sábado, 18 de abril de 2009

Os Álvares Pereira e Águas Belas!

Já há algum tempo escrevia aqui sobre algum relacionamento familiar de D. Nuno Álvares Pereira com a minha freguesia de origem - Águas Belas. Esse relacionamento advém do facto de o Santo Condestável ser meio irmão de D. Rodrigo Álvares Pereira, ambos filhos de D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior do Crato.
Efectivamente, D. Rodrigo Álvares Pereira, legitimado pelo Rei D. Pedro a 26 de Agosto de 1357, foi constituido pelo seu tutor, Álvaro Fernandes, escudeiro do Infante D. Pedro, a 6 de Setembro de 1356, morgado da Quinta de Orjais e de Águs Belas (Ferreira do Zêzere), com todas as dependências, senhorio, couto, honra, jurisdição e padroado da igreja. (1) A instituição do morgado de Águas Belas viria a ser confirmada por D. Pedro, a 20 de Maio de 1361. (2)
Acrescem ainda outros senhorios que lhe foram doados, agora por D. Fernando, a 14 de Dezembro de 1375, como as vilas de Sousel, Vila Nova, Vila Ruiva, e as azenhas de Anhalouro e de Bamlhequero, no termo de Estremoz. (3)
Relativamente a Águas Belas o mesmo atesta o excerto seguinte:
«A história desta localidade anda de braço dado com a da fundação da nacionalidade e com as principais famílias do Reino, daí que num documento datado de 1222 encontramos já uma referência, quiçá a mais remota que se conhece, a "abas de aquabela" o que nos permite concluir não só da antiguidade deste povoado como da existência de um representante do clero nos seus limites geográficos.
Já no século XIV, mais concretamente em 6 de Setembro de 1356, El Rei institui um Morgado de Aguas Belas entregando-o ao fidalgo Rodrigo Alvares Pereira, irmão daquele que viria mais tarde a ser o Condestável do Reino e filhos ambos de Alvaro Gonçalves Pereira.» (4)
Ora, D. Rodrigo torna-se assim o primeiro senhor de Águas Belas; sucedendo-lhe depois Álvaro Pereira, Galiote Pereira, João Pereira, Rui Pereira, sendo posteriormente integrado na Coroa, uma vez que Rui Pereira não teve descendentes. Todavia, Violante Pereira contesta esta decisão, tendo ganho a posse do morgado de Águas Belas que passou para as mãos de seu filho. Violante Pereira havia casado com Francisco Sodré, que viria a morrer na Índia. (5) Deste casamento advém o nome dos Sodré Pereira, que continuaram a ser os senhores de Águas Belas. (6)
D. Rodrigo, que lutou ao lado de D. João I, o Mestre de Avis, na defesa de Lisboa contra os castelhanos e no cerco de Torres Novas, viria a ser aprisionado na sequência desta última batalha, e libertado em Santarém, quando esta cidade voltou à posse de Coroa Portuguesa. Todavia, fruto de algumas «desinteligências», viria a morrer em Castela, perdendo algumas mercês. (7)
Ora, aqui está toda uma realidade histórica que religa a minha «pátria» à memória da família Álvares Pereira. Desde miúdo ouvia falar da Quinta dos Pereira, na chamada Águas Belas velha, sem saber deste relacionamento familiar.
Aqui está também uma razão, que por si só, legitima esta vontade indómita de participar na canonização de D. Nuno. Certamente acrescida de muitas outras: a sua santidade - deste santo Português -; a sua intima relação com nossa identidade; a sua capacidade de se desprover de tudo para abraçar o «bem maior»; e, mesmo, a sua relação com a Ordem do Carmelo, que me faz ligá-lo espiritualmente àqueles que, mais tarde, apenas no século XVII, povoaram e renovaram a bela Mata do Buçaco - a Ordem dos Carmelitas. Por tudo isto, participar num momento tão significativo da nossa memória, da nossa identidade e da nossa espiritualidade, torna-se para mim um dom.







(1) Sérgio Sodré, www.geneall.net
(2) Ibidem
(3) Ibidem
(5) Sérgio Sodré, www.geneall.net
(6) Ibidem
(7) Ibidem
Vide também http://www.geneall.net/ (Rodrigo Álvares Pereira e D. Nuno Álvares Pereira)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Igreja: regresso às origens!

