quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Em Tempo de Avaliação!...

No ano pastoral em que nos propomos avaliar o quinquénio pastoral, agora terminado, não podemos esquecer de efectuar uma análise mais profunda da nossa realidade diocesana. Tanto mais que as novas exigências pastorais o exigem e os hábitos arraigados na celebração comunitária da fé tendem a contrariar reformas necessárias (certamente que o dirá quem é pároco, como eu!).
Parece-me, volvidos nove anos sobre o Sínodo Diocesano (um tempo muito longo, no ritmo hodierno!), que importa avaliar a implementação, ou não, das decisões sinodais, que foram dadas à Diocese como norma de orientação comum e, consequentemente, obrigação para todos. Pessoalmente, e a nível de paróquias, espero fazê-lo em breve com os Conselhos Pastorais que me estão confiados.
Se é certo que alguns aspectos foram levados à prática, bastando para tal reler as referidas decisões, ainda existem muitos outros que aguardam uma nova dinâmica. Sem ser exaustivo, enumero algumas delas, de importância crucial para nós na hora presente da vida da diocese. Em primeiro lugar, refiro a necessidade de se organizar um verdadeiro serviço de Catequese de Adultos, tão falado no passado recente e que pareceu esmorecer no presente. Esta é, aliás, uma necessidade bem mais alargada, que se coloca a toda a Igreja em Portugal, como referiu o papa Bento XVI, no Discurso aos Bispos Portugueses, aquando da visita ad sacra limina. Para nós, o Sínodo apontou este serviço como decisão fundamental em ordem à renovação da vida cristã (cf. nº 1, § 4).
Dois outros aspectos, que têm sido motivo de uma já demasiado longa reflexão e de uma forte incapacidade de concretização, são o trabalho conjunto nos Arciprestados (cf. nº 21, § 3) e o trabalho conjunto dos presbíteros (cf. nº 16, § 4). E aqui havemos de assumir, os padres e bispo diocesano, que a incapacidade tem sido nossa. Seja pelas decisões tomadas aquando de nomeações para serviços pastorais, seja de uma mentalidade que não nos dispomos a ultrapassar, encetando novos caminhos de partilha do serviço ministerial. Estamos todos enformados por uma mentalidade demasiado individualista no exercício do ministério, que já não se compadece com as nossas reais necessidades e com a prática da cultura presente.
Numa linha semelhante, aparece-nos a necessidade de «reordenamento» da comunidades paroquiais e dos arciprestados do meio rural (cf. nº 21, § 5). É preciso parar, reflectir e tomar decisões, em ordem a servir melhor todo o Povo de Deus, compreendendo a Diocese como uma e não apenas como somatório de um certo número de comunidades paroquiais. Aqui havemos de ter a humildade de nos rodearmos das disciplinas humanas que nos ajudem a efectuar um trabalho sustentado.
Se alguns outros aspectos necessitavam de reflexão, como o prometido Secretariado de Liturgia (cf. nº 9, § único), que tarda em ver a luz do dia, termino com um desafio tão importante para nós hoje, como é a Pastoral Familiar e a preparação para o Matrimónio (cf. nº 12, § único; nº 5, § 2). Sinal da sua importância é o facto de ser actividade recorrente nos programas diocesanos. A equipa diocesana vai fazendo um trabalho persistente de sensibilização, de formação de equipas… Mas certamente reconhecerá, como nós reconhecemos, que é uma área a necessitar de um novo incremento. Talvez não seja suficiente, hoje, o C. P. M. na preparação para o matrimónio. E talvez, mesmo, tenha de se repensar a actividade a nível da pastoral Familiar, envolvendo (porque não?) outros casais cristãos que possam dar um novo fôlego a esta acção fundamental. Até porque aqui caímos no risco de, à força de tanto estar presente em programas pastorais, se perder o seu dinamismo.
Partilho aqui estas notas sem qualquer outra pretensão que não seja o bem desta Igreja particular de que sou membro e chamado a servir; muito menos como qualquer forma de juízo de pessoas ou instituição. São inquietações para mim, do ponto de vista pastoral, realidade que eu próprio não fui ainda capaz de assumir como tarefa primordial. Todavia, em nome da honestidade pessoal, sinto que alguma coisa tenho feito, seja no desejo expresso a quem de direito, seja mesmo nas propostas que pretendi ver assumidas em contexto diocesano. Mas também aqui (e essa será talvez uma riqueza!) o trabalho tem de ser comum, mobilizador de todos, condição essencial para surtir o efeito que se pretende, que outro certamente não será senão o bem do Povo de Deus aqui constituído em Igreja Diocesana.

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Os desafios do Papa à Igreja Portuguesa!

Vale a pena relembrar os desafios feitos por Bento XVI aos Bispos Portugueses, aquando da visita ad sacra limina. De todo o discurso do Papa, retenho os dois elementos seguintes:

1 - «É preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde que fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e que todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja.
Esta eclesiologia da comunhão no caminho aberto pelo Concílio, à qual a Igreja Portuguesa se sente particularmente interpelada na sequência do Grande Jubileu, é, meus amados Irmãos, a rota certa a seguir».

2 - «Tendo em conta o número cada vez maior de cristãos não praticantes nas vossas dioceses, talvez valha a pena verificar "a eficácia dos actuais processos de iniciação, para ajudar cada vez mais o cristão, pela acção educativa das nossas comunidades, a amadurecer cada vez mais até chegar a assumir na sua vida uma orientação autenticamente eucarística, de tal modo que seja capaz de dar razão da própria esperança de maneira adequada ao nosso tempo" (Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum Caritatis)».

In Lumen (Novembro-Dezembro de 2007)

São duas directivas bem concretas dirigidas á Igreja Portuguesa. Importa, agora, que estas palavras não passem na volatilidade do tempo e que sejam âncora para uma programação eclesial assente em objectivos bem concretos. E estes são dois desafios maiores!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Concerto de Aranjuez!

Uma realidade que em nós desperta a ânsia de plenitude, de imortalidade, de infinito, de desejo de atingir o até então inalcançado, pode ser a experiência extasiante de uma imagem, de um horizonte, de um pôr do sol, ou de uma música... Hoje continuo a sentir que uma das músicas que me faz viver este desejo de me superar, sabendo da impossibilidade de alguém sintonizar em absoluto com o que sinto, é este magnífico Concerto de Aranjuez! Da serenidade ao crescendo; da ânsia ao quase grito; à expressão mais plena do desejo de liberdade e de infinito; para depois terminar na paz e no silêncio... Aconselho vivamente a ouvir - no silêncio profundo! - este belo Concerto de Joaquín Rodrigo.
NOTA: Refiro o segundo andamento: Adágio; muito embora toda a obra seja de grande beleza e expressividade!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Para onde vai a saúde?

A afirmação feita pelo Presidente da República - «É necessário que o Governo explique aos cidadãos o que se pretende com esta política de saúde» - é de uma importância crucial, quando consideramos as políticas assumidas pelo executivo socialista. Mas, algumas respostas parecem assumir contornos de evidência, nomeadamente a de que a saúde é hoje um «buraco económico» que é preciso conter. Senão vejamos:com o fecho de um vasto conjunto de urgências, não se resolveram os problemas dos cidadãos, que, fruto desta política, se vêem como números a entopir as urgências dos Hospitais Centrais e de alguns Hospitais Distritais - começou por ser Aveiro, Cascais, Faro, a zona de Braga.... e porque ainda ninguém encontrou justificação para falar de outros, onde a espera para se ser atendido vai aumentando gradualmente. Estes Hospitais não têm capacidade de resposta. Veja-se, neste sentido, a atitude dos médicos, chefes de serviço, em Faro, que pediram em bloco a sua demissão. Mas, precisamente neste Hospital, a desfaçatez: fecharam-se alguns espaços de urgência na zona do Algarve, canalizaram-se os doentes para um Hospital central, sem capacidade de albergar as pessoas, e agora vem dizer-se que as obras de remodelação em breve darão resposta às novas necessidades. Isto não é brincar com as pessoas? Então, primeiro não se faziam as obras e depois admitiam-se as pessoas? O que é que se considera como mais importante na gestão destas políticas?
Mas, para mim, o caso mais evidente, noticiado hoje nos nossos telejornais, é aquele que nos surge em Chaves. Há um ano fechou-se a Maternidade (quanto ao hospital local deconheço o processo!) e agora abre uma Casa de Saúde Particular, com serviço de maternidade e com serviço permanente de urgências! Julgo que, pese embora ser iniciativa privada, necessita do aval do Ministério da Saúde! Senhor Ministro, talvez, por um momento, seja necessário falar claro: o encerramento de uma boa parte das urgências (ainda que algumas possam não prestar o serviço adequado!) é uma questão económica! Estamos num processo de privatização da saúde. É preciso falar claro!
Fica-me é a dupla questão: onde está a política social deste Executivo - Socialista! - que cede ao princípio de privatização dos serviços mais elementares, nos cuidados devidos aos cidadãos? Independentemente das minhas opções políticas e da minha opinião sobre o Dr. Mário Soares (que não registo aqui como negativa, nem positiva), julgo que ele tem toda a razão ao discordar desta orientação do executivo do Eng. Sócrates. E a segunda questão, para mim bem mais grave: quem poderá aceder aos serviços privados de saúde? Todos os cidadãos por igual (quando acabamos de ver que um em cada cinco portugueses corre o risco de vir a cair na pobreza)? Uma comunidade mais envelhecida, que vive dependente, na sua maioria, de reformas de miséria?Afinal, a quem serve esta política? Que sentido de justiça lhe subjaz? É hora de falar verdade e de dizer que esta «terceira via de socialismo» mais não é que uma forma disfarçada de política ao serviços dos interesses dos mais ricos, daqueles que, ao longo da história, sempre foram os mais privilegiados.
A terminar, quero referir que não me move, neste comentário, a defesa de uma ideologia, mas sim a defesa da pessoa como valor prioritário, a defesa da sua dignidade! Pois, para mim, o problema é exactamente esse: para este governo, primeiro estão os valores económicos e depois vêem as pessoas. E esta é que pode ser a preversão de um serviço público, como é o serviço político!

domingo, 13 de janeiro de 2008

Direito à Profissão de Fé!

Na sequência de algumas opiniões publicadas, nos meios de comunicação, quer de um ou outro leigo, quer dos nossos Bispos, referindo a legitimidade de a Igreja assumir a sua missão, a ênfase continua a colocar-se, não raro, no serviço social que a Igreja presta a nível nacional. É inequívoco este serviço; e seria catastrófico para o Estado se a Igreja se demitisse destas suas responsabilidades. Sem dúvida, que não o fará, na justa medida em que esta acção se insere no cerne da sua vocação.
Mas parece-me, na linha daquilo que se pode subentender das palavras do Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, que afirmava, há dias, que o serviço social tem a sua origem na experiência do templo, particularmente na escuta da Palavra, que a profissão de qualquer fé está a montante desta prática social e que é um direito inalienável da pessoa humana. O direito a professar uma fé e a expressá-la pessoal e comunitariamente é um direito da pessoa humana. De tal modo assim é que a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia o consigna num dos seus artigos. Refere este documento, estruturante da vida dos cidadãos da Europa: «Todas as pessoas têm direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, bem como a liberdade de manifestar a sua religião ou a sua convicção, individual ou colectivamente, em público ou em privado, através do culto, do ensino, de práticas e de celebração de ritos» (Art. 10º. §1 – Liberdade de pensamento, de consciência e de religião).
Ora, neste sentido, cabe a cada sociedade e a cada estado, democraticamente organizado, o respeito indiscutível pelos direitos mais fundamentais da pessoa humana, que aqui estão consignados. Ou seja, o estado tem o dever inquestionável de respeitar a prática religiosa pessoal e a livre associação em comunidade para a praticar.
A Igreja, por seu turno, não tem de se escudar na sua acção social. Sendo este um serviço inquestionável à pessoa humana e à sociedade, é apenas uma dimensão da sua prática e da sua acção. O direito ao culto é algo que lhe é devido! E não será qualquer organização do Estado, particularmente na União Europeia, que pode privá-la desse direito. Estamos todos obrigados ao respeito de normas comuns, mesmo que essas normas se refiram a convicções que não partilhamos. Um estado democrático assenta aqui as suas bases: no respeito pelo direito dos povos. E este é um, de entre tantos outros, que temos de saber assumir, afirmar e reivindicar.
Bom seria que os cristãos, conscientes da sua fé, assumissem como exigência por parte dos bens públicos, o respeito por um direito que lhes está salvaguardado.
É nesta linha que entendo a atitude do presidente francês de salvaguarda de princípios religiosos básicos. E partindo deste mesmo pensamento, acho perfeitamente inaceitável a afronta explícita, ou implícita, que certos governos europeus tentam fazer à Igreja, sejam eles italianos, espanhóis ou portugueses. O respeito pela legitimidade e pela acção de cada um é o único suporte de uma sociedade justa, equilibrada, mas igualmente democrática.
Carlos Alberto da Graça Godinho

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

No início de um Novo Ano!...

