terça-feira, 27 de novembro de 2007

Em memória...

Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido.

Sofia de Mello Breyner Andresen
Hoje cito Sofia recordando aquele amigo, aquele colega, aquele «irmão» - o Álvaro Alfeu - que tão cedo partiu!
Tanto queria ser padre; tanto gostava de cantar os louvores de Deus (foi ele quem me entusiasmou a dedicar-me ao canto litúrgico); tanto amou os outros, ao ponto de partilhar aquilo que lhe era necessário (não esqueço, Álvaro, os ciganos que assististe com os teus cobertores, naquela noite de massacre, na Figueira da Foz!); tanto queria dedicar-se ao serviço das comunidades... E tão cedo partiu! Com apenas dezoito anos, vítima daquela leucemia que o não poupou.
Não esqueço os teus projectos de continuarmos os estudos no ano seguinte quando, na cama do hospital, só pensavas em recuperar-te e nós sabiamos que daí a pouco já não estarias entre nós!... Quão dificil foi viver esse momento derradeiro da tua presença, da tua esperança, da tua alegria, ainda que macerada pela dor que te atormentava. Não esqueço a alegria com que exibias o terço recentemente oferecido pelo Bispo da Diocese quando te visitou no Hospital, acabado de oferecer pelo Papa na sua recente visita.
Não esqueço - como adivinhavas tu? - a tua expressão contínua: «vou morrer!», sem que nada nos pudesse levar a supor isso! Mas também não esqueço o que nos dizias (e celebrámos no dia das tuas exéquias!): «quando morrer cantem; cantem o Te Deum». E eu nunca pensei que tão depressa o iriamos cantar!
O Te Deum! Dando graças a Deus por aquilo que foste, para cada um de nós!
Não esqueço as lágrimas incontroladas daquele padre que tanto te estimava, o nosso director espiritual. Não esqueço a tua «vaidade», no modo como te arranjavas antes de sair para um acto público qualquer.... Não esqueço as tuas lágrimas quando, no teu quarto, partilhavas comigo o teu drama familiar... Tanta coisa que não esqueço! Não esqueço a tua amizade; nem te esqueço a ti, mesmo quando passaram já vinte e cinco anos sobre a tua partida! Sim, nesse dia 27 de Novembro de 1982.
Nunca esquecerei o céu cheio de nuvens, por onde brilhavam alguns raios de sol, dizendo-nos, naquele fim de tarde, quando regressávamos a casa, após a tua descida à terra, que mesmo para além das nuvens o sol continua a brilhar. E hoje, como ontem, fica a mesma vontade: Álvaro até à eternidade!

Diálogo Necessário!

Comecei hoje, entre outras leituras, a ler o Livro Religiões do Mundo, de Hans Küng. Dizia ele a concluir o prefácio deste Livro:
Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões.
Não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões.
Não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais.
O nosso planeta não irá sobreviver, se não houver um etos global, uma ética para o mundo inteiro.
Talvez o autor não diga nada de particularmente novo e o mérito maior seja o de arrumar bem as ideias. Contudo, é necessário que alguém nos chame a atenção para esta realidade, de forma renovada. Até porque o diálogo pressupõe a aceitação do outro. E dificilmente se aceita a diferença, particularmente quando a não conhecemos. Há um diálogo civilizacional que importa revalorizar persistentemente.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Mudança necessária!

"Mudar de estilo e de mentalidades não é o mesmo que mudar a cor das vestes litúrgicas ou afinar os cânticos das missas - é mudar tudo.
"Os cristãos portugueses estão mal preparados, vivem agarrados a uma religiosidade popular mal fundamentada e isso faz com que entre o fim da infância e o início da idade adulta boa parte das ovelhas se pisgue do redil. Em Portugal baptiza-se quase tudo à nascença, aos sete anos faz-se a primeira comunhão e aos 15 despacha-se o crisma - como se fosse possível aos sete alguém compreender a profundidade da eucaristia e aos 15 estar em condições de afirmar a maturidade da sua fé. Esta juvenília religiosa é boa para se chegar aos noventa e tal por cento de católicos em Portugal, mas leva a que aos 15 esteja feita a licenciatura cristã e que aos 18 já só haja jovens no coro. Isto sim vale a pena debater e falar muito a sério. Vamos continuar a falar em paninhos de rendas, latim e incensos ou vamos tentar ser sérios e mudar onde as coisas precisam realmente mudar?Será que há essa vontade?"
Publicado no blog Padres Inquietos
A isto eu chamo falar directo e chamar as questões pelo nome! Daqui se depreende a necessidade urgente (melhor: absoluta!) de uma verdadeira Catequese de Adultos.
A experiência a iniciar na paróquia de Pampilhosa, com catequistas próprios, espero que seja um primeiro passo. Mesmo que seja modesto será um primeiro passo.
É urgente formar catequistas que ajudem adultos a crescer na fé e a assumir com garra esta acção da Igreja, tal como se assume a Catequese de Infãncia e Adolescência!
Este é, indiscutivelmente, o caminho!

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Para Ser Grande!