Detendo-me algum tempo numa pesquisa sobre a Igreja, na Internet, constatei que nela encontramos uma multiplicidade de artigos, opiniões e comentários sobre a «crise da Igreja». Muitos afirmam que ela provém da infiltração do «modernismo» no seu próprio seio. Há mesmo quem chegue a afirmar que o maior problema da Igreja é a sua «falta de paternidade». Alguém ainda, numa crítica ao Vaticano II, considerava este Concílio o «culpado» do momento presente, já que este foi um «concílio atípico», como ali se escrevia. Fiquei estupefacto com o conjunto de artigos que apelam a um regresso ao exercício do poder, a um certo «triunfalismo», a uma atitude muito mais jurídica do que carismática - mais centrada no exercício da lei do que na graça, que a Igreja é chamada a anunciar e a celebrar. No meu interior, duas questões se formulavam: porquê este regresso ao «triunfalismo»? Que atitudes ou que realidades têm fundamentado esta ânsia de afirmação mais consentânea com a ala conservadora da Igreja? E não hesito em responder, mesmo que correndo o risco de ser simplista: a incapacidade de a Igreja continuar a trilhar o caminho que definiu para si própria - uma Igreja de Comunhão, de verdadeira Colegialidade, de promoção de uma participação igual de todos os fiéis, como consequência de uma mesma dignidade baptismal, como advoga a Lumen Gentium do Vaticano II! O Pontificado de Bento XVI poderá vir em auxilio desta visão conservadora, que com tanta força se vai manifestando no novo areópago da comunicação. As suas tomadas de posição - nomeadamente em relação aos mais tradicionalistas; ou, mormente, no levantamento da excomunhão dos bispos «lefebvrianos», como são conhecidos; a sua concepção «monárquica» da Igreja, com uma perspectiva centralizadora; o seu regresso ao rito litúrgico do pré Vaticano II; a forma como se apresenta, não raro ostentando alguns sinais de regresso ao passado no uso de alguma indumentária papal; certamente que dão um tom muito próprio a este Pontificado. Ora, num mundo marcado por uma mudança célere, que cada vez menos parece identificar-se com esta «visão da Igreja», fica-me a preocupação interior: até que ponto estamos, ou não, a ser fiéis à missão que nos cabe - que outra não é senão evangelizar cada tempo -, numa atitude de convergência com o tempo que é o nosso? Óbviamente que entendendo «convergência» não como aceitação irreflectida de todas as propostas da pós-modernidade em que vivemos (tantas vezes vazia de sentido!), mas numa atitude de verdadeiro diálogo com o presente. Dá-me a sensação que perante desafios tão profundos, como estes que o presente nos coloca, a Igreja se escuda num conjunto de sinais que nos fazem regressar ao passado!... Inequivocamente, a Igreja, na hora presente tem de fazer um sincero «aggiornamento»: assumir esta hora e suas preocupações e responder-lhes com actualidade, com determinação, com confiança; mas apenas baseada na força da Palavra e no dinamismo do Espírito que a torna actual. Neste sentido, a Igreja tem de regressar ao passado, sim; não ao passado mais recente (que aqui compreendemos, de modo alargado, como os últimos cinco séculos), mas sim ao passado mais distante, o da primeira geração da Igreja - à Igreja das origens, dos apóstolos, dos padres... Isso: aos primeiros séculos. Inequivocamente aqueles que maior luz lançam sobre a nossa realidade presente e nos permitem iluminá-la com o verdadeiro «esplendor da verdade»!

A causa da Crise na Igreja è a infidelidade ao Vaticano II e o medo das reformas.

Cerca de 300 teólogos e responsáveis de comunidades de base (dentre eles, Juan José Tamayo, Imanol Zubero, Evaristo Villar, Juan Masiá e Juan Antonio Estrada) assinaram um documento intitulado "Frente à crise eclesial", em que constatam a "perda de credibilidade da instituição eclesial", cuja "causa principal é a infidelidade ao Vaticano II e o medo frente às reformas que ele exigia da Igreja".
A reportagem é do sítio Religión Digital, 08-04-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eles exigem "a urgente reforma do entorno papal", denunciam a "incapacidade para escutar" da hierarquia e a "dupla atitude de mão estendida a posturas muito próximas da extrema direita autoritária (mesmo que sejam infiéis ao evangelho e inclusive atéias) e de golpes sem misericórdia contra todas as posturas afins à liberdade evangélica".
Eis o documento.

