
"Dominar a força é vencer; dominar a sabedoria é governar!"
"A Dança", Ramalho Ortigão, Histórias Cor-de-Rosa.
Após a Ordenação Espiscopal de D. João Lavrador, retenho aqui três impressões pessoais: 1. A beleza da celebração; 2. A acção do novel Bispo, a nível diocesano; 3. Ao lado do ganho para a Igreja em Portugal, o sentimento de perda para a Diocese de Coimbra.
Propostas de meios pastorais para a vivência do Ano Paulino:
O que é o amanhã? O amanhã é nada! O que existe é o presente, o aqui e agora. Amanhã partiremos e tudo permanecerá. Mas desta vez sem nós. E então deixa de ser, porque só nós damos alma, sentido, profundidade a todas as coisas. As coisas existem porque eu as reconheço, porque as consciencializo, lhes dou existência!
Hoje pensei duas vezes antes de escrever esta «postagem»! Questionei-me: devo ou não escrever? Devo ou não expôr-me? Mas, por vezes, é bom expôrmo-nos e deixar a clara certeza de que um padre, como os demais, se alegra, se entristece, vive momentos de nostalgia, de dor, de solidão, de esperança, de confiança... Hoje senti-me particularmente só na vivência do meu Ministério! Sem dúvida que este sentimento acusa o desgaste próprio de um fim de ano tão intenso (talvez demasiado intenso, numa pluralidade de acções!). Mas a verdade é objectiva e não apenas subjectiva. Nunca me senti tão só na vivência do Ministério! E olho para os últimos dois anos, comparando-os com os anteriores que pude viver. Quando experimentei a fatalidade de ficar só neste arciprestado, após a partida dos dois colegas com quem trabalhei ao longo de sete anos, aguentei-me de «pedra e cal», procurando dar resposta às solicitações que, então, passaram a multiplicar-se. Esperei que tudo fosse passageiro, com a eminência de uma nova resposta para este espaço. Todavia, não o foi! Estamos dois padres numa mesma unidade territorial, mas cada um fazendo a sua vida. Não culpo quem chegou - também ele apanhado, quem sabe? - na encruzilhada do caminho! Posso até culpar-me a mim, já que, diante de uma postura muito diferente, não fui capaz - também eu! - de criar uma outra relação de proximidade! Mas fi-lo consciente de que não queria ser a sobrecarga para quem chegava numa tarefa exigente! E passado um ano vejo-me muito mais só, muito mais absorvido - sem tempo para mim, para as minhas questões pessoais, para a minha família... Ter um dia livre, como acontecia habitualmente, passou a depender do ritmo do próprio trabalho, da «sorte» de não surgir o inesperado.... E psicológicamente acuso este cansaço! Falta-me, como ao comum dos mortais, um tempo para o devido descanso, para sair, para me encontrar com os colegas, para fazer uma experiência mais profunda de comunhão familiar. E olhando para trás, no emaranhado de tarefas em que me envolvi - bem sucedidas, é certo! - contemplo-me mais isolado, mais só, mais nostálgico! E, inevitávelmente, sobrevém a recordação (recordare -trazer de novo ao coração!) de quem partiu e deixou espaço vazio. Falta a presença, o diálogo, o sorriso, a amizade, a partilha, a entreajuda... Falta-me, quiçá, neste novo quadro também a humildade, o esforço de aproximação... Mas também é certo: tudo foi pensado em dinâmicas diferentes! Por muito que afirmemos a necessidade de partilha entre nós, a verdade é que essa proposta de entreajuda, de comunhão, devia partir de cima, de quem propõe, de quem nomeia, de quem tudo faz para criar espaços de empenhamento solidário e fraterno. E, infelizmente, não foi isso que aconteceu! Isto não é queixa, não é acusação... é desabafo! Necessitamos de criar uma mentalidade diferente! Por ora, sinto que para o Bispo Diocesano o seu problema está resolvido; para as comunidades, melhor ou pior, têm quem as sirva e, portanto, não sentem necessidade de se preocupar; para nós, padres, cada um permanece na sua «quinta», qual propriedade privada, de responsabilidade inteiramente pessoal. E a sensação acaba por ser esta: de isolamento, de responsabilidade unilateral no espaço de intervenção pastoral, de aguentar enquanto se pode... mesmo que o cansaço, o ânimo, a alegria da presença, se esbatam!
Hoje dava comigo a pensar como se desrespeitam tantos direitos fundamentais. E um deles, é o direito ao trabalho! Afirma-o A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, quando refere: «Todas as pessoas têm direito de trabalhar e de exercer uma profissão livremente escolhida ou aceite» (Art. 15). Na verdade, como tantos outros, este é um bem essencial - indispensável para a salvaguarda da dignidade humana! - que continua a ser desrespeitado! Quanto vezes me interrogo: como poderá uma família ter paz, ter o mínimo de qualidade de vida, ter alegria, quando não se lhe respeita este direito elementar? Que dramas escondem as privações do trabalho? Que futuro se reserva aos jovens a quem se nega este direito fundamental? Existe uma lógica que é necessário inverter! O capitalismo desenfreado não pode abafar o mínimo de equilibrio social em que uma sociedade tem de se basear! Criar riqueza? Sim! Mas uma riqueza que sirva a todos, sobretudo salvaguardando os seus direitos mais elementares - o direito ao pão de cada dia; o direito a uma casa; o direito à educação; o direito à estabilidade... Poderá o trabalho continuar a ser um bem escasso, elemento de estatística, perante a necessidade de alguém? Não! Não pode! Em nome dos direitos mais fundamentais que a todos devem ser assegurados, enquanto condição essencial da dignidade da pessoa humana!