por isso a representação do Presidente da República, da Assembleia e das Forças Armadas, fizeram jus ao seu dever! Se, por coincidência de datas, proclamamos a liberdade; se a temos como valor adquirido; se a queremos promover; não coloquemos mordaças aos outros, quando as não queremos para nós! É o mínimo de bom senso. Aliás, uma verdadeira liberdade aceita a diversidade enquanto afirmação de uma séria e madura democracia! Também neste sentido a figura de Álvares Pereira é um desafio à verdade, à coerência, ao respeito pelos outros e pelas suas opções!
Na verdade, muitas são as lições que havemos de recolher deste Homem, deste Estadista, deste Cristão, deste Frade, deste Santo. Sem reservas, que cada um de nós se deixe interpelar por ele. Certamente nem tudo está dito! Pelo contrário: muito terá ainda para nos ensinar!...

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho

[1] “Nuno Álvares Pereira”, Canonizzazione, [Guia da Celebração], Piazza San Pietro. 26 de Aprile 2009, p. 30.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Canonização de D. Nuno Álvares Pereira

Acabo de chegar de Roma, onde participei na Canonização de D. Nuno de Santa Maria Álvares Pereira. Foi uma experiência gratificante participar nesta celebração que nos diz tanto - pelo modelo de vida, pela proximidade identitária, pela nossa história, etc... Se é verdade que o que me moveu a ir a Roma foi, em boa parte, o facto de o Santo Condestável ter (muito provávelmente) raízes pelo nascimento próximas das minhas e de família na terra que me viu nascer; sem dúvida que a sua capacidade de deixar tudo para se dedicar à oração e ao serviço dos pobres, após ter atingido os mais altos reconhecimentos do Reino que era o seu, numa extrema humildade, tem um significado bem real - enquanto modelo - para os dias de hoje. O Papa referiu-o bem na sua homilia (curiosamente feita em portugês, quando se referiu a São Nuno). Dizia, entre outras considerações, que este é um modelo para um mundo que tanto carece do aprofundamento da vida espiritual. Sobre a intervenção Papal (que muitos puderam ouvir pelos meios de comunicação), vários aspectos há a salientar, mas que reservo para outros momentos. A mim, pessoalmente, fez-me muito bem este «retiro» no Vaticano. Se é certo que a multidão - como é normal - estava presente nos vários espaços (multidão de que eu fiz parte em vários momentos); também é verdade que consegui ter espaços de recolhimento pessoal (mesmo no meio dessa mesma multidão). A Capela do Santíssimo, a Capela da Reconciliação, conservam-se como lugares de alguma interioridade em plena Basílica de São Pedro. Mas também é possível o recolhimento junto ao túmulo do Papa João XXIII, apesar da contínua passagem de visitantes. Foi para mim um momento de grande doçura este, junto do túmulo do Bom Papa. Outro momento marcante, para mim e para tanta gente que ali vi recolher-se, foi a passagem junto do túmulo do Papa João Paulo II. Pude passar ali em duas ocasiões. Quer numa, quer noutra, sentia-se que junto àquele túmulo se deixava a atitude de simples visitante para assumir a atitude de peregrino. A tendência era mesmo prolongar a presença no local, pelo que estavam permanentemente funcionários do Vaticano a assegurar que as pessoas circulavam. Mas foi pssível - para mim e para muito outros - recolher-me num espaço paralelo ao da passagem e ficar alguns momentos em silêncio. Mas, de todos os momentos, deter-me numa das Capelas de celebração, diante do Sacrário, enquanto alguns Bispos, seminaristas (julgo que o seriam) e acólitos cantavam as Vésperas de Domingo, foi outro momento de profundo descanso espiritual; aquela sensação de abandono ao Amor que não nos abandona!... E de Lhe podermos confiar a vida - a nossa, a dos que nos são caros, dos nossos paroquianos e vida das Paróquias, da Igreja Diocesana e Universal, as vocações... e a vida de tantos que se recomendam à nossa oração sacerdotal e fraterna!...
Sem dúvida que outro privilégio foi celebrar com o Santo Padre e em comunhão com toda a Igreja. Tive a possibilidade de, com muitos outros sacerdotes, ficar ao serviço da distribuição da Eucaristia. Para tal fomos colocados na escadaria próxima da Cátedra do Santo Padre. Mais que o privilégio, a comunhão eclesial! Nem a propósito, do meu lado direito ficou um padre francês - Padre Yves - que tinha acabado de conhecer na Basílica de São Pedro, enquanto nos preparavamos para a celebração, padre de grande afabilidade e espírito de comunhão sacerdotal; do meu lado esquerdo, um dos meus mestres de espiritualidade em Coimbra, o Padre Jesuíta Alberto Brito, agora ao serviço da Companhia de Jesus em Roma. «Como o mundo é pequeno», dizia-me. E é verdade! Curioso é que para poder servir ao altar tive de adquirir batina. Também isto não deixa de ter o seu quê de interessante, embora possa parecer jocoso. Foi necessário regressar a Roma, doze anos depois da primeira vez, e mais de dezassete após a minha ordenação, para adquirir a minha primeira batina. E acabo por perceber, contra qualquer tese de extremo, «nem sempre, nem nunca»! Aliás, ali entendia-se verdadeiramente a sua necessidade de acordo com o serviço prestado. De pouco me valeu levar túnica, pois, admitido ao serviço do altar, sem veste talar tal não seria possível. E é curioso como o serviço é tão cuidadosamente organizado, com eficiência, simplicidade e afabilidade. A atitude do ainda jovem sacerdote cerimoniário, que orientou a nossa participação, foi disto mesmo um exemplo - sem ostentação, conseguiu cativar pela autoridade simples; sem dureza, pela afabilidade; sem artificialismo, pela competência; organizou o serviço de tantos padres que, como eu, provinham de vários espaços (embora no dia de ontem mais italianos e portugueses do que de qualquer outra nacionalidade, o que é compreensível, uma vez que foram canonizados quatro beatos italianos e um português). Enfim... neste primeiro apontamento deixo aqui algumas impressões interiores e experiências vividas que se podem tornar construtivas para os que, comigo, partilham este espaço. Esta é simplesmente uma partilha familiar. Fica-me um desejo - que desta vez não concretizei! -, que é o de poder reunir um conjunto de cristãos das comunidades que me estão confiadas, e mesmo de outras, e podermos fazer, em comunhão, esta bela experiência de Igreja. Quem sabe se o futuro, que é de Deus, no-lo não virá a permitir!?....
Pe. Carlos Alberto Godinho