Frente à crise eclesial


Somos conscientes de que este escrito é um procedimento extraordinário, mas parece-nos também que é extraordinária a causa que o motiva: a perda de credibilidade da instituição católica, que, em boa parte, é justificada e que os meios de comunicação já converteram em oficial, está alcançando cotas preocupantes. Esse descrédito pode servir de desculpa para muitos que não querem crer, mas é também causa de dor e de perplexidade para muitos crentes. Principalmente a eles nos dirigimos.


1. A Igreja foi definida desde antigamente como santa e pecadora, "casta prostituta". Crises graves nunca faltaram em sua história, e a atual pode doer-nos, mas não nos surpreender. Toda crise é sempre uma oportunidade de crescimento, se soubermos, nesses momentos, "não nos envergonhar do Evangelho" e amar a nossa mãe. Sabendo que o amor a uma mãe doente não consiste em negar ou dissimular a sua enfermidade, mas em sofrer com ela e por ela. Se desejamos uma Igreja melhor não é para militar no clube dos melhores, mas porque o evangelho de Deus em Jesus Cristo a merece.


2. Não há aqui espaço para longas análises, mas parece claro que a causa principal da crise é a infidelidade ao Vaticano II e o medo frente às reformas que ele exigia da Igreja. Ainda durante o Concílio, fizeram-se duríssimas críticas à cúria romana. Mais tarde, Paulo VI tentou colocar em marcha uma reforma dessa cúria, que esta mesma bloqueou. Depois, é muito fácil converter um papa em bode expiatório das falhas da Cúria. Por isso, preferimos expressar daqui a nossa solidariedade a Bento XVI, em nível pessoal e apesar das diferenças que possam existir em níveis ideológicos: porque sabemos que os papas não são mais do que pobres homens como todos nós, que não devem ser divinizados. E que, se algum erro grave foi cometido em todos os pontificados anteriores, foi precisamente o fato de deixar bloqueada essa urgente reforma do entorno papal.


3. Uma das consequências desse bloqueio é o injusto poder da cúria romana sobre o colégio episcopal, que deriva em uma série de nomeações de bispos à margem das igrejas locais e que busca não os pastores que cada igreja necessita, mas peões fiéis que defendam os interesses do poder central e não os do povo de Deus.
Isso tem consequências cada vez mais perceptíveis: uma delas é a dupla atitude de mão estendida a posturas muito próximas da extrema direita autoritária (mesmo que sejam infiéis ao evangelho e inclusive atéias) e de golpes sem misericórdia contra todas as posturas afins à liberdade evangélica, à fraternidade cristã e à igualdade entre todos os filhos e filhas de Deus, tão clamorosamente negada hoje. Outra consequência é a incapacidade para escutar, o que faz com que a instituição esteja cometendo ridículos maiores do que os do caso Galileu (pois este, ainda que tivesse razão em sua intuição sobre o movimento dos astros, não a tinha em seus argumentos; enquanto que hoje a ciência parece administrar dados que a Cúria prefere desconhecer: por exemplo, em problemas referentes ao início e ao fim da vida). Vê-se assim a proclamada síntese entre fé e razão colocada em suspeita.


4. Mais além dos diagnósticos, queríamos ajudar com atitudes de fé animosa e paciente para essas horas escuras do catolicismo romano. Deus é maior do que a instituição eclesial, e a alegria que brota do Evangelho capacita até para carregar esses pesos mortos. Não vamos romper com a Igreja, nem que tenhamos que suportar as iras de parte da sua hierarquia.
Mas tememos a lição que a história nos deixou: as duas vezes em que o clamor por uma reforma da Igreja foi universal e não ouvido por Roma estão relacionadas com as duas grandes rupturas do cristianismo: a de Fócio [1] e a de Lutero. Isso não significa que a ruptura fosse legítima: só queremos dizer que as cordas não podem ser muito estendidas. Também não vamos romper porque a Igreja a que amamos é muito mais do que a cúria romana: sabemos bem que apenas há infernos nesta terra onde não se destaque a presença calada de missionários ou de cristãos que dão ao mundo o verdadeiro rosto da Igreja.


5. Durante grande parte de sua história, a Igreja foi uma plataforma de palavra livre. Hoje, ninguém acreditaria que um santo tão amável como Antônio de Pádua pudesse pregar publicamente que, enquanto Cristo tinha dito "apascenta minhas ovelhas", os bispos de sua época se dedicavam a ordenhá-las ou a tosquiá-las. Nem que o místico São Bernardo escrevesse ao papa que ele não parecia sucessor de Pedro, mas sim deConstantino, para continuar perguntando: "São Pedro ou São Paulo faziam isso? Mas já vês como o zelo dos eclesiásticos é abundante para defender a sua dignidade". E terminar dizendo: "Se indignam contra mim e mandam eu calar a boca, dizendo que um monge não tem por que julgar os bispos. Mas eu preferiria fechar os olhos para não ver o que eu vejo"... Precisamente comentando esse tipo de palavras, o papa atual escrevia em 1962 (em um artigo intitulado "Liberdade de espírito e obediência"): "É sinal de que os tempos melhoraram se os teólogos de hoje não se atrevem a falar dessa forma? Ou é um sinal de que o amor diminuiu, que se tornou apático e já não se atreve a correr o risco da dor pela amada e para ela?".
Assim gostaríamos de falar: não nos sentimos superiores, pois conhecemos bem, em nós mesmo, qual é a profundidade do pecado humano. A Escritura, falando dos grandes profetas, ensina que o seu destino não é o protagonismo, mas sim a incompreensão; e frente a isso nos obrigam as palavras do apóstolo Paulo: "Se nos ultrajam, bendiremos, se nos perseguem, aguentaremos, se nos difamam, rogaremos". Mas nos sentimos chamados a gritar, porque também ali há uma imprecação impressionante que tememos que tenha aplicação em nosso momento atual: "Por vossa causa, o nome de Deus é blasfemado entre as gentes!".
Com os olhos "fixos em Jesus, autor e consumador da fé", sabemos que podemos superar esses momentos duros sem perder a paciência nem o bom humor num o amor para com todos, incluindo aqueles cujo governo pastoral nos sentimos obrigados a criticar. Esse é o testemunho que gostaríamos de dar com estas linhas.


Notas:
1. Fócio (820-891) é tido como um dos mentores do Grande Cisma do Oriente, que separou a Igreja Ortodoxa da Igreja Católica. Fócio queria obter o mesmo reconhecimento e primazia do papa, no que foi criticado pelo Ocidente. Em correspondência mantida com Roma, dizia que "se o papa determinasse que apenas uma igreja da Itália reverenciasse seu nome, o papa seria reverenciado em todas as igrejas do Oriente", proposta inaceitável e que indispôs entre si a Igreja Latina e os Patriarcado de Constantinopla. Posteriormente essa crise foi subjugada com a deposição se Fócio, mas as feridas na unidade da Igreja permaneceram e foram se intensificando, até o Grande Cisma de 1054 d.C., quando da ruptura definitiva entre Roma e Constantinopla.

sábado, 4 de abril de 2009

Problemas de Linguagem? Ou incapacidade de aceitar a diferença?

A questão do uso ou não do preservativo, como elemento profilático na prevenção da Sida, tem gerado uma excessiva controvérsia. Agora é o parlamento Belga quem aprova uma «resolução» na qual pede ao governo que «condene as afirmações feitas por Bento XVI», na sua viagem para África. Efectivamente, o Papa reafirmou a perspectiva humanizadora da sexualidade, de acordo com o pensamento da Igreja. Naturalmente, que estamos perante o «ideal», a perspectiva da resposta mais adequada à vivência da sexualidade. Todavia, a Igreja não pode deixar de olhar com compaixão para as realidades concretas, sabendo - sem perder os ideais - apontar caminhos que possam conduzir à opção pelos bens maiores. Neste sentido, a vida será sempre um bem maior; e optar por ela é um dever - que a Igreja proclama e promove. Neste sentido, o uso do preservativo é, óbviamente, um mal menor. Talvez o modo de comunicar necessite de ser revisto - sem deixar de afirmar os ideiais, responder às pessoas em concreto. Por outro lado, é confrangedor o modo como os meios de comunicação veículam as notícias. Nada é enquadrado no seu contexto; não há espaço para a reflexão; para uma abordagem séria das realidades!... Tudo parece reduzir-se ao «slogan», ao imediato, ao truncado... Precisamos de reacertar todos as nossas linguagens - a igreja falando ao homem concreto, em circunstâncias concretas; a comunicação social, assumindo um papel mais sério e criterioso na abordagem das problemáticas que nos faz chegar. Tudo a bem da pessoa humana. Sem interesses parciais, mas sim na busca da verdade - a única que nos convém!
Carlos Alberto G. Godinho

sábado, 28 de março de 2009

Bispo de Viseu admite preservativo ( e outras questões!)

Causou algum escândalo a afirmação do Papa, várias vezes repetida como tese da Igreja, de que o preservativo não é a solução para o combate ao vírus da SIDA. Que queriam que ele dissesse? Afirmando que sim, banalizava o valor, o sentido e a vivência da sexualidade, enquanto dimensão do ser humano, centro, símbolo e expressão das relações profundas da pessoa, a viver no amor, na fidelidade (confiança recíproca), na estabilidade e na responsabilidade.
O Papa, quando fala da SIDA ou de outros aspectos da vida humana, não pode fazer doutrina para situações individuais e casos concretos. Neste caso, para relações entre uma pessoa infectada e outra que pode ser afectada com a doença. Nestes casos, quando a pessoa infectada não prescinde das relações e induz o(a) parceiro(a) (conhecedor ou não da doença) à relação, há obrigação moral de se prevenir e de não provocar a doença na outra pessoa. Aqui, o preservativo não somente é aconselhável como poderá ser eticamente obrigatório.
E não tenhamos medo ou reserva mental ou hipocrisia de admitir esta doutrina! Não usamos tantos “auxiliares” artificiais para promover a vida e defender a saúde? As intervenções cirúrgicas, os fármacos, as próteses e tantas outras técnicas ao serviço da pessoa, em situação de doença, não são formas de ‘preservar’, defender e promover a saúde?...
Então, porquê esta afirmação do Papa a veicular uma doutrina e, precisamente, na viagem para África – o continente mais atingido por esta doença? Como doutrina, como ideal, como princípio de dignidade, defesa e promoção da vida humana, o Papa não pode dizer outra coisa. Como, também, deverá ser a deontologia do médico, praticando a medicina para promover e defender a vida em todas as circunstâncias possíveis, ainda que, para defender valores em conflito, possa pôr-se perante situações inevitáveis de morte…
Ainda bem que o Papa não cede a tentações de simpatia, facilitismo ou conveniência!... Esta é parte da sua cruz pascal (também da Igreja, dos Bispos, dos Sacerdotes, dos Cristãos) – ter valores e causas a defender para a realização integral da pessoa humana e gastar a vida por eles, ao serviço da dignidade e sentido da pessoa e da sua plenitude. Será falta de hábito e de cultura da exigência e da honestidade, numa sociedade tão relativa, tão mínima e tão pouca ambiciosa e coerente na defesa das pessoas e dos seus valores? Será tão fácil o escândalo farisaico de quem não sabe interpretar as diferenças entre valores e princípios gerais, por um lado e situações concretas e pessoais, por outro?
Sim... Está aqui a grande diferença: a chamada “lei da gradualidade” explica que, existindo a lei geral a afirmar, a exigir e a promover valores, eles não esmagam a pessoa concreta, em situações muito individuais… Eles dão a mão com paciência, tolerância e compreensão para que a pessoa “situada” compreenda, aceite e queira caminhar, ao ritmo de um ideal libertador, defendido por uma lei orientadora. Acredita-se sempre no ideal que a pessoa é chamada a atingir, porque a dignifica e valoriza, ainda que demore algum tempo ou não chegue nunca a atingi-lo.
Este é o papel da formação personalizada e libertadora, dada individualmente ou em pequeno grupo, sempre como desafio à conversão e à vida digna e feliz. O legislador, como referência do ideal a amar e a seguir, não pode deixar de estar acima e ser exigente, apelando, com a sabedoria de mestre e, sobretudo, com o amor e a proximidade de pai, a um grande ideal, percorrendo um caminho juntos, indo até onde for possível. Sobretudo, nunca abandonando a pessoa.
A terminar: como são parciais e intencionais as apreciações da doutrina da Igreja veiculada pelo Papa para o Continente Africano e não só!...
O preservativo teria sido o tema mais importante – quase único? Mesmo a respeito do tema da SIDA, foi a única coisa que o Papa disse?
E outros temas, como a pobreza, a fome, a justiça social (…) e os apelos a que os países ricos cumpram os seus compromissos a favor do desenvolvimento?... E a denúncia de que África não pode ser vista como o “reino do dinheiro”, explorando a sua riqueza e as suas matérias-primas, deixando este Continente entregue à sua insuficiência económica, industrial e financeiramente?... E os desafios, feitos aos jovens, convidando-os à coragem da aventura e a que não tenham medo das decisões definitivas, sabendo que a vida está dentro deles?... E os desafios entreabertos e a aprofundar, quando denomina a África como o “Continente da Esperança”?... E a coragem que o Papa manifesta, ao falar e abordar tantos temas incómodos?... E como entender a coragem e a capacidade de um homem, com quase 82 anos, que enfrenta situações desta natureza para ir falar, no lugar próprio, dos temas e das causas que defende e nos quais acredita, ainda que saiba que são incómodos para tantos?...
Ao serviço de quem estão tantos meios de comunicação social, tantos “opinionmakers” e tantos poderes instituídos, que mais parecem donos ou correias de transmissão de interesses económicos e políticos que dos direitos, liberdades e dignidade da pessoa humana, a começar pelas mais pobres e mais indefesas?...
Alguns perderam mesmo uma grande oportunidade de trazer para a reflexão dos “grandes” os grandes problemas dos “pequenos” que – infelizmente – continuam a não ter voz nem vez no actual (des)concerto das nações.

Ilídio, Bispo de Viseu.
Nota pessoal: Reproduzo aqui este texto por me parecer muito clarividente, humano e verdadeiramente apostólico.

sábado, 7 de março de 2009

Em tempo de Quaresma!....

Em tempo de Quaresma, antes de quereres amar a Deus, deixa que Deus te ame a ti!... Antes de quereres mostrar-Lhe o teu amor, reconhece o Amor que Ele tem por ti... Antes de quereres falar-Lhe do muito que te invade o coração, deixa que Ele te encha da Sua Palavra... Antes de pedires a Paz e a Alegria, deixa que Ele te plenifique... A Quaresma, antes de ser tempo em que procuramos fazer muito, é uma graça em que somos convidados à escuta! No silêncio, na meditação, no despojamento, na confiança.... deixemos-nos abraçar pelo nosso Deus!



Pe. Carlos Alberto Godinho

Caritas quer salvar da SIDA 800 crianças por dia.

A Organização católica diz que os menores foram esquecidos nos esforços da comunidade internacional.
Salvar da SIDA 800 crianças por dia é o objectivo da última campanha global lançada pela Caritas, intitulada “HAART” (Highly Active Anti-Retroviral Therapy – terapia antiretroviral altamente activa), promovendo um maior acesso a testes e tratamento do HIV para os menores.
Com a campanha HAART (com um sonoridade semelhante à palavra coração - «heart» - em inglês), a organização católica para a solidariedade e a ajuda humanitária pede a governos e companhias farmacêuticas que desenvolvam tratamentos que podem salvar a vida de centenas de crianças, a cada dia que passa.
Em comunicado oficial, a Caritas recorda que as crianças nos países mais pobres não têm acesso a medicamentos pediátricos, que lhes poderiam permitir uma vida mais longa e saudável. Por outro lado, quando consegue ser testados, já é demasiado tarde, na maioria dos casos.
A organização católica lembra que muitas das crianças que morrem diariamente nem sequer teriam sido afectadas pelo HIV se as suas mães tivessem sido correctamente tratadas durante a gravidez.
A Caritas convida jovens de todo o mundo a unirem-se à campanha, pressionando os governos e companhias farmacêuticas.
Francesca Merico, delegada da “Caritas Internationalis” junto da ONU, em Genebra, diz que “sem tratamento adequado, mais de um terço das crianças nascidas com HIV irão morrer antes do seu primeiro aniversário e metade delas antes dos dois anos de idade”.
Esta responsável acusa as companhias farmacêuticas de não mostrarem interesse nos tratamentos antiretrovirais para crianças porque estes se destinam, sobretudo, “aos países pobres”.
“Como é possível que o lucro se sobreponha às pessoas? Queremos que os líderes políticos digam às crianças do mundo que promoveram e respeitaram o seu direito à saúde”, conclui Francesca Merico.
Fonte: Ecclesia