Estamos de novo em Janeiro! Iniciamos um novo ano. Tal significa iniciar um novo ciclo de vida. E refiro novo ciclo, porque o é realmente. A vida nunca se repete. Pese embora a semelhança com outros momentos da vida, numa linha de continuidade, cada momento é sempre uma novidade absoluta.
Por outro lado, o tempo é algo sem retorno. Segundo a mitologia grega, «Cronos», o deus do tempo, mata os seus filhos, significando com isto que o tempo nunca regressa ao passado. Mais ainda, o tempo é marcado por um processo de continuidade sem paragem.
Ora o tempo é a linha de construção da nossa vida. É nele que crescemos, nos desenvolvemos, realizamos os nossos projectos, convivemos, descansamos, trabalhamos, etc. Por isso, o tempo transforma-se em oportunidade única, considerando cada um dos seus momentos; pois cada um deles é singular, irrepetível, uma possibilidade de sermos cada vez mais, numa linha de construção da nossa própria identidade.
É assim que o tempo se transforma para nós em verdadeiro desafio, no sentido de vivermos «cada momento como se ele fosse o único», como afirmava o grande Papa João XXIII.
Mas o tempo não pode surgir desligado entre si; a vida construída no tempo não pode ser um somatório de momentos desarticulados, sem nexo e sem referências. A vida tem de ser construída no tempo com um fio condutor. Temos de ter um projecto: sabermos onde queremos chegar, dando-lhe um sentido. É aqui, então, que se inscrevem os valores – humanos, relacionais, cristãos…
Ainda em tempo de Natal, fica-nos, para nós cristãos, um forte desafio: no reconhecimento de Deus que se faz Homem, divinizarmos a nossa vida pela sua máxima Humanização, tendo como referência a Humanidade em Jesus Cristo. De todos os valores que n’Ele reconhecemos, sobressai a Sua vivência e o Seu ensinamento do Amor; de tal modo que a Sua própria vivência se torna verdadeiro ensinamento. O Amor é, para nós (certamente para todos nós homens!) o verdadeiro caminho, o verdadeiro projecto e o verdadeiro sentido. Não um amor qualquer, mas sim um amor autêntico, capaz de assumir exigências, de comportar a gratuidade, de assumir o risco do serviço, de ser dádiva de nós próprios. Só assim o amor nos plenifica, preenchendo cada momento. Um amor vivido deste modo é fundamento da alegria no tempo e é, desde já, construção da eternidade.
É com esta perspectiva, assumida por mim e partilhada convosco, que vos desejo a todos um Feliz Ano Novo. Um ano cheio de sentido; o mesmo é dizer, cheio de Amor. Então, inequivocamente, um ano de paz, de alegria, de partilha, de felicidade. Votos de um Feliz 2008!

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Feliz Natal!


No Natal são muitas as mensagens que trocamos: de felicitações, de solidariedade, de amizade, de partilha de sentimentos, etc...
Mas o Natal é sempre o NASCIMENTO DE CRISTO!
Não o nascimento na história, já acontecido há mais de dois mil anos (acontecimento real, histórico e transformador);
mas o nascimento no serviço à pessoa humana, que Deus quis assumir!
Por isso, se renova para mim, e certamente para cada um de nós, aquele desafio que este Deus feito homem nos dirigiu e nos dirige, em cada momento presente:
O que fizeste a um dos meus irmãos mais pequeninos a Mim o fizeste!
Aqui está a essência do Natal:
celebrando a vinda à história do Deus feito Menino, reconhecê-lo, aqui e agora, em tantos rostos, que são o seu!
Só assim o Natal fica completo!
Um Santo Natal para todos, cheio das bençãos do Deus Menino!
Cheio daquela benção que nos advém da vivência da Caridade!
Com muito carinho por quem me visita:
Pe. Carlos Godinho