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Fernando Pessoa

Este pensamento foi retirado do belíssimo Romance, de José Rodrigues dos Santos, O Codex 632, que acabo de ler. Se ele serve, efectivamente, o pensamento do autor, pode servir-nos de desafio em todas as circunstâncias da vida. Mas, de entre todas - como o autor deixa entrever -, na busca permanente da verdade e da autenticidade. Deixo aqui este pensamento de Fernando Pessoa como homenagem ao autor e como desafio pessoal. Valeu!

domingo, 11 de novembro de 2007

É preciso mudar o estilo de organização e a mentalidade dos membros da Igreja Portuguesa!
Pediu Bento XVI aos bispos portugueses.

“É preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja” – pediu esta manhã (10 de Novembro) Bento XVI aos bispos portugueses.
Neste encontro integrado na visita «Ad Limina» que os prelados estão a realizar até 12 de Novembro, o Papa também apontou caminhos novos para a Igreja Portuguesa: “eclesiologia da comunhão na senda do Concílio, à qual a Igreja portuguesa se sente particularmente interpelada na sequência do Grande Jubileu é a rota certa a seguir, sem perder de vista eventuais escolhos tais como o horizontalismo na sua fonte, a democratização na atribuição dos ministérios sacramentais, a equiparação entre a Ordem conferida e serviços emergentes, a discussão sobre qual dos membros da comunidade seja o primeiro”.
Depois de analisados os relatórios das dioceses portuguesas e verificar “a maré crescente de cristãos não praticantes”, Bento XVI alertou os pastores portugueses para que estudassem “a eficácia dos percursos de iniciação actuais, para que o cristão seja ajudado, pela acção educativa das nossas comunidades, a maturar cada vez mais até chegar a assumir na sua vida uma orientação autenticamente eucarística, de tal modo que seja capaz de dar razão da própria esperança de maneira adequada ao nosso tempo”.
Dois desafios têm sido afirmados, ao longo do dia de hoje: reorganizar o serviço Eclesial e assumir um novo impulso na Inicação dos Adultos. Um desafio bem real para a Igreja Portuguesa e, consequentemente, para cada uma das nossas Comunidades. Tarefa a assumir em verdadeira «corresponsabilidade», como bem afirma, ainda, o Papa.

sábado, 3 de novembro de 2007

A Misericórdia Divina!

"A Igreja proclama a verdade da misericórdia de Deus, revelada em Cristo crucificado e ressuscitado, e proclama-a de várias maneiras. Procura também praticar a misericórdia para com os homens por meio dos homens, como condição indispensável da sua solicitude por um mundo melhor e «mais humano», hoje e amanhã.
Mas, além disso, em nenhum momento e em nenhum período da história, especialmente numa época tão crítica como a nossa, pode esquecer a oração que é um grito de súplica à misericórdia de Deus, perante as múltiplas formas do mal que pesam sobre a humanidade e a ameaçam. Tal é o direito e o dever da Igreja, em Cristo Jesus: direito e dever para com Deus e para com os homens."

João Paulo II, Carta Encíclica Dives in Misericordia, nº 15


Aqui está um belo e profundo desafio para cada um de nós cristãos! Um desafio que tem de se renovar em cada dia!

Unidades Pastorais!

Vai demorar vários anos, muito provavelmente décadas, mas é uma reforma que a Igreja já iniciou e que, embora sem pressas, quer concretizar. Trata-se da criação de Unidades Pastorais, congregando três, quatro ou cinco paróquias, por norma tuteladas pelo mesmo pároco.

Esta reforma deve-se à cada vez maior escassez de sacerdotes e também a uma perspectiva mais “moderna e actual” no que diz respeito à prestação de serviços pela Igreja.“Isto não se faz por decreto, como as reformas que nós conhecemos. As unidades pastorais vão sendo constituídas à medida que forem criadas condições para isso”, disse ao CM D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), sublinhando que “o ideal é que essa constituição parta das próprias comunidades”.A ideia da Igreja não é, pelo menos numa primeira fase, acabar com as paróquias, mas integrá-las numa unidade em que todos os serviços, desde as celebrações à catequese, obedeçam a uma só coordenação.“Na maior parte dos casos não poderemos deixar de ter os centros paroquiais em cada terra para a realização de reuniões ou para as aulas de catequese, já que a Igreja não tem possibilidades de assegurar os transportes das crianças, mas, onde for possível concentrar, entendemos que é a melhor solução”, afirmou D. Carlos Azevedo.Em termos práticos, as actuais 4300 paróquias devem, a longo prazo, dar lugar a cerca de 1100 unidades paroquiais, a maioria delas formada por quatro paróquias.Algumas já foram constituídas, pelo menos no papel, nas dioceses de Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra e Braga, devendo avançar também nas restantes 15 dioceses do País.“É um processo que está em andamento e que está a decorrer consoante o que planeámos”, disse ao CM D. Jorge Ortiga, o presidente da CEP. Rejeitando a ideia de que possa haver contestações, o prelado explicou que “elas só serão criadas onde as comunidades quiserem”.
Retirado do Jornal Correio da Manhã
É inevitável que assim seja. Parece-me é que o esforço que vamos fazendo neste sentido é ainda diminuto. Sofremos de grande inércia. Basta recordar que há dez anos já nós - então padres do Arciprestado de Cantanhede - entregámos documento com propostas bem concretas. À distância destes anos, todavia, permanecemos na mesma, nesta Diocese de Coimbra. Há a necessidade de um esforço e compromisso muito